Como Vivem Os Anjos
71 Um Pacato Dia de Calor (B*Ô*N*U*S)
Notas iniciais
Cameron Pearl detestava dias quentes como aquele. As lufadas quentes de ar, o suor grudando no corpo e o ar-condicionado da sala de aula simplesmente não sendo capaz de aplacar o calor deixavam-no maluco e indisposto.
A professora passava uma matéria qualquer no quadro e, contrariando seu hábito de copiar, estava com o corpo largado na carteira observando a briga entre duas pequenas moscas na janela, sem nem mesmo se dar ao trabalho de abrir o caderno que havia tirado da mochila. Não tinha forças para fingir interesse.
Talvez devesse ter se atualizado nas fofocas do primeiro ano como todo o resto da Lexington para ao menos ter algo interessante sobre o que pensar. Algumas garotas falavam sobre a formatura do quarto ano que aconteceria em junho e que prometia ser boa, seria a formatura de Ethan Lemnsack. Outras falavam sobre… um avião? Não importava.
Cam estava tão indisposto que quando chegara havia apenas entrado na sala e se atirado na carteira.
Tocou no caderno para guardá-lo, já que não estava fazendo uso, quando um grito estridente desmanchou a rotineira monotonia escolar e todos os alunos explodiram em conversas paralelas.
Isso foi… Hentz? Nicholas Hentz?, reconheceu. Outras pessoas também tinham reconhecido e agora todos cochichavam. Pensando bem, já estavam cochichando antes do grito e com aquele mesmo tom de alarme.
De um salto, procurou alguém que parecesse ter a informação que queria. Puxou o braço de uma menina e perguntou:
— Ei, LeVaux, o que está acontecendo? Por que estão todos cochichando?
— Pearl, você não tem celular? Não viu os noticiários? Um avião da Alemanha a meio caminho de Middleland caiu com um monte de figurões dentro. Eu ouvi que o pai de Taylor Winthrop estava lá e, aparentemente, os pais dos Hentz também. Imagino que a reitora tenha acabado de contar aos dois, já que…
Cam sentiu as pernas fraquejarem com a notícia. Não conseguiu mais ouvir o que a garota estava falando.
Nicholas Hentz, órfão? Simplesmente não soava como algo certo.
Virou-se para a porta e amontoou-se junto com a metade da sala que tentava invadir os corredores, tentando forçar a porta de passagem única a permitir a travessia de mais de cinco estudantes por vez.
Acotovelou-se por entre os alunos e, com certa dificuldade, conseguiu chegar à grande janela que dava para o Campo Verde, o campo gramado onde as unidades do ensino médio da Academia Lexington se encontravam. Havia uma tensão a sua volta, com os alunos murmurando e comentando a notícia com ares solenes, mas também tentando chegar à janela graças a uma primitiva curiosidade, quase involuntária, de ver de onde viera aquele grito aterrorizado.
Grudou-se ao vidro grosso da janela e ali ficou, pressionado por dezenas de estudantes curiosos.
Não precisou esperar muito, pois alguns minutos depois, avistou Ethan Lemnsack, o irmão mais velho de seu colega arrastando-o à direção da saída pelo braço, o garoto loiro como um anjo quase tropeçando por atrás.
Dissera colega? Ex-colega.
Os comentários explodiram com maior entusiasmo e as vozes se elevaram, alguns comentando a tragédia, outros comentando a aparência abatida de Nicholas, que ainda chorava, mas todos atentos aos irmãos passando pelo Campo Verde.
Sentiu pena de Nicholas. Queria poder pegar o celular e passar uma mensagem, perguntando como estaria se sentindo, mas depois da separação que sofreram era capaz de receber uma resposta atravessada, ou pior: ser completamente ignorado. Isso doeria mais do que um comentário maldoso.
Então tudo o que fez foi assistir impotente àquela marcha patética pelas dependências da escola até que, abruptamente, os dois pararam na frente do prédio e pôde ouvir as palavras ditas por Lemnsack chegarem quase baixas demais para serem ouvidas através do basculante acima da janela imensa:
— A não ser que você queira que eu te carregue nos braços como um bebê, pare de chorar como um. Você é um Hentz. Aja como tal.
Nicholas, talvez chocado demais com isso, parou de chorar.
