Como Vivem Os Anjos
8 De Repente Eu Vejo
Notas iniciais
O cheiro forte de álcool impregnava suas narinas. Não dormia direito há quase quarenta horas e estava sentado ali há mais da metade disso, e ainda não se acostumara àquele cheiro, que lhe dava dor de cabeça. As paredes impecavelmente brancas não ajudavam nesse fato. Sentia-se cansado, física e mentalmente. Cansara-se de chorar horas atrás, e as únicas marcas de sua fraqueza emocional estavam em seu rosto manchado e nas olheiras roxas.
Nicholas Hentz levantou-se do banco e alongou o pescoço. Olhou pela janela, o lado de fora do hospital em que se encontrava, o Sol já se extinguira e o céu negro ameaçava chover. Estava na recepção e por mais de um dia observara o contingente de pessoas entrando e saindo dali. Tudo o que queria era voltar para casa. Mas não o faria sem Ethan.
Depois de Nick e Gabriel ouvirem o grito de Ethan, o encontraram desmaiado, com uma expressão curiosamente serena e uma lágrima solitária e cristalina a morrer em sua bochecha. Naquele momento, Nick tivera certeza de que Ethan sabia.
Ele tivera um colapso nervoso e ficara em coma durante quase dezoito horas. Quando acordou, Nick estava lá, ao lado dele, e após alguns momentos de desorientação a única coisa que Ethan pediu foi que ele fosse embora. Não gritou, não demonstrou raiva, amor ou qualquer outra emoção. Estava completamente neutro quando fez o pedido.
Mas Nick não fora embora. Ficara lá, do lado de fora do quarto até que o mandassem sair e então ele voltou à recepção. Tudo o que precisava era de alguns momentos com Ethan, mesmo que ele não consentisse. Estava fraco demais para expulsá-lo do quarto e mesmo que não estivesse, Nick sabia que ele não o faria.
Mas precisava entrar no quarto.
Eram quase quatro horas da manhã e uma enfermeira gentilmente oferecera-lhe um cobertor, coisa que recusou, quando se deu conta de que não havia quase ninguém por perto, exceto ela e a recepcionista do hospital, que no momento estava muito entretida num jogo de cartas. As outras pessoas que esperavam na recepção dormiam. Nick esperou que a enfermeira fosse embora antes de se enfiar no labirinto de corredores que memorizara tão utilmente, subir quatro lances de escadas, andar mais alguns corredores e adentrar no quarto de Ethan.
Como esperava, ele não estava dormindo.
Estava recostado à cama, usando os óculos de leitura retangulares, lendo calmamente uma revista que parecia ter sido folheada incansavelmente até que adquirisse uma aparência gasta. A pequena TV incrustada na parede estava ligada, mas sem som. A luz estava apagada.
— Você está tentando ficar cego? — perguntou ao maior, mas nem por um segundo cogitou em arrancar a revista de suas mãos, que é o que normalmente faria. — Sua visão já é ruim de perto, ler no escuro vai te fazer precisar usar óculos o tempo todo, e não apenas para ler. — Ethan não disse nada, sequer levantou os olhos. — Sabe, fui eu quem escolhi esses óculos, lembra?
O mais velho suspirou pesadamente e Nick observou uma menção de irritação. Tirou os óculos e colocou-os no criado-mudo ao lado da cama sem se importar em desarmá-los. Jogou a revista no chão de qualquer jeito e ajeitou-se na cama.
— Então — Nick continuou dizendo —, então é isso. Você se lembra de tudo, não é? — Sentou-se numa das cadeiras dali e ficou observando Ethan fechar os olhos. — Você descobriu o maior segredo da minha vida e tudo o que eu esperava é que não me odiasse pra sempre, mas acho que é pedir demais.
Aproximou a cadeira da cama do irmão e colocou os pés em cima desta, fazendo questão de acertar Ethan no processo. Continuou falando:
— Sabe que eu sempre achei Oliver meio estranho? — A menção do nome fez o maior estremecer levemente, mas foi só isso. — Uma vez ele me disse que conseguia ver seres sobrenaturais. Fantasmas, sabe? Não dei muita bola na época, mas agora imagino que ele estivesse falando a verdade. — Pegou um copo d’água do criado-mudo e pôs-se a beber aos golinhos. — Ou quem sabe fosse apenas louco.
O copo d’água voou da mão de Nick para o canto da sala, estraçalhando-se em mil pedaços.
Nick não demonstrou surpresa quando seu irmão quase pulou em cima dele, logo após de dar o tapa no copo.
— Não — Ethan disse, entre dentes, sibilando agressivamente como uma cobra — se atreva a tocar no nome dele.
E, para provocar, Nick sorriu.
— Me obrigue.
Assim como há algumas semanas atrás, Nick sentiu seu pescoço estalando pela força do tapa que recebeu.
— Vá, bata mais — disse.
E recebeu outro tapa.
— Faça isso de novo, eu sei que você quer.
E Ethan fez de novo, e de novo e mais uma vez até parar e irromper em lágrimas silenciosas que Nick não viu porque ele havia virado de costas.
— Faça isso quantas vezes você quiser — Nick disse, passando a mão pela ardente bochecha vermelha —, mas não vai mudar os fatos. Oliver está morto. Quem sabe ele está aqui, nesse quarto, nesse momento. Queria eu poder ver fantasmas para ouvir dele próprio o quanto você está sendo intolerante. — Silêncio. — E eu não me arrependo de nada. Exceto de ser responsável indireto pela morte dele, mas enfim. Ethan.
Ele não se virou para olhá-lo nos olhos.
— Eu lembro que — Nick continuou falando — todos os psicólogos disseram que, se algum dia você se lembrasse, você ia ficar confuso sobre o que é verdade e o que é mentira, então deixa eu te ajudar nisso. Deixa eu te contar alguns fatos da sua vida. Seu nome é Ethan Barcarolli Lemnsack Hentz. Você sempre achou seu segundo nome estranho. Você tem 16 anos. Você é filho de Charles Henry Lemnsack e Mary Alice Hentz. Eles morreram há dois meses num acidente de avião. Você se casou com Amy Christine Bellafonte para se emancipar e tomar a guarda do seu irmão mais novo. O nome dele é Nicholas Antonella Lemnsack Hentz. Ele odeia que o segundo nome dele seja nome de mulher. Ele perdeu a virgindade aos 11 anos por sua causa. Ele já transou com 198 mulheres desde então. — Parou um pouco para pensar se suas contas estavam realmente certas, deu-se por satisfeito e continuou: — Ele tem déficit de atenção e hiperatividade e vive se metendo em encrencas na escola. Acaba sobrando tudo pra você, mas não é porque ele quer. Ele também te ama muito e você o ama também. — Pensou um pouco e disse: — Vocês dois transam quase todo dia. Ele também é um idiota que matou seu ex-namorado e encobriu o segredo para te e se proteger também, porque não queria que você o odiasse pra sempre. No fim, a culpa é sua.
