Como Vivem Os Anjos
10 Você Sabe Que Eu Não Presto
— Barcarolli? — indagou Ethan para o recém-descoberto meio-irmão, estupefato por dentro e uma pedra por fora. Uma menção de sarcasmo surgiu em seus lábios. — Barcarolli… — Voltou a mencionar o sobrenome de Lorenzo, que não por acaso era seu segundo nome. Deu uma risadinha. — Por acaso o nome da sua mãe é Antonella?
E aquele era o segundo nome de Nick.
Lorenzo assentiu, sorrindo inocentemente.
— Lorenzo — disse John Fauntleroy, nervosamente —, vá à antessala, a porta é perto da estante. Preciso conversar com Ethan a sós.
Foi só aí que ele percebeu que Lorenzo era cego. O menino assentiu, levantou-se da cadeira e habilmente chegou à estante, desviando da outra poltrona no caminho. Tateou-a até encontrar a porta da antessala, girou a maçaneta e entrou.
John Fauntleroy virou-se para Ethan.
— Ele é filho do seu pai. Em 1994, Charles foi a uma conferência na Itália, e lá conheceu uma funcionária do governo chamada Antonella Barcarolli.
— 1994? — A voz de Ethan tinha um tom cortante como uma lâmina. — Então, ele já era casado com minha mãe. Que interessante.
Fauntleroy limpou os óculos com um pano, suspirando longamente. Julgou que era melhor que a verdade fosse dita de uma vez.
— Sim, Antonella tornou-se amante dele. Oito anos depois, em 2002, ela engravidou de Lorenzo, e o teve em 2003. Afastou-se do cargo no governo e passou a viver numa villa, em Roma.
— Quanto dinheiro ele deixou para ela? — Ethan perguntou bruscamente.
— Cerca de 50 milhões de dólares.
Deu uma risada de escárnio.
— É muito menos do que ele deixou aos filhos legítimos, e muito mais do que um bastardo merece ganhar.
— Ele continua sendo seu meio-irmão — advertiu Fauntleroy.
— O que houve com a mãe dele? — indagou. Achou que havia um propósito oculto por trás de tudo aquilo. Fauntleroy não pediu que ele fosse ali apenas para contar aquilo e destruir toda a imagem que tinha de seu pai.
— Faleceu — ele disse simplesmente. O menor notou um certo pesar em sua voz, como se estivesse se lamentando. — O testamento dela pedia que, se algo acontecesse a ela, o menino fosse mandado ao parente mais próximo vivo. Mas todos os parentes dela faleceram desde então.
Ethan sorriu meigamente.
— Que conveniente. Eu e Nicholas somos os últimos parentes vivos dele.
— São.
Ele passou a brincar com os próprios dedos distraidamente.
— Você quer que eu tome a guarda dele.
Fauntleroy suspirou novamente.
— Sabe, Ethan… quando você quis tomar a guarda do seu irmão, fui contra isso, pessoalmente. Não acreditei que fosse capaz de criar um adolescente sendo você também um, muito menos com uma quantia de dinheiro tão grande em mãos. Mas assim você o fez e provou que minha opinião estava errada. Não vou mentir, quero que você faça isso. Lorenzo é cego e embora possa entender quase tudo, não fala nosso idioma. Não se engane. Ele nunca será adotado.
Ethan olhou de relance para ele, sem expressar um único sentimento.
O advogado continuou falando:
— Fui amigo de seu pai antes do acidente, e prometi a ele que cuidaria de Lorenzo da melhor forma que conseguisse se ele e Antonella falecessem. E assim eles o fizeram, e assim estou fazendo.
— Acha mesmo que eu sou o melhor para ele?
— Não. — Fauntleroy sorriu amavelmente. — Deve haver centenas de outras pessoas melhores e mais aptas a cuidar de uma criança. Escolhi você porque nenhuma delas está disponível.
Ele o estava manipulando, tocando no orgulho de Ethan para que ele fizesse o que queria. Não estava errado em fazê-lo, Charles Lemnsack fora exatamente igual. Orgulho era seu ponto fraco, assim como o de Ethan. Não duvidava que ele tivesse consciência de que estava sendo manipulado, mas o orgulho falaria mais alto.
E assim ele o fez.
— Vou passar um tempo com ele — murmurou, quase tão baixo que Fauntleroy mal o ouviu. — Um mês, no máximo. Vou ver como ele se comporta.
