Como cuidar de uma pequena viking
1 Capítulo Único: Dad and Mom love you
Notas iniciais
Dad and Mom love you (Papai e Mamãe amam você)
Uma tarde normal na casa dos Haddock envolvia correria e muitas risadas de certo bebê ruivo. Pelo menos enquanto Zephyr não crescia mais e continuava fazendo aquelas gracinhas maravilhosas que provocavam encantamento em quem a olhasse. Seus olhos verdes brilhantes pareciam desafiar todos a falhar em negar seus pedidos, o que geralmente acontecia.
Era impossível negar alguma coisa que a pequena Haddock pedia com seus olhinhos.
A casa do líder sempre era uma confusão generalizada, mas o casal Haddock era persistente. Naquela tarde em especial, a correria havia aumentado ainda mais com a festa que ocorreria. Toda a vila parecia barulhenta, mas a casa deles parecia ainda mais agitada.
— Zephyr, meu amor, você tem que ficar quieta por um instante para a mamãe conseguir te dar um banho e te arrumar — Astrid repetia pacientemente aquela frase, pelo que deveria ser a trigésima vez naquela tarde.
A menina era agitada e muito esperta, não deixando a mãe retirar a sua roupa. Às vezes, Astrid praguejava por Soluço ser tão inteligente e a filha deles ter herdado a sua esperteza e até mesmo as suas desconfianças. Ela sempre dava um jeito de fugir dos banhos. O Haddock mais velho se defendia, dizendo que ele não era nem um pouco ágil quando era menor, culpando a esposa pelas habilidades furtivas da filha deles.
Astrid não admitia, mas sabia que aquilo era um pouco verdade.
— Soluço! — Astrid exclamou ao ver o seu marido entrar pela porta do quarto. — Você estava no Grande Salão, não estava? — ele assentiu. – Está tudo certo por lá, tudo pronto? Eu não fiquei três meses preparando a festa para que algum detalhe saia errado.
Soluço suspirou com as preocupações de Astrid e balançou a cabeça com um sorriso. Quando ela colocava alguma ideia na cabeça e a executava, tudo tinha que sair perfeitamente, e isso valia para aquela festa que havia planejado. Ele já havia verificado o Grande Salão três vezes, só naquele dia, tentando provar para Astrid que tudo daria certo.
— Está tudo certo, milady, não precisa se preocupar, eu já disse — ele segurou sua mão e sorriu. — Você tem que relaxar, sabia? Quantas festas você organizou e deram errado?
— Teve aquele Snoggletog que alguns dragões...
— Okay, teve aquele — Soluço a interrompeu, lembrando-se de toda a fumaça daquele inverno. Não era uma boa recordação. — Mas a minha festa de aniversário foi maravilhosa e você organizou tudo. Além disso, Zephyr não deve nem ao menos entender que está fazendo 2 anos, por isso, relaxa, pelo amor de Thor.
— Guela! — Zephyr exclamou.
O dragão negro sorriu para a sua pequena amiga viking, sem seus dentes aparecerem, sua marca registrada e também uma forma de proteger Zephir, é claro. Soluço e Astrid olharam para a filha, entretida com a calda de Banguela, sentada no chão do quarto. Banguela não se importava de ter que brincar com a miniatura de seu amigo com olhos da esposa de seu amigo. Ele era um bom dragão.
— Certo, Zephyr, teremos que deixar Banguela agora, temos que nos arrumar — Astrid disse, segurando-a no colo. — Lembra o que a mamãe disse que teria hoje?
— Testa? — ela perguntou.
Astrid sorriu com a quantidade de palavras que sua filha de 2 anos já falava, mesmo que algumas estivessem com a pronúncia errada.
— É meu amor, seu aniversário vai ser uma festa maravilhosa. Agora temos que tomar banho — ela começou a rir das cosquinhas que Soluço fazia nela, fazendo Astrid sorrir — e arrumar essa guerreira para a festa.
— Eira! – Zephyr exclamou animada, tentando repetir as palavras da mãe.
Seus pais não puderam impedir o sorriso que surgiu em seus lábios.
— Por que você não começa a se arrumar, Astrid? — Soluço perguntou-lhe. — Eu arrumo essa treinadora aqui.
Soluço pegou Zephyr dos braços de Astrid e a balançou no ar, suas pequenas marias-chiquinhas balançando também.
— Papa — ela gritou rindo. — Banho!
— Ela não resiste a mim, confesse — Soluço perguntou para Astrid rindo.
— Poucas pessoas resistem a você. Eu não sou uma delas, aliás, você é irresistível para mim — Astrid o beijou e ele sorriu. — Obrigada por me ajudar com isso, sério. Preciso dar uma olhada em algumas coisas no Grande Salão ainda.
Soluço a encarou e revirou os olhos como se dissesse você não me escuta, mulher? Astrid riu com seu olhar.
— Não me olha assim não. Quando ela estiver pronta, eu vou levá-la para a casa de Valka, Heather deve estar por lá, vou encontrá-la. Depois nos encontramos antes de entrar no Grande Salão.
— Você não toma jeito, senhora Haddock. Vou te esperar no Grande Salão então. Não queremos entrar sozinhos, não é mesmo, Zephyr?
Ela estava muito entretida com Banguela, que fazia brincadeiras para ela sorrir, portanto não respondeu. Astrid riu de Soluço por ser ignorado por um bebê.
— Obrigado por me responder, filhota — Soluço a pegou no colo e sorriu para o seu dragão. — Um dia teremos que evoluir Banguela para babá oficial.
— Ele já nos ajuda bastante, pode ser considerado nossa babá oficial sem problemas — Astrid acariciou Banguela, que soltou um grunhido animado para ela. — Vou tomar banho e me arrumar. Tente não molhar o quarto dela todo.
— Hey, eu sei dar um banho na minha filha — Soluço reclamou.
— Banho! — Zephyr exclamou novamente, fazendo o casal voltar a rir.
— Ela tem um vocabulário realmente abrangente — ela disse, acariciando o cabelo de sua filha. — Mas sei que você a dar um belo banho nela e na casa também, já houve uma inundação aqui com as suas tentativas — ela provocou. Ele revidaria, mas Astrid o interrompeu. — Amo você.
— Amo você também — ele sorriu, nem um pouco contrariado pelo fato de ela sabia como desarmá-lo. — Vamos lá, filha. Vamos deixar você bonitona como a mamãe.
Ele escutou a risada de Astrid no corredor e sorriu. Seria uma longa noite. Ela só não tinha noção do quanto seria.
*
Bebê limpo e arrumado e com sua esposa pronta e a caminho da casa da sogra, Soluço finalmente começou a se arrumar. Porém, seu banho demorou mais do que o normal, enquanto relembrava como havia chegado ali. Algumas partes de sua história faziam risadas escaparem de sua boca.
Sua melhor amiga e companheira de batalha aguentou muitas provações com as suas loucuras. Mas, no fim, nunca imaginou que a sua paixonite de infância iria aceitar se casar com ele um dia. Se contasse para o seu “eu” de 15 anos que estaria casado com Astrid e tendo um filho com ela, provavelmente aquele Soluço iria jogá-lo de um precipício, pois estava louco.
No fim, o viking passou a acreditar que estavam destinados a ficarem juntos e cada vez mais passou a ter certeza de que Freya amava os dois de forma especial. Fazia três anos que estavam casados, e quatro que havia virado líder e, de longe, foram os melhores anos de suas vidas.
Se perguntassem, Soluço diria, sem pestanejar, que o momento mais feliz de sua vida naqueles anos seria quando segurou sua filha nos braços pela primeira vez. Mas Astrid caminhando em sua direção no altar era uma cena que se repetia em sua mente sempre que encarava seus olhos azuis como o mar. Aqueles olhos já o haviam enlouquecido diversas vezes, com sua teimosia e seus ímpetos. Nada nesses anos todos havia feito com que ele amasse menos Astrid Hofferson, agora também uma Haddock, para a sua felicidade.
