Notas iniciais
Quanto tempo, não é mesmo? (:

Mesmo que houvesse vivido a vida inteira sob o calor do sul da Califórnia e só visto neve uma ou duas vezes na vida, Atena Gramp não se importava com o frio. Os poros dele não se abriam, seus pelos não se arrepiavam e nem sofria com tremedeiras ou tiritar de dentes. A prova disso era que ele era capaz de observar o nascer do sol no horizonte da idílica cidade de Cherrywood, que provavelmente não chegava a ser uma cidade, na varanda do chalé, ainda de pijama, no ápice do inverno.

London Weswalk, por outro lado, era uma criatura que gostava do calor e o clamava como um velho amigo, por isso se envolveu duas vezes nas colchas antes de segui-lo para fora. Reclamar que ele era doido em arriscar uma hipotermia só para ver o sol nascer fazia parte do processo, embora London também adorasse aquela tradição.

Os outros chalés não chegavam a bloquear a visão das montanhas nevadas ao fundo. O sol se estirou preguiçoso por trás delas, sua luz mal superando o reino das nuvens gordas e esbranquiçadas, e banhou o rosto dos meninos de ouro. Tinham apenas dez anos, mas podia-se dizer que eram relativamente altos e tinham um bom físico.

— Você sempre reclama de eu te acordar cedo para ver o nascer do sol — provocou Atena num tom alto e reverberante, o mesmo que ele sempre usava quando não tinha ninguém por perto, como se estivesse prestes a começar um discurso. — E mesmo assim nunca perde um, nem em graus negativos. É sempre lindo, não é?

— É — resmungou London, observando como o dourado daquele novo dia refletia bonito nos olhos castanho-avermelhados de Atena. — É lindo. Acho que é lindo porque é a única coisa que nunca muda, não importa onde estejamos.

— Verdade. Quem teve a ideia de criar o nascer do sol?

— Quem teve a ideia de uma corrida de revezamento na cidade mais fria do país?

— O treinador da St. Emanuelle — ele explicou com simplicidade, os dedos compridos brincando com o pingente prateado de pentagrama que ele carregava no pescoço. — Ouvi dizer que ele insistiu para que a final fosse aqui porque acha que o frio e o ar rarefeito vão nos prejudicar, e que ele vem treinando o time dele aqui nas últimas semanas justamente por isso. Ele quer ou nos congelar ou nos sufocar.

— Bem, Raio de Sol, ele está certo. Estou congelando até os ossos.

— Pois vamos vencê-los nem que estejamos até os joelhos enterrados na neve.

A escola dos meninos, a Academia Alexandria, podia se gabar de ter sido a maior ganhadora do segundo lugar do Campeonato Atlético Juvenil da Região Sul na categoria corrida de revezamento pelos últimos sete anos seguidos. A situação não seria tão humilhante se o primeiro lugar tivesse se mantido mais ou menos com as mesmas escolas por esses sete anos, mas cada um deles foi vencido por sete escolas diferentes de sete cidades diferentes, entre elas Los Angeles, San Diego, Middleland, Lismmech e até Minnle. Por causa disso, a escola havia ganhado uma má-reputação. Antes de partirem em viagem a Cherrywood, o reitor chamou seu time e disse, usando palavras gentis e eufemismos, que a Alexandria não tinha mais espaço para medalhas de prata.

Era um belo dia de primavera quando Atena invadiu a sala de aula de London, o colocou contra a parede e anunciou que, agora que tinham dez anos, podiam entrar no clube de corrida. Ele arrancara a lista de voluntários da parede especialmente para que London pudesse assinar ainda na sala antes que todas as vagas fossem preenchidas. O nome de Atena era o único assinado.

Depois de receber uma advertência por invadir uma sala de aula e danificar propriedade escolar, Atena acompanhou London aos testes de admissão. Os membros mais velhos do time não estavam ansiosos para dividirem o vestiário com dois meninos de dez anos e nem o treinador se sentia disposto a aceitá-los… até que viu Atena correr. Foi a primeira vez que London viu um homem adulto chorar de felicidade.

É porque eu não corri, explicara Atena a London mais tarde. Eu voei.

— Nós vamos — concordou London, depois inspirou fundo o ar glacial daquela manhã de graus negativos, deixando-o que ele purificasse seus pulmões acostumados à cidade grande, e sorriu para seu melhor amigo. — Nós vamos pra caralho, Raio de Sol.

— Diz isso mais alto.

— Não posso. Kyle é um dedo-duro e, se nos delatar, estamos fritos.

Kyle, o segundo dos quatro membros do time dos meninos, ainda dormia dentro do quarto. Era um ano mais velho do que eles e às vezes parecia ser um adulto ansioso para crescer. Ele era daquele tipo de menino que agia de um jeito na frente dos adultos e de outro pelas costas, geralmente desfavoravelmente. Como não era muito bom corredor, só havia entrado porque o pai era um importante doador da Alexandria.

Ninguém gostava muito de Kyle, nem seus companheiros de time e clube e nem mesmo o treinador. Por outro lado, o terceiro membro era Ritchi Revonne e Ritchi conseguia cobrir as falhas dele, embora gostasse muito de acordar tarde e perder treinos.

— Eu estava pensando aqui — murmurou Atena, a pele brilhando como o sol daquela manhã. Os pais dele tinham peles de cores diferentes e por isso a dele era dourada como caramelo, embora os cabelos fossem vermelhos como os da mãe. Atena era diferente de todas as pessoas que London conhecia. — Mal passou das cinco horas.

— Ainda está todo mundo dormindo com os anjos.