John Fauntleroy suspirou de alívio. Certamente, comportamento não era um problema. Lorenzo era tão quieto e tímido que às vezes se esquecia de que ele estava ali.
— Lorenzo! — chamou-o.
O menino saiu da antessala e ficou prostrado na porta, com a cabeça virada para o advogado. Ethan achou incrível que ele soubesse de onde viera a voz.
— Sì? — ele falou.
— Ethan vai cuidar de você, daqui por diante.
— Tutto bene — ele respondeu. Ethan não sabia o que significava. Segurou uma das mãos pequenas dele e surpreendeu-se ao ver como era fria.
— Lorenzo — Ethan falou do modo mais meigo que conseguiu e a criança olhou para ele, mesmo sem propósito, levantando as sobrancelhas. — Gostaria de ir morar comigo por um tempo?
Ele franziu o cenho.
— Sì. — Por algum motivo, o modo como falou fez Ethan se sentir idiota, como se a resposta fosse muito óbvia. E então percebeu por quê: Lorenzo simplesmente não tinha escolha. Estava acostumado a obedecer.
Ethan pegou a mala com os poucos pertences do meio-irmão, uma Louis Vuitton carmesim de mão com detalhes dourado e as iniciais LB grafadas na mesma cor. Perguntou-se estupidamente por que Lorenzo estava usando um terno e se ele teria alguma roupa além daquela.
Entrou no táxi e guiou-o pelo caminho, observando fascinado o menino tatear praticamente todo o trajeto até estar ao lado dele, colado.
— Então… — murmurou. A situação toda era tão estranha que não parecia estar acontecendo de verdade — você consegue me entender? Isso é, entender o que estou falando?
Lorenzo assentiu, olhando fixamente para frente, sem mexer um músculo a não ser os do pescoço.
— Você sabe que eu sou seu irmão, não sabe? — Ethan perguntou.
Dessa vez, ele levou algum tempo até assentir novamente.
— Você… — o menor murmurou lentamente, como se tivesse medo de errar — é… ahn… figlio di mia madre?
O sotaque dele era tão forte que Ethan levou algum tempo para entender.
— Não — respondeu por fim. — Sou filho do seu pai.
Lorenzo arregalou os olhos cegos e virou a cabeça para ele. Ethan prendeu a respiração. Aqueles olhos cinzentos eram intimidadores, de certa forma.
— Lo conosci? — indagou exasperado. Novamente, Ethan não sabia o que significava.
— Está perguntando se eu o conheço?
Lorenzo assentiu.
— Conheci — respondeu, melancólico. — “Ou pensava que o conhecia.” Ele faleceu há uns três meses.
E então, pela primeira vez desde que o vira, Ethan sentiu pena dele. Acabara de perder a mãe, estava num país cujo idioma não falava, com pessoas que não conhecia, esperando o que lhe viesse a acontecer, e provavelmente queria saber sobre o pai, se estava vivo ou não. E não estava. O mais irônico era que, se ele estivesse, Ethan e Lorenzo não estariam ali, tendo aquela conversa. Talvez nunca tivesse conhecido Gabriel nem feito amor com seu irmão, e Lorenzo estaria na Itália.
— Oh — o menor murmurou, voltando a encarar a frente do carro, silencioso e taciturno como um gato. — O que vai acontecer comigo?
Ethan imaginou que conseguia dizer aquela frase com perfeição porque já a fizera antes, e imaginou também se conseguira uma resposta satisfatória. Mas não a tinha, por isso ficou calado. E agradeceu que Lorenzo não tivesse perguntado de novo.
Pensou em Nick.
“Como eu vou fazer ao chegar em casa? Oi, maninho, trouxe outro irmão para morar conosco, que tal?”
O táxi parou em frente ao prédio e Ethan pagou ao taxista, puxando Lorenzo cuidadosamente pela porta, já que ele não conhecia o ambiente.
— Me dá, deixa que eu carrego isso. — Pegou a pesada mala que a criança carregava, puxando sua mão em direção ao portão pequeno. — Cuidado, tem escadas.
Lorenzo parou quando a ponta de seus sapatos atingiu a base do primeiro degrau. Colocou o pé em cima deste, primeiro o direito, depois o esquerdo, e repetiu o processo até subir à fachada, mecanicamente e com uma simetria assustadora.
— Quattordici — ele disse ao chegarem ao topo.
— Como? — Ethan indagou, franzindo as sobrancelhas.
