Notas iniciais
Mais um capítulo como prometido. Daqui a pouco posto o último de hoje ;)

Travei o carro quando o sinal ficou vermelho e encarei Tobias que implicava com o rádio. Dei-lhe um tapa na mão e coloquei na estação de rádio que ele queria.

— Eu não percebo essa sua implicância com o meu carro. — Falei impaciente.

— E eu não sei como você aguenta essa lata velha. Você não tem medo que ele exploda? — Perguntou. Revirei os olhos e batuquei o volante.

— Não tem porque explodir. Eu cuido bem dele. E além disso, este foi o meu primeiro carro. Eu consegui-o com muito suor Tobias. É uma conquista para qualquer adolescente.

— Você precisa de um carro novo. — Insistiu ignorando as minhas palavras de orgulho em relação ao bicho.

— Não, eu preciso é almoçar. — Falei arrancando em direção à casa do meu pai.

Almoço de família em pleno domingo. Isso me lembrou de que fazia hoje uma semana que eu tinha em posse o Eaton mais cobiçado pela minha amiga Valentina. E também me mostrou que o tempo voava.

— Desculpa. — Ouvi Tobias dizer pela terceira vez desde que se levantou do meu sofá. Eu sabia qual era o motivo. Ele nunca me olhava na cara quando mencionava o acontecimento da noite anterior.

— De novo? — Perguntei rindo. — Aquilo já passou. Devia ter gravado e postado no youtube! O seu grito de menina foi hilário. — Debochei tentando aliviar a tensão que se formava.

— Você adora se divertir ás minhas custas! — Resmungou cruzando os braços. — E eu não tenho grito de menina.

Ri novamente. Desta vez da forma como ele amuava. Parecia uma criança infeliz por lhe terem roubado o brinquedo favorito. Não era muito comum no Eaton, mas também não era algo que me incomodava.

— Você é muito mimado Tobias. — Falei num tom divertido.

— Eu sei. — Admitiu. — E também sei que você ainda não me contou o motivo por ter chegado tão cedo ontem. — Disse mudando de assunto.

— Precisa haver um motivo? — Perguntei fazendo uma careta.

— Beatrice, eu preparei seis filmes para me manter acordado durante a noite enquanto você não chegasse e você chegou ao fim do primeiro. Como espera que eu acredite que não houve um motivo?

— Você ia me esperar acordado? — Perguntei surpresa. Olhei-o rapidamente e vi-o numa tentativa falha de disfarçar.

— Qual é a surpresa? — Perguntou sério. Ia responder, mas ele adiantou-se. — Não mude de assunto. Eu quero saber por que chegou tão cedo.

— Se eu chegasse tarde ia fazer perguntas também? — Perguntei estacionando o carro à frente da casa do meu pai. Havia outro carro estacionado ao lado do meu e imediatamente reconheci como sendo da família Eaton. Fiquei satisfeita por Tobias não ter notado.

— Provavelmente. — Respondeu enquanto me encarava. — Vai me contar o que houve? — Perguntou novamente. Eu não queria contar e também não queria me lembrar de como tinha sido idiota. Fugir era a melhor solução.

— Chegámos! — Falei com um sorriso forçado.

Saí do carro e puxei Zeus comigo. Tobias seguiu-me, mas travou ao ver o carro preto de seus pais. Merda!

— Você os convidou Beatrice? — Perguntou irritado.

— Eu...

— Tris! — Ouvi meu pai chamar atrás de mim. Sorri por ter sido salva, mas estremeci ao ver o olhar de raiva que Tobias me lançava. — Que bom te ver. — Falou me abraçando.

— É bom te ver também pai. — Falei com um sorriso. Ele estava alegre hoje e eu fiquei satisfeita por isso.

— Como está Tobias? — Perguntou estendendo uma mão para cumprimentá-lo.

— Bem Sr. Prior, obrigado. — Cumprimentou educado.

— Venham, vamos almoçar. — Falou meu pai animado.

Adiantei-me a entrar na casa com Zeus no colo e percebi que o almoço seria ao ar livre. Dirigi-me à parte traseira da casa e soltei Zeus que imediatamente se entreteve a explorar o jardim. Avistei Robert e Anabeth Eaton e sorri forçadamente quando a vi levantar da cadeira onde estava e caminhar até mim.

— Que bom ver você querida! — Exclamou me apertando em seus braços finos. Retribui o abraço, mas senti-me sufocar por breves segundos.

— Er, obrigado. — Agradeci sem saber realmente o porquê.

— Beatrice! — Ouvi Robert chamar. Sorri e abracei-o. Fazia um bom tempo que eu não o via. — Como você está crescida. Creio que ainda não tive a oportunidade de agradecê-la pelo que está fazendo por Tobias. Você não imagina o quanto isto é importante para ele...

— Ela não precisa. — Ouvi Tobias dizer com arrogância. Ele estava uma fera comigo. Esse almoço ia ser indigesto.

Robert apreciava a refeição com a sua habitual mordomia enquanto Anabeth apenas revirava a comida em seu prato. Tobias bebericava o vinho em silêncio e meu pai tentava puxar um assunto que não desse em conflito familiar. Já eu apenas observava a cena à minha frente enquanto oferecia minha comida a Zeus que se lambuzava, satisfeito como um rei.