Cam nunca havia imaginado que Lemnsack seria tão forte e decidido, muito menos que falaria de um jeito tão duro com o irmão mais novo. Ele era introvertido, quase poderia se dizer invisível e sem importância real na escola, mesmo compartilhando o mesmo sangue e sobrenome de Nicholas, que era justamente o oposto: extrovertido, popular, carismático. Seria difícil não notá-lo, na verdade.
Mas o jeito com o qual Ethan estava lidando com a morte dos pais parecia realmente maduro. Seu coração deu uma breve acelerada, mas foi tudo o que aconteceu. Talvez fosse melhor que não estivesse falando com Nicholas, não saberia mesmo como consolá-lo em um momento tão delicado. Não sabia nem se eles tinham parentes que pudessem tomar suas guardas.
Os professores aos poucos conseguiam recolher seus estudantes, que foram perdendo interesse na cena à medida que os irmãos se afastaram do prédio, ainda rumo à saída da escola, mas Cam ficou um pouquinho mais, até ser um dos últimos ainda fora de aula.
Se concentraria menos ainda nas explicações trigonométricas da professora agora que havia presenciado aquela cena. Só lhe restava sentar na carteira o mais quieto possível até que o sinal batesse, o que não seria difícil agora que estava tão absorto em reflexões sobre a vida e a morte.
Quando chegou em casa àquele dia, sua mãe estava terminando de fazer o almoço e o cumprimentou com os braços sujos até os cotovelos de pedaços de verdura e molho. Em geral, seu pai cozinhava melhor do que a mãe, mas nem sempre ele conseguia voltar para casa para preparar o almoço e, naquele dia, estava em uma viagem de negócios.
Largou a mochila aos pés da própria cama e jogou-se nela, ligando o ar-condicionado preguiçosamente, e ficou ali imóvel, esperando a mãe avisar que o almoço estava na mesa e o ar-condicionado esfriasse; o que acontecesse primeiro era lucro.
Ainda estava com a cena de mais cedo na escola fresca na memória, mas de alguma forma havia conseguido empurrar sua importância para o subconsciente. Agora mais preocupado em como arranjaria energias para fazer o dever de casa de Física naquele clima intenso. Se tinha uma matéria que, de fato, ameaçava puxá-lo para uma reprovação, essa era Física.
O ar-condicionado começou a dar o efeito desejado, resfriando aos poucos o quarto abafado, transformando-o num santuário gelado particular. Cam relaxou o corpo na cama, o mau-humor dissipando lentamente e, sem perceber, quase caiu no sono. A batida na porta e a voz da mãe anunciando que o almoço estava pronto o puxaram de volta ao presente.
Levantou-se da cama e deixou o quarto fechado com o ar ligado enquanto ia para a sala de jantar e sentava à mesa com a mãe. Ela comeu apressada porque teria que sair em meia hora para voltar ao trabalho. Sua mãe trabalhava na administração de um dos hotéis Lancaster na Califórnia e rumores diziam que a família vinha para Middleland logo, logo. Estavam ficando loucos.
Cam apreciava a tentativa dos pais de estarem mais presentes em sua vida. Tudo bem que algo ruim havia tido que acontecer para que começassem a prestar mais atenção nele, mas não se sentia mais tão solitário, tendo que pedir comida e sentar à mesa sozinho.
Costumava ter muitos colegas, costumava mesmo, tantos que sempre o convidavam para suas casas e nunca o deixavam sozinho. Desse modo, deixou de notar por anos a ausência dos pais. Foi só aquela coisa terrível acontecer entre ele e Nicholas Hentz ano passado que tudo isso mudou; se afastou de todo mundo porque, sem Nicholas, por quem se apaixonara, nada mais tinha sentido.
Foi um período terrível em sua vida, mas as coisas eram diferentes agora. Também havia entrado em alguns esportes para ocupar suas tardes, embora, para essa ideia, seus pais tenham precisado de uma dica de seu psicólogo.
— Tudo bem na escola hoje? — a mãe o sondava, tentando descobrir se estava infeliz com alguma coisa.
Ponderou um pouco sobre o que falar, tendo passado metade do dia com calor e outra metade pensando em Nicholas Hentz órfão. Ela andava ocupada demais para ter ouvido falar sobre o acidente de avião.
— Os pais dos Hentz morreram — declarou. — Parece que aconteceu um acidente com o avião no qual eles estavam, a caminho de Middleland. Explodiu no meio do oceano ou algo do tipo.