— Quattordici — Lorenzo repetiu e apontou vagamente para os degraus que se aprofundavam sob eles até a calçada. Então Ethan percebeu que se referia a eles.
— Catorze — traduziu lentamente. — São catorze degraus.
— São catorze degraus — repetiu, devagar, o sotaque atravessando cada sílaba como uma navalha sobre a pele. — São catorze degraus — disse sem nem tanto sotaque. E então sorriu e seus olhos adquiriram brilho, como se todas as respostas da vida tivessem aparecido diante de seus orbes mortos.
Por algum motivo, Ethan sentiu-se feliz. Passou o dedo indicador em sua bochecha direita e só então percebeu como ele se parecia com Nick, as feições delicadas e levemente femininas que deve ter puxado da mãe o tornavam meigo e, quando sorria, até mesmo simpático. Quando não sorria, parecia que toda a tristeza do mundo lhe caía sobre os ombros. Exatamente como Mary. “Seriam Antonella e Mary Alice tão parecidas assim?”, pensou Ethan. O cabelo preto, o nariz e os lábios vieram de Charles Lemnsack decerto.
— São catorze degraus — Ethan repetiu por fim, sorrindo. Por algum motivo, pegou Lorenzo no braço esquerdo, já que o direito segurava a mala. O menino era tão pequeno que o esforço não foi muito. — E até a cobertura tem mais uns mil, então vamos andando.
Lorenzo riu e enrolou o braço direito no pescoço do irmão para se equilibrar.
Passaram pelo portão e chegaram ao hall do prédio rumo ao elevador. Mas a essa altura, Ethan estava tão cansado que se sentou no sofá do recinto para esperá-lo. Ofegava. “Quando eu virei tão sedentário que não consigo andar menos de vinte metros com vinte e cinco quilos num braço e dez no outro? Eu carregava Nick por aí o tempo todo, e ele é só três anos mais novo que eu… Droga, esqueci dele. Tomara que ele não esteja nu quando chegarmos lá. Mas Lorenzo é cego. Às vezes me esqueço disso.” Olhou para o lado e viu uma curta menção de sorriso no rosto branco como mármore do menino. Sorriu também.
O hall nada mais era do que uma sala de espera retangular, o piso de mármore branco pouco contrastando com as paredes da mesma cor, com leves detalhes verdes-escuros. Havia dois sofás de três lugares paralelos um ao outro e três poltronas, todos cor de creme. As grandes janelas retangulares deixavam entrar a luz do Sol, iluminando o recinto. Ao fundo do hall, duas portas metálicas indicavam as entradas dos elevadores.
Foi aí que uma senhora adentrou no lugar e sentou-se no sofá em frente ao de Ethan e Lorenzo. Ethan nunca a tinha visto antes no prédio. Tinha provavelmente 40 anos ou quem sabe até mais. O cabelo louro cacheado com mechas um pouco mais escuras caía por seu dorso até pouco antes da cintura. Não era natural, como o de Nick, dava pra perceber. A cor era muito forte e as raízes escuras já apareciam, e estava ligeiramente desidratado. As rugas na testa nua e rosada denunciavam a idade. O formato do rosto variava entre o redondo e o triangular, dependendo do ponto de vista. Usava roupas escuras, uma blusa de seda negra com um leve decote ornamentado com babados discretos e uma calça jeans cinza. Parecia ser simpática, mas não percebeu a presença de Ethan e Lorenzo no sofá logo em frente, como se sua mente estivesse longe. Os olhos puxados davam-lhe um olhar de pantera e, ao mesmo tempo, angelical.
Anjo, foi a primeira palavra que Ethan pensou quando a viu.
“Eu nunca a vi aqui”, pensou logo em seguida, enquanto via a mulher enfiar um cigarro na boca e acendê-lo.
— Ah… senhora? — Ethan indagou, torcendo o nariz, meio tímido. Ela olhou para ele com olhos azuis e ao mesmo tempo verdes, e arregalou-os, como se tivesse acabado de perceber que eles estavam ali. Sentiu Lorenzo se encolher a seu lado. — É… é proibido fumar aqui… aqui dentro.
Ela demorou um pouco para esboçar qualquer reação, sua face neutra. Mas pensava algo, Ethan percebeu.
Então sorriu meigamente.
