Da poesia não espero salvação,

se não uma exploração da existência,

uma maneira de registrar a sucessão de dias

numa vida que disseco com a devoção fria e persistente

de um médico escavando a verdade de um cadáver.


Da poesia não espero salvação,

se não uma distração temporária,

como a concedida por um amante na calada da noite:

uma paixão que me abrase, e depois me abandone

nas cinzas da minha solidão.


Não, não sou tola,

não tão tola,

a ponto de crer que a poesia pode me salvar.

Minha salvação está no que sangra.

(As palavras fervilham na mente, algumas são colhidas do coração.)

Quero a vida que flui como uma fonte

das veias de duas mãos cravejadas.