A superlotação de dragões na velha ilha de Berk e as ameaças de caçadores mais experientes os fizeram buscar novas terras que comportassem todos eles. A nova ilha de Berk era um pouco menos fria que a pilha de rochas molhadas em que habitavam antes, e que no fundo sempre seria o seu lar, mas se tornara um refúgio para os dragões, pelo menos enquanto não os achassem novamente, e Soluço aprendeu a amá-la.
Os anos na liderança o fizeram ser mais cauteloso. Ainda havia um caçador muito inteligente a procura de seus dragões e eles precisavam estar sempre em alerta. Grimmel era o nome que assombrou os pensamentos do líder viking por muito tempo, principalmente após o nascimento de Zephyr. Ela, Astrid, Banguela e Tempestade eram a sua família, as criaturas que mais amava no mundo. Tinha o dever de protegê-las.
Com o tempo, Grimmel desapareceu e suas preocupações começaram a desaparecer com ele, sem nunca descartar a possibilidade de seu retorno. Não poderia negligenciar Berk, não mais. E algo lhe dizia que ele planejava um retorno digno.
Naquele dia, era o aniversário de 2 anos de sua filha Zephyr Hofferson Haddock. Soluço encarou o espelho e suas poucas rugas de preocupação com a vila em que era líder e a barba que indicava a passagem do tempo. No fundo de seu coração havia uma sensação ruim, de que algo daria errado, mas ele expulsou esse pensamento.
Nada sairia errado com ele por perto, não podia. Devia isso a si mesmo e a Astrid. Mas por mais que tentasse expulsar essa sensação, ela retornava para seu peito com ainda mais força.
Quando ele colocou sua capa e saiu de casa, a personificação do medo já havia chegado e usava barcos.
*
— Heather, sua amiga desnaturada, quanto tempo que eu não vejo você — Astrid exclamou quando a porta da casa de Valka foi aberta pela líder dos Beserkers.
— Astrid — Heather exclamou a abraçando, provocando um resmungo de insatisfação da bebê espremida no meio delas. — Zephyr, minha afilhada favorita, como você cresceu.
Astrid refletiu e constatou que, se Zephyr era a única afilhada de Heather, logo teria de ser sua favorita. Porém Heather já pegara Zephyr no colo, o que não causou grande satisfação para ela. Astrid olhou nos olhos da filha e percebeu que ela não ficaria no colo de sua amiga por muito tempo.
Ela já não a reconhecia mais, fazia muito tempo desde a última visita de Heather a Berk. Astrid entendia, ela era líder dos Beserkers, via diariamente a luta de Soluço para liderar, mas sentia saudade dela.
— Hey, bebê, lembra-se de sua tia Heather? Sei que faz tempo que não me vê, mas eu senti muita saudade de você — ela a balançou em seu colo e Zephyr virou a cabeça para observá-la melhor. — Ela é uma verdadeira conquistadora, olha esses olhinhos maravilhosos. Você acaba com sua tia desse jeito.
Heather devolveu Zephyr para o colo de Astrid enquanto entravam na nova casa de Valka. Tempestade permaneceu do lado de fora, enquanto Astrid bombardeava Heather com perguntas sobre a vida na Ilha Beserker. Ela respondia tudo com uma risada. Astrid estava muito animada, afinal, fazia tempo que não tinha notícias concretas dela.
— Chega de falar de mim. E como vai Soluço, como vocês estão? — Heather perguntou.
— Bom, diria que ele está menos paranoico, pelo menos na minha frente ele parece estar. Quando Zephyr nasceu ele procurava conspiração em cada esquina, agora ele já está mais calmo. Estamos bem, essa bebê cresce a cada dia — Zephyr a encarou, como se soubesse que era assunto da conversa, fazendo a mãe sorrir. — Sinto que vou sentir saudade dessa época em que eu poderia esmagá-la em meus braços e não a soltar nunca mais.
— Você sempre pode ter mais um bebê para esmagar, senhora Haddock — Heather comentou com um sorriso sugestivo, fazendo com Astrid corasse um pouco e revirasse os olhos.
— Por favor, espere Zephyr crescer um pouco, ela já me dá muito trabalho, né mocinha? — a menina sorriu para ela.
— Quem diria que um dia você estaria casada e teria uma bebê tão linda como essa e estaria pensando em ter outros filhos. Isso é tão lindo, Astrid, fico muito feliz por vocês — Heather disse e escutaram os passos de Valka na escada. — Lembra-se de quando ficamos presas na sede dos caçadores?
— Depende, ficamos presas várias vezes — Astrid virou-se para Valka e sorriu. — Oi, Valka, tudo bem?
— Olá, querida, cadê a minha neta favorita?
Astrid não precisou responder, pois uma ruivinha gritando pela vó quase pulou do colo de Astrid para correr em sua direção. As três mulheres sorriram.
— “Ula” Nuvem, vovó — Zephyr ainda tinha dificuldade com algumas letras, algo adorável que fez as mulheres da casa sorrirem.
— Você quer ver, Pula Nuvem? — Valka perguntou, pegando a neta no colo. — Então vamos vê-lo.
Astrid virou-se para Heather, enquanto Valka levava Zephyr para fora da casa.
— Você ia dizendo?
— Quando você estava noiva já e Soluço veio nos resgatar, você se lembra? — Astrid assentiu. — Foi o momento que percebi que você tinha mudado.
— O tempo no Domínio nos ensinou muito, mas me mudou também, sabe. Percebi que estava disposta a trocar uma guerra por Soluço. Ele me nomeou general porque sabia que era importante para mim, e é claro que gosto de uma boa briga. Mas hoje tudo que eu quero é que Zephyr fique bem. É estranho pensar nisso agora, porque antigamente eu amava a guerra, e nunca me veria nessa situação, mas eles me transformaram. E, para mim, sou alguém melhor hoje por causa deles.
Heather sorriu, abraçando Astrid com força. Sua amiga realmente havia mudado e era bom demais vê-la feliz.
Elas seguiram com Zephyr para o Grande Salão, com seus dragões as acompanhando. Ao longe, elas viram Soluço e Melequento conversando. Embora não escutassem nada, Astrid percebeu que a feição de Soluço não estava boa. E isso não era um bom sinal.
*
— E eles estão longe? — Soluço perguntou.
— As sentinelas disseram que estão mais próximos do que há uma hora atrás, Soluço, estão avançando. Não sabemos quem são, mas você sabe que podem ser caçadores de dragões — Melequento disse.
— Quantos barcos?
— O suficiente para causar problemas.
— Estamos mais fracos com a festa, você sabe, vikings exageram na bebida — Soluço suspirou ao avistar Astrid chegando. — Faça o seguinte. Monitore-os por mais uma hora. Se estivem perigosamente perto, mande alguém me avisar e lidere um grupo de dragões para interrogá-los. Irei em seguida.
— E Astrid? Ela é nossa general, ela precisa saber, pode ter uma opinião sobre isso — Melequento pontuou.
Soluço mais uma vez suspirou. A última vez coisa que ele queria era preocupá-la.
— Por enquanto não vamos falar nada. Se a situação se agravar, iremos nós dois. Não se preocupe, não vou ignorar essa situação, Astrid será informada.
— Okay, Chefe.
Astrid se aproximou de Soluço com Zephyr no colo. Heather e Valka se despediram e entraram no Salão, cumprimentando Melequento que se dirigia para o porto. Astrid encarou o marido profundamente, desafiando-o a esconder algo dela. Soluço suspirou, entendendo o seu olhar.
— Não é nada com que devemos nos preocupar agora, okay? É a noite da Zephyr, vamos tentar celebrar — Soluço disse, acariciando o rosto de Astrid.