— Exato. E estamos na cidade mais fria do país.

— E o pentagrama no seu colar vai virar gelo.

— Mais exato ainda. Pois acompanhe meu raciocínio: todo mundo vem a Cherrywood para aproveitar as férias numa jacuzzi aquecida num resort de luxo ou as pistas privadas das estações de ski, mas quase ninguém vem pela cidade em si.

— Que é que há para aproveitar nessa pedra de gelo? Há mais lobos que gente.

— Pelo menos os lobos nunca vão ficar com fome.

Os dois riram gostosamente.

— Proponho um acordo, London Bridge — disse Atena em sua clássica imitação do príncipe Senn: estufando o peito pomposamente e falando como um parlamentar. O apelido dele para London fazia referência a uma antiga canção de ninar. — O time da St. Emanuelle está em vantagem porque não estamos acostumados com o frio e a altitude, então acho que deveríamos procurar uma vantagem proporcional, e não estou falando de quebrar os joelhos do Leão Dourado com um martelo enquanto ele dorme.

— Ainda bem, meus dedos estão congelando. Não conseguiria segurar o martelo.

Leão Dourado era o apelido de um maldito moleque da St. Emanuelle que diziam ser a única pessoa capaz de correr mais rápido do que Atena. O garoto era uma estrela em ascensão, tendo despejado seu brilho em todas as categorias do campeonato em que participara, o que eram, praticamente, todas. Estava banhado em medalhas de ouro.

Pois Atena seria o caçador daquele leão. Faria um tapete com sua pele.

— Vamos ver a pista em que vamos que correr — ele propôs. Seu sorriso brilhou mais do que o sol. — Fica no Colégio Ginasial, perto da entrada da cidade. Ainda temos sete horas até o começo da corrida. Não deve ter uma alma viva lá que vá nos dedurar.

— Mas e se tiver? — perguntou alarmado. — Vão arrancar as nossas almas do corpo. E se um funcionário der pela nossa falta? Ou o treinador? Ou Kyle? Ou os lobos?

— Vamos pedir que Ritchi nos acoberte para os funcionários, para o treinador, para Kyle e para os lob… espera, acho que para os lobos não vai dar muito certo. Quer saber? Acho que corro mais rápido que os lobos.

— Pois eu não corro.

— Eu te levo nas minhas costas. Agora me ajude. Sou ruim com desculpas.

Aquilo era verdade. Atena tinha o terrível costume de piscar demais quando mentia a uma criança e de perder as palavras quando mentia a um adulto. Era sempre London que tomava a palavra quando eram flagrados em uma de suas travessuras.

— Ritchi pode dizer ao funcionário que um de nós está no banheiro e o outro foi procurar outro banheiro lá fora, pois também precisava usar. Pode dizer ao treinador que acordamos cedo e fomos dar uma corridinha ao redor dos chalés para aquecer e depois iremos tomar café-da-manhã. E pode dizer a Kyle para ir… espera, é sua vez.

— Ele pode dizer a Kyle para ir se foder.

Eles riram de novo, dessa vez mais do que nunca. London quase pensou que acordaria Kyle, mas não conseguiu se segurar. Quando viu Atena se precipitar para dentro do quarto, no entanto, foi que notou que ele não estava de brincadeira.

— Está falando sério mesmo? — interrompeu-o London. — Vamos ser comidos por lobos, Raio de Sol. E com lobos eu quero dizer qualquer pessoa que nos vir.

— Não é crime sair com seu melhor amigo para dar uma bela caminhada pela neve. London, não quero ir sozinho. Aliás, não quero ir sem você. Vamos voar.

Atena sempre sabia dizer as coisas certas para atiçar o espírito leviano de London. Uma vez sua mãe chegara a dizer que ele seria uma má-influência para as outras crianças de Jardim de Ouro, o que era uma bobagem de escalas intergalácticas. No entanto, ainda havia uma parte dentro de London que era ajuizada o suficiente para entender que fugir do hotel em uma cidade desconhecida para invadir uma escola não era uma boa ideia.

Preciso dar um jeito de aliviar a mente. Se fizer isso, tudo se resolve. Eu e Atena vamos voar.

— Vamos perguntar a Ritchi — decidiu por fim. — Alguém precisa dizer que não para que depois não precisemos mentir tanto assim aos adultos. Fica mais crível.

— Então você diz que não — concluiu Atena. — E eu digo que sim. E Ritchi…

— Ritchi vai dar o voto de Atena.

A expressão correta era voto de Minerva, mas Minerva e Atena eram a mesma pessoa e London preferia sua versão, assim como Atena (seu amigo, não a deusa).

Eles voltaram para dentro do quarto antes que os dedos de London começassem a necrosar pelo frio. Enquanto procurava se esquentar com a água quente do banheiro, Atena foi acordar Ritchi e inteirá-lo dos argumentos convincentes que conseguira inventar para o caso de aparecer algum adulto. London se agasalhou o máximo que pôde e pretendia obrigar Atena a fazer a mesma coisa, pois ele não precisava morrer antes de vencer a corrida mais tarde, quando ele apareceu vestido na porta do banheiro.

— Ele disse que sim — Atena sussurrou olhando de soslaio para Kyle, que tinha sono leve, e ainda mexendo no pentagrama pendurado no pescoço. Aquele ali era diferente, de madeira escura. — Eu expliquei tudo rapidamente e ele aceitou, depois voltou a dormir. Ele dorme rápido pra caramba, sabia? Anda, se apressa. Temos que ir.