— Culpa minha?!
— É — Nick disse suavemente. Não sabia exatamente por que estava propositalmente irritando Ethan, talvez porque quisesse um pouco de atenção. — Deixa eu continuar. Há algum tempo, um garoto chamado Gabriel Melnick falou com você pela primeira vez e você viu logo que ele gostava de você. Quando ele falou com você pela segunda vez, ele te beijou. A propósito, aquilo tudo foi armação. Eu que forcei ele a fazer tudo aquilo porque eu sabia que vocês gostavam um do outro. — Ethan havia se sentado na cama, ainda de costas para Nick, mas levantou a cabeça quase que imperceptivelmente com o que Nick acabara de dizer. — Vocês começaram a namorar. No dia em que você teve um colapso nervoso, eu contei a ele sobre o Oliver. Amy já sabia há algum tempo. — Se o menor percebeu o modo como Ethan cerrou os punhos ao ouvir aquilo, não demonstrou. — Deixa eu ver mais… sua cor favorita é preto. Adora animais, mas nunca teria um de estimação. Você prefere ficar em casa a sair. Você é muito bom na escola. Você preferia viver em Castellobranco por causa do frio. As pessoas pensam que você matou Tommy Overgreen. Você herdou mais de um bilhão de dólares dos nossos pais, mas quis continuar vivendo do mesmo modo. Sue Molis vai a nossa casa semana que vem e se ela descobrir que você teve um colapso nervoso, vai tirar minha guarda de você e nós vamos ser separados para sempre. Que tal?
Porém, tudo o que Ethan disse foi:
— Como Oliver vivia na rua Boulevard se a mãe dele era professora?
Nick suspirou pesadamente. Estava tentando saturar a mente de Ethan para depois puxá-lo àquele assunto do qual precisavam tratar desesperadamente.
— O pai dele era um dos diretores da Lemnsack Hentz World Donations. Quando ele morreu, o pai dele se demitiu.
— Ah, sim.
Ethan ficou em silêncio por alguns segundos, depois deitou-se na cama e fechou o olhos. O silêncio tornou-se minutos e quando Nick perdeu a paciência, arrancou o tênis dos pés e pisou no chão gelado.
— Ei, Ethan.
O mais velho olhou para ele. Nick caminhou até a área do quarto onde o copo havia se espatifado, onde os milhares de caquinhos de vidro estavam espalhados.
— O que está fazendo? — Ethan perguntou. Nick virou para ele e sorriu tristemente.
— Você quer me punir? Tudo bem, eu mereço isso. Não sei por que, mas mereço isso. Então deixe eu te ajudar. — Dito isso, Nick pulou propositalmente em cima dos cacos de vidro e pressionou os pés neles. Abafou um perceptível grito e enquanto as lágrimas de dor rolavam-lhe a face, continuou pisando ali, no vidro moído. A água que remanesceu no copo logo adquiriu uma coloração avermelhada.
— Nicholas! — Ethan exclamou, pulando da cama e segurando o irmão no colo, puxando-o para longe dali. Nick, em lágrimas, ganiu:
— Me solta, por favor. Eu preciso fazer isso, eu mereço fazer isso.
Ethan não respondeu nada. Sentou o irmão na cama e arrancou os pedaços maiores de vidro de seus pés sanguinolentos com as mãos, arrancando os menores com uma pinça que estava em cima do criado-mudo. Foi até o banheiro do quarto e umedeceu um pano com água corrente, voltando ao quarto e pressionando-o contra os pés de Nick. Este parara de chorar e agora olhava vagamente a parede, como se houvesse algo muito interessante ali. Havia um kit de primeiros socorros numa das gavetas, de modo que Ethan pegou algumas gazes e prendeu-as aos pés de Nick com esparadrapos.
Quando terminou seu trabalho, Ethan sentou-se ao lado do irmão, amaldiçoando-se por ter tanta compaixão e por saber que não poderia deixar de ter nunca, nem se quisesse.
Nick olhou pra ele e disse:
— Eu sinto saudades de você. — Como Ethan não respondesse nada, continuou: — De fazer amor com você, de conversar na cama com você depois disso. Sinto saudades da nossa vida como ela era. — Olhou para os próprios pés, as gazes com as manchas vermelhas de sangue. — Você sabe que se continuar assim comigo, eu não vou aguentar.
E Ethan sabia. Sabia que ele não hesitaria em pular do primeiro prédio que encontrasse se tivesse a certeza de que sua vida seria daquele jeito de agora em diante, mas não a tinha e por isso ainda não o fizera.
Olhou para o rosto cândido e quase feminino de Nick, desiludido, sem esperanças. A tristeza que ele sentia podia ser equiparada a que Ethan sentia quando passava pela Porta marrom, no início de tudo.
— Você não vai mais ter aquele sonho, se é o que está pensando — Nick disse. — É por isso que não quer dormir, porque tem medo de tê-lo novamente?
Ethan recostou-se à cama e puxou Nick para si. Não sabia por que fez isso, mas sabia que gostou do toque. O menor puxou o lençol e cobriu os dois, o ar gelado do quarto fazendo-os arrepiarem-se e o calor corporal um do outro, esquentarem-se.
— Faz amor comigo, Ethan — Nick disse. — Por favor.
Para surpresa do loiro, seu irmão não disse nada, mas apenas atacou sua boca de supetão, enfiando a língua em sua cavidade, estirando seu corpo sobre o de Nick. Este sentiu o calor humano transmitido por Ethan ascender-se como uma tocha e quase teve um orgasmo ali mesmo. Ethan estava faminto, chupando e mordiscando a pele salgada do pescoço do menor com uma volúpia monumental. Nick soltou a voz e começou a gemer, a vontade daquele ato condensada há tantas semanas finalmente sendo liberada.
Ethan arrancou a camisa do menor, numa ânsia de chupar-lhe os mamilos até deixá-los duros, então desceu até a barriga dele e a mordiscou, deixando-a vermelha e molhada. Puxou a calça que Nick vestia lentamente, vendo seu membro latejando por cima da cueca. Apertou-o entre os lábios por cima da peça de pano quando sentiu as mãos de Nick apertarem seu cabelo e forçarem sua cabeça a se levantar.
— Hoje não, garotão.
