Como Vivem Os Anjos
4 Conhecê-lo É Amá-lo
Gabriel Melnick não era uma pessoa exatamente feliz. Ele tinha alguns problemas.
Para começar, seu sobrenome era Melnick. Não era exatamente isso que era ruim, mas ele estudava na Academia Alphonse Enoi e lá, se seu sobrenome não fosse famoso ou influente, você era simplesmente ignorado. E Melnick não era um sobrenome famoso, sua família não era rica ou poderosa. Gabriel apenas estudava numa escola cuja mensalidade custava mais que sua casa porque sua mãe era professora de lá. Ou seja, era um plebeu em meio a tantos deuses.
Segundo problema, ele tinha síndrome de Asperger. Síndrome de Asperger é uma espécie menos grave de autismo, porém, diferentemente dos outros tipos, não afeta a capacidade de aprendizado, mas afeta grande parte da empatia do cérebro. Ou seja, o indivíduo sente grande dificuldade em expressar emoções e sentimentos e em entender ironia, sarcasmo, gírias, metáforas, além de que frequentemente fosse o que a sociedade considera como grosseiro e mal-educado. E sequer percebia isso, porque não tinha capacidade para tal. Gabriel era assim.
O terceiro e último problema era que ele era da mesma sala que Nicholas Hentz. Não que não gostasse de Nick, pois nunca conversara com ele, julgara-o inicialmente como mais um dos filhinhos de papai que perguntariam seu sobrenome antes do nome — embora, tecnicamente, ele não tivesse pai — e se mantivera afastado.
O problema era o irmão dele.
Na primeira vez que vira Ethan Lemnsack, Gabriel tinha 12 anos e Ethan, 15. O maior fora levar o irmão mais novo na sala de aula, pois era o primeiro dia de aula do ano. Achava incrível o fato de que Ethan tinha a mesma altura desde então. Gabriel devia ser uns 10 centímetros mais alto que ele e era 3 anos mais novo. Falara com ele apenas uma vez na vida, no início desse ano, dizendo-lhe que seu irmão já havia partido da sala de aula quando Ethan fora se encontrar com ele. Este agradeceu e partiu. Foi quando Gabriel percebeu.
Estava apaixonado por Ethan.
Não sabia por quê. Quer dizer, era ridículo, certo? Nunca havia falado direito com ele, sequer trocado mais que alguns olhares. Mas Gabriel assistira fascinado ele confrontar Tommy Overgreen e depois mais ainda quando soube que seus pais morreram e ele se emancipou para tomar a guarda do irmão. Achou isso incrível, maduro, altruísta. Mas o fato de ele ter se casado com Amy Christine Bellafonte, uma garota, tirou-lhe todas as esperanças de que pudesse ter algo com ele. Não que pudesse ter algo antes. É claro que uma pessoa como Ethan Lemnsack jamais sequer olharia para alguém como Gabriel Melnick, certo?
Isso é, ele era do alto escalão daquela escola, por Deus. Todo mundo tinha um certo temor dele depois do incidente com Tommy Overgreen. Sem contar o fato de que ele herdara a fortuna dos pais, estimada em centenas de milhões de dólares. E podia ter quem quisesse por causa disso. Era bonito e simpático. Sim, Ethan era um deus e Gabriel era um plebeu.
Não que Gabriel se considerasse exatamente feio, nem bonito. Para si próprio, era bem normal. Tinha cabelos pretos e volumosos, nem curto nem longo, pele branca e não tão livre de espinhas e manchas. Os olhos eram verdes claros, as coisas que mais gostava em si. O lábio superior era levemente saltado para fora, deixando que parecesse que estava sempre fazendo um bico leve.
Quando Gabriel descobriu que Mary Alice e Charles Lemnsack Hentz estavam no avião que explodiu no meio do oceano Atlântico, ficou mais abalado do que os filhos dos dois. Provavelmente gostava mais da mãe de Ethan do que ele próprio. Achava-a uma mulher incrível, não só ela, mas toda a linhagem da Família Hentz. Era uma família famosa demais para não haver dezenas de livros sobre ela, cada qual Gabriel devorou compulsivamente. E ficara preocupado. Como será que Ethan estava? Será que estava triste, deprimido? Nervoso? Gabriel sabia que eles não tinham mais nenhum outro parente, muito embora tivessem antepassados titânicos.
Mas ele superou tudo isso, toda a inevitável tristeza e dificuldades jurídicas.