Os dois meninos deixaram o chalé às cinco e meia da manhã. Lá fora estava terrivelmente gelado, mas não nevava, e como Atena previra não havia uma alma viva. Eles se precipitaram para fora da calçada, passando pelas aberturas por entre os chalés e por cima de gramados e sebes baixas para chegarem aos portões de saída do hotel.

— Tem um guarda lá — sussurrou London. Estavam encolhidos contra a parede de uma cabana, só com as cabeças de fora. — Está morrendo de sono, mas está lá.

— Deixe-me pensar — murmurou Atena. — Tem que haver uma solução.

Não tinham à disposição nenhuma ferramenta além de neve, montes e montes de neve suja. Tinha que ser aquilo mesmo. Eles olharam um para o outro e tiveram a mesma ideia. London fez uma bola de neve perfeita, pois Atena era péssimo com formas geométricas, e deu para Atena, pois London era péssimo com pontaria.

Atena se levantou, manejou seu corpo alto e delgado em posição de arremesso e atirou o projétil com toda a força num carro parado no estacionamento. Ela voou como uma bola de canhão e explodiu contra o para-brisas. O alarme imediatamente foi acionado, trovoando pelo ar até os ouvidos do guarda, que saiu do lugar para ir ver do que se tratava. London e Atena aproveitaram a chance para se mandarem pelos portões.

— Não acredito que deu certo! — gritou Atena em meio a risadas enquanto corria pela estrada. Ali ele podia ser ele mesmo, abrir os braços e correr o mais rápido que podia, duas vezes mais rápido que o máximo de London. — Estamos livres!

— Não exagera! — gritou London em resposta, rindo mais que o amigo.

Eles pararam na esquina de uma farmácia que acabava de abrir, ofegantes, elétricos e absolutamente felizes.

— Meti algumas pedrinhas do chão dentro da bola — explicou London. — Para o caso de só ela não ser o suficiente. Acho que arranhamos aquele para-brisa.

— O para-brisa vai ficar bem — garantiu Atena. — O dono dele é que não vai.

Entraram na farmácia, uma construção velha, pequena e antiquada, para comprarem refrigerantes e o melhor chocolate que vinte dólares podiam comprar.

— Meu pai sempre me diz — disse Atena sem tirar os olhos dos doces — que não se deve gastar dinheiro com nada que não nos engrandeça. Esses chocolates com certeza vão nos engrandecer. Para os lados, mas vão.

Ao pagar, London perguntou ao farmacêutico se ele sabia que horas passava o primeiro ônibus para o Colégio Ginasial da cidade.

— Ele geralmente passa às quinze para as seis. Vocês meninos deram sorte, tem um ponto bem ali em frente.

Quando se sentaram no ponto e abriram as latinhas, London teve uma epifania.

— Lembra quando eu disse que Cherrywood tem mais lobos do que gente?

— Pelo amor de Deus, pare de falar dos lobos — disse Atena enfiando chocolate na boca. — Eles vivem na floresta e a floresta mais perto fica a vários quilômetros daqui.

— Não estou falando dos lobos, seu pateta. Estou falando que Cherrywood deveria ser processada pelo condado por se chamar de cidade, ela não tem nem quatro mil habitantes. Está vendo como todas as lojas abrem ao mesmo tempo? É uma prática que os donos adotaram para evitar competição, bem comum em cidades de interior…

— Seu chocolate está derretendo.

— Nesse frio? Por favor. O que eu quero dizer é que aqui todo mundo se conhece.

Atena engasgou com a Coca-Cola. Sim, Cherrywood era pequena o suficiente para todo mundo se conhecer e o único farmacêutico da cidade certamente saberia que aquelas duas crianças não eram nativas para estarem tomando ônibus sozinhas antes das seis da manhã, assim como saberia que haveria uma competição infantil em breve.

— Ele vai ligar para o hotel — deduziu Atena com cara de derrota. — Suponho que ainda vai ter que esperar um pouco para alguém acordar, mas mesmo assim… ah, eu queria tanto essa aventura. Queria voar. Acho que se voltarmos agora dá tempo de nos enfiarmos no chalé sem que percebam que saíamos. Vamos nos livrar disso e ir.

— Não.

Atena olhou para ele, as sobrancelhas arqueadas no alto da testa, por onde os cabelos avermelhados caíam, cabelos iguais aos da mãe. Marta Gramp fazia os melhores biscoitos de aveia que London já experimentara na vida. Ela sempre os servia quando os meninos iam brincar na casa de Atena e eles sempre acabavam antes que ela voltasse à cozinha. E apesar de não comer quase nada quase nunca, até Owl gostava deles.

Os biscoitos eram suficientes para fazer Atena pegar a mão de London e sair correndo com ele pela rua, agitando os braços como um pássaro e dizendo vamos voar, London, vamos voar! O menino mais rápido do Jardim e do clube de corrida da Alexandria merecia uma aventura com seu melhor amigo, merecia voar como nunca voara.

— Como é que é, London Bridge? — inquiriu Atena com um sorriso.

— Eu disse que não, Raio de Sol. — London terminou o refrigerante, se perguntando exatamente quem tivera a ideia de beber aquilo numa manhã gelada, e se empertigou para empunhar sua voz pomposa, apesar de sua imitação do príncipe Senn não ser tão boa: — Você me acordou antes do sol nascer com uma ideia mirabolante na cabeça e eu vou cair morto e congelado antes de deixar isso ser em vão! Nós destruímos um carro e fugimos do hotel por um motivo!

O sorriso de Atena havia virado a risada mais calorosa do mundo.