Nick jogou o corpo de Ethan na cama e arrancou a própria calça. Como seu irmão só vestia a roupa do hospital que nada mais era do que um pedaço de seda fina que ia até seus joelhos, foi fácil despi-lo. Contemplou o corpo forte e definido de Ethan, os braços e as pernas levemente musculosas arqueadas, as coxas grossas e lisas, o pênis ereto e pulsante. Sentiu vontade de colocá-lo inteiro na boca. E percebeu então que nunca o deixaria ir.
“Pode me ignorar pro resto da sua vida, mas eu sempre vou estar ao seu lado.”
Refez todo o trajeto que Ethan antes fizera em seu corpo, partindo do pescoço até chegar ao pênis. Pôs lentamente o membro grande demais dentro da boca, sentindo uma enorme ânsia no começo, mas se acostumando à sensação e a seu gosto. Começou a subir e descer seus lábios firmemente fechados nele, aumento o ritmo com o tempo. Ethan delirava de prazer. Esquecera-se de como Nick era bom naquilo. Vez ou outra, Nick descia para seus testículos e colocava-os na boca enquanto masturbava seu pênis.
Quando Ethan estava perto de ejacular, Nick parou. Desceu ao ânus do moreno e começou a lubrificá-lo, enfiou e tirou a língua diversas vezes até dar-se por satisfeito. Ajoelhou-se na cama, entre as pernas do maior. Colocou-as em cima dos ombros e começou a pressionar seu membro já lubrificado naturalmente na entrada de Ethan. A princípio, este se incomodou com isso, mas um beijo carinhoso de Nick o fez esquecer a dor e se concentrar na boca do irmão colada à sua.
Finalmente, o loiro penetrou-o por completo.
— Se doer, me avise, tá? — Nick perguntou e por um momento Ethan imaginou que ele estava tirando com sua cara, mas então percebeu que estava falando sério e apenas assentiu.
Então Nick começou os movimentos, com seus gestos, e seus sons, e seus devidos gemidos e contrações, e estocadas e vai-e-vens. E barulho do corpo de um chocando-se no outro, e os gemidos dos dois misturando-se no ar como oxigênio, e a cama batendo na parede… todos os sons misturados em um só estrondo, um só barulho. Uma só emoção, uma só sensação, um só sentimento.
Nenhum dos dois raciocinava, apenas queriam que não parasse nunca.
Nick começou a apalpar e apertar toda a região das pernas de Ethan, que se contorcia no colchão, de dor e prazer. Beijou-lhe os pés e enfiou-os na boca, descendo depois, mordiscando os músculos das pernas de seu irmão.
Chegaram ao êxtase como um deus ao apogeu, tornando-se um só. Nick liberou sua semente dentro do irmão, e este o fez em cima de si próprio. O grito dos dois se misturou no ar e lá permaneceria para sempre, como uma prova para o que acabavam de fazer.
Minutos de silêncio se passaram até que Ethan murmurou:
— Você é incrível, sabia? — E Nick não conseguiu identificar nenhuma emoção por trás daquelas palavras. Não sabia o que ele queria dizer com aquilo.
— Como assim? — perguntou.
— Você usa da manipulação para conseguir o que quer. Por exemplo, pisar nos cacos de vidro. Você sabia que eu não te deixaria fazer isso.
— Claro que sabia — respondeu Nick calmamente. — Assim como sabia que você não ia me expulsar do quarto, como você ia parar de ler quando eu dissesse que eu que havia escolhido aqueles óculos, assim como eu fiz com o Gabriel ao forçá-lo a te beijar e pedi àquelas duas meninas para te deixarem desesperado para ele fazer isso. Ou chorando que nem um condenado para que você não fosse à Castellobranco. — Nick deu de ombros. — Não posso conseguir o que eu quero usando a força, então o que me resta é usar a inteligência. A propósito — acrescentou —, você devia deixar de ser tão ingênuo.
E Ethan sorriu. Ali estava ele, o grande Nicholas Hentz, manipulando-o mais uma vez sem nem ter consciência disso. E fazia isso com tanta maestria. Era um talento natural, parecia que havia nascido para isso. Ele conseguiria o que queria, mais cedo ou mais tarde.
— Agora — continuou dizendo o menor —, to falando sério. Sue Molis vai ir a nossa casa semana que vem e tudo tem que sair bem.
— Vai sair tudo bem com ela — disse Ethan, virando para o lado.
— Então… é isso?
— Isso o quê?
— O que está sentindo em relação a mim agora?
Ethan não respondeu. Não respondeu porque não sabia o que estava sentindo. Por um lado, o ódio e a raiva de seu irmão por ter escondido aquilo dele por tanto tempo e pela arrogância dele quando falava do assunto. E do outro, o amor fraterno que nutria por ele desde que adquirira consciência do mundo, o amor que deixou crescer e florescer, tomando-o e se tornando parte dele, o amor que não conseguiria nunca expulsar de dentro de si.
Ou seja, Ethan queria odiar Nick, mas não conseguia.
— Então que seja — o menor disse, com visível irritação. Levantou-se e começou a vestir suas roupas. — Já conseguiu o que queria, me fez sofrer que nem o inferno e já transou comigo, não precisa mais de mim para nada. — Recolocou os pés nos tênis cuidadosamente. — Mas me faça o favor de aparecer em casa para fazer bonito na frente da Assistência Social porque eu não to afim de ir para outra família. — Abriu a porta do quarto. — Nem de me matar. — Bateu.
Ethan pegou o travesseiro e pressionou contra o próprio rosto, como uma forma de abafar os problemas emocionais.
OoO
Nick chegou em casa tarde da noite.
O espaçoso apartamento parecia bem menor sem alguém ali. Percebeu então que nunca costumava ficar sozinho ali e sentiu uma pontada de medo, ignorando-a logo depois. Arrancou todas as roupas com brutalidade e jogou-se, nu, na cama de Ethan. O cheiro dele estava impregnado nos lençóis e travesseiros, de forma que se cobriu com todos eles.
— Se eu não me suicidar, vou acabar morrendo de fome — murmurou.
Nick ficou imerso em pensamentos até que caísse no sono, acordando por diversas vezes de noite, apenas para ver se Ethan havia voltado, embora soubesse que isso era improvável senão impossível.
Acordou de manhã e ficou na cama, sem querer levantar, sem vontade para tal. Sua vida parecia estar desmoronando pedacinho por pedacinho, como as bases de um castelo de cartas sendo mexidas aqui e ali para que toda a estrutura caísse. Começou a sentir saudades dos pais e se perguntou como superava dificuldades quando eles não estavam. E a resposta era seu irmão. Sempre foi.