Ele era lindo, bilionário e patriarca de uma família poderosíssima. De onde saíra Ethan Lemnsack, do céu?
Sabia, como todo mundo na Alphonse Enoi, que Ethan não falava com quase ninguém, a não ser com Nick. E nunca sentira tanta inveja de uma pessoa em sua vida. Ver aquele pirralho promíscuo e cínico que se metia em brigas quase toda semana tendo toda a atenção do mundo de uma pessoa maravilhosa como Ethan o enlouquecia.
Quer dizer, quem diria que Ethan e Nick eram irmãos? Eram completamente diferentes em todos os aspectos. Pensava que Nick ignorava o fato de que provavelmente tinha uma vida maravilhosa jogando todos os problemas que tinha em cima de Ethan porque não conseguia lidar com eles sozinhos. Usava a aparência e carisma para seduzir quem quisesse e depois simplesmente jogar a pessoa para lá. Isso era tão escroto, tão nojento.
Inevitavelmente, a imagem que tinha de Nicholas Hentz tomou um ar de desgosto. Gabriel passou a desprezar aquele playboyzinho arrogante. Desprezar como usava garotas e depois as jogava fora — não que elas não merecessem —, desprezar a falta de interesse dele a praticamente tudo — déficit de atenção? Não me faça rir —, desprezar sua insensibilidade e sarcasmo. E as pessoas o amavam. Por quê? Ele era bonito sim, tinha que admitir, mas era só isso. Casca sem conteúdo. Não entendia por quê.
Nicholas era outro deus, milhões de níveis acima do dele. O fato de ele ser filho de Mary Alice Hentz o enojava. “Como aquela mulher maravilhosa gerou uma monstruosidade dessas?” Mas não expressava isso, pois sabia que se, em algum momento, Ethan tivesse que escolher entre Gabriel e Nick, escolheria Nick, porque ele o amava. Era um fardo que tinha que carregar.
OoO
12h45min da tarde. Ethan estava sentado num banco de madeira perto do portão de saída da escola. Havia um fluxo razoavelmente grande de alunos entrando e saindo. Perto do banco, quase em frente a este, um espaço do tamanho de uma quadra de tênis que era comumente usado para pequenos eventos — chamado simplesmente de Espaço — estava vazio, porém alguns poucos alunos estavam sentados no chão, recostados à parede. Ethan lia um livro que pousara no colo, aberto quase na metade. Usava óculos de leitura retangulares e discretos e estava de braços cruzados.
Nick se aproximou dele, jogando-se no banco e beijando a bochecha de Ethan energicamente. Estava agitado, como sempre ficava àquela hora.
— Podemos ir embora mais tarde hoje? — perguntou.
— Por quê? — Ethan tirou os óculos e passou a brincar distraidamente com ele.
— Porque eu não to afim de ir agora.
— Vai enfiar a língua na boca de alguém?
O menor deu de ombros, olhando distraidamente para uma roseira.
— Nem sei o nome dela, na verdade.
— Vai lá, então. — Ethan recolocou os óculos de leitura e voltou sua atenção ao livro. Como Nick ainda não saíra do banco, voltou a olhar para ele, que falou:
— Sabia que aquelas meninas sentadas ali perto olharam pra você quando eu te beijei?
Ele fez um sinal com a cabeça para um grupo de quatro meninas sentadas no chão do Espaço que estavam tendo enormes problemas em fingir que não olhavam para os dois irmãos.
— É porque elas estão com inveja — respondeu Ethan.
— De mim por estar beijando você — Nick disse, sorrindo.
— Não, de mim por você ter me beijado. Não vamos discutir isso, some daqui.
— Tá bom. — Deu outro beijo na bochecha de Ethan e foi em direção ao Espaço. Ethan fitou sutilmente por cima dos óculos o olhar das meninas seguindo o passo do irmão mais novo. Voltou a atenção ao livro.
OoO
Perto dali, Gabriel Melnick estava num dilema.
Alguns minutos mais cedo, tinha visto Ethan sair da sala dele (como saía mais cedo, sempre ficava perto da sala dele apenas para vê-lo) carregando três livros nas mãos. Porém, ele chegara naquela manhã à escola com quatro. Quando todos os alunos do segundo ano partiram, Gabriel entrou na sala e viu que Ethan havia esquecido o quarto livro em baixo da mesa em que comumente sentava.