— Desculpe, querido — murmurou, enquanto guardava de volta o cigarro e o isqueiro. — Não vi que estava aí. — Ethan assentiu e olhou discretamente para o indicador do elevador. Ele ainda estava no décimo terceiro andar. — A propósito — Ela se inclinou para frente, estendendo elegantemente a mão que já começava a se enrugar —, meu nome é Angie. Angie Nevarnost.
— “Que apropriado.” Meu nome é Ethan Lemnsack. — Apertou-lhe a mão e virou para o irmão que se mantivera quieto até então. — E esse é Lorenzo. Aperte a mão dela, Lore.
Assim ele o fez, as sobrancelhas franzidas todo o tempo. Como se desconfiado.
— Você é adorável — Angie disse, referindo-se ao menor, que se ajeitou desconfortavelmente no sofá.
— Grazie — respondeu.
— A senhora mora há muito tempo aqui? — Ethan perguntou, sinceramente curioso.
— Eu e meu marido compramos o apartamento logo abaixo do seu um tempo após a família que morava lá antes se mudar.
Ethan se lembrava disso. Foi quando saíra do hospital após ter um colapso nervoso, viu um caminhão de mudanças do lado de fora do prédio e descobrira que os Applewhite estavam se mudando. De repente, sentiu-se envergonhado de nunca ter reparado na família que se mudara para o apartamento logo abaixo do dele.
Para sua surpresa, Lorenzo falou.
— Como… — Pensou um pouco — como sabe que… mora abaixo dele?
Ethan viu a expressão de Angie mudar para a mesma de pedra que vira há momentos atrás. Então ela sorriu de novo.
— Ora, todo mundo sabe que Ethan Lemnsack mora na cobertura.
E Ethan sentiu-se ainda mais envergonhado.
O elevador atingiu o térreo e as portas abriram-se.
— Precisamos ir — apressou-se em dizer. — Foi um prazer conhecê-la.
— Igualmente — ela respondeu serenamente, olhando de soslaio para Lorenzo, que mantinha as sobrancelhas franzidas.
Ethan entrou na caixa de metal com o irmão e a mala. De certa forma, sentiu-se aliviado. Não sabia por que, mas conversar com desconhecidos sempre o deixava nervoso.
— Non gosto dela — o menor disse repentinamente.
Ethan olhou para o irmão, tão pequeno. Faltava pelo menos um palmo para ele chegar a seu pescoço. No entanto, a certeza do que dissera era tanta que o fazia parecer inevitavelmente maior.
— Por quê? — perguntou.
— Como se fala… — Abriu a boca e apontou para ela.
— Boca? — chutou. — Garganta? Ahn… voz?
— Sì, voz. A voz dela.
— Não gostou dela… por causa da voz?
— Non — e disse isso de tal modo que fez Ethan se sentir estúpido. — Ela mente.
— Você acha que ela estava mentindo? Sobre o quê?
— Saber que mora abaixo de voi.
As portas do elevador abriram-se, revelando um corredor longo, totalmente decorado em branco, acarpetado em vermelho. Uma única porta de madeira marrom prostrava-se imponente em seu fim.
— Bom, admito que foi um pouco estranho que ela soubesse disso, mas as pessoas sabem que eu moro aqui.
— Perché?
— Porque sou uma subcelebridade — disse amargamente. E mais amargura estava por vir. Agora precisava contar sobre Lorenzo a Nick. — Vamos indo.
Abriu a porta com as chaves e, graças a Deus, encontrou a sala vazia. Uma atmosfera abandonada abocanhava o lugar como uma presa, mas sabia que Nick provavelmente estaria ou em seu quarto ou no de Ethan.
— Sente-se aqui — disse ao irmão, guiando-o até o sofá em forma de L. — Eu volto já, já.
Nicholas Hentz estava deitado de bruços, usando apenas uma cueca branca, na cama do irmão, com o rosto enfiado numa coleção de revistas de fofoca que colecionava avidamente. Ethan sabia que os dois estampavam as capas de cada um dos exemplares.
— E aí — ele murmurou, sem desviar os olhos de tão culta leitura. — Trouxe algo pra mim?
Ethan não conseguiu deixar de rir.
— Na verdade, trouxe sim.
Nick não respondeu, pareceu esquecer que o irmão estava ali. Ethan pegou o monte de revistas e arrancou da cama e da vista do loiro, arremessando tudo no chão.
— Ei! Eu estava lendo isso!
— Você chama isso de leitura? Sente-se, preciso te contar algo.
— Que foi?
E então, uma voz fina e ecoou pela casa, chamando a atenção dos dois.