Ele não tinha mais ninguém. Perdera a pessoa mais importante em sua vida, Ethan nunca mais conseguiria sequer olhá-lo com os mesmos olhos. Haveria sempre aquele mesclo de raiva e culpa presentes lá. Começou a ficar irritado, não sabia com o que ou com quem.
— Eu só tinha onze anos, merda. — Então soltou o choro do peito. Nicholas Hentz sentiu-se verdadeiramente solitário pela primeira vez na vida.
OoO
Gabriel foi a primeira pessoa que visitou Ethan no dia seguinte a Nick. Seguiu-se Amy e um homem que, mais tarde, todos conheceriam como Martin Scottfield. Todos contribuíram de algum modo para que o maior perdoasse o irmão menor (que não queria seu perdão, mas que o aceitaria da mesma forma) e que pedisse perdão também.
Gabriel chegou logo pela manhã. Após ser informado que receberia alta no dia seguinte, Ethan estava descansando na cama de hospital em que havia feito amor com Nick na noite anterior quando ele chegou.
Bateu à porta e entrou sem esperar resposta.
Sorriu assim que viu o maior, que sorriu da mesma forma e disse:
— Vem cá.
Gabriel sentou-se na beirada na cama pouco antes de Ethan puxá-lo para si e fazê-lo deitar em cima de si, beijando-o.
— Eu senti sua falta — Gabriel disse.
— Eu também senti, meu amorzinho. — E esse dito fez o mais novo ficar ruborizado. Ethan fez uma anotação mental para dizer isso mais vezes. Abraçou o corpo maior de Gabriel e refletiu sobre como ele era alto, enquanto beijava calmamente seu pescoço e seus lábios. — Eu não acredito que a gente nunca transou.
Como esperava, o rosto do mais novo ficou vermelho novamente, logo dando uma risadinha constrangida.
— Eu não queria apressar as coisas — murmurou em resposta.
— Mas eu quero — disse Ethan. Enfiou as mãos por baixo da camisa de Gabriel, apalpando-lhe as costas, arrancando-lhe um gemido que o fez tremer.
Tirou a camisa do menor e logo depois enfiou as mãos dentro de sua cueca. Apertou-lhe as nádegas, passando os dedos por sua entrada.
— Você quer mesmo fazer isso? — Gabriel indagou entre suspiros.
— Você é meu namorado. Claro que quero. — E dito isso, pressionou seu dedo maior na entrada quente e pulsante, fazendo movimentos circulares. A ereção dos dois cresceu e do nada os dois estavam numa luta de corpos nus e de gemidos e suspiros, por baixo dos lençóis. A calça de Gabriel foi arrancada de suas pernas com violência, enquanto sua cueca permaneceu em seu corpo.
Ethan o fez deitar-se e ficou entre suas pernas, descendo a boca no membro duro por cima do pedaço de pano molhado de saliva. A roupa de hospital que usava estava jogada no chão, junto a calça. Seus olhos correram pela pele macia de outro, devorando cada pedacinho.
Os lábios do maior desceram pelo corpo de Gabriel lentamente, parando em seus mamilos, começando a chupar-lhes com vontade. Depois de deixá-los duros, voltou a descer por seu corpo, deixando beijos e chupões por todo o abdome.
Quando as mãos de Ethan arrancaram a última peça de roupa do mais novo e sua boca fechou-se em seu pênis, este afundou sua cabeça na cama, gritando de prazer, puxando o lençol. Ethan passou a deslizar sua língua pelo membro duro com destreza, deixando-o louco de excitação.
— Não acredito que — Gabriel suspirou — você está finalmente fazendo isso.
— Fazendo o quê? — perguntou Ethan, parando de chupar por um momento.
— Chupando meu pau. — E jogou novamente a cabeça para trás.
A boca do mais velho separou-se definitivamente do membro após um tempo, mas sua mão continuou a massageá-lo, fazendo com que Gabriel movesse seu quadril junto, desejando mais contato.
— Fique de quatro — Ethan disse.
Gabriel virou-se e empinou suas nádegas, abrindo-se para ele. Ethan passou a língua em toda a região, resvalando-a para a abertura dele, sentindo como ali era quente e apertado. Foi afundando seu rosto naquele lugar, sem parar de lamber, beijar e chupar aquele pedaço tão escondido com prazer. Puxou as coxas de Gabriel para si, afundando seu rosto ainda mais, comendo-o.
Ethan separou-se dali e ajoelhou-se. Fechou sua mão na base de seu pênis e começou a introduzi-lo no corpo de Gabriel. Foi colocando aos poucos, parando sempre que ouvia o gemido dolorido dele, que abria suas pernas à medida que sentia dor.
Quando já estava todo dentro, inclinou o corpo para frente, colando seu peito às costas de Gabriel, sussurrando provocativamente:
— Como você é quente. — E gemeu alto.
Afastou um pouco o quadril e depois o moveu para frente lentamente, sentindo seu membro se arrastar por aquela parede quente e aveludada. Seu coração estava acelerado e sua respiração, descompassada. Começou a se mover mais rápido, gemendo mais alto até que seu corpo se incendiou. Os movimentos de ambos sincronizaram-se, sentiam ondas quentes de prazer lhes invadindo.
Ethan começou a beijar a nuca e o pescoço de Gabriel, enquanto o estocava com selvageria.
Gabriel sentia-se sendo rasgado internamente pelo pênis de Ethan e a dor era deliciosa. Começou a mexer seu quadril, acompanhando as estocadas do maior. Quando sentiu a iminência do orgasmo, Ethan se enterrou totalmente nele, atingindo sua próstata, derramando sua semente com um gemido comprido de satisfação.
Saiu de dentro dele e caiu na cama, cansado e suado, assim como Gabriel.
Os dois ficaram em silêncio, lado a lado, esperando as respirações descompassadas voltarem ao normal.
— E então — disse Ethan —, como é perder a virgindade?
Gabriel fitou-o curiosamente.
— Como assim?
— Eu não sei, sabe — respondeu sorrindo, olhando para o teto. — Eu perdi com o Oliver, então não me lembro como é.
Gabriel se calou. Ficaram num silêncio constrangedor até que o menor falou:
— Eu tenho Síndrome de Asperger, sabia?
— É mesmo? — indagou Ethan, com um leve tom de sarcasmo que sabia que Gabriel não perceberia. — Isso explica muita coisa.
— É. Sendo assim, eu tenho dificuldade em perceber os sentimentos das pessoas. Portanto, se quer dizer alguma coisa, é melhor dizer.