Isso fora perfeito. Isso é, agora ele teria um motivo para se aproximar dele, certo? E finalmente a promiscuidade do irmão de Ethan servira para alguma coisa, pois este estava agora enfiando a língua na boca de alguma vadia e seu irmão, sentado no banco de madeira, lendo calmamente um livro qualquer. Que situação mais perfeita poderia querer?
E também era ruim. Porque, se quisesse começar a conversar com Ethan, precisaria de assunto. E Ethan falava pouco, então Gabriel precisaria falar muito. E se não conseguisse? E se dissesse algo que o ofendesse? 13 anos de convivência com a Síndrome de Asperger o ensinaram que podia ofender e magoar alguém sem nem perceber. Ele teria que pensar antes de falar, mas e se nem assim pudesse impedir sua doença de agir?
“Tem muito ‘e se’ nisso. Vamos, Gabriel, você consegue.”
Respirou fundo e caminhou em direção ao banco. Ele era comprido o suficiente para caber três pessoas perfeitamente, mas assim que Gabriel se sentou, fez sua perna propositalmente roçar com a de Ethan. Se ele percebeu, não demonstrou.
— Ah, oi, Ethan — disse timidamente.
O mais velho tirou os óculos e olhou fixamente para Gabriel, as sobrancelhas se franzindo levemente. “Meu Deus, como ele fica sexy com esses óculos.” Os olhos pretos de Ethan tremeluziram quando ele falou, coisa que quase fez Gabriel perder o fôlego.
— Você é da sala do Nick, não é?
— “É, infelizmente.” Sim, sou sim. Olha — Estendeu o exemplar grosso de química para que pudesse ver —, acho que você esqueceu isso em baixo da sua mesa.
— Ah, nossa, obrigado por devolver.
— De nada.
Gabriel o assistiu abrir a mochila e colocar o livro dentro dela, depois fechá-la novamente. Isso durou menos de 5 segundos, 5 segundos em que precisava rapidamente pensar em algo que pudesse estender um pouco a conversa.
Mas não foi necessário.
— Por que você foi à minha sala?
Gabriel congelou. “Por que eu fui à sua sala? Porque eu vi que você havia esquecido o livro, porque eu te observei chegando com quatro livros e saindo com três, então fui pegá-lo para que pudesse entregar pra você e começar a conversar com você porque eu te amo, cacete.” Não tinha uma resposta decente para isso. “Por que eu não pensei que ele perguntaria isso, droga?”
Porém, Ethan pareceu mudar de ideia sobre o que perguntar.
— Aliás, qual seu nome? — Isso fez Gabriel relaxar um pouco. E, ao mesmo tempo, não. “Agora ele vai ver que não sou de nenhuma família famosa e vai parar de falar comigo, ótimo.”
— Melnick.
— Hm, quero dizer, seu primeiro nome.
“Meu primeiro nome? Você quer saber meu primeiro nome? Ninguém nunca me perguntou meu primeiro nome. Você quer que eu me apaixone mais por você, é isso? Para de me torturar, eu nunca vou poder ter você.”
— Gabriel.
Ethan sorriu afavelmente.
— Que nome bonito.
“Ai meu Deus.”
Gabriel deu um risinho sem graça.
— Obrigado. — Mas ele tinha que dizer alguma coisa, ou a conversa acabaria por aí. Não tinha jeito, tinha que voltar ao assunto da sala. — Então, eu fui à sua sala porque… porque… ahn… ah! Porque a minha mãe dá a última aula do segundo ano no dia de hoje, ela tinha esquecido algo na sala e eu fui lá buscar. Então vi o livro em baixo da mesa, vi seu nome escrito nele e agora… te vi aqui.
Ethan passou a prestar mais atenção no que ele dizia.
— Sua mãe é May Melnick? Sério? Ela é minha professora favorita.
— É sim, obrigado. Tem uma coisa interessante sobre ela, todas as irmãs dela, minhas tias, têm nomes de meses em inglês. São January, April, May, June e August.
Ethan deu uma risadinha tão gostosa de ouvir que Gabriel quase se derreteu ali mesmo. Começou a relaxar mais.
— E é só por isso mesmo que eu consigo estudar nessa escola — murmurou.
— Como assim? — Ethan perguntou, mudando de posição, colocando o corpo de lado e cruzando as pernas. Gabriel se esforçou para não olhar para o quadril dele. “Não o coma com os olhos, pelo amor de Deus.”
— A Alphonse Enoi é muito cara, então, já que minha mãe é professora daqui…
— Ah, entendi.