Deu de ombros, como se não importasse muito.
— Vocês voltaram a se falar? — a voz de sua mãe era esperançosa e sentiu pena de ter que desapontá-la. Ela sabia o que sentira por Nicholas.
— Não. Ouvi meus colegas de classe comentando. E depois o irmão dele o arrastou para fora da escola na frente de todo mundo. Acho que eles receberam a notícia da própria reitora.
— Que horror… E os meninos já ficavam tanto tempo sozinhos, agora não tem ninguém.
Cam assentiu e sua mãe percebeu que o assunto não renderia mais do que aquilo, então rapidamente passou para um tópico neutro, comentando que a previsão era de que o tempo desse uma amenizada nas próximas semanas. O garoto respirou aliviado, podendo comentar de seu desagrado com o calor abertamente.
Mas logo sua mãe terminou de comer, pedindo que ele colocasse os pratos na máquina de lavar louça, e saiu apressada. Estava sozinho de novo.
Sem nada melhor para fazer, fez o que a mãe havia pedido, arrumou a sala de jantar e foi para o quarto tentar fazer o dever de casa.
Eram quase cinco horas da tarde e não havia feito nada de produtivo até então. Rabiscara alguns cálculos inúteis no caderno de Física, inventara algumas respostas para o dever de Gramática e jogara videogame. Um pouco antes, arrumou-se com suas roupas de nado e ficou aguardando a chegada do professor particular que sua mãe havia arranjado.
Os pais haviam optado por mantê-lo sempre o mais perto de casa possível e a academia mais próxima ficava a meia hora a pé dali, então fazia natação na piscina de casa. Não era nenhuma piscina olímpica, mas cumpria sua função bem.
Fazia natação três vezes na semana: terça, quarta e sexta, e praticava taekwondo outras três vezes: segunda, quinta e sábado, só tendo domingo sem aulas, então corria em volta do quarteirão duas vezes antes do almoço, enquanto os pais estavam lendo o jornal ou preparando a refeição.
Endorfina fazia maravilhas com o corpo e mente.
O professor chegou às cinco horas em ponto, como de costume, e Cam foi atender a porta apenas de sunga, com preguiça de colocar uma bermuda que logo teria que tirar para entrar na piscina.
— Boa tarde, Cam. — Era um homem jovem, uns vinte e três anos, que gostava de tratá-lo como criança e olhá-lo como adulto. Bagunçou o cabelo de Cam e desceu os olhos até a sunga e suas coxas. O garoto percebeu, mas fingiu não notar. Sempre fingia. Sabia que era extraordinariamente bonito, com seus olhos castanho-claros, fios cor de mel e pele cor de pêssego, mas não tinha muito interesse em jogos de sedução, embora o rosto do treinador lembrasse ligeiramente o de Harry Beauchamp. Os mesmos cabelos preto e olhos azuis.
E, por Deus, como queria que Beauchamp o olhasse daquele jeito.
— Entra, Remy — afastou-se para que o outro entrasse, trancando a porta logo depois.
Foram para fora, para a borda da piscina, e fizeram uma sequência de alongamentos. Remy parecia passar de propósito alguns alongamentos que exigiam ajuda de outra pessoa só para ter uma desculpa para roçar em seu corpo, nem que fosse apenas segurar seus cotovelos. Cam apenas fazia o que era pedido.
Cinco chegadas de crawl. Respira. Dez chegadas alternando entre crawl e costas. Dez de peito. Respira. Medley. Respira. Exercício com a prancha para fortalecer as pernas. Hora de cronometrar as chegadas.
A rotina era sempre bem parecida, embora não sempre a mesma, e no início havia sofrido com o cansaço que sentia de ter pouco tempo para descansar, mas Remy não deixava que ficasse muito tempo parado, dizendo que logo se acostumaria, e em poucas semanas, de fato, começou a gostar do ritmo dos exercícios. Sabia que em algum momento eles acelerariam e passaria a fazer mais coisas, mas estava satisfeito com o próprio progresso.
Depois que terminou o treino, conversaram um pouco sobre como havia melhorado o tempo. Havia batido um recorde pessoal em nado de costas naquele dia.
Então foi tomar banho enquanto Remy guardava os próprios equipamentos e se organizava.