— Ethan?
Este respirou fundo e tentou ignorar a expressão de Nick, gritando de volta:
— Sim?
— Posso… tirar o… os… sapatos?
— Pode!
Voltou a encarar o irmão, que o olhava calma e inquisidoramente ao mesmo tempo.
— Nick — Ethan disse. — Nós temos que conversar.
— Aposto que sim.
E então Ethan contou. Desde de quando chegara ao escritório de John Fauntleroy até então. Deixou o fato de Lorenzo ser cego por último, e decidiu omitir o fato de que os segundos nomes dos dois eram o nome da amante de seu pai, sabendo que Nick demoraria para perceber isso. Sua expressão estava tão dura durante todo o relato que parecia uma fotografia.
E quando terminou, a única coisa que Nicholas disse foi:
— Ele tem direito a participação na herança? — E o mais velho ficou horrorizado.
— Nicholas!
— Responda.
Ele suspirou.
— Só a parte que nosso pai deixou.
— Que foi de…?
— Mais ou menos 120 milhões de dólares.
— Isso então dividido em três é… — Pensou, pensou e pensou mais um pouco. Por fim, Ethan respondeu:
— 40 milhões. Isso mais a herança que foi deixada para ele pela mãe, dá uns 90 milhões, mais ou menos.
— Que ótimo, dinheiro suficiente para viver o resto da vida muito bem. Agora livre-se dele.
Não sabia por que se dera o trabalho de responder, mas respondeu mesmo assim.
— Não vou fazer isso porque não posso, e mesmo se pudesse não o faria. Ele é nosso irmão.
— Ele é um bastardo. É ilegítimo. — E fez um bico tão irritantemente teimoso que Ethan pensou que fosse bater nele de novo.
— Esse termo é moralista. E nós dois não somos exatamente as pessoas mais politicamente corretas do mundo, não é? Maninho? — A malcriação de Nick já o estava irritando.
O menor grunhiu.
— O que você quer que eu faça? Abra as portas da nossa vida para mais uma pessoa?
— Quero que você o conheça. Ele é um ótimo garoto.
— E você o conhece há quanto tempo? Uma hora?
— Meia hora. E sabe de uma coisa? Ele é mais maduro que você.
— Ele tem oito anos! Ele pode virar um serial killer quando crescer.
— A única pessoa que vai cometer assassinatos aqui serei eu se você não for até a sala agora!
Nick cruzou os braços e virou para o lado oposto, teimoso como sempre.
Ethan decidiu utilizar de outra tática.
— Vem cá — Puxou-o pelo quadril e o fez sentar-se em seu colo. Beijou-lhe a nuca e desceu pelo pescoço aos beijos e chupões. A pele salgada era saborosa a seus lábios Lentamente, sentiu o corpo menor relaxar. — Nicholas, Lorenzo não tem ninguém. Ele perdeu todo mundo da família dele. Ele é uma criança cega sozinha no mundo. Por favor… — Mordeu-lhe o ombro levemente e sentiu-o estremecer — apenas conheça-o. “Amoleça esse coração de pedra.”
— Eu não sei… — Nick gemeu de leve. — Você tem ideia de que provavelmente um paparazzo fotografou você chegando ao prédio com ele?
— Tenho.
— E que essa história vai logo ser sabida por todo mundo?
— Tenho.
— E que a pressão que a sociedade vai fazer em você para que tome a guarda dele vai acabar fazendo você fazer exatamente isso?
— Tenho.
— Ótimo. Não vou saber lidar com isso.
— Ele também não vai saber lidar com o fato de que o meio-irmão dele é a maior vadia da prestigiada Academia Alphonse Enoi, mas tenho certeza que vai tentar.
— Vadia é você. — Calou-se por alguns momentos e depois disse: — Onde ele ficaria?
Ethan crispou os lábios.
— No meu quarto. Eu… ficaria no quarto dos nossos pais.
Nick resmungou de desdém. O quarto dos pais de ambos estava praticamente lacrado há vários meses, haviam se livrado de cada pertence dos dois e até mesmo dos móveis. Eram muitas lembranças. O recinto branco agora não passava de uma tumba de fantasmas do passado.
— No quarto… dos nossos pais — o loiro disse acusadoramente.
— Pare com isso — retorquiu irritado. — Não podíamos ficar com ele lacrado para sempre, pelo amor de Deus.
— Eu quero seu quarto.
— O quê?