— E, pelo fato da minha família não ser rica ou influente, pouca gente me dá atenção aqui. — No momento em que disse isso, achou que cometera um erro. Falar sobre si próprio àquele ponto não era apropriado.
Porém, Ethan pareceu interessado.
— Isso é tão idiota. Mas eu sei como é. Eu só usava o nome Lemnsack porque é menos famoso que o Hentz, então a maioria das pessoas também me ignorava. Mas, depois que meus pais morreram, todo mundo passou a saber que também tenho Hentz no nome.
— Eu sinto muito por isso. — Não era uma coisa adequada a se falar, além de ser completamente inútil.
— Obrigado, de verdade, mesmo. — Os olhos escuros de Ethan chocaram-se contra os de Gabriel e o primeiro percebeu então a verdade. O garoto gostava dele. — Poucas pessoas me disseram isso. Acho que ninguém ligou.
— Ah, eu liguei! — Isso saiu mais exasperado do que Gabriel queria. Amaldiçoou-se por isso, mas decidiu continuar. — Eu achava sua mãe uma mulher incrível, aliás, todos da Família Hentz.
Ethan deu um sorriso de satisfação, pequeno, onde as covinhas do rosto dele ficavam mais evidentes. Tomou um ar de quem sabia alguma coisa que os outros não sabiam.
— Leu sobre nós?
— Li sim. Acho sua ascendência incrível, Ethan, de verdade. — E, para surpresa e nervosismo de Gabriel, Ethan se aproximou. O toque dos joelhos dos dois aumentou e o mais novo começou a sentir o início de uma ereção. “Controle-se, pelo amor de Deus.”
— Achou todo mundo incrível? — Ethan percebeu que ele ficara excitado com o toque, suas pupilas facilmente identificáveis nos olhos verdes dilataram-se. Iria levá-lo a uma armadilha.
— S-Sim, achei. — Gabriel não sabia por que ele estava com aquele ar de provocação, mas estava ficando nervoso.
— John Francis?
— S-sim.
— John Daniel?
— Sim.
— Samuel?
— Sim.
— Minha mãe?
— Sim.
— E quanto a mim?
— O melhor.
Pronto, Ethan o pegara. Perguntara tão rapidamente que, quando chegara a ele próprio, Gabriel não tivera tempo de pensar e dissera o que realmente achava. É, ele gostava dele.
Gabriel estava petrificado. Não sabia por que dissera aquilo. “Meu Deus, o que é que eu tenho?!” Pusera todo o jogo a perder, Ethan estava com um ar divertido no rosto. Ele sabia de tudo. É claro que sabia. “Ótimo, agora ele deve estar me achando ridículo.”
Ethan pensou: “É incrível como estou ficando cada vez mais parecido com Nick. Manipulei uma pessoa para conseguir algo de interesse pessoal, assim como ele sempre faz.”
— Eu não quis dizer isso — disse Gabriel, na defensiva.
— Quis sim, vamos lá.
— Bom… bom, talvez. Quer dizer… eu acho legal o que você fez… ter se casado com Amy Bellafonte para proteger o seu irmão. Mesmo que ele não mereça
— Eu já me divorciei da Amy e… o que foi que você disse?
— Mesmo que ele não…
Foi aí que Gabriel percebeu que fizera uma merda, uma grande merda. O olhar de Ethan dizia isso. “O que foi que eu disse?! Qual é o meu problema? Meu Deus, Gabriel, controle-se! Eu devo ser a pessoa mais burra do mundo. Logo após o irmão dele, é claro.”
— Nada — disse nervosamente.
Ethan adquirira um ar sério e, de certa forma, autoritário.
— Fale.
Engolindo em seco, Gabriel decidiu falar.
— Eu… eu acho que ele não merece.
— E por quê?
— Porque… eu não sei. Eu nunca falei com ele, mas não preciso para saber que nesse momento ele deve estar enfiando a língua na boca de alguém cujo nome nem sabe. — Percebeu então que estava começando a ficar irritado.
— E o que isso tem a ver?
— Ele é promíscuo. Não dá a mínima para a vida que tem. — Deu de ombros timidamente. — É só isso. “Muito bem, eu me coloquei entre ele e o Nicholas. Agora ele vai me odiar para sempre. Acho que vou me matar.”
Ethan, porém, disse:
— Você tem razão.
— Tenho?