Ele observou sua esposa respirar fundo, tentando manter a calma. Ela sabia que Soluço costumava protegê-la demais, mas confiava nele. Zephyr pediu para o pai segurá-la no colo e Astrid a entregou a seu marido.
— Eu espero que não esteja tentando bancar o herói, Soluço. Você sabe que precisa de mim na maioria das vezes. E espero que não tenha me nomeado general atoa — ela suspirou e sorriu ternamente para ele. — Espero que confie em mim, porque eu confio em você.
— Astrid — ele entrelaçou suas mãos e encarou seus olhos profundamente, enquanto Zephyr ria das graças de Banguela — eu achei que estivesse mais do que claro que confio, não só a minha vida, como a do meu povo a você. Eu amo você, Astrid. Sabe disso.
Astrid sorriu e o beijou. Ele sabia como convencê-la. Ela encarou seus olhos e apertou sua mão.
— Não vou me esquecer disso — ela disse e Soluço sorriu.
De mãos dadas, eles entraram no Grande Salão para comemorar com seu povo.
*
Soluço observava sua filha interagindo com as outras crianças. Cabeça Mole — não pergunte sobre o nome, o tio dele é capaz de fazer uma dissertação enorme sobre isso e você não vai querer ouvir — o filho de Perna de Peixe e Cabeça Quente era uma criança a parte. Era como ter os dois gêmeos juntos em uma criança. Apesar de tudo, ele gostava de brincar com Zephyr e as outras crianças da vila — e também com Cabeça Dura, que era mais criança do que todas as crianças juntas.
Soluço só podia sorrir ao ver sua filha se divertir e conversar com os outros da vila em sua própria língua. Ela encantava todos e era muito inteligente, como Soluço em sua idade também era. Curiosa e interessada nas coisas ao seu redor.
Astrid chamou sua atenção para conversar com Heather sobre a Ilha Beserker e ele desviou o olhar de sua menina.
— Terminamos as escavações, depois de todo esse tempo. Valka já havia me dito que provavelmente aquela Besta Implacável já teria morrido há muito tempo, mas decidimos investigar como você sabe, Soluço.
— Vocês continuam não achando que pode ter sido Drago a pessoa que a resgatou? — a menção do homem ainda causava um desconforto em Soluço.
— Achamos, Soluço — Valka falou. — Acho difícil ele ter retirado ela sem causar um terremoto na Ilha.
— Além disso — Heather suspirou — achamos a ossada gigante dela. Ela realmente já se foi.
Astrid e Soluço se entreolharam tristonhos. Soluço lembrou de como ela havia o salvado. "Ela", pois haviam encontrado um ovo, que havia sido, como souberam depois, protegido por Valka. Eles cresciam rápido, mas o dragão que havia vivido com Valka durante 20 anos já havia morrido quando o bebê dragão do ovo atingiu o tamanho normal.
— É uma pena. Mas onde será que Drago encontrou outra Besta Implacável? Não tem muitas por aí, presumo.
— Eu calculava que havia existido e existiam umas cinco — Valka falou. — Eu havia convivido com duas, havia uma com os Beserkers e uma já havia morrido.
— Vimos a ossada em Vanaheim — Soluço informou, confirmando o conhecimento de sua mãe.
— Exatamente, ela foi a primeira Besta Implacável. Portando, uma ainda haveria de existir. Drago o encontrou e o resto da história nós sabemos.
Soluço encarou o seu povo sem se fixar em nada específico. Ele sabia como aquela história havia terminado. Suspirou ao se lembrar que uma pessoa sozinha havia acabado com a vida de tantas pessoas. De tantos dragões. Aquele sentimento ainda o atormentava.
Astrid entrelaçou suas mãos e Soluço a encarou, sempre sabia o que ele sentia. Ela continuava com a mesma beleza de sempre. Seus olhos brilhantes e seu sorriso hipnotizante. Ele a amava tanto que chegava a doer em seu coração. Faria tudo para vê-la bem. Vê-la segura.
Soluço sorriu para ela, querendo dizer que estava tudo bem. Porém, aquela sensação de que algo iria dar errado ainda o atormentava. Astrid parecia ler seus pensamentos. Não estava convencida com o seu sorriso.
— O que foi? — Astrid perguntou. — Você está estranho, não adianta dizer que não é nada, eu te conheço. Convivo com você há anos, é um saco — Soluço sorriu e beijou sua mão.
— Deve ser um saco conviver comigo mesmo, eu concordo — Astrid riu.
Soluço observou Melequento entrar no Grande Salão. Sua expressão não era a das melhores. O líder de Berk suspirou.
— Achamos que caçadores estão tentando alcançar a Ilha. Melequento observou uns barcos se aproximarem, estávamos tentando confirmar sua rota, ver se eles são realmente um problema.
Soluço indicou Melequento com a cabeça, fazendo Astrid olhar na direção que ele apontava.
— Acho que a notícia não é a das melhores — ele concluiu.
— Soluço, isso é muito grave. Estamos indefesos com tanta gente no Grande Salão — Astrid pontuou.
Ele não tinha dúvidas de que ela estava certa. A viking o encarou com determinação no olhar.
— O que nós vamos fazer? — ela perguntou.
— Vou acionar os pilotos. Vamos colocar Zephyr em um lugar seguro e verificar o avanço. Se for crítico, avisamos o povo — ele decidiu.
Astrid assentiu, deixando um beijo em sua bochecha e indo buscar sua filha. Melequento parou na frente de Soluço e suspirou. Antes que ele falasse, o líder se manifestou.
— Eu e Astrid iremos verificar o avanço, chame os pilotos que estiverem em serviço ou suficientemente sãos.
— Você não gostará do que irá ver, Soluço. Vou buscar os pilotos agora mesmo.
— Eu sei que não vou.
Soluço suspirou ao ver Astrid carregando uma Zephyr sorridente. Seria uma grande noite.
Mesmo tentando não alarmar ninguém, vikings possuíam um sexto sentido para a confusão. Valka imediatamente levou Zephyr para um lugar seguro, que nem ao menos Soluço ou Astrid sabiam onde. Quanto menos soubessem, melhor. Não faziam ideia do perigo que poderiam enfrentar, Zephyr precisava estar segura e confiavam em Valka.
Heather e alguns Beserkers se disponibilizaram para ajuda-los também a verificar a aparente invasão a ilha. Soluço agradeceu pelo auxílio, pois eles eram grandes guerreiros. Uma sensação de nostalgia o invadiu e ele se lembrou dos tempos no domínio, em que eles se juntavam contra os caçadores.
Mas aquele não parecia um caso normal que eles enfrentavam quando mais novos.
Soluço suspirou enquanto observava os barcos de longe. Observou as pinturas em suas velas e um arrepio percorreu seu corpo. A imagem de seu pai morto surgiu em sua mente. Drago havia deixado marcas profundas em seus corações.
— Soluço, os pilotos já estão em seus postos — Astrid se aproximou de seu marido e observou sua visível concentração. — Eu sei o que parece e sei que está preocupado. Mas já enfrentamos caçadores antes, vai dar tudo certo.
— Isso não parece uma invasão simples de caçadores — ele soltou um longo suspiro. — Estava com um pressentimento mais cedo, detesto estar certo.
— Hey, vai dar tudo certo — ela se aproximou mais dele, sentindo as mãos deles envolverem a sua cintura. — Vamos vencer isso e seu pressentimento irá passar, está bem?
— Certo — ele respirou fundo. — E Zephyr?
— Segura — Astrid sorriu. — Aposto que ela está entretendo a sua mãe com seu grande vocabulário.
— Ela é a coisa mais preciosa desse mundo — Soluço sorriu.
Melequento, ao longe, deu o sinal de que poderiam seguir e o homem se virou para ela, apertando suas mãos.
— Vamos resolver isso logo então — ele disse, com mais determinação no olhar.