— Se eles nos pegarem, tudo bem! — continuou London. — Se ficarmos de castigo, tudo bem! Porque desde que eu e você voemos hoje, tudo bem! Por isso levante o traseiro desse banco porque o nosso ônibus está vindo!

Saltaram do ônibus cinco pontos depois. A Escola Ginasial de Cherrywood estava deteriorada, defasada e era uma tristeza de se ver, mas seu campus esportivo era decente. Os meninos podiam adivinhar o local onde se encontrava o campus, mas um longo muro sem acesso externo os impedia de seguirem livremente.

— Nos livramos de uma prisão — murmurou Atena. — E agora vamos entrar em outra. Vamos procurar uma escada e pular o muro. Pode machucar um pouco.

Acharam uma perto de uma casinha de ferramentas. Estava enferrujada, era pesada e perigosamente balançante, o que significava que podiam perder as esperanças de puxá-la para o outro lado quando estivessem no topo do muro. Se eles entrassem, só poderiam sair se achassem outra escada lá dentro, o que era improvável.

Atena e London olharam um para o outro e assentiram em silêncio.

O primeiro foi London, que se lançou para o outro lado e caiu num monte fofo de grama. Atena tinha razão, machucara um pouco, mas nada que fosse fazê-lo chorar.

— Cuidado com o pentagrama — pediu sentindo um aperto no coração. Atena enfiou o pingente para dentro da camisa. — Tem certeza de que quer fazer isso? Não vai ter ninguém segurando a escada para você.

— Meu espírito indomável vai — garantiu Atena, mesmo que sua voz estivesse meio trêmula. Ele pensava que London não conseguia reparar nessas coisas.

— Bem, peça para ele segurar com força, então. Vê se não quebra o pescoço.

Ele não quebrou o pescoço, não se decapitou com o colar, não se degolou com uma das cinco pontas do pentagrama e pela graça de Deus não torceu o tornozelo ao cair do outro lado. London até pensou que ele tivesse caído de mal jeito quando errou o monte fofo de grama, mas Atena se levantou sem problemas com seu velho sorriso.

— Eu tive uma ideia — ele disse enquanto caminhavam pela grama até a pista de corrida. Era ovalada, recentemente pintada e circundada por arquibancadas de madeira para a plateia. O pai de London disse que tentaria ir vê-lo se seus irmãos gêmeos melhorassem logo da gripe, os pais de Atena disseram que certamente viriam.

— Eu sei — garantiu London. — Tive a mesma ideia. Só falta um bastão.

— Vamos usar um galho. Quem vai notar a diferença?

— Só tente arrancar ele da árvore antes de começar a correr.

Atena achou um galho jogado na grama e o entregou a London. Na corrida real, Kyle começaria com seu chocante desempenho abaixo da média e no primeiro quarto da pista passaria o bastão a Ritchi. Ritchi era excelente em todos os esportes, a semelhança do Leão Dourado, e corria como um de verdade, espantando os corredores do outro time que provavelmente esperariam por um outro Kyle.

London não era mais rápido que ele ou Atena, mas era esforçado e ao longo dos meses havia se tornado um corredor digno da medalha de ouro. Seria ele que receberia o bastão de Ritchi e correria o terceiro quarto da pista para entregá-lo a Atena.

E então…

Poder-se-ia pensar que Ritchi era o elemento surpresa, mas não. Atena que era. Em seu primeiro campeonato oficial, tendo apenas dez anos, um novato no clube de corrida e com a responsabilidade de cruzar a linha de chegada primeiro, a expectativa era que ninguém o levasse muito a sério e que ele perdesse o compasso com a pressão.

Eles não conheciam Atena Gramp e era isso que os faria perder.

— Ritchi não está aqui — disse Atena. — E nem Kyle, graças a Deus. Por isso, vamos simular a segunda metade da corrida. Vamos nos separar.

— Eu tenho que fazer uma revelação, Atena. Ainda gosto de você.

London ficou num canto da pista ovalada e Atena ficou no canto exatamente oposto. O plano era que começasse a correr quando o relógio batesse as seis e meia, atravessasse metade da pista e entregasse o galho para Atena, que terminaria o percurso. Depois, London observaria o relógio para saber quanto tempo levaram. O time dos quatro tinha um certo tempo recorde que, se fosse batido, seria suficiente para vencer a corrida. Atena, no entanto, achava que ele e London podiam batê-lo sozinhos.

London se preparou psicologicamente, alongou os quatro membros, o pescoço e a coluna, treinou a respiração, ajustou a posição e, quando o relógio apitou, saiu em disparada pela pista. Sabia que não devia começar com sua velocidade máxima e que a respiração era a chave da coisa toda, mas nesse momento mal conseguia evitar se lançar pelo ar a toda em direção a Atena.

No início, ao formarem o time, o treinador formulou as posições dos quatro de maneira diferente, com Ritchi no terceiro lugar e London no segundo, mas num dia em que Ritchi adoecera ele percebeu que, por algum motivo, London corria mais rápido quando era para passar o bastão para Atena, mesmo que o percurso fosse mais longo.

Estou indo, pensou em polvorosa, o galho em sua mão, todos os membros do corpo ardendo, o vento frio batendo no rosto como navalhas afiadas. Estou indo para você, Atena, e quando chegar vamos voar, vamos voar pra caralho.

Atena estava em posição de partida, o braço estendido, apenas esperando por ele.

— Valeu, London Bridge! — ele gritou ao pegar o galho e se mandar. O treinador já mandara que não desperdiçasse fôlego cumprimentando London, mas ele não escutava. London era seu melhor amigo e acabava de lhe entregar um presente.