— Tem… — Ethan olhou para o horizonte e adquiriu um semblante pensativo que Gabriel achou uma graça. — Ele pode não dar muita atenção ao conforto que tem, mas é porque ele sempre viveu assim. Ele não sabe viver de outro jeito, não sabe ser de outro jeito. Não é culpa dele, Gabriel. E é muito cabeça-dura para que coloquem isso na cabeça dele. E, quanto ao fato de ser promíscuo… isso é meio culpa minha. Mas ele também se preocupa de verdade com as pessoas quando gosta delas. Quanto às outras… é indiferente. Também é muito leal e gentil. Nick só não sabe disso. E não é que ele não se importe com nenhuma garota, mas que nunca encontrou nenhuma para se importar, entende? Ele não é má pessoa. Apesar de ser um pouco fútil.
Gabriel pensou em quantas vezes Nicholas Hentz fora expulso de sala por desafiar professores, e que talvez aquela arrogância fosse realmente apenas indiferença.
— Entendo.
Ethan deu de ombros.
— Mas não precisa fingir que gosta dele.
“Como é?! Eu acabei de dizer que não gosto dele e você quase me fuzilou!”
— Tudo bem, então.
— Ei, Ethan!
Nicholas saíra do Espaço, os lábios levemente manchados de batom vermelho. Foi andando em direção ao portão de saída, fazendo um movimento com a cabeça para que Ethan o acompanhasse. Pareceu não notar Gabriel.
Ethan se levantou.
— Até outro dia. — Piscou para o menor e foi em direção a Nick.
Gabriel ficou ali, encantado.
OoO
— Sabe aquele garoto que estava sentado comigo?
— Não sei o nome dele.
— Sabe algo sobre ele?
— Sei que ele é da minha sala e que é apaixonado por você.
Ethan e Nick estavam caminhando para casa. Andavam lado a lado, o braço esquerdo de Nick envolvendo a cintura do irmão.
— Como sabe disso?
— Todo mundo sabe disso. Ele vive comendo você com os olhos. Ele sempre fica na porta da sua sala só pra te ver saindo. Quando você fazia natação, ano passado, ele sempre ficava olhando você da arquibancada do ginásio. Eu posso não prestar atenção nas coisas, mas isso eu percebo. Qual o nome dele?
— Gabriel.
— O sobrenome, quero dizer.
— Melnick.
— Não conheço.
Nesse momento, Ethan entendeu, por um segundo, por que ele não gostava de Nick.
— Eu não te criei para julgar as pessoas pelo sobrenome, Nicholas.
Ele pareceu ofendido.
— Não estou julgando ele, só queria saber se eu sei alguma coisa sobre a família dele. Eu não sou desses que deixa de falar com as pessoas porque não são ricas. Mas o que ele queria com você?
— Me devolver um livro que esqueci na sala.
Eles haviam chegado ao prédio. Passaram pela portaria e tomaram o elevador. Ao chegar ao apartamento, Nick arrancou as próprias roupas e jogou-as no chão.
— Ele é bonitinho, até. Você gostou dele também, vai fundo. Eu não me importo. — E trancou-se no banheiro.
Ethan recolheu as roupas de Nick e dobrou-as.
— É, gostei mesmo — murmurou.
OoO
Gabriel não tinha certeza se se saíra bem ou não.
Apesar do desastroso final, a conversa havia fluído bem. E é claro que Ethan havia percebido que Gabriel gostava dele. Pena que Nicholas estragara tudo.
Mas o modo como Ethan havia defendido o irmão confirmando os defeitos dele fora uma graça. Não mudou a opinião de Gabriel sobre Nick, mas foi o suficiente para fazê-lo gostar mais dele. A questão agora era como Ethan reagiria a isso. Bem, ele não demonstrou desgosto.
No entanto, Gabriel sentia-se longe dele. Era como se Ethan tivesse erguido uma barreira emocional para bloquear sentimentos por qualquer pessoa que não fosse o irmão dele. Como se escondesse algo ali, uma tristeza, um segredo guardado nos alicerces de sua mente.
Quando chegou em casa, perguntou a sua mãe o que ela achava de Ethan Lemnsack.
— Ele é um ótimo aluno — disse May Melnick —, é muito inteligente e atencioso. E responsável também. Por que quer saber?
Gabriel deu de ombros.
— “To apaixonado por ele.” Só curiosidade.
Gabriel foi ao seu quarto e trancou a porta. A ereção que dera sinal de vida há meia hora voltara com força total. Arrancara suas roupas e levou a mão ao pênis, começando a se tocar.