Astrid assentiu com um sorriso, dando-lhe um beijo suave em seus lábios e seguindo para perto de Tempestade e dos pilotos. Ela era sua general, sua esposa, seu grande amor. Soluço moveria o mundo para vê-la segura.
A sensação ruim o dominara novamente. Quando deu o primeiro passo em direção às Banguela e aos barcos, ele sabia que alguma coisa estava errada. Ignorou seus pensamentos. Queria, uma vez na vida, provar que seus instintos estavam errados.
*
Soluço não sabia como seus pensamentos funcionavam enquanto estava dentro de uma luta. Seu braço sabia exatamente como segurar a espada. A hora de recuar, a hora de atacar. Seus pés sabiam exatamente onde pisar, para onde se mover, quando correr. Soluço não sabia se o sangue viking dava certos poderes para os guerreiros, mas tinha vezes que ele chegava acreditar que Odin o ajudava.
Ele também não sabia como havia parado naquele barco e estava lutando contra um cara mal-educado, com o dobro do seu tamanho e com metade de sua inteligência. Os barcos tinham velas dos caçadores, mas duvidava que aqueles homens o fossem. Estavam mais para piratas oportunistas. Tinham poucas armadilhas para dragões, mas muitas armas.
O inimigo a sua frente caiu e perdera sua arma, dando a Soluço o tempo exato para escapar e observar a batalha. Banguela o seguia de perto, atirando em qualquer alvo que aparecesse em sua frente e ele soubesse que não era um berkiano. Eram tantas batalhas juntas que Soluço nem precisava pedir para Banguela atirar.
Astrid. Astrid. Astrid.
Soluço repetia o mantra em sua cabeça com a esperança de que ela aparecesse em sua frente bem. Eles se perderam quando invadiram os barcos, Tempestade sumira e quando Soluço virou para segurar a mão de sua esposa ela já não estava lá. Repetiu em sua mente cinquenta vezes que ela era uma guerreira treinada e a sua general.
Mas nada podia tirar da sua cabeça a preocupação.
Girou sua espada e se defendeu de um ataque que poderia ter causado estragos. Respirou fundo e continuou, meio correndo, meio caminhando, a percorrer o barco que estava explorando. Olhou para os lados e enxergou muitas chamas.
Grande parte dos outros barcos estava incendiado. Não estava entendendo por que os caçadores, ou sei lá quem fossem aqueles homens, estavam tendo o luxo de perderem tantos barcos.
— Soluço! — ele escutou seu nome ser gritado e virou-se. — Soluço!
Melequento correu em sua direção e o líder de Berk permitiu que um suspiro de alívio deixasse seu corpo. Melequento havia amadurecido tanto nesses anos e agradecia por tê-lo ali, ao seu lado. Confiava nele para muitas responsabilidades, incluindo chefiar parte de seu exército e cuidar das patrulhas, auxiliando Astrid.
— Melequento, como estamos?
— Nós estamos nos saindo bem, vamos encurralar a maioria deles no labirinto de pedras — Melequento informou. — Saia com Banguela daqui, tenha uma visão de cima.
— Não vou sair daqui e isso não é questionável — Soluço respondeu, com uma voz irritada.
— Não são ordens minhas, chefe — ele deu de ombros.
O líder então percebeu, com certo alívio, o que ele queria dizer. Que ela estava bem e, aparentemente, dando todas as ordens que podia.
— Onde ela está? Eu me perdi dela — Soluço perguntou com certo desespero na voz.
— Ela está em um dos barcos, salvando quem pode salvar — Melequento diz, enquanto corriam pelo barco.
— Perdão, salvando quem? — Soluço estava cada vez mais confuso.
— São mercadores de escravos. Humanos e dragões. Os barcos estão em chamas e ela está tentando tirar todos eles de lá.
A atrocidade daquela ação atingiu Soluço em cheio e ele se impediu de vomitar ao pensar naquilo. Dragões e humanos sendo escravizados, sendo tratados como objetos, como se fossem nada. Era uma crueldade que ele não conseguia conceber que existia, ou que alguém pudesse concordar e praticar em sã consciência.
— Vou ajudá-la — Soluço disse de repente, chamando Banguela para perto dele. — Siga o plano dela.
— Soluço!
Melequento gritou pelo seu chefe, mas ele já estava montado em Banguela e longe de seu alcance. Infelizmente, seu chefe não conseguia pensar em nada além de sua esposa. Precisava encontrá-la.
Soluço procurou por Astrid nos barcos desesperadamente. Mercadores de escravos, isso não podia ser bom. Ele escutou a explosão e sentiu Banguela ser obrigado a fazer uma curva com a força dela. Observou os navios vazios e tentou enxergar além daquela névoa.
— Firme, Banguela — ele gritou. — Astrid, cadê você, onde você está?
Ele enxergou a fumaça, mas a ignorou. Parecia uma fumaça como qualquer outra e já havia entrado em algumas como aquela muitas vezes. Aliás, isso era normal para quem convive com dragões, você aprendia a não se incomodar mais.
— Soluço, não! — ouviu a voz de Astrid bem longe e tentou encontrá-la ali. — Vai para longe daqui, eu estou bem.
— Astrid, onde você está? — sentiu seu corpo pesar.
Ele se perguntava o que, em nome de Odin, estava acontecendo com ele. Era como se ele quisesse tirar uma longa soneca de repente.
— Banguela, leve ele para longe daqui! Agora! Eu vou ficar bem.
Para Soluço, parecia que ele estava dentro d’água e a voz de Astrid parecia longe. Ele queria gritar alguma ordem para Banguela, mas sua voz não saía.
E, de repente, tudo escureceu.
*
Soluço acordou de repente, sem saber em que lugar estava, sem saber o que havia acontecido. Ele respirava com força, tentando se levantar a qualquer custo. Mas, por mais que lutasse, diversas mãos o seguravam, impedindo que ele levantasse.
Os donos daquelas mãos falavam alguma coisa que ele não entendia. Quando ele olhou para o canto da sala, encontrou uma figura loira sorrindo para ele.
Soluço não processou muito bem o que estava acontecendo, mas sentia que a conhecia de uma forma profunda. A mulher sorriu para ele.
— Fique calmo, está bem? Você ainda está muito fraco, precisa se acalmar — ele escutou alguém dizer, mas a voz estava longe.
Sua consciência parecia ser retirada de si mesmo e ele nem ao menos processou direito nada quando a mulher sorriu para ele, acenando. Logo ele estava novamente nas profundezas do sono, mas com um único nome na mente.
Astrid.
*
Quando Soluço acordou por completo, o quarto em que estava parecia vazio. Ele tentou se levantar, sentindo que havia participado de uma guerra de três dias — acredite, ele sabia essa sensação — e começou a colocar seus pensamentos em ordem.
Eles tinham ido verificar o avanço dos barcos, entraram em uma disputa e ele perdeu-se de…
— Astrid! — ele exclamou assustado, talvez alto demais, enquanto seus pensamentos se organizavam.
Sua mãe invadiu o quarto acompanhada de seu primo Melequento. Ele se perguntou mais uma vez onde Astrid estava.
— Você acordou, meu filho, obrigada, Odin. Como se sente? – Valka sentou-se ao seu lado na cama.
— Desorientado, o que aconteceu? — ele perguntou.
— Lançaram uma cortina de gás venenoso em nós, venenoso aos humanos, pelo menos — Melequento começou a explicar. — Os dragões não foram atingidos da mesma forma, ficaram um pouco desorientados, mas os pilotos começaram a perder a consciência. Você caiu na água, Banguela foi atrás de você e o pegamos logo depois. Eu pedi que você não fosse, mas você me escuta? Olha o que aconteceu.
— Eu tinha que ir — Soluço colocou a mão na cabeça. — Astrid, onde ela está? Ela está com Zephyr, onde elas estão?