— Se vai sair dele, eu o quero. É maior que o meu.
— Já disse que você é a pessoa mais egoísta que já conheci na vida?
— Já, mas é sempre bom lembrar.
— Ah, ótimo, que seja, ele fica no seu.
— Ótimo.Agora vamos acabar logo com isso.
— Coloque uma roupa.
— Pra quê? Ele é cego.
— Mas pode ter certeza que vai notar que você está só de cueca.
— Como…?
— Não pergunte, apenas coloque.
Enquanto o irmão se vestia, Ethan voltou à sala onde encontrou Lorenzo sentado imóvel com os pés descalços, os sapatos estranhamente alinhados às listras do tapete. Sentou-se ao lado dele, que murmurou:
— Voi… discutere…
— Vocês discutiram — Ethan traduziu de volta, sentindo-se subitamente cansado. — Nós discutimos. E não foi por culpa sua.
— Foi… sì.
Ethan olhou para o menor e teve a impressão de estar conversando com alguém muito mais velho. Onde fora parar a infância dele?
— Como era a sua escola? — perguntou. Lorenzo balançou a cabeça negativamente. — Você não ia à escola? — Ele balançou a cabeça de novo. — Você estudava em casa? — Dessa vez, assentiu. Ethan sorriu. — Sabe, eu e Nick estudamos numa escola muito legal que fica perto daqui, dá pra ir andando. Gostaria de estudar lá?
Deliciou-se vendo a expressão de felicidade aparecendo no rosto infantil.
— Sì! Eu… gostaria. — E abraçou o irmão. Naquele momento, enquanto retribuía o aperto de seus braços finos, teve certeza de que Nick acabaria por gostar dele.
O loiro chegou à sala com uma calmaria tão assustadora que sequer Lorenzo notou sua presença. O sorriso extremamente largo e forçado que fazia deu a Ethan um mau pressentimento. Por um segundo, deu graças a Deus que Lorenzo fosse cego, para depois se amaldiçoar por isso.
— Olá — Nick disse polidamente.
Lorenzo franziu as sobrancelhas de leve, depois sorriu. Ethan prendeu a respiração.
— Ciao. — E estendeu a mão.
— Como vai? — Nick indagou sorridente, cumprimentando-lhe. A falsidade que envolvia a alegria presente em sua voz era tão clara que até Ethan notou. “Ele sabe que Nick o odeia”, pensou.
— Bene. — Lorenzo deixou de sorrir.
Nick, por sua vez, ajoelhou-se a seus pés e deu o sorriso mais verdadeiro que conseguiu. Ethan se perguntou se era aquele que usava para enganar garotas. Lorenzo seguiu seu olhar.
— Você é adorável, sabia? — indagou, crispando os lábios. Segurou o queixo fino com a mão direita e levantou o rosto levemente. — Tem o mesmo nariz e lábios que eu e Ethan.
— Grazie — ele respondeu, desvencilhando-se da mão do meio-irmão o mais gentilmente que pôde.
A energia negativa que pairava entre os dois era tão intensa que Ethan começou a se sentir mal. Por quem, não sabia dizer.
— E então — Nick continuou dizendo —, o que acha do nosso país? Não é lindo? Ah, é, sinto muito, você não pode ver…
— Nicholas!
— Que é?
— Posso — Lorenzo disse, interceptando a conversa dos dois, que o fitaram. — Posso ver. Você. Se sente.
Nick olhou para Ethan e depois para Lorenzo, que permanecia sem expressão alguma. Lentamente, sentou-se a seu lado. O menino virou-se para o loiro e ergueu as mãos. Nick involuntariamente fechou os olhos quando sentiu a frieza das mãos pequenas tocando-lhe a face quente. Lorenzo primeiro tocou suas bochechas, depois foi para seu queixo, os polegares sentindo cada centímetro de pele branca e lisa. Subiu para os lábios e então o nariz de Nick e depois tocou a região abaixo dos seus olhos, as maçãs do rosto e então a nuca. Voltou para as pálpebras e então as têmporas, passando a mão pela testa. Terminou na raiz dos cabelos.
Virou-se para Ethan e fez exatamente a mesma coisa, com os mesmos movimentos. Ao contrário do irmão, não fechou os olhos, preferindo fitar os orbes cinzas de Lorenzo. Sentia-se despido perto dele. Seu olhar parecia atravessar-lhe a alma.