— Então Tris, soube que está de férias. — É pai, eu te falei. — Fiquei surpreso. Você diz que nunca consegue férias com sua chefe. Aconteceu alguma coisa? — Merda! Não fale Tobias!

— Eu fodi Sarah na sala de cópias lá da empresa. — Revelou descontraído. — Sarah é a chefe de Beatrice.

Olhei-o completamente atónita, Anabeth engasgou, Robert abanou a cabeça em sinal de desilusão e meu pai riu, achando a maior graça do mundo. Não sabia o que era mais nojento, o fato dele ter usado a palavra “foda” ou de ter sido Sarah quem ele... Transou.

— Você não tem vergonha na cara? — Gritou Anabeth claramente nervosa.

— Eu te falei Anabeth. Eu te falei que não seria o suficiente. Esse garoto devia estar num reformatório militar! — Exclamou Robert. Tobias riu e eu tapei o rosto com as mãos. A merda estava feita!

— Agora sou um criminoso? — Perguntou divertido. — E vocês ainda não sabem que estuprei Beatrice lá em casa! — Olhei-o com raiva e vi os olhos de Anabeth em mim. Meu pai riu ainda mais.

— Não é verdade senhora Eaton. Ele está inventando. — Expliquei.

— Mas não inventei quando disse que o seu namorado era um babaca. — Falou. Ah não. Ele não faria. Meu pai parou de achar graça e olhou-me confuso. Porra!

— Do que ele está falando Tris? Porque Travis é um babaca?

— Não é...

— Ela não lhe falou? — Perguntou Tobias me interrompendo. — Travis traiu-a com outra garota. Tris ganhou um novo par de chifres. Se é que me entendem.

Senti a palma de minha mão direita doer e senti meus olhos arderem. A face esquerda de Tobias tornava-se vermelha enquanto os segundos em silêncio passavam. Eu não acreditava que ele estava sendo idiota a este ponto. Não percebia a necessidade que ele tinha de me humilhar em frente a meu pai e não percebia a necessidade que ele tinha de se envergonhar à frente de seus pais. Senti o olhar dele em mim e limpei as lágrimas de raiva que escorriam por meu rosto.

— Vou ao banheiro. — Falei andando até ao interior da casa.

Subi ao primeiro andar e fechei a porta depois de entrar no banheiro. Abri a água e molhei meu rosto enquanto tentava controlar a respiração ofegante. Não entendia o porquê da mudança de atitude de Tobias e não entendia o porquê dele ter sido um completo idiota comigo. Eu realmente pensei que ele estivesse mudando. Realmente achei que valia a pena dar-lhe uma chance. Agora vejo que não vale o esforço.

— Beatrice! — Ignorei a voz que me chamava e molhei novamente o rosto. Fechei a água e estendi a mão para pegar a toalha branca pendurada ao lado da pia. Antes que pudesse fazê-lo a porta abriu-se e Tobias entrou, fechando a porta atrás dele.

— Que merda você está fazendo aqui? Cansou de me fazer passar por ridícula Cansou de me humilhar? — Perguntei nervosa.

Não obtive resposta. Num segundo ele olhava-me com os olhos brilhantes e arrependidos e no segundo seguinte sentia seus lábios pressionados nos meus. Esmurrei seu peito e tentei afastá-lo, mas isso só fez com que ele me pressionasse contra a pia e apertasse mais seus lábios nos meus. Eu podia tê-lo parado de alguma forma, podia ter fugido ou apenas ter-me distanciado, mas já fazia alguns dias que eu tinha começado a duvidar da minha sanidade.

Retribui o beijo e esqueci o mundo por meros segundos. Senti suas grandes mãos apertarem-me contra ele e segurei sua nuca com firmeza, puxando-o mais para mim. Era insano, mas extremamente viciante. E saboroso. Senti sua língua invadir minha boca e tentei ao máximo acompanhar seu ritmo enquanto tudo se intensificava. O beijo que ele me dera no dia dos namorados não era nada comparado à fome que eu sentia de seus lábios neste momento. Entrelacei meus dedos em seu cabelo e senti-o morder meu lábio inferior ao mesmo tempo em que suas mãos deslizavam para meu traseiro e me levantavam para ele.

Rodeei sua cintura com minhas pernas e soltei um baixo gemido quando o senti morder meu lábio inferior. Eu não sabia o que estava fazendo, mas podia ficar ali para sempre. Senti as mãos de Tobias acariciando as minhas costas por baixo do tecido fino da camisa e suspirei ao senti-lo beijar meu pescoço. Arfei ao sentir sua língua em minha pele e me assustei ao ouvir vozes no piso inferior. Isso bastou para que eu acordasse do transe em que me encontrava e me afastasse o suficiente para voltar a respirar.