Ethan sorriu novamente.
— Você ia me contar sobre o Oliver?
Gabriel permaneceu olhando para ele sem dizer nada por longos segundos antes de responder:
— Não.
— Ah, sei. — Ethan ainda estava sorrindo, e isso não fazia sentido.
— Eu não ia contar porque o que o Nicholas me disse fazia sentido.
— Bem, se não percebeu, eu não estou nos meus melhores dias com ele — disse sarcástico.
— É claro que eu percebi — respondeu. — Acho que você não está sendo inteiramente justo com ele.
— Por que se importa tanto com isso? — indagou irritado. — Você odeia ele.
— Não odeio não — Gabriel retorquiu. — Só não vou com a cara dele. Ele é fútil e superficial, mas… não é má pessoa. E ele te ama e fez isso por amor.
— Ah, por favor. Ele sabia o quanto eu gostava do Oliver e escondeu isso de mim porque teve medo da minha reação.
— É verdade, e veja qual está sendo ela.
Ethan ficou em silêncio.
— Só estou dizendo — Gabriel continuou — que não faz sentido arruinar a melhor relação que você já teve e vai ter na sua vida por causa de algo que já passou. Sabe, namorados vêm e vão, mas a família é para sempre — disse, meio melancólico.
Ethan acariciou suavemente o rosto dele e beijou seus lábios mais uma vez.
— Eu amo você — disse.
— Eu também amo você — Gabriel respondeu. — E quero que seja feliz. Ethan, pense bem. Você vai conseguir ser feliz sem o Nicholas? Não. Porque ele é o amor da sua vida. Eu sabia disso quando me apaixonei por você, sabia que sempre teria de te dividir com ele, e veja só… ele me ajudou contigo. Contra a minha vontade. — Deu uma risadinha. — E você o está tratando como se ele não valesse nada.
Ethan suspirou. Sua mente estava em frangalhos.
OoO
Gabriel foi embora algumas horas depois e Ethan permaneceu deitado, imóvel, se recusando a pensar. Porque sabia que se o fizesse, iria ver que tudo o que ele disse fazia sentido. De certa forma, parecia ilógico querer sentir tana raiva de Nick.
Por outro lado, sentiu vontade de ter Oliver ali, do lado dele. Mas não podia. Porque ele estava morto.
Amy Bellafonte chegou algum tempo depois. Quando entrou no quarto, não fez nenhum comentário, apenas inclinou levemente a cabeça para um lado e sorriu.
— Você já esteve em condições melhores — disse ela, sentando-se na beirada da cama.
Ethan não disse nada. Ela o puxou para um abraço caloroso que ele retribuiu muito a contragosto. O calor do corpo dela o esquentava. Amy segurou seu rosto com as duas mãos e deu um selinho na ponta de seu nariz.
— E então, você sabe.
Ethan ficou com uma expressão neutra por alguns segundos até que disse:
— É incrível como você e Nick são parecidos.
Amy sorriu.
— Somos mais parecidos do que você pensa. Por exemplo, ambos tentávamos esconder um velho segredo de família. E olha que eu nem sou da sua família. — Tirou uma mecha de cabelo da frente do rosto. — Faz ideia de como eu me senti quando você me contou que estava tendo aquele sonho?
— Não — disse secamente.
— Eu fiz logo a relação das coisas. Depois contei ao Nicholas.
— O quê? Quer dizer que ele sabia de tudo antes de eu ter contado a ele? — A velha raiva voltou. — E então? Vocês ficaram de complô contra mim?
— Mais ou menos — ela respondeu suavemente. — Ele ficou abalado. Não estava preparado pra lidar com isso e creio que nunca estaria. Tem ideia do que ele passou?
— Ele? — indagou irritado. — Faz ideia do que eu passei?
— Passou? Por quanto tempo? Um mês? — Amy inclinou-se para frente e quase sussurrou: — Ele passou por dois anos. E, ao contrário de você, que não sabia se o sonho era real ou não, Nicholas sabia e isso o atormentava.
Ethan deitou-se bruscamente na cama e fechou os olhos, tentando limpar a mente. Mas Amy continuou falando.
— Você sabe que ele não tinha intenção, nem capacidade, de te magoar. Francamente, Ethan, o Nicholas? Te magoar? Ele só tinha onze anos naquela época e teve de tomar uma decisão que enlouqueceria adultos. — Deu uma pausa e continuou: — Teve que viver com uma sensação de culpa que todos nós sabemos que nunca vai abandoná-lo. Ele é infeliz por dentro. Usa a promiscuidade como forma de escape, de encher a mente com outra coisa para abafar seu passado. Eu não conheci o Oliver, mas pense bem. Se ele estivesse aqui, nesse momento, no meu lugar, o que ele te falaria?
— Ele não me falaria nada — Estava com a voz embargada —, porque, se ele estivesse vivo, eu não estaria com raiva do Nick.
— Então imagine-se falando com ele de novo, pela última vez. O que ele te diria?
— O que ele me diria? — Olhou para o olhar calmo dela e ficou mais irritado ainda. — Ele diria que eu estou sendo um monstro com o Nick, diria que estou sendo egoísta e intolerante, diria que não estou sendo justo, diria que eu deveria perdoá-lo porque tudo o que ele fez foi porque ele me ama. Ele diria isso porque era a pessoa mais amável do mundo. Mesmo que não achasse isso realmente. Mas ele não pode. Porque ele está morto.
— Então o quê? Você acha que ele realmente não acharia isso? Quando ele ficou contigo, ele sabia que estaria te dividindo com o Nicholas pelo resto da vida dele. Ethan. — Amy juntou-se a ele. — Quando uma pessoa te ama, ela tem de amar toda a família Lemnsack Hentz. Porque é assim que vocês são agora. São um só. Um completa o outro. Você não conseguirá viver sem ele e vice-e-versa. Não se engane. Nicholas Hentz é o amor da sua vida. Não foi o Oliver. É e sempre foi seu irmão.
E ele sabia que ela estava falando a verdade.
— Sua vontade de odiá-lo não faz bem a ninguém — continuou dizendo. — E ninguém a apoia. Oliver também não apoiaria. Nem você mesmo quer isso. Engula seu orgulho, Ethan. Levante a cabeça e diga que perdoa seu irmão. Faça isso antes que ele tome atitudes drásticas.
Amy levantou-se e deu-lhe um selinho nos lábios.
— Eu preciso ir agora. Espero realmente que você volte à escola logo. Sabia que as pessoas xingam Nick o tempo todo por causa de você e Gabriel? Ele aguenta tudo. É incrível.
Dito isso, ela saiu.
