Ritchi Revonne estava furioso. Furioso consigo mesmo e com Melchior. Depois de ver o modo como ele falara com Lorenzo Barcarolli na frente de seus próprios irmãos, teve que realmente se controlar para não massacrar aquele rosto tão doce, embora soubesse que nunca conseguiria fazê-lo. Toda vez que olhava para aqueles olhos que ora eram violetas, ora eram púrpuras e ora eram cor-de-rosa, sentia cada músculo do corpo resetar, como se fosse um calmante natural.

Ritchi achava que era por isso que conseguira suportá-lo por tanto tempo. London suportava também, mas London não ligava realmente para nada.

As nuvens no céu continuavam ameaçando chover, mas só ameaçavam e não faziam nada, assim como Melchior.

Enquanto caminhava para casa, chutava as pedrinhas das calçadas. Elas rolavam pelo cimento rachado e repousavam alguns metros depois, apenas para voltarem a ser chutadas. Algumas estouravam pelo caminho, originando dezenas de outras pedrinhas pequenas demais para serem chutadas, e outras acabavam estourando com o impacto.

O ar frio chocava-se contra seus braços desnudos (a camisa que usava não tinha mangas) como uma faca. Mesmo assim, não se importava. Gostava do frio. Queria ter a habilidade de nunca sentir calor que Melon tinha. Era algo sobrenatural, assim como aqueles olhos.

Precisava parar de pensar nele. Mas era difícil, conhecia-o há três anos e parecia que era por toda uma vida. Desde a primeira vez que transou com ele, vez essa em que tinha certeza que havia sido a primeira dele, sob aquela clareira, apenas com a hesitante luz da lua e das árvores como testemunhas. Fazer aquele sexo desajeitado de pré-adolescentes foi como selar um compromisso pra vida toda.

Estava a ponto de virar a esquina para a Avenida Renome quando viu um par de olhos castanhos e cabelos negros, tão negros quanto os de London, e tão espessos quanto os seus próprios, parados no meio da rua, sob a forma de uma garota menor que ele.

Ela sorriu quando o viu. Aproximou-se de Ritchi e lhe deu um beijo em cada bochecha.

— Mia — ele a cumprimentou. Era mais novo um ano que ela, mas passava uns bons doze ou treze centímetros de sua altura.

— Ritchi — ela sussurrou. Tinha uma irritante e adorável mania de sussurrar quase tudo o que dizia, assemelhando-se a Melchior, embora ele só sussurrasse quando estivesse contando um segredo.

Ritchi passou os dedos pelos cabelos dela até chegar à nuca. Sua pele era dourada e estava corada. Mia estava parada em frente a uma construção abandonada, um prédio de quatro andares que outrora fora o maior de Jardim de Ouro, maior mesmo que a mansão de Enzo Granelli. Havia uma cerca de madeira impedindo a passagem das pessoas, mas Ritchi sabia que havia uma tábua falha. Bastava empurrar para abrir espaço.

O prédio não estava apenas abandonado, estava quase que completamente carcomido. Metade da estrutura era cinzas, cimento caindo aos pedaços e madeira apodrecida. Conhecia a história. Quando aquele prédio ainda era um prédio, há quatro anos, um incêndio alastrara-se de noite e cozinhara toda a família que nele morava, todos mortos pelo fogo que os consumira enquanto dormiam. Estava abandonado desde então, e ninguém parecia disposto a derrubá-lo e criar outra coisa no local.

Dizia-se que os espíritos da família ainda estavam ali, mas aquilo era bobagem. Ritchi incomodava-se mais com a sempre expectativa do pequeno edifício desabar do que com os improváveis fantasmas que lá havia. Aquele grande carvão era como uma nódoa no esplendor de Jardim de Ouro.

— O que está fazendo aqui?

— Sttan me pediu para ficar aqui de vigia enquanto ele ia comprar algumas coisas. Alguns caras da fraternidade dele estão lá dentro.

Ritchi torceu o nariz. Involuntariamente, tocou na parte de trás de seu braço direito, onde uma cicatriz se estendia eterna, fruto da primeira briga física que teve com Stan Molihnar, a primeira de muitas. Mesmo ser namorado de Mia não mudava o fato de que ele era um filho da puta imbecil. Aliás, era membro de uma daquelas fraternidades estúpidas de faculdade em que filhinhos-de-papai torram o dinheiro dos pais em festas e bebedeiras. Não quer Ritchi já não tivesse participado de uma festa assim.

Delta Delta Nu, ou Delta Delta Phi, não se lembrava do nome da fraternidade, mas sabia que o costume mais conhecido na iniciação de calouros era obrigá-los a passar vinte e quatro horas dentro do prédio da antiga família Gramp.

Perguntou-se de novo como aquele lugar ainda não tinha desabado.

— Pensei que eles fariam a iniciação em outro lugar — Ritchi falou, fitando o andar mais alto do prédio. — Com essa onda de assassinatos por aí.

— Onda de assassinatos? — Ela riu. — Um assassinato não configura uma onda. Aliás, todo mundo sabe que aquele Lance Chioren tinha um caso com a mãe do seu amigo London.

Deus, essa história já se espalhou?

— London não faria mal a uma mosca — ponderou. — E… não houve outro assassinato, mas houve uma tentativa.

Mia passou a prestar mais atenção. Seus grandes olhos castanhos destacavam-se no rosto redondo.

— Lorenzo Barcarolli, irmão de Ethan e Nicholas Lemnsack Hentz, sabe? — Ritchi perguntou. Ela assentiu. — Pelo visto, alguém o atacou com uma faca ontem à noite. Da mesma forma que matou Lance. A facadas.

— Lorenzo… — Mia pensou um pouco. Uma luz de compreensão apossou-se de seu rosto. — Aquele garotinho cego com sotaque italiano? — Ele confirmou. — Deus, que pena dele. Ele está bem?

— Não faço ideia. Ele disse que foi Owl quem o atacou.

Owl? Owl não sabe nem que se cortar a pele sai sangue.

— Ele tem uma coleção de facas.

— Tinha.

Ritchi levantou uma sobrancelha. Mia deu um suspiro pesaroso.

— Sttan a roubou da casa dele. Sabe que ele sempre deixa a janela de seu quarto aberta. Ele foi lá e pegou. Decidiu que, de algum modo, vai usá-las nos calouros desse ano. — Ritchi devia ter ficado realmente vermelho de raiva, pois Mia pôs as duas mãos em seus ombros e as pressionou lá, fazendo-o se acalmar. — Ele