Quando terminou, Lorenzo repousou as mãos nos joelhos e murmurou:
— Voi são… ahn… dif… dife…
— Diferentes — disse Ethan. Lorenzo assentiu.
— Diferentes. Voi são diferentes. Um do outro. Ma são igual… iguais. A mim.
Ethan olhou para Nick, que observava Lorenzo sem expressão. Passaram um tempo em silêncio até que o loiro disse algo que fez o maior realmente sentir uma vontade intrínseca de bater nele.
— Deve ser porque sua mãe era amante do nosso pai.
Ethan pulou do sofá e agarrou o braço de Nick, puxou-o bruscamente e arrastou-o de volta ao quarto, sem ter coragem de olhar para Lorenzo. Bateu a porta, sem soltar o braço do irmão.
— Você tá me machucando — reclamou.
— Você acha? — Jogou-o bruscamente na cama. Provavelmente havia machucado seu quadril no processo, mas Ethan descobriu que não ligava. Vê-lo ali, indefeso como uma criança cega que acabara de perder os pais, só o enfureceu mais.
Nick, pessoalmente, ficou aterrorizado.
— D-desculpa, Ethan. — Mas não foi suficiente.
— Faça isso de novo — disse Ethan — e eu deserdo você.
OoO
“Aquele sacaninha está destruindo a minha vida”, pensou Nicholas Hentz, sentindo espasmos quando Maddison colocou seu pênis em sua boca. Diziam que o boquete dela era melhor do que a penetração em si. Nick discordava. “Se isso for verdade, arrumei a pior transa dos últimos tempos. Quem diria que a filha de uma cafetina chupava tão mal.”
Decidiu apressar as coisas e deitou-a, enfiando a cabeça loura entre suas pernas. “Não acredito que estou pensando em Lorenzo enquanto faço oral numa garota. Que é que há comigo?” Enfiou a língua em seu clitóris e passou a brincar com ele. A garota se contorcia, excitada.
O sinal indicando o início das aulas ia tocar logo. Era melhor acabar logo com aquilo.
Subiu seu corpo esguio usando nada mais que a língua, chupando cada pedaço de pele cor de café. Enfiou a língua no umbigo e rodeou-lhe os mamilos. Ela era muito alta para ele, então seu rosto ficou espremido entre os seios enormes enquanto a penetrava.
“Por que é que quando minha vida parece estar legal, algo vem e muda tudo? Deus, eu odeio mudanças. Tinha saudades de quando apenas eu fodia com o meu irmão. Ele é melhor do que qualquer menina. Aquele pau me leva à loucura. A bunda dele também. Aliás, ele todo.”
Teve que morder o lábio inferior para não gozar gritando o nome de Ethan.
— Gostou, querido? — Maddison indagou. Nick estava ocupado demais dando um nó na abertura da camisinha para se preocupar em responder.
Levantou a cabeça e sorriu inocentemente.
— S-sim — gaguejou e então baixou a cabeça envergonhadamente. — Podemos… fazer de novo outro dia? — E levantou-a novamente, os olhos úmidos e pidões como os de um gato.
— Claro que sim, meu amor. — Nesse momento, o sinal tocou. Nick se despediu e foi para a sala.
“Agora, o outro problema.”
Luca Granelli era a única pessoa presente no recinto, coisa que Nick agradeceu mentalmente. O menino de olhos cor de água sorriu quando o viu, e Nick beijou-o demoradamente nos lábios, apenas um selinho, mas que estremeceu Luca de cima a baixo.
— Eu senti sua falta — Luca disse com uma sinceridade tão evidente que, por um momento, Nick sentiu pena dele.
— “Foda-se ele, já está provado que eu não valo nada mesmo.” Também senti sua falta, guri… — Voltou a beijá-lo e desceu as mãos até sua cintura. Luca estremeceu.
— Alguém… pode nos ver.
Nick sorriu meigamente.
— É verdade. Desculpe-me. Vamos fazer assim, quando terminarem as aulas, vamos ao Corredor.
— No Corredor? — Ele pareceu subitamente apreensivo.
— O que foi? — Nick indagou, uma menção de zombaria em seu sorriso. — Você já fez isso, não fez?
— N-não — ele respondeu, baixando a cabeça. — Nunca fiz.
— Que ótimo — Nick comentou, colocando o braço em volta do pescoço de Luca. — Porque eu já fiz mais vezes do que você vai fazer em toda a sua vida, então vou ser bem gentil com você. — Mordeu-lhe a orelha.