Ethan pressionou o rosto contra o travesseiro e gritou. Queria que Nick estivesse ali. Queria abraçá-lo e pedir-lhe desculpas, depois fazer amor com ele. Não era ele quem deveria ser perdoado. Ele não havia feito nada de errado. Agira por amor e por necessidade de proteger. Agira por medo. Tivera que amadurecer rapidamente para contornar aquela situação.
Estava com pena de Nick e se odiando por isso.
OoO
A noite chegou e pouco antes de Ethan decidir finalmente dormir, um homem que parecia ser um médico entrou no quarto com um ar muito profissional e uma prancheta nas mãos. Havia escrito em seu crachá Martin Scottfield.
— Boa noite, senhor… Lemnsack Hentz, certo? — indagou sem nem olhar para ele, escrevendo rapidamente na prancheta.
— Sim, certo — Ethan respondeu, franzindo as sobrancelhas.
— Vou fazer algumas perguntas de rotina, está bem?
— Uhum.
— Nome completo.
— Ethan Barcarolli Lemnsack Hentz.
— Hm, então você é filho de Charles e Mary Lemnsack Hentz?
— Sou sim.
— Sinto muitíssimo pela morte deles. Idade?
— Obrigado. 16 anos.
— De nada. Creio que tenha sido difícil se sustentar financeiramente após a morte deles. Endereço?
— Não, não foi. Eles deixaram uma grande herança para mim e para o meu irmão. Rua Symphonia, número 266, cobertura, bairro Dion.
— Entendo. Não é a rua Symphonia a mesma rua da Academia Alphonse Enoi? Pena que provavelmente não possa tocar no dinheiro, já que é menor de idade.
— É sim, eu estudo lá. Na verdade, posso sim. Eu me emancipei legalmente para poder tomar a guarda do meu irmão.
— Seu irmão?
— Sim, Nicholas Hentz. Ele é meu único parente vivo.
— Nesse caso, precisarei anotar informações sobre ele também.
— Tudo bem.
— Nome completo?
— Nicholas Antonella Lemnsack Hentz.
— Idade?
— 13 anos.
— Certo. Deve ter sido terrível para ele enfrentar a morte dos pais.
— Foi sim, mas ele superou.
— Vocês moram juntos?
— Naturalmente sim. Moramos na mesma casa desde que viemos para Middleland.
— Moravam em outro lugar?
— Sim, em Castellobranco. Nos mudamos para cá há uns dois anos.
— Bem, depois de ter herdado uma herança tão grande quanto parece ser, me admira que não tenham se mudado.
— A mim também, na verdade. Mas gostamos da nossa vida como ela é. Não víamos muito nossos pais, por isso superamos rápido.
— Entendo. Imagino que a relação de vocês deve ser bem estreita.
Ethan esperou um pouco e disse:
— É sim. Eu sempre cuidei dele. Nossos pais eram muito ausentes, de forma que eu sempre tive que fazer isso. Mas eu gosto. Embora ele seja meio infantil às vezes… eu também sou. Eu o amo muito.
Scottfield sorriu e disse:
— Muito bem, obrigado pela sua cooperação.
— De nada.
Quando ele saiu do quarto, arrancou a roupa de médico, jogando-a no chão de qualquer modo. Olhou para a prancheta com as informações valiosíssimas que dispunha e pegou o crachá, que na verdade era uma mini câmera, guardando-o cuidadosamente no bolso.
Saiu do hospital tranquilamente e foi para a praça mais próxima dali, sentando-se num dos bancos. Em pouco tempo, um homem vestindo um sobretudo chegou e sentou-se com ele.
— Conseguiu? — perguntou o homem.
— Eu sempre consigo — respondeu Scottfield. Deu-lhe a prancheta e a câmera minúscula. — Está com a sua parte?
— Sim, sim, claro. — O homem tirou um grosso papel pardo de dentro do sobretudo e entregou a ele, olhando para a prancheta e para a câmera como se todas as resposta da vida estivessem lá.
Scottfield olhou dentro do papel-pardo. Havia pelo menos 10 mil dólares lá dentro, mas se o paparazzo estivesse certo em suas suspeitas, o material que acabava de entregar valia cem vezes mais.
— Foi um prazer fazer negócio com você. — O homem levantou-se e foi embora.
— Com você também — respondeu, mas ele já se havia ido.
OoO
Ethan recebeu alta do hospital e tomou um táxi. Não foi diretamente para casa, parou em uma joalheria no caminho. Quando chegou ao prédio, percebeu um caminhão de mudança na frente do edifício. Perguntou ao porteiro se ele sabia quem estava se mudando.
— Os Applewhite — respondeu ele. A família Applewhite era a que ocupava um dos dois apartamentos do penúltimo andar, logo abaixo da cobertura, que ocupava o último andar inteiro. Ethan nunca havia falado com nenhum deles, um homem e sua esposa e sua filhinha de três anos, apenas os vira de vista. — O apartamento ainda não está vendido.
Ethan agradeceu e pegou o elevador, parando no último andar. Percorreu o corredor até chegar à porta de madeira branca entalhada. Então percebeu que não estava com sua chave e apertou a campainha.
— Quem é? — perguntou a voz de Nick após um tempo.
— Você sabe que sou eu — Ethan respondeu.
Alguns segundos depois, o mais velho ouviu o barulho da fechadura sendo destrancada. Entrou na sala de estar e viu Nick sentado no sofá, com um caderno no colo e um livro na mesinha de centro.
— O que está fazendo? — perguntou ao menor.
— Dever de casa — respondeu ele num tom seco sem nem levantar os olhos. — Quem sabe assim eu deixo de ser inútil e começo a fazer algo da minha vida — disse suavemente. — O que é despotismo esclarecido?
— É uma forma de governo que mistura absolutismo e iluminismo.
— O quê?
— É quando o rei manda em tudo e é aconselhado por cientistas filósofos.
— E isso é bom?
— Isso não existe mais, mas… relativamente sim.
— História é uma merda — disse, jogando o caderno para o lado e afundando o pescoço na almofada macia do sofá, dando um suspiro. — Por que você está aqui?
— Tenho uma coisa pra você. — Aproximou-se do sofá e sentou-se ao lado do irmão, aspirando o cheiro de seu cabelo. Nick não se mexeu.
— O que é, vai me bater de novo?
— Não, Nicholas. — Ethan tirou uma caixinha azul aveludada e pequena do boldo e entregou ao irmão.