A sensação de vê-lo fazer o que mais gostava era sempre inebriante. Atena tinha a elegância de uma águia que mergulha para agarrar sua presa, a destreza de um cervo que foge de um leão e a força do mesmo leão que corre para agarrar o cervo. Nem Ritchi, tão grande e forte como era, conseguia correr mais rápido. London gostava de pensar que Atena não corria, apenas agitava os pés e fazia o resto do mundo girar mais rápido. A linha de chegada era apenas um marco que, nesse momento, não importava.

O que Atena queria era voar.

E ele voava, voava como uma ventania, um vendaval, um furacão, um ciclone inteiro. Seus braços se moviam com perfeição ao lado do corpo delgado, alinhados e bem oleados como as engrenagens de um relógio suíço, os músculos de suas pernas sempre no mesmo ritmo, pois sua velocidade média também era sua máxima, e os cabelos esvoaçando soltos por trás da cabeça, como uma trilha de fogo que arde sem queimar e tem sempre cheiro de morangos.

London marcou o tempo quando ele chegou a seu local de partida, do outro lado da pista, mas nem isso fez Atena parar. Ele continuou todo o caminho que London fizera, completando a segunda metade da pista, varando o mesmo caminho com a mesma destreza e perfeição, e parou somente quando chegou ao seu lado. Suado, ofegante e vermelho, Atena nunca parecera tão encantado com a vida.

— E aí? — ele indagou entre suspiros. — E aí? E aí?!

— Batemos. — London mostrou seu relógio. — Batemos o recorde do time. Nós dois sozinhos! Eu e você, Raio de Sol!

— Eu sabia, London Bridge! Nós voamos!

— Nós voamos!

Sem conseguir evitar, os meninos se abraçaram com tanto ímpeto que caíram no chão rindo e se divertindo como nunca. Se alguém os visse ali pensaria que eram a dupla mais incompetente de invasores de escolas que esse mundo já viu.

Eles terminaram de comer os chocolates sob a sombra de uma árvore ali perto. Deitados na grama, bem alimentados, com seus agasalhos de frio e sob o céu branco de Cherrywood, London e Atena não se sentiam mais com tanto frio assim.

— Até que você se acostuma com isso aqui — murmurou London. — Não há tantos caminhões e carros para trazer poluição e barulho. A época de férias é uma boa oportunidade para conhecer novas pessoas e fazer a economia da cidade girar. É tudo pequeno, então você chega a todo lugar bem rápido. Todo mundo se conhece, então alguém certamente vai saber se algum dia você for sequestrado e assassinado.

— Eu sabia que você estava chegando a algum lugar.

— Sempre estou. Batemos nosso recorde, Atena.

— Diz isso mais alto. Kyle não está aqui.

— Batemos a porra do nosso recorde!

— Duas vezes!

Riram sem nenhuma preocupação no mundo. O tempo estava passando, logo os funcionários da escola chegariam para preparar tudo para a corrida, onde eles seriam pegos e estariam certamente numa encrenca dos diabos. Se seus pais fossem mesmo, podiam juntar logo isso a um merecido castigo.

— Eu acho que vou usar meu tempo de castigo para polir todos os meus pentagramas — refletiu Atena. — A maioria que eu trouxe para cá congelou.

— Então eu tinha razão.

— Sempre tem, não é?

— Por que você trouxe tantos? Para dar sorte na corrida?

— Não… eles não servem para dar sorte.

Atena deu um sorriso amarelo e virou a cara. Ele sempre fazia algo do tipo quando alguém chegava perto de perguntar por que ele era obcecado por pentagramas, desconversava para evitar um enfrentamento direto. Não havia desenhado um agora há pouco na neve? London achava que algum dia ele ainda lhe contaria… tinha que contar.

De repente, seus olhos vermelhos se arregalaram e sorriram metaforicamente, e depois seus lábios sorriram literalmente. Ele apontou para trás de London, que se virou e logo entendeu o contentamento. Lá ao longe, encostada numa construção perto do campo de futebol, havia uma escada. Uma escada!

— Podemos voltar ao hotel! — exclamou London. — Podemos voltar ao chalé antes dos outros acordarem! E se virem que sumimos, podemos dizer que fomos tomar café da manhã! E se souberem que não fomos, podemos dizer que fomos na farmácia compras besteira para comer! Porque realmente fomos!

— Viu como você é melhor que eu nas desculpas?!

Como voltariam ao hotel era outra história. London pensaria nisso depois.

Os dois riram e correram em direção à escada. Não era nada parecida com a anterior, era de alumínio, nova e leve. Seus espíritos levianos e aventureiros fizeram com que decidissem usá-la onde o muro era um pouco mais alto, pois uma vez no topo eles poderiam passá-la para o outro lado. Subir de um lado e descer em outro usando a mesma escada era quase poético.

— Talvez devêssemos voltar por onde chegamos — refletiu London enquanto Atena posicionava a escada. — Daria uma sensação de fecho.

— E se eu não quiser um fecho? — indagou Atena, também com ar reflexivo. — Eu queria que essa aventura não acabasse nunca. De qualquer modo, o outro lado desse muro vai dar por trás da escola, onde é impossível que alguém na rua nos veja. Se vamos voltar ao hotel, precisamos que o mínimo possível de pessoas nos veja aqui.

Ele tinha razão nesse ponto. London estava pensando que o ônibus que ia da farmácia à escola tinha que, em certo ponto, fazer o caminho contrário, e que se conseguissem pegá-lo novamente a única coisa que precisariam fazer era esperar e…

— Você vem ou não?

Atena já estava no topo do muro, esperando London subir também para poderem mover a escada. London respirou fundo, esperou que a escada não cedesse e começou a escalar.