— Você ainda está desorientado, Soluço, não entendemos muito bem que tipo de veneno era. Gothi fez um trabalho excepcional curando você e os outros que entraram em contato com ela, mas ainda não sabemos todos os efeitos. Por que não descansa mais um pouco? — Valka sugeriu, com um sorriso que poderia acalmar qualquer um.
Menos Soluço.
— Onde ela está, mãe? — ele perguntou mais uma vez.
Ele tinha a visto enquanto estava meio consciente. Era ela, Soluço tinha certeza. Por que não chamavam ela logo?
— É melhor contar tudo para ele, senhora Valka — Melequento disse com seriedade. — Você sabe que ele vai descobrir de um jeito ou de outro.
A respiração de Soluço começou a ficar acelerada. Ele negou todas as situações que sua cabeça pudesse criar. Cada uma delas.
— Soluço, você precisa me prometer que vai manter a calma, entendeu? — Valka pediu.
— Eu prometo, mãe.
Soluço sabia que calma era uma coisa que ele quase não possuía naquele momento, mas tinha que descobrir o que quer que tivesse acontecido. Precisava saber onde ela estava, iria até o fim do mundo para achá-la. Prometeria qualquer coisa para saber o que estava acontecendo.
— Os mercadores de escravos colocaram uma cortina de fumaça entre nossos cavaleiros e os barcos onde estavam as pessoas e os dragões escravizados — Melequento começou a explicar. — Achamos que era uma armadilha, uma tentativa de atrair mais reféns para os barcos. Ninguém conseguiria passa pela fumaça.
— Astrid estava lá, Melequento. Astrid conseguiu sair, não é? — Soluço perguntou suplicante.
Ele sentiu seu corpo tremer. Aquilo não podia estar acontecendo com ela.
— Vasculhamos todo os arredores de Berk e as ilhas vizinhas, Soluço, com a ajuda de Heather e dos beserkers. Mandamos cartas a praticamente todas as Ilhas do Arquipélago Barbárico, estão todos ajudado. Mas, infelizmente, ainda não encontramos nenhum rastro.
— Quantos dias? — Soluço sentiu sua respiração acelerar.
— 3 dias. Nenhum sinal de Astrid ainda. Ela não está sozinha, está com Tempestade, então se ela não voltou ainda, está tentando sair, Soluço. Ela é a guerreira mais inteligente que temos e está com a Nader mais esperta que eu conheço. Ela vai ficar bem.
Soluço não conseguia mais respirar. Sua esposa havia virado escrava junto com o seu dragão? Aquele dia era pra ser comemorado, era o aniversário de sua filha. Ele tinha a sensação de que algo ruim iria acontecer, por que não escutou seus instintos?
A culpa era dele? Ele poderia ter impedido aquilo?
Ele tentou puxar o ar diversas vezes e suas mãos tremiam. Valka segurou seus ombros e encarou seus olhos.
— Soluço, você precisa se acalmar, lembre-se de sua promessa. Precisa cuidar de Zephyr, me escuta. Precisa se acalmar, vamos encontrá-la. Respire comigo, vamos — Valka praticamente gritou, respirando o mais alto que podia para que ele a imitasse.
Soluço começou a se acalmar e Valka o abraçou. Acariciou os cabelos de seu filho e, silenciosamente, pediu que Melequento saísse do quarto.
— Ela é a melhor guerreira que eu conheço, Soluço, vocês fazem uma bela dupla. Não acredite que ela está perdida.
— Eu não acredito, por Odin, não. Eu sei que ela vai voltar — Soluço disse e encarou os olhos de sua mãe. — Eu só não consigo imaginar pelo que ela está passando. Se ela for vendida como se fosse um objeto? Se Tempestade for tirada dela? E todas aquelas pessoas dentro daquele barco, mãe?
— Não pense nisso, vamos montar novos grupos de busca e iremos além do arquipélago se for necessário. Vamos achá-las.
Soluço assentiu e deu um longo suspiro. O pânico que havia sentido minutos antes ainda estava lá, mas sua mãe estava certa. Tinha uma tribo para cuidar e, mais importante do que tudo, um filho. Precisava se acalmar.
— Zephyr? — ele perguntou.
— Estava com Cabeça Quente até um minuto atrás. Ela está perguntando muito por Astrid. Não sabemos o que você gostaria de falar para ela, por isso dizemos que ela estava em uma missão.
— Acho melhor assim. Vou explicar um pouquinho mais pra ela. Tem 2 anos, não quero que ela pense muito nisso.
— Posso trazê-la?
— Claro — ele sorriu pela primeira vez naquele dia.
Sua mãe saiu para buscar Zephyr e ele deu um longo suspiro. Colocou suas mãos na cabeça. Onde ela estaria? Aquela sensação de não saber o que estava acontecendo era a pior do mundo.
Uma ruiva sorridente entrou no quarto. Soluço sorria toda vez que a via caminhar sozinha. Era tão esperta e inteligente. Orgulhava-se demais daquela pequena.
— Papai — Zephyr exclamou e correu até ele.
Soluço a pegou no colo e a abraçou, como se ela pudesse desaparecer a qualquer momento. Sentir seu cheiro o acalmou de formas que ele não sabia explicar. Vê-la bem era tudo que ele podia pedir.
— Oi, filhota. Se comportou com a vovó? — ele perguntou.
— Sim. Papai dormindo?
— Estava sim — Soluço sorriu. — Agora estou bem acordado para fazer cosquinhas em você.
Zephyr soltou um grito encantador enquanto ria. Soluço sorria, enquanto fazia cosquinhas naquela ruivinha.
— Mamãe!
Zephyr chamou a mãe para que pudesse defendê-la das cosquinhas do pai, provocando um aperto no peito de Soluço. Ele suspirou, sabendo que, por mais que doesse nele, a sua filha precisava dele.
A pequena viking o encarou com curiosidade. Conhecia aquele olhar curioso perfeitamente, era o mesmo que Astrid tinha quando queria descobrir algo.
— Lembra que mamãe e papai foram lutar no dia do seu aniversário e a vovó te levou para longe? — Soluço perguntou e ela assentiu. — Mamãe teve que partir em uma missão naquele dia. Ela queria muito despedir-se de você, mas não pôde. Ela mandou dizer que te ama muito, está bem?
— Mamãe? — Soluço suspirou e abraçou sua filha para que ela não visse suas lágrimas.
— Logo, filhota. Ela vai voltar logo.
*
Astrid não fazia noção de quanto tempo estava jogada em uma das celas daquele barco. Havia junto com ela uma mulher negra, de cabelos escuros como a noite e olhos castanhos brilhantes que carregava uma bebê que estava quase sempre chorando em seu colo. O seu choro já havia sido causa de muitos gritos dos guardas impacientes que as ameaçavam com punições caso escutassem novamente o som estridente.
Elas haviam virado amigas rapidamente, é claro, não só por sua situação, mas também pela ajuda de Astrid, que acabou por salvar a vida dela e da filha. O cativeiro e tudo que passara acabou fazendo com que o leite da mulher secasse e não havia outras alternativas para alimentar sua filha. A Hofferson queria poder ajudar, é claro, mas por mais que tenha praguejado e xingado todos os guardas, não conseguiu leite para o pequeno bebê.
Thea, a mãe da bebê que ela dera o nome de Katrine, havia dado à luz quando já havia se tornado uma escrava daqueles homens, tornando a sua filha escrava também. Ela lutou muito para se libertar antes, mas não teve escolha. Sua vila havia sido dizimada e não restava nada mais para ela além de sua pequena filha.
Astrid, após um dia escutando os gritos desesperadores da pequena bebê e ficando desesperada com ela, com medo que as ameaças dos guardas fossem reais e as duas fossem mortas por causa da impaciência deles. Foi a última tentativa dela, um ato de alguém sem saída, tentar ela mesma fornecer algum leite para Katrine.