Sua respiração estava ofegante e seus lábios estavam vermelhos, provavelmente não muito diferente de mim. Suas mãos ainda tocavam minha pele e percebi que ele ainda me segurava de forma possessiva, mas tudo o que eu conseguia olhar eram seus olhos. Mordi o lábio inferior e percebi que ele me soltava vagarosamente, fazendo-me deslizar por seu corpo. Estremeci ao sentir o chão debaixo dos meus pés e dei-me por satisfeita ao ver que ele me mantinha junto a ele, não me deixando cair que nem uma idiota. Se ele me largasse eu não levantaria mais.

— Você disse que não faria mais isso. — Sussurrei encarando seu peito. Vi-o sorrir e senti seus braços me rodearem.

— Eu nunca te beijei desse jeito. Tecnicamente não falhei. — Retrucou. Teoricamente ele estava certo. Este não tinha sido o beijo delicado e carinhoso que ele me dera na primeira vez. Este tinha sido selvagem e tinha-me deixado em brasa. Não que o deixasse notar isso.

— Eu não te entendo Tobias. Eu juro que tento, mas não consigo te entender.

— Se eu te pedir tempo, você entende? — Perguntou afagando meus cabelos enquanto me puxava contra o seu peitoral.

— Se me explicar o que aconteceu lá em baixo. — Concordei. Abracei-o mais apertado e ouvi-o suspirar. — Porque me tratou daquele jeito?

— Porque você chamou os meus pais. Eu não queria vê-los.

— Eu não os chamei Tobias. — Falei.

— Então parece que fui idiota mais uma vez. — Disse. — E que te devo um pedido de desculpas.

— Faça.

— O quê?

— Peça desculpas. — Pedi escondendo o sorriso. Ele hesitou por uns segundos.

— Desculpe pequena. — Ouvi-o dizer. Podia sentir que ele sorria e afastei-me para encará-lo.

— Está desculpado. — Disse brincando com o primeiro botão de sua camisa.

— De verdade? — Perguntou me puxando para um selinho.

— De verdade. — Concordei desnorteada.

— Ótimo. — Disse sorridente.

— Porque você se esforça para parecer tão... Rebelde, na frente dos seus pais? — Perguntei ao lembrar-me do rancor que ele exalava quando estava perto deles.

— Tempo. — Sussurrou.

Concordei e desta vez fui eu quem tomou a iniciativa de puxá-lo para um beijo. Eu não sabia qual era o verdadeiro problema dele, mas sei que descobriria mais tarde ou mais cedo. Sabia que ele ia falar no seu tempo. Isso eu podia entender.

— Porque razão eu continuo te beijando? — Perguntei sorrindo quando nos separámos.

— Eu não sei. Sou um garoto mimado lembra? — Falou divertido. Concordei e vi-o sorrir. — Eu sei que isto não deve ser nada, mas a vontade existe e você também sabe disso. Eu estou solteiro. Não tem porque evitar.

— Sim, eu entendo. — Concordei sem ter a certeza. — Eu acho. Mas você evitou antes. — Lembrei confusa.

— Quer saber que tipo de pensamentos pecaminosos passaram pela minha mente quando vi você em lingerie na noite passada? — Perguntou com um sorriso malicioso. Ponderei em responder e neguei.

— Não. Pode guardar só para você. — Falei fazendo-o rir.

— Beatrice! — Ouvi meu pai chamar. Olhei para Tobias assustada e vi-o sorrir.

— Ele sabe que eu estou aqui com você. — E porque isso não me fazia relaxar?

Saí do banheiro com Tobias no meu alcance e desci as escadas em direção à sala de estar. Vi meu pai com Zeus no colo e sorri envergonhada quando ele nos viu juntos e sorriu.

— Vejo que se acertaram. Muito bem Tobias. — Falou satisfeito. Olhei Tobias desconfiada e vi-o dar de ombros. Ali havia coisa. — Bom, eu sei que você tem algumas coisas para me explicar Tris, mas pode falar quando bem entender. Sei que agora não é a melhor altura. Falando em surpresas, eu adorei o seu cachorro, mas ele é seu por isso pegue. — Ri com o latir de Zeus quando saiu do colo de meu pai e segurei-o junto ao peito enquanto lhe acariciava atrás das orelhas. — A sobremesa está na mesa garotos. Não demorem. — Falou saindo para o jardim. Pretendia segui-lo, mas fui impedida por Tobias.

— Espera Tris. — Virei-me para encará-lo e esperei que continuasse. — Mais tarde vamos falar, né? Sobre... Isto. — Disse apontando para nós dois.

— Claro Tobias. Mas tudo o que eu quero agora é a ótima sobremesa do meu pai. Desta vez sem conflitos, tudo bem?

— Certo. — Falou sorridente.

Sorri satisfeita e dirigi-me ao jardim. A boa disposição parecia ter voltado, exceto Robert que se encontrava demasiado absorto do que se passava à sua volta. Tobias não causou mais problemas pelo resto do almoço e o frenesim em minha coxa começou a partir do momento em que ele a tocou. Gestos com segundas intenções à parte, o resto da refeição até correu bastante bem. Meu pai trocava olhares conspiratórios com Tobias a cada dez minutos e fiquei com a certeza de que ali havia algo. Algo além da minha capacidade de compreensão.