Tudo ocorreu sem problemas. Se fosse outra pessoa, Atena poderia rir dele por ter medo de subir sem ninguém a segurar a escada quando o próprio Atena fizera a mesma coisa pouco tempo antes, mas ele não era assim. Atena era diferente de todo mundo que London conhecia.

Agora os dois estavam no topo. London se permitiu respirar normalmente e tomou alguns segundos para se acalmar; Atena tomou os mesmos segundos para apreciar a vista. Era muito bonita. De um lado, eles viam quase todo o campus esportivo da escola, a pista de corrida, os campos de futebol e o ginásio, a lanchonete e as arquibancadas. Estava tudo bem conservado. Era curioso ao lembrar que a fachada da escola era um lixo e que as salas de aula provavelmente eram também.

Do outro lado, eles viam um campo de árvores nuas que espetavam seus galhos afiados em todas as direções. Não dava para ver grama alguma, somente neve, montes e montes de neve. Não havia construções em volta, pois a cidade não havia sido expandida naquela direção, e mais ao longe eles podiam ver as mesmas montanhas nevadas que viram na varanda do chalé.

— São cerejeiras — disse Atena referindo-se às árvores sem folhas.

— Não diga — ironizou London, depois desatou a rir.

— Diga seus fatos. Sei que está doido pra isso.

— Estou mesmo. É por causa das cerejeiras que Cherrywood tem esse nome. Ela foi fundada em 1918, depois do fim da guerra, por um ricaço que queria explorar a madeira da floresta que havia aqui. Ele contratou lenhadores que usaram essa mesma madeira para construir as primeiras casas e logo, logo a cidade chegou a uns vinte ou trinta mil habitantes. Depois que a madeira acabou, a cidade também acabou. Ela virou praticamente uma cidade-fantasma até o fim da segunda guerra. Depois da independência da Califórnia, o primeiro governador do condado de Southeria formou um plano para revitalizar a cidade, pois ele tinha nascido aqui na época do auge e queria vê-la de novo daquele mesmo jeito. As florestas foram replantadas e ela recebeu dinheiro do governo para reconstrução de alguns edifícios. Hoje em dia, virou um paraíso de férias para os endinheirados que queiram ver neve sem sair do país.

— Ou seja — completou Atena —, ela é foda pra caralho.

London não conseguiu segurar a risada e nem Atena conseguiu também. Sim, ele tinha razão. Em seu pouco tempo ali, London tinha aprendido a tolerar o frio e a apreciar as coisinhas que somente uma cidade pequena do interior poderia proporcionar.

— Falta um pouco para ela chegar a vinte ou trinta mil habitantes de novo — notou London.

— É verdade, mas acho que podemos contribuir com dois, não é? — Atena mostrou aquele seu sorriso adorável. — Tive uma ideia. Olha o topo daquela montanha. Consegue imaginar como deveria ser viver lá? Imagina o nascer do sol!

London achava que o topo daquela montanha devia ser tão frio que nem o sol conseguiria nascer.

— Consigo.

— Pois quando crescermos e eu ganhar minha primeira medalha nas Olimpíadas, vamos construir uma casa lá em cima e morar lá juntos.

London pensou que fosse vomitar seu próprio coração. Havia muito tempo que se acostumara às borboletas no estômago que Atena lhe causava acidentalmente, mas o coração disparado era sempre muito difícil… porque London sabia muito bem o que é que significava quando seu coração bate mais rápido ao se pensar numa pessoa.

Mas ele tinha dez anos e não se importava tanto com isso quanto uma pessoa mais velha se importaria. Nessa idade, é mais fácil jogar o pensamento para lá.

— Vamos. Vamos morar naquela montanha, eu e você, Raio de Sol. Mas é bom que você fique rico pra caramba, porque a conta do aquecedor vai ser enorme.

— Não se preocupe, London Bridge. Você vai ter sua própria jacuzzi aquecida e… cuidado!

London não percebeu para onde sua mão ia porque, apesar de estar se preparando para finalmente passar a escada para o outro lado, estava olhando para Atena, que nunca estivera tão… tão… bem, ele não sabia a palavra que se aplicaria melhor aqui, por isso que decidiu usar o nome dele. Atena nunca parecera tão Atena enquanto falava de seu futuro com seu melhor amigo.

Por causa disso, não percebeu quando a mão esbarrou na escada e falhou em pegá-la antes que a ferramenta de alumínio deslizasse da parede e fosse ao chão.

London ficou olhando para aquilo em silêncio, sem acreditar no que acontecera. Aquela escada era seu passaporte para a salvação, para o chalé e depois de volta para a escola, não como um invasor, mas como um competidor. Aquela escada que agora se encontrava estatelada no chão era seu futuro com Atena.

— Será que dá pra gente pular desse muro? — refletiu Atena olhando para o outro lado. — É, acho que não. Só se a gente quiser quebrar a perna. E se eu fosse não apenas o primeiro ganhador da Alexandria, mas o primeiro ganhador com a perna quebrada? O que você acha, London Bridge? Meu Deus, London?

London se apressou em esfregar os olhos com as mangas do casaco e fungar, fingindo que a película de água nos olhos era apenas sintoma de uma alergia. Ele olhou para Atena e sorriu com uma expressão muito clara de quero fingir que estou bem, agradeceria se você também fingisse. A maioria das pessoas acataria o pedido.

Mas Atena era diferente de todo mundo que London conhecia.