Não havia parado de amamentar há muito tempo, por isso teve esperanças que pudesse ajudá-la. E o alívio percorreu seu corpo quando conseguiu fornecer leite para ela de verdade. O sorriso que percorreu seu rosto foi involuntário quando carregou a pequena Katrine, morena de olhos negros, em seus braços, e pôde saciar a sua fome.
Thea chorou de emoção e agradeceu a Astrid mais vezes do que o necessário.
Os homens informaram que tinham uma parada em uma ilha na qual iriam negociar e Astrid tentou se manter quieta e controlar seu ímpeto de perguntar e tentar saciar sua curiosidade. Após todos os seus escândalos pedindo por uma alimentação decente para Thea, que amamentava, os mercadores começaram a ameaçar vendê-la para o pior homem que encontrassem.
A viking quase vomitou ao escutar aquilo e pensou que ficar calada após aquilo tudo seria o mais sábio a se fazer.
Não fazia ideia de onde Tempestade estava e se estava viva. O seu coração apertava por não saber sobre Soluço, havia apenas escutado os seus gritos e o barulho de algo caindo na água. Mas a falta que sentia de Zephyr a fazia chorar todas as noites e acordar com a garra que necessitava para lutar e retornar para a sua pequena.
Thea se aproximou dela naquela tarde, com uma Katrine adormecida em seu colo. Astrid enxugou suas lágrimas, que caíam pela saudade de sua família, e encarou as suas companheiras com um esboço de um sorriso.
— Você voltará para eles. Iremos lutar para isso — Thea a encorajou.
— Você retornará a Berk comigo. Iremos achar uma brecha na segurança deles quando aportarmos hoje. Eu não irei desistir da minha família e vocês fazem parte dela agora — ela respondeu com um sorriso.
Ela sentiu mais lágrima caírem e tentou inutilmente enxugá-las. Thea colocou Katrine em seu colo e a abraçou. Um abraço simples e lotado de sentimento e de amor.
— Pode chorar, Astrid. Não guarde tudo para si, não faz bem. Eu guardo o segredo por você — Thea disse gentilmente.
— Eu aprendi a guardar durante muito tempo. Mas estar longe de Zephyr dói muito. Eu só queria ter certeza que ela está bem, que eles estão bem.
— Pelo o que você me disse, seu marido ama vocês duas mais do que qualquer coisa. Ela estará bem com ele.
Astrid sorriu e levantou seus olhos para o teto. Só esperava que Soluço também estivesse bem. Ela passou a mão involuntariamente em sua barriga e se assustou com o ato. Pensou que era apenas um reflexo de tudo que estava passando, não uma comprovação de que suas suspeitas estavam corretas.
Ela não teve muito tempo para pensar sobre aquilo, já que os gritos dos homens que as prenderam ecoaram no corredor de celas.
— Vamos, levantem. Todas vocês — Astrid escutou os guardas baterem nas grades das celas. — Todas as mulheres, vamos, levantem-se.
O coração da viking apertou. Por que ele negociaria só as mulheres? Onde estavam?
Thea a encarou com os olhos arregalados, mas levantou-se com ela. Astrid segurou sua mão e esperou as ordens dos guardas. Eles abriram a cela, amarraram as duas mãos da Hofferson em uma mão de Thea, deixando a outra livre para que ela segurasse Katrine.
— Andem — um dos guardas as empurrou.
Elas seguiram uma fila de mulheres e subiram as escadas do navio para o convés. A luz do sol a cegou por um instante, mas ela continuou caminhando. Quando se acostumou com a luminosidade, encarou os olhos das mulheres ao seu redor e percebeu as celas dos dragões atrás delas.
Só então ela reparou na ilha em que estavam. Ela era muito familiar, mesmo que estivessem em uma parte mais escondida de tudo. Astrid puxou em sua memória de onde conhecia aquele lugar e seus olhos se arregalaram quando a compreensão a alcançou.
— Thor piedoso — Astrid sussurrou, chamando a atenção de Thea ao seu lado.
Ela sabia muito bem quem habitava aquela ilha e, de repente, ela ganhou uma nova esperança. Só torcia para que não se separasse de Tempestade ou de Thea e sua filha, poderia fazer com que a fuga delas desse certo.
E, pela primeira vez naqueles dias, a viking teve um pouquinho de esperança.
*
As olheiras de Soluço informavam a quantidade de dias que ele havia passado em claro, sem dormir. Não porque Zephyr havia dado muito trabalho, pelo contrário, ela era uma criança muito comportada e compreensiva. Mesmo que demorasse mais a dormir do que o normal, ele conseguiu fazer com que ela dormisse todos os dias, se alimentasse bem e, o mais importante de tudo, estivesse segura.
Ter que cuidar da vila exigiu algumas medidas drásticas. Ele não queria deixar Zephyr o tempo inteiro com a avó. Já bastava a filha não ter sua mãe por perto, precisava estar o máximo possível com ela. Ele havia então desenvolvido uma espécie de casaco que prendia Zephyr em seu colo, com seu rosto virado para ela e seus troncos se encontrando. Assim ele poderia ficar com as mãos livres e fazer outras funções.
Fazia quase uma semana que Astrid estava desaparecida e ele já havia perdido o controle há muito tempo. Todas as tribos que lhe responderam não tiveram nenhum sinal de mercadores de escravos, mas ainda não havia recebido respostas de duas tribos, nem das Ladras do Pântano, nem dos Cabeças Ocas. Os pilotos fizeram patrulha em todos os lugares que podiam, mas não encontraram nenhum rastro deles.
Soluço não sabia mais o que fazer, se via completamente perdido.
Zephyr estava dormindo no seu antigo quarto da ferraria de Bocão, em um pequeno berço provisório que ele havia instalado ali. Ele e o melhor amigo de seu pai estavam fazendo algumas selas e espadas para os vikings, mas Soluço havia estragado três espadas seguidas.
Na última arma que ele estragou, jogou os equipamentos no chão e bufou alto. Bocão se assustou com o barulho e puxou o sistema de incêndio, achando que Resmungo havia colocado fogo em tudo mais uma vez. Banguela se aproximou dele correndo, tentando ver o que havia acontecido e cheirando a arma no chão quando encontrou seu treinador.
— Cuidado, amigo, está quente — Soluço alertou, tentando respirar fundo.
Banguela se afastou e o viking acariciou sua cabeça. O dragão voltou ao quarto de Zephyr, onde velava o seu sono. Bocão entrou correndo naquela parte da ferraria, com um balde de água nas mãos, o abaixando quando não viu nenhum fogo.
— Pelo amor de Thor, Soluço, que susto me deu. O que houve? — Bocão perguntou, mas ele se manteve em silêncio. — Soluço?
— Nada — ele respondeu com mais raiva do que pretendia e respirou fundo para se acalmar. — Nada, apenas errei e estraguei a espada, irei começar de novo.
— Certo, senta aqui — Bocão indicou a cadeira ao seu lado e Soluço começou a negar. — Senta aqui logo, garoto, está mais atrapalhando do que ajudando. Senta aqui e respira fundo.
O líder sentou-se e colocou suas mãos na cabeça. Bocão o olhou com preocupação, colocando sua mão no ombro do menino que considerava seu filho do coração.
— Ela está bem, confie nisso — ele disse.
— Não consigo me contentar apenas com isso, não consigo me concentrar pensando nisso tudo — Soluço respondeu. — Não consigo aguentar tudo isso sozinho.
— Você não está sozinho.
— É mais complicado do que parece.
Soluço sentia a casa vazia, a cama vazia, o coração quebrado. Ele só estava de pé e levantava todos os dias para colocar um sorriso no rosto e cuidar de sua filha.
— Eu sei, garoto. Eu entendo. Mas vamos conseguir encontrá-la. Há alguma coisa que você desejou conquistar e a sua persistência não a conseguiu?