Voltou com os cabelos ainda molhados e com cheiro forte de xampu para tirar o cloro. Ia levar Remy até a porta como sempre, dar tchau e voltar ao próprio quarto para tentar terminar o dever de Física, mas sentiu-se subitamente solitário. Havia esquecido Nicholas enquanto fazia o dever e enquanto concentrava toda a atenção de seu cérebro nos músculos e na sensação de cortar a água com o próprio corpo, mas agora que havia se acalmado e a rotina estava se estabelecia, a lembrança da manhã veio à tona.
Seu ex-colega parecendo destruído pela notícia e seu sentimento de impotência e distância, sem poder consolá-lo. Mordeu o lábio, hesitando.
Para o inferno com isso.
— Quer ficar um pouco mais hoje, Remy? — perguntou sorrindo o sorriso que sabia ser lindo. — Acho que tem café e minha mãe comprou um bolo ontem. Não vamos terminá-lo tão cedo se só eu comer.
O coração deu uma falhada com o sorriso do treinador. Parecia ainda mais Harry Beauchamp sorrindo daquele jeito, daquele ângulo, com a luz do pôr-do-sol em seu rosto deixando os olhos azuis quase transparentes.
Óbvio que ele aceitou.
Foi para a cozinha. Rapidamente preparando o café com a cafeteira elétrica que sua mãe tanto gostava, cortou dois pedaços de bolo e sentou-se na varanda com Remy.
— Sua mãe não vai se importar de você ter me oferecido o bolo? — ele perguntou como se estivesse preocupado, mas o sorriso em seu rosto e a forma confiante com a qual abocanhava os pedaços da sobremesa contrastavam com a fala.
— Não acho que ela se importe com quem está comendo o bolo, desde que não estrague. — Deu de ombros e devolveu o sorriso, achando graça na falsa preocupação.
— Você fica muito tempo sozinho em casa, não fica?
— Uhum — mordiscou mais um pedaço de bolo. — Uns tempos atrás, até que eu saía bastante, mas ultimamente só tenho ficado em casa.
— Não se sente meio solitário, com seus pais trabalhando o dia inteiro fora, sem sair de casa? — Percebeu que Remy estava apenas puxando assunto para não terem que encarar um silêncio esquisito, mas preferia o silêncio a ter que responder àquela pergunta de forma sincera.
— Hmm… — Pensou em um jeito de responder sem ser direto demais. — Ultimamente eles têm almoçado comigo, então está tudo bem. E eu comecei a fazer natação e taekwondo à tarde, então não fico mais tanto tempo sozinho.
— Então sou uma companhia agradável? — A sobrancelha de Remy ergueu-se sutilmente e muito rápido, mas Cam a notou.
Não conseguiu conter um sorriso com a pergunta. Não conseguiu acreditar, também, que apenas de tê-lo convidado para ficar um pouquinho mais, ele já se sentira confortável o suficiente para dar em cima dele, mesmo que de forma bem indireta.
— É bom ter companhia por um pouco mais de tempo — respondeu de forma neutra e engoliu o último pedaço de bolo. — Pelo menos o bolo estava bom?
— Sim, mas… — Remy estendeu a mão como se fosse limpar algo sujo no rosto de Cam, mas ele sabia muito bem que não havia se sujado. Ele nunca se sujava comendo bolo.
Então não foi muita surpresa quando, ao sentir a mão dele em seu queixo, seu estômago tenha dado uma cambalhota e, no momento seguinte, tivesse seus lábios grudados aos dele.
Fechou os olhos por costume e retribuiu meio hesitante, sem saber se queria aquilo de fato ou se estava apenas se deixando levar pela situação.
Remy se aventurou um pouco mais, enroscando os dedos nos cabelos na base de sua nuca e trazendo-o mais para perto, acariciando seu joelho com a outra mão e depois a coxa, mas logo finalizou o beijo mordiscando seu lábio levemente e afastou o rosto.
Sorria satisfeito.
— Até depois de amanhã, Cam — Deu um breve beijo em sua bochecha e foi sozinho até a porta, abrindo-a e fechando-a após sair.
Cam encarou a porta fechada, depois os pratos e xícaras sujos. Enterrou as mãos nos cabelos, sentindo-se um pouco nervoso por não saber o que pensar sobre o que acabara de acontecer. Nem sabia se queria pensar algo.
Suspirou.
Só restava lavar a louça e voltar ao dever de casa. O futuro prometia muitos beijos após treinos de natação e, quem sabe, um pouco menos de roupas.
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