Nick a abriu e viu dentro dela. Era um colar. Dourado e brilhante, o cordão fino como um fio de cabelo, um medalhão com duas letras: NE. Havia pedrinhas incrustradas nele que Nicholas sabia serem diamantes. Passou a mão na superfície lisa e depois na pontiaguda, onde os diamantes estavam incrustrados.
— Não vou poder andar até a escola com isso — disse. E então sorriu. — Vou acabar sendo assaltado e assassinado. É esse seu plano?
— Não diga besteiras — respondeu sério. — Eu encomendei isso há um tempo, na verdade. Olha só, eu tenho um parecido. — Tirou do bolso outra caixinha idêntica e dentro dela havia um colar quase igual, mas as letras estavam dispostas na ordem contrária, EN.
Nick sorriu levemente, mesmo contra sua vontade.
— Isso é tão brega.
— É verdade, mas eu não ligo. Isso é um presente meu pra você e custou os olhos da cara. Aliás, me perdoe.
— Pelo o quê?
— Por ter sido um filho da puta ultimamente.
— Então — disse cinicamente —, depois de eu ter praticamente me ajoelhado a você e implorado seu perdão e você não ter me dado, você quer que eu te dê? Você acha que pode me comprar com joias caras?
— Acho sim.
— Pois você está certo. Coloca em mim.
Virou-se e deu o colar ao irmão, que envolveu seu pescoço liso com a joia e prendeu o fecho. Nick passou os dedos pensativamente pelo medalhão com sua inicial e a de Ethan.
— Desculpa por ter te tratado tão mal — Ethan disse, abraçando-o por trás e beijando sua nuca.
— Desculpa por ter matado seu namorado — respondeu. — Mas eu não como direito há uns quatro dias e estou prestes a morrer de inanição, então vamos deixar o sexo para outra hora, sim?
— Claro. Mas antes, eu quero que você me diga uma coisa — disse Ethan.
— O quê?
— Nomes. Eu quero os nomes deles.
— Deles quem? — perguntou, mas sabia a quem ele se referia.
— Você sabe de quem.
OoO
No mês seguinte, um estudante de direito de Harvard chamado Peter Marahana pretendia sair com o carro. Quando enfiou a chave na ignição e deu a partida, o carro explodiu numa bola de fogo, matando-o. Do outro lado da rua, alguém o observava.
No mesmo dia, do outro lado do mundo, num resort na Austrália, Timothy Watanabe bebia um drinque ao lado de uma loura fenomenal. Alguns segundos depois, começou a ofegar e logo teve um ataque, contorcendo-se no chão como uma truta epiléptica, espuma branca saindo de sua boca e seus olhos revirando como bolas de gude. O garçom que oferecera-lhe o drinque desapareceu.
No dia seguinte, na costa da África, num iate ancorado, Joshua Scalamonti fazia sexo com duas ruivas agressivamente sexys ao mesmo tempo. Quando atingiu o orgasmo, uma delas enfiou uma faca em suas costas exatamente oito vezes. Depois fez uma ligação. Ele morreu assim, em êxtase.
Uma semana depois, numa praia do Brasil, Derek Merriweather praticava surf. Afastou-se demais da água e seu corpo desapareceu. Foi encontrado quase dois meses depois, com diversas escoriações e cortes por todo o corpo, os quatro membros estavam quebrados e a carne havia sido parcialmente comida por peixes. Ele havia sido castrado. No dia em que desapareceu, um pequeno barco pesqueiro havia sido visto na água, perto demais da praia, mas ninguém pôde provar nada porque seus destroços estavam enterrados no fundo do mar.
Nesse mesmo dia, Pablo Choi usufruía de uma prostituta de 10 anos na Tailândia. Houve uma batida policial vinda de fonte anônima e ele foi condenado, morrendo de intoxicação alimentar na prisão, ou pelo menos isso que foi declarado. Quando seu colega de cela percebeu que ele havia parado de respirar, fez o sinal combinado a um guarda que fez uma ligação.
Alguns dias depois, no interior dos Estados Unidos, Kenneth Ellenzweig saiu tranquilamente de casa onde trabalhava mexendo no mercado de ações e sofreu um sequestro relâmpago. Foi encontrado esquartejado no mesmo dia pela polícia num velho galpão abandonado nos arredores da cidade, pouco após sentir tanta dor quanto pensou que fosse possível existir. Antes de a polícia chegar ao galpão, um homem vestindo um sobretudo preto saiu dele, mas ninguém o viu porque estava escuro e chuvoso.
No mesmo dia, no mesmo país, Marion Ward, piloto de jatos supersônicos do Exército americano, pilotava no ar numa simulação de emergência de última hora. O jato explodiu no ar e ninguém soube explicar por que, mas um oficial sabia e fez uma ligação.
E no dia seguinte, em Londres, na Inglaterra, Stewart Hetch atravessava a rua quando não viu o caminhão vindo em sua direção. Naquele dia, sua vida passou diante de seus olhos enquanto sentia todos os ossos de seu corpo estourando como pipoca, o corpo dilacerado jogado no chão numa poça de sangue. O caminhão fugiu e acabou sendo encontrado pouco tempo depois, depenado e sem motorista.
OoO
Demorou mais de um mês, mas ele recebeu.
Ethan recebeu as oito mensagens de texto que esperava ao longo de duas semanas, e sentiu-se mentalmente esgotado depois de todas elas.
Marahana está morto.
Watanabe está morto.
Scalamonti está morto.
Merriweather está morto.
Choi está morto.
Ellenzweig está morto.
Ward está morto.
Hetch está morto.
Estava acabado. As Pessoas estavam mortas e a última remanescente que nunca aparecera em seu sonho morava em baixo de seu teto e ele o amava mais que tudo. Seu passado estava definitivamente enterrado e ninguém mais o conhecia, nem devia conhecer. Sentia que Oliver estava descansando em paz pela primeira vez desde a sua morte.
Depois que recebeu a última mensagem, respondeu-a:
Obrigado. Vou transferir o dinheiro para a conta bancária que combinamos. Você tem o número.
Em seguida perdeu a força nos joelhos, juntos as mãos e, pela primeira vez em sua vida, rezou.
OoO
A vida de Ethan Lemnsack e Nicholas Hentz seguiu-se normalmente durante muito tempo. Apesar de Ethan não ter contado ao irmão sobre o que fizera, tinha certeza de que ele sabia. Mas nenhum dos dois falava sobre isso. Tirando a presença de Gabriel na vida de Ethan, tudo estava como sempre fora. Eles continuavam a andar para a escola todo dia. Nick continuava péssimo nela e Ethan, ótimo. Um era infantil e promíscuo e outro era maduro e esforçado, com frequentes trocas de personalidades. Tudo estava bem, como devia ser.