— Não foi culpa sua — ele disse com o acanhamento típico de uma criança que tem que parar de brincar e amadurecer por alguns minutos. — Foi acidente. Ou você planejou que a gente ficasse aqui falando das cerejeiras? Quer planejar a arquitetura da nossa futura casa nas montanhas?

— Eu não estava prestando atenção — murmurou London quietamente. — Deveria ter prestado. Agora derrubei a escada e estamos presos nesse muro.

As duas extremidades do muro davam em paredes e ele mantinha a mesma altura em toda a sua extensão, assim como o terreno abaixo. E mesmo que eles pudessem andar até uma sessão mais baixa, nenhum espírito indomável os convenceria a isso: era perigoso demais. O muro tinha várias áreas congeladas e escorregadias.

— Logo, logo alguém vai chegar — disse Atena. — Eles têm que chegar cedo para arrumar as coisas para a competição.

— Eu sei disso, alguém vai chegar e nos tirar daqui, depois ligar para o hotel e nos dedurar. Vamos ser castigados e… Atena, eu acho que vão nos expulsar da competição. Nós viemos ver a pista antes de todo mundo. É contra as regras.

— A ideia para vir aqui foi minha.

— O que Ritchi e Kyle vão pensar?

— Ritchi vai entender e quem é que liga para Kyle?

— Mas e você? Eu ligo pra você. Correr aqui era tudo o que você queria.

— A culpa não é sua, London. — Atena ficou muito quieto, seu rosto afundado numa expressão lamurienta, os cabelos presos por trás da cabeça num rabo-de-cavalo feito de maneira apressada, assim como tudo o que ele fazia. — A culpa é minha.

— Não. Eu quis vir com você. Você deu o sim, eu dei o não e Ritchi deu o outro sim. Mas ninguém me obrigou a vir, eu podia não ter vindo.

— Tenho que te confessar uma coisa. — Agora era Atena quem parecia estar escondendo os olhos contra a manga do casaco. — Sobre o voto de Ritchi… o voto de Min… quero dizer, o voto de Atena… quando eu o acordei e expliquei que você e eu queríamos vir aqui sozinhos, ele me disse que eu era doido e voltou a dormir. Ele disse não, London. O voto de Atena foi não. Eu menti para você.

London não sabia o que dizer.

— Por quê?

— Porque eu queria vir para cá com você.

— Mas eu teria vindo mesmo assim.

— Teria?

— É claro que teria. Se ele disse não, eu simplesmente teria mudado meu voto para sim. Aliás, desde quando Ritchi nos diz o que temos que fazer? Desde quando alguém nos diz o que temos que fazer? Ele mesmo só não veio porque estava com sono! Aposto que quando acordar vai morrer de arrependimento por estar preso com Kyle naquele chalé ao invés de estar preso conosco nesse muro. E quer saber de uma coisa? Até Kyle teria gostado dessa aventura se tivesse vindo.

Atena riu, depois London riu também e então os dois estavam rindo juntos.

— Foi uma aventura e tanto, London Bridge.

— Foi mesmo, Raio de Sol. Arranhamos um carro, fugimos do hotel, tomamos refrigerante no meio da neve e comemos mais chocolate do que podemos digerir, pegamos um ônibus sozinhos numa cidade desconhecida, invadimos uma escola, quebramos as regras do campeonato, batemos nosso próprio recorde duas vezes, ficamos presos num muro. Que é que está faltando?

— Um castigo bem merecido. Sabe por que digo isso? — Atena abriu os braços como se fosse abraçar London, mas estava apenas querendo responder à própria pergunta. — Porque nós voamos! Nós voamos que nem borboletas, águias, falcões, andorinhas, pombos e mosquitos, tudo ao mesmo tempo.

— Eu entendo os primeiros, mas por que mosquitos?

— Porque aposto que irritamos o dono daquele carro.

London e Atena riram com tanta vontade que quase esqueceram que estavam presos em cima de um muro a vários e vários metros do chão, prestes a ouvir o que prometia ser o maior sermão da face da Terra.

Foram achados vinte e oito minutos depois, de acordo com o relógio de London.

Conforme descobririam mais tarde, o primeiro a dar pela falta de Atena e London foi o próprio treinador, que quis pessoalmente checar seu trunfo, seu elemento-surpresa, a estrela de fogo que destronaria a estrela de ouro da St. Emanuelle e dentro de alguns anos ganharia uma medalha olímpica.

Mas Atena Gramp havia sumido, assim como London Weswalk. A primeira coisa que o treinador fez foi interrogar Ritchi a respeito disso, mas Ritchi havia estado muito sonolento ao ser acordado por Atena e não fazia a mínima ideia de onde ele poderia ter ido. O treinador foi acometido por um sentimento de desespero (e não por perder duas crianças, mas por perder sua estrela) quando alguém chegou e informou-o de que o hotel recebera o telefonema de um nativo da cidade, afirmando ter visto duas crianças em sua farmácia perguntando como chegar ao Colégio Ginasial de Cherrywood, um jovem rapaz pálido de cabelos e olhos escuros e um moleque de cabelos e olhos vermelhos que usava um símbolo profano no pescoço e não parecia ser da mesma laia do outro. Talvez ele até tivesse o sequestrado.

Quem conhecesse Atena poderia perfeitamente entender que ele expunha Atena assim por ele ser racialmente mestiço, mas o treinador chegou à conclusão de que um menino de dez anos jamais precisaria saber que fora descrito dessa maneira.

Para sua infelicidade, chegou ao Colégio Ginasial de Cherrywood na mesma hora que a delegação do time adversário, o time com o maldito moleque que eles chamavam de Leão Dourado, mas cujo nome mesmo era Nicholas Hentz.