Soluço assentiu com a cabeça, mesmo que contrariado, mas apreciando a tentativa de Bocão de animá-lo. Ele se levantou, indo ver se Zephyr havia acordado. A menina, felizmente, dormia tranquila, provocando o seu sorriso.
— Chefe — ele escutou a voz de Melequento o gritando do lado de fora da ferraria.
Ele saiu apressado, encontrando um Melequento ofegante.
— O que houve? — Soluço perguntou.
O viking apenas esticou um papel em suas mãos, que Soluço pegou com pressa. Ele leu o conteúdo da carta rápido demais e teve que fazer uma releitura mais calma. O seu coração se acelerou e ele tentou não surtar naquele instante.
Bocão perguntava o que havia na carta e ele apenas esticou o papel em suas mãos.
— Apronte os pilotos, partimos daqui a uma hora — ele disse a Melequento. — Avise seu pai e peça que ele coloque sentinelas em toda a ilha, não podemos arriscar que isso seja uma armadilha.
— Sim, chefe — ele concordou, voltando a correr na direção contrária.
— Bocão — ele se virou para o amigo. — Peça para minha mãe vir até aqui com as coisas que Zephyr precisa todos os dias, ela sabe o que é. Irei aprontar Banguela e levarei ela comigo.
— Você tem certeza disso, Soluço? Isso pode ser complicado e arriscado para um bebê — ele questionou.
— Eu tenho, não posso ir até lá sem saber como ela está. E ela já passou muito tempo longe da mãe. Iremos até às Ladras do Pântano e a traremos de volta para casa. Não importa o que isso me custe.
Soluço Horrendus Haddock III,
Recebemos sua mensagem perguntando sobre o paradeiro de sua esposa e ficamos felizes em poder ajudá-los. Esses mercadores possuem um acordo conosco, do qual não me orgulho muito em possuir, mas que mantém nossa tribo em segurança, assim como todas as mulheres, crianças e os dragões que podemos salvar.
Eles tentaram invadir nossa ilha e roubar todas as mulheres daqui, mas acordamos com eles que não iríamos os atrapalhar e compraríamos todas as mulheres em troca de nossa segurança. Faz alguns anos que vivemos com medo, mas não nos atrevemos a contrariá-los. Sabemos que há alguém muito poderoso por trás desse serviço.
Contudo, recebemos a notícia que ele irá trazer todas as mulheres que sequestraram, a melhor palavra para o que fazem, em suas últimas expedições para nós, e sabemos que eles estão perto. É claro que resgataremos Astrid, é minha prima e mais uma mulher que podemos salvar. Por isso, saiba que ela estará salva assim que pisar na Ilha das Ladras do Pântano.
Esperamos a sua visita aqui, é claro, conheço os homens e sua impulsividade, virá para cá assim que puder. Irei cuidar de Astrid para você nesse tempo, não se preocupe.
Iremos conseguir salvá-la, assim como Tempestade.
De sua amiga e aliada, Camicazi.
*
As mulheres foram levadas em um pequeno barco em direção a costa da Ilha das Ladras. Astrid rezava a todos os deuses para que fosse reconhecida pelas guerreiras de sua prima e, assim, pudesse ser salva. Não sabia se os guardas cumpririam sua palavra e a levariam para longe, mas torcia para que fosse apenas uma ameaça.
Elas desembarcaram na areia e Astrid escutou Katrine resmungar no colo de Thea. Os guardas não reclamaram de seu choro, por isso as duas mulheres respiraram fundo, aliviadas. Eles não eram muito pacientes.
— Bertha, querida, quanto tempo não faço negócios diretamente com você — um dos homens se manifestou.
A mulher com a qual ele falava entrou no campo de visão da Hofferson, junto com outras mulheres que a escoltavam. Astrid logo reconheceu a sua prima e se aproximou lentamente delas, para que pudessem a enxergar.
Ela observou Bertha, ou Camicazi, como ela gostava mais de ser chamada, encarar seus olhos profundamente, mas mantendo a expressão inalterada. Não podia indicar que Astrid era importante para ela, ou os mercadores iriam complicar a negociação.
— Vamos pular as amenidades, Skipp, quanto irá querer dessa vez? — Camicazi perguntou.
— São sete mulheres e um bebê, será um valor alto — o homem a informou.
— E um dragão. Soube que você tem um Nadder Mortal que me interessa muito. Estamos precisando dessa espécie por aqui para repovoar — Camicazi comentou casualmente.
— Claro, podemos negociar isso também. Mas só temos um Nadder em nossa tripulação — informou.
— Será o suficiente. Quanto será?
— 20 moedas de ouro — ele informou com um sorriso.
Thea apertou ainda mais as mãos de Astrid, que sentiu a amiga tremer. Ela apertou de volta, mandando força e coragem para ela. Desejou que alguém também apertasse suas mãos e lhe dessem aquela coragem.
— Você está louco, isso é extorsão. Eu dou 12 moedas de ouro e é o suficiente — a líder das ladras se manifestou.
— 17 — o homem cedeu.
— 15 e não falamos mais disso.
— Certo, 15 moedas de ouro, Bertha — ele virou-se para o guarda ao seu lado. — Busque o Nadder.
Astrid quase vomitou novamente ao se sentir como um objeto, sendo trocada por um punhado de ouro. Se sentia muito fraca e tonta, como se a saída repentina de um navio e as situações precárias tivessem exigido demais de sua saúde. Apesar do absurdo de se sentir com o mesmo valor de um produto qualquer, sabia que era aquela troca que salvaria a sua vida e as das outras mulheres, e iria ter que aceitar aquela atrocidade.
Ela observou Tempestade ser trazida para a ilha e suspirou de alívio. Agradeceu a todos os deuses por Camicazi se lembrar que ela possuía um Nadder, mesmo achando estranho que ela soubesse aquela informação tão bem.
Contudo, ela escutou um barulho bem familiar no céu e sentiu o coração acelerar, e suas dúvidas foram sanadas. Astrid arregalou os olhos e puxou Thea.
— Corram — ela gritou.
As mulheres seguiram seu conselho e correram em direção às Ladras, que ainda não haviam dado o pagamento aos homens. Antes que eles pudessem reclamar, um tiro de plasma atingiu a faixa de areia que os separava das mulheres.
Astrid sorriu de alívio.
— Ele sempre me acha — ela sussurrou para si mesma.
As Ladras começaram a puxar as mulheres para dentro da floresta da ilha, em direção a vila. Ela enxergou outras guerreiras da tribo, composta apenas por mulheres, saírem das árvores em direção a batalha. Astrid sorriu com a cena. Algo dizia a ela que havia um dedo de Soluço naquela história toda.
Camicazi chegou até elas e cortou as cordas que a ligava a Thea. Astrid massageou os braços antes de abraçar a prima.
— Como ele veio parar aqui? — ela perguntou, sabendo que a prima sabia sobre quem ela falava.
— Mandei uma carta, tinha certeza que você estaria entre elas. É uma longa história, Soluço pode explicar depois. Ele veio para cá com reforços, falou que ia dar uma lição nesses homens. E, cá entre nós, esperamos o dia que isso iria acontecer.
Astrid estava confusa, mas não procurou entender sobre tudo aquilo, poderiam explicar tudo para ela depois. Apenas estava aliviada por saber que Soluço estava ali, tão perto dela.
— Vou com você — Astrid disse. — Só preciso de um machado.
— Não, Astrid, você não pode se arriscar — Thea começou a dizer, tentando puxá-la.
— Thea, estive em muitas batalhas antes, vou ficar bem. Vá com as outras mulheres para a vila, vou ajudar Soluço.
— Não, Astrid, você tem que vir comigo, não pode ir até lá — ela insistiu. — Você vai arriscar duas vidas dessa forma?
— Que história é essa Thea? — Astrid perguntou com o coração acelerado.