A imagem se formara nítida em sua mente. Visualizou Ethan Lemnsack nu, ereto, colando seu corpo baixo e esguio ao dele, os dois membros se tocando. Mal batia em seu pescoço. Eventualmente, Ethan desceu as mãos pelo corpo de Gabriel e apertou suas nádegas, enquanto esse gemia.
— Ah, Ethan…
Gabriel desceu sua língua pelo peito do mais velho, lambendo os mamilos até deixá-los duros, depois chegando ao membro e metendo-o na boca, sugando-o com vivacidade e vontade. Imaginou como seriam os gemidos de Ethan com aquela voz levemente rouca.
Então Gabriel colocou Ethan de quatro e afundou o rosto nas nádegas dele, enfiando a língua na abertura que se escondia. Estava tão quente, tão úmido, tão apertado, era tão saboroso.
Depois, colocou o mais velho de bruços e começou a passar a língua em toda a extensão do corpo dele, começando pelos pés, indo para as pernas, passando pelas nádegas, depois as costas, até chegar à nuca.
— Você é tão gostoso.
Ethan tomou as rédeas da situação. Espalmou o corpo de Gabriel com as mãos, chupando seu pescoço e seus mamilos, masturbando o pênis ereto. O fez sentar em seu pênis, devagar, apertando suas nádegas com volúpia. Quando a penetração estava completa, Gabriel começou a cavalgar violentamente sobre o corpo do menino que amava.
Foi aí que ele ejaculou, forçando-se a voltar à realidade. Estava deitado na cama, o corpo nu coberto de suor e a mão direita, de sêmen. Foi ao banheiro de seu quarto, onde lavou as mãos e entrou no Box. Sentia o corpo quente.
Gabriel Melnick desejou Ethan Lemnsack mais do que nunca, e se perguntou por que nunca poderia tê-lo, se perguntou por que o destino era tão cruel.
OoO
Enquanto fazia amor com Nick, Ethan, inevitavelmente, pensou em Gabriel.
Pensou nele enquanto beijava o corpo de Nick, pensou nele enquanto enfiava o pênis do irmão na boca. Pensou nos adoráveis lábios saltados dele enquanto beijava os do irmão. Pensou nele quando lubrificou Nick com a língua, e novamente quando o penetrou. E quando ejaculou, quase gritou seu nome.
Caiu na cama ao lado do irmão, suado, ofegante, e percebeu.
Queria que fosse Gabriel quem estivesse ali.
Ethan havia percebido algo no modo como o garoto falava com ele. Não era um simples gostar, uma simples paixão. Não era apenas excitação por estar falando com Ethan, era outra coisa, outra coisa que se escondia por debaixo daqueles olhos verdes que mais pareciam piscinas naturais sob o sol forte do verão.
Era admiração.
Gabriel Melnick o admirava. Falava com uma humildade tão grande que Ethan ficava constrangido, como se achasse que ele fosse alguém superior. Não sabia exatamente por quê. Talvez fosse o caso se ele ser um Hentz, ou porque simplesmente o achava realmente incrível. Não se achava uma pessoa incrível, como ele dissera. Apenas fizera algumas coisas que qualquer um poderia fazer. Só isso. A admiração era influenciada pela paixão, sabia disso. É, aquele garoto da idade de seu irmão, mas mais alto que ele, estava simplesmente o amando.
Não do modo que Ethan amava Nick, que era o amor mais puro e honesto, impossível de ser quebrado, sustentado por confiança e lealdade. Era outro amor. Era feito disso mesmo, de admiração. De desejo. De vontade de ficar com. Podia ser superado, não podia?
Mas Ethan não sabia exatamente se queria que Gabriel superasse. Talvez… talvez pudesse alimentar aquilo. Talvez gostasse de Gabriel, ele parecia ser uma boa pessoa, embora obviamente não gostasse de Nick e… parecesse estar escondendo alguma coisa. O cuidado que ele tinha em escolher as palavras antes de dizê-las parecia ser alimentado por outra coisa além da simples vontade de não chatear Ethan. Ele parecia achar que podia errar a qualquer momento. Parecia que sabia que ia errar. E por quê?
Quando ele dissera aquilo sobre Nick, sobre ele não merecer tudo o que Ethan fizera por ele, pareceu estar dizendo casualmente. Foi o olhar e o tom de voz de Ethan que o fez perceber que havia dito algo errado. Antes disso, ele não fazia ideia.
Qual era o segredo de Gabriel Melnick?
Foram com esses pensamentos que Ethan adormeceu, nu, com Nick em seus braços.
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