É claro que o treinador deles insistiu que Atena e London haviam invadido a escola para checar a pista antes de correrem, o que era uma mentira deslavada (foi isso que o treinador disse aos juízes mais tarde), mas mais provavelmente era verdade (foi o que pensou em seu íntimo).

Ele viu os dois meninos em cima do muro perto do campo de futebol, parecendo completamente alheios à multidão que se formava em volta. Muito tranquilos, eles conversavam alegremente como se não tivessem acabado de provocar a própria expulsão da corrida pela qual treinaram tão arduamente.

— Atena, London! — berrou o treinador para os dois ao chegar perto. A situação era mais do que evidente: eles subiram pela escada caída ao pé do muro, mas a escada caiu e eles ficaram presos ali em cima. — Meu Deus do céu, aí estão vocês. Vocês perderam o juízo?! Fugir do hotel e vir para cá! Tem ideia do que fizeram? A comissão julgadora vai expulsar os dois! Quem é que vocês pensam que são, seus moleques?!

Atena, que se preparava para descer a escada reerguida, olhou fundo nos olhos do treinador e sorriu diabolicamente. Quase dava para ver o fogo do inferno ardendo naqueles olhos travessos. Atena era um bom menino, assim como London também era, mas quando aqueles dois se juntavam eram capazes de fazer um homem adulto ter vontade de dirigir para bem longe e chorar em silêncio dentro do carro.

— Vou dizer a todos vocês quem London é — anunciou Atena. Para horror de todos, ele ficou de pé em cima do muro. Estufou o peito e adquiriu um ar cortês e pomposo, como se estivesse a discursar na abertura de um novo hospital. Aquela foi, até então, sua melhor imitação do príncipe Senn: — Eu lhes apresento London Deveraux Weswalk, meu melhor amigo desde que posso me lembrar! Ele é capaz de criar bombas atômicas com neve e pedrinhas! É capaz de beber Coca-Cola na neve e de se lembrar de todos os fatos históricos que você pode imaginar! Ele é a capital do maior império do planeta, onde o sol nunca se põe, e é por isso que vemos ele nascer de novo e de novo, dia após dia! Ele é a casa da outra rainha e de todos os seus súditos e ele adora o calor, apesar de nunca parar de chover por lá! Ele nasceu em Jardim de Ouro e é a única pessoa que desenha um pentagrama melhor do que eu! Ele é meu melhor amigo e no futuro vai morar comigo na casa que vamos construir no topo daquela montanha! E se a montanha for fria demais, vamos conquistar algum outro país com uma montanha mais quente! É assim que fazemos no nosso império! Agora juntem-se a mim num coro: London Bridge is falling down, falling down, falling down! London Bridge is falling down…

My fair lady! — completou London da mesma maneira, continuando sua imitação com a mesma voz. — E agora é minha vez de apresentar meu amigo Atena Gramp! Com o nome mais interessante do mundo, Atena é chamado por todos de Raio de Sol porque… ora, olhem para ele! Tem um sorriso mais brilhante do que o sol, mesmo com todas as cáries por comer açúcar demais, cabelos da cor do entardecer, mesmo com esse rabo-de-cavalo mal feito, olhos de rubis verdadeiros comprados nas melhores joalherias! Eu juro que são melhores do que diamantes! E, claro, incessante, veloz, quente e sempre presente como o vento do verão, como um raio de sol! Ele é o berço da civilização grega, da democracia e da civilização ocidental, uma das cidades mais antigas do mundo, e foi dele que veio aqueles filósofos tediosos que temos que estudar na escola! E isso não é tudo: ele é a deusa da sabedoria, da justiça, da força e das estratégias de guerra, tão famoso que os romanos deram até outro nome para ele! É claro que ele é um dos responsáveis pela Guerra de Tróia, mas vamos deixar isso para lá! Ele também ama os biscoitos de aveia da Sra. Gramp, é aficionado por revistas em quadrinho, nunca aprendeu a nadar e gosta de correr mais do que qualquer outra coisa! Isso é tudo, isso é tudo? Ah, como eu podia esquecer! Pentagramas! Atena Gramp e seus pentagramas! Quem dá o melhor preço, quem dá? Dou-lhe uma, dou-lhe duas e… vendido por ser o melhor amigo do mundo!

— O seu melhor amigo do mundo! — exclamou Atena. Ele fez uma referência conjunta com London ao público que os assistia. Se não poderiam fazer bonito em frente à plateia da corrida, por que não em frente daquela ali? — Para sempre, London.

— Para todo e todo o sempre, Atena. Fim do show!

Notas finais
É uma sensação ótima estar postando aqui novamente. Para os que não lembram, pois faz bastante tempo, London é um personagem da terceira temporada e Atena também é, mas não chega a aparecer porque... bem, ele morreu num incêndio. Na verdade, Atena morreu poucas semanas após o fim dessa one-shot. Mas é bom saber que seus últimos dias foram felizes. (: Hoje é dia 1 de maio de 2019, o que significa que faz exatamente sete anos desde que eu postei o primeiro capítulo de Como Vivem Os Anjos. Achei uma data boa para anunciar o lançamento da segunda temporada da fic em forma de livro. Eis os links: Físico: https://www.amazon.com.br/dp/1096023695 E-book: https://www.amazon.com.br/dp/B07R6BCY5L Ela foi completamente reescrita e remodelada de forma que fique mais adequada a um livro publicado, tenho certeza de que vocês irão gostar. Ah, e como sempre, eu nunca fiz isso por dinheiro, de modo que a única coisa que peço é que comentem. (: Obrigado pela atenção!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.