Até o dia em que Ethan estava estudando calmamente na sala de sua casa e Nick chegou histérico e aos berros.
— ETHAN, ETHAN!
— O que foi, garoto?
Nick pulou para o sofá, pegou o livro das mãos do irmão e o jogou para o outro lado da sala com toda a força que podia, enfiando uma revista fina e amassada em suas mãos logo depois. Era uma revista de fofocas chamada Oddete.
Havia uma foto dos dois na capa.
O queixo de Ethan caiu e ele sentiu todo o oxigênio sendo expulso de seus pulmões. A foto parecia ter sido tirada de longe e retratava Ethan e Nick no portão do prédio, entrando. O rosto dos dois estava virado para a câmera e parecia impossível alguém confundi-los. A manchete dizia em grandes letras garrafais: “Herdeiros encontrados!”
— Puta que pariu — disse. — Como… Como isso aconteceu? Como eles descobriram onde moramos? — O pânico começava a assolá-lo.
— Eu não sei — Nick ainda estava histérico, mas sarcástico —, acho que eles tiveram uma ajudinha sua. Olha só pra isso. — Virou algumas páginas e Ethan viu uma foto sua, ainda usando a roupa do hospital. De repente, tudo fez sentido.
— Martin Scottfield.
— Ele é uma espécie de investigador para paparazzi e está como um dos colaboradores para a matéria mais estupenda do ano.
— Ele se vestiu de médico e me fez perguntas sobre nós dois.
— Ah, e você respondeu — disse, gesticulando furiosamente. — Mas é claro que ele foi atrás de você, a única pessoa burra o suficiente para não reconhecê-lo. Por que você não lê revistas de fofocas como todo ser humano normal?
— Eu sei que isso foi idiotice. Ei, sou eu que sou os sermões por aqui.
— Cala a boca. E idiotice?! Idiotice?! Ethan, agora o país inteiro sabe onde moramos, tem até o nosso endereço aí! Sabia que eu estava voltando pra casa, peguei um táxi e o taxista não queria que eu pagasse, pois estava lisonjeado em me conhecer? Pelo amor de Deus.
— Sabe o que isso significa, não é? — Ethan disse. — Chega de garotas.
— O QUÊ?
— Você leu essa matéria? Ela nos faz parecer santos, olha só pra isso. Ressaltando o modo como me emancipei para tomar a sua guarda e te transformando num garotinho assustado agarrado de um lado pela Justiça, e do outro lado pela sua família. Você virou um ídolo para todas as pré-adolescentes do país e elas não podem saber que você já transou com quase 200 meninas.
— Duzentas e quatro.
— Que seja. Também posso arrumar problemas com a Assistência Social por causa disso. Sei lá, arrume uma namorada. — E o modo despreocupado como disse isso apenas irritou o menor.
— Quer ser minha namorada? EU NÃO QUERO UMA NAMORADA, QUERO CONTINUAR SENDO DO MESMO JEITO QUE EU SEMPRE FUI!
— Nick. Nós fomos descobertos. Você não tá entendendo a gravidade disso? — Voltou a passar o olho pela matéria. — É claro que eles não iam deixar passar o fato de que eu ia receber a herança me emancipando. Eu nem sabia quanto ia ganhar quando fiz isso… E essa edição foi publicada semana passada, você viveu até agora assim, não é?
— Sim — disse pensativo —, mas eu não sabia. Agora… nossa vida se destruiu.
— Se nós sobrevivemos à morte dos nossos pais, nós vamos sobreviver a isso. — Acariciou o rosto do menor. — Pelo menos devemos ter feito alguns paparazzi milionários.
— O que vai acontecer quando a mídia descobrir que o queridinho da América tem namorado? — indagou sorrindo.
— Vão ter que aturar isso. — Fechou a revista e a jogou na mesinha de centro. — Você pegou a correspondência?
— Está em cima da mesa.
— Vai ver se tem cartas de fãs. Ainda tenho que estudar.
— Não sei por que você estuda tanto — disse Nick, indo até a mesa maior e pegando o molho de cartas, abrindo uma e lendo seu conteúdo distraidamente. — Eu nunca… AH MEU DEUS!
Ele jogou o corpo para trás e caiu da cadeira, se arrastando para longe da carta como se ela estivesse a ponto de lhe devorar. Ethan pulou do sofá e pegou a carta. Havia a foto de uma adolescente loira deitada de olhos fechados numa cama de hospital. O rosto dela estava completamente deformado e a pele parecia queimada. Logo abaixo da foto, uma frase: “Suas drogas fizeram isso. Vou matá-los.” A carta não tinha remetente.
— O que — Nick murmurou, horrorizado — é isso?
No entanto, Ethan estava estranhamente calmo e sério.
— Acho que sei o que é. Quando a Kruger-Vorheel ainda existia, ocorreu uma troca de malotes no setor farmacêutico, em uma das fábricas dos Estados Unidos. Como consequência, pílulas de um medicamento foram para as embalagens de outro. O erro foi descoberto e as embalagens logo foram recolhidas, mas só depois de já terem ido a diversas farmácias. No fim, cerca de 17 pessoas tomaram os medicamentos e tiveram… reações diversas. A Kruger-Vorheel indenizou a todos e o caso foi abafado.
— Mas — murmurou Nick — quando isso aconteceu?
— Em 2000. Foi pouco tempo antes de nossa mãe vender a empresa. Não é nossa culpa, nem culpa da nossa família. Essa garota deve ter tomado um dos remédios quando era criança e ficado assim. Ela deve estar em coma desde então. — E Ethan disse isso de forma inquietantemente impassível de sentimentos.
— Você não liga pra isso?
— Por que ligaria? — indagou irritado. — Não é culpa minha e tenho certeza que a família da garota recebeu milhões. Não importa. — Rasgou a foto. — Isso não deveria ter chegado até aqui. Deixe-me abrir as cartas de agora em diante, ok?
— Ok, Ethan — Nick falou baixinho. A insensibilidade transbordava da voz de seu irmão e isso o assustava.
Não importava, as coisas mudaram, eles agora teriam de viver de modo levemente diferenciado, mas tudo estava bem. Aliás, sempre se pode sair com as fãs.
OoO
É incrível como as coisas podem mudar, e como podem trazer novidades com elas.
Naquela noite, uma nova família se mudou sem que muitos soubessem para o apartamento logo abaixo do de Ethan e Nick, o antigo dos Applewhite, e fizeram questão daquele apartamento. Os irmãos Lemnsack Hentz pensavam que seus problemas e mistérios acabaram, mas não. Estavam apenas começando.
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