Luca Granelli estremeceu e sorriu, feliz.
— Tudo bem.
— Obrigado, meu amorzinho. — O beijou. — “Espero que quando Lorenzo crescer, ele seja completamente diferente de mim.”
O tempo passou e o intervalo chegou. Nick ficou na sala, pensando se o que pretendia fazer realmente era a coisa certa. “Bem, certa não é, mas que vai me beneficiar, vai sim.” Então as aulas acabaram. Nicholas foi primeiro a ir, sendo seguido por Luca alguns minutos depois. Isso foi ideia deste último, irem separadamente para não levantarem suspeitas. Ele apenas esqueceu que durante qualquer intervalo de aulas, o Espaço fica cheio de gente que sabe que o que todos que entram no Corredor pretendem fazer.
De qualquer forma, concordou com ele.
Quando Luca chegou ao Corredor, Nick estava propositalmente se masturbando. Ficou automaticamente vermelho quase que da cabeça aos pés, como Nick sabia que ficaria.
— Vem cá — disse, levantando-se e desamarrando o nó da calça dele.
Tirou sua cueca e apertou a carne de suas nádegas com força, deixando as marcas vermelhas das mãos. Arrancou sua camisa e apreciou o corpo pálido e excitado a sua frente.
— Fique de quatro — mandou.
Luca acatou, hesitantemente. O chão áspero de cimento arranhava seus joelhos e seus braços, mas queria realmente excitar Nick.
Este, por sua vez, procurava algo dentro da própria mochila. Tirou de lá um objeto comprido e roliço, branco e relativamente grosso.
— Sabe que eu sempre quis usar isso em alguém? — Nick disse. Luca estremeceu. — Acredite, vai ser melhor eu enfiar isso em você agora. Se não, você vai morrer de dor.
— T-tudo bem.
Nicholas envolveu o vibrador numa camisinha e chupou-o de cima a baixo. A visão de seus lábios molhados descendo pela extensão branca fez Luca gemer.
Posicionou-se atrás dele e encostou a ponta do vibrador na entrada do menino e começou a empurrar. Luca gemeu e contraiu os músculos.
— Relaxe — ordenou, numa voz fria como gelo. — Ou nunca vai entrar.
Assim ele o fez. Nick continuou empurrando até chegar ao fim, marcado por um suspiro de alívio de Luca. A seguir, sem nenhum aviso, ligou a máquina.
Luca reprimiu um grito de prazer.
— É bom, não é? — Nick indagou, mordendo sua orelha. A visão de Luca Granelli completamente nu, de quatro, gemendo com um vibrador era, no mínimo, patética. Era o que precisava. — Aproveite. Espere um pouco, minhas camisinhas acabaram, vou pegar mais com alguém.
— Não, espere… Ahhhh…! Não me deixe aqui. — Sua face possuía um tom de desespero misturado com dor e prazer.
— Ninguém vai vir aqui — e disse isso de modo tão calmo que Luca realmente relaxou. — Te prometo, guri, ninguém vai vir aqui. Temos regras nessa escola, e uma delas é que se você deixa o portão do Corredor fechado, ninguém pode entrar nele. Só vou pegar camisinhas. Eu volto já, já. — Acariciou o cabelo dele e beijou-lhe a testa suada. — Confie em mim. Amo você.
Levantou-se. Quando saiu do campo de visão de Luca, pegou suas roupas jogadas no chão, inclusive a cueca do menino, e enfiou-as dentro da própria mochila, lentamente, sem fazer barulho. Quando saiu do Corredor, fez questão de deixar o portão aberto.
Ao chegar ao Espaço, avistou logo um grupo de meninas um pouco mais velhas que ele próprio que conversavam animadamente. Aproximou-se.
— Senhoras. — Sorriu. — Gostariam de ir pro Corredor com o Luca Granelli? — Viu a vontade nos olhos delas como lobas famintas. — Podem ir. Ele está lá. Sozinho. — Piscou o olho e afastou-se.
Repetiu o processo com pelo menos uma dúzia de garotas diferentes antes de sair em disparada pelo portão principal. Apesar do costume de ir com Ethan, duvidava que o irmão estivesse afim disso. Ele próprio não estava.
Aliás, Luca Granelli dominava seus pensamentos.
“Ah, Luca… que Deus me perdoe. E quem sabe você também, algum dia. Mas sabe… seu maior erro foi, um dia, ter se apaixonado por Nicholas Hentz.”
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