— Você está grávida — ela disse de uma vez, fazendo com que a Hofferson Haddock arregalasse os olhos. — Eu desconfiei muito devido aos seus enjoos e pelo fato de você ter dito que não costuma ser muito emotiva ou enjoar fácil com os navios. Além disso você conseguiu amamentar Katrine e eu imaginei se isso também não era mais um motivo para as minhas suspeitas estivessem certas. Mas, acima de tudo, eu acho que você também sabe que está esperando mais um bebê.
— Astrid — Camicazi exclamou ao seu lado. — Para vila com elas agora. Não ouse colocar essa barriga com mais um Haddock naquele campo de batalha ou eu mato você. Agora vão.
Astrid observou a prima ir em direção da batalha e suspirou derrotada. Contudo, ela involuntariamente colocou a mão em sua barriga e sorriu. Sabia que não era certo, sabia que teriam que consultar Gothi, mas, naquele instante, a felicidade de ter uma pequena vida em seu ser ultrapassou qualquer dúvida.
Havia mais um herdeiro da tribo a caminho.
*
Aquela não era uma experiência muito comum para Astrid. Ela normalmente estava sempre no campo de batalha ao lado de Soluço, nunca o esperando em casa, como uma dama indefesa que não podia lutar. Então era normal que ela estivesse mais do que impaciente — e um pouco irritada, claro — mas entendia que era para o bem dela, deles.
As meninas da tribo pediram a uma curandeira que a examinasse e, por mais que ela quisesse esperar pela opinião de Gothi, não pôde impedir a sua curiosidade. Após alguns exames rápidos que ela nunca entendeu, afinal as habilidades que elas possuíam eram um mistério, a mulher confirmou para Astrid o que ela já desconfiava.
Carregava mais um bebê em seu ventre.
Soluço a mataria se soubesse que ela escondeu seus enjoos e mal-estar e fora para uma batalha, mesmo com dúvidas sobre a sua condição física. Sabia que havia sido um pouco irresponsável e que algo ruim poderia ter acontecido, mas o filho de uma Hofferson e de um Haddock sempre enfrentaria algumas emoções. As suspeitas se confirmaram com a sua emotividade e pelo fato que havia conseguido amamentar Katrine sem muita dificuldade.
Zephyr havia parado de mamar cerca de dois meses antes, mas a produção de leite dela não pareceu parar de fato. Quando todos os sintomas se juntaram, ela passou a ter mais certeza de sua condição. Mas estava jogada em uma cela em um barco de mercadores, quando queria contar a novidade que faria os olhos de Soluço brilharem mais uma vez, por isso apenas tentou se concentrar em outras coisas.
Foi como um alívio ver as mulheres retornando para a vila. Astrid se levantou imediatamente, caminhando em direção aos guerreiros que retornavam. Os homens que estavam presos no barco também estavam sendo trazidos por elas, assim como os mercadores, algemados.
Era uma boa forma de fazer justiça. E pelo o que conhecia das ladras, elas não seriam nada caridosas com aqueles homens.
Ela viu Melequento ao longe, assim como Cabeça Quente e Perna de Peixe, e correu na direção dos pilotos. Quando ela chegou perto da amiga, recebeu o seu abraço.
— Poxa, Hofferson, você não nos dá sossego — Cabeça Quente exclamou divertida.
— Desculpa, gosto de arranjar uma confusão — Astrid respondeu sorrindo.
— Seu marido está vindo aí, Banguela quebrou a cauda nova e eles estão vindo mais devagar. É um milagre ele ainda estar vivo, achei que ele ia arrancar todos os cabelos da cabeça essa semana ou arrancar a minha cabeça. Ele ficou transtornado — Melequento informou.
Astrid o abraçou, ação que seria esquisita alguns anos antes, mas que já era comum para os dois. Melequento sorriu ao se separarem.
— Eu imagino — ela disse. — Irei procurá-los.
Ela saiu antes que Melequento pudesse impedi-la. Logo ela estava indo contra o fluxo de guerreiros berkianos e ladras, cumprimentando todos no caminho. Ela logo avistou um Fúria da Noite ao longe, com seu cavaleiro de costas. Ela observou umas tiras de couro diferentes nas costas do marido e arqueou as sobrancelhas.
Quando chegou mais perto, viu Soluço se virar um pouco de lado, com Zephyr no colo. Ela arregalou os olhos e quis matar o marido naquele instante.
Quem trazia um bebê para um campo de batalha?
Ela o observou colocar a filha na sela de Banguela, amarrando-a com segurança e, só então, ele percebeu a sua presença. Soluço arregalou os olhos ao vê-la, sentindo o alívio percorrer seu corpo no mesmo instante, Mesmo que Astrid estivesse brava com ele, a viking não conseguiu impedir o seu corpo de correr em sua direção.
Soluço recebeu sua esposa em seus braços e a apertou com desespero. Astrid sentiu suas lágrimas rolarem e Soluço a beijar firmemente.
— Thor, obrigado — ele sussurrou, com as suas testas coladas, sentindo suas lágrimas de alívio rolarem. — Deuses, achei que não encontraria você, achei tanta coisa, Odin.
— Eu estou bem. Estamos bem — ela disse, encarando seus olhos.
— Eu fiquei imaginando tudo que você estava passando e isso só me torturava mais e mais, eu só queria que você estivesse segura — ele disse, apertando-a ainda mais em seus braços.
— Está tudo bem, eu prometo. Eles não fizeram nada demais, só gritaram e nos alimentaram pouco. Nada que eu não pudesse lidar.
Soluço a abraçou novamente e se aconchegou em seus cabelos. Foi então que Zephyr parou de se distrair com Banguela e percebeu a presença de sua mãe entre eles. O seu grito animado se destacou.
— Mamãe — ela exclamou.
Astrid se separou de Soluço e correu na direção da filha, a pegando no colo e a abraçando. Ela murmurava todos os agradecimentos que podia, deixando suas lágrimas caírem novamente.
— O papai cuidou bem de você, meu amor? — ela perguntou, encarando os olhos da filha. — Mesmo trazendo você para a batalha e por isso eu vou matá-lo.
Soluço riu da ameaça de Astrid.
— Em minha defesa, ela não esteve na batalha, Cabeça Quente ficou com ela na floresta. Ela reclamou bastante por não poder chutar a bunda desses mercadores, mas concordou em ficar com ela. Não iria colocar a Zephyr em perigo.
— Eu sei e agradeço por tê-la aqui — ela apertou a filha em seus braços. — Como eu estava com saudade de você, minha pequena.
— Fica, mamãe? — ela pediu, com os olhinhos brilhantes.
— Sempre, meu amor. Nunca mais irei deixar você, eu prometo — Astrid disse com lágrimas nos olhos e com o maior sorriso do mundo. — Nem você, nem o seu irmãozinho.
Ela observou os olhos de Soluço se arregalaram e ela percebeu que havia deixado escapar o fato de que estava grávida. Bom, não era sempre que se podia fazer uma surpresa, como fizera com Zephyr. Ela sorriu na direção do marido, esticando sua mão e pedindo para que ele se aproximasse.
— Astrid? — ele questionou.
A viking sorriu e pegou a sua mão, entrelaçando-as por um instante. Depois, ela levou a mão de Soluço para a sua barriga com os olhos brilhando com as lágrimas.
— Sim, senhor líder, prepare-se para cuidar de mais um pequeno viking daqui a alguns meses.
Soluço sorriu emocionado, sentindo os olhos se encherem de lágrimas.
— Com você, meu amor, eu aceito qualquer aventura.
E Astrid soube que eles ainda viveriam muitas aventuras juntos, mesmo tendo que aprender a se desdobrar para cuidar de dois pequenos vikings. A sua família ainda embarcaria em mais loucuras, e ela amaria viver todas elas, mas sabiam que todas elas sempre os levariam de volta para casa.
E Berk sempre aguardaria aquela pequena família retornar para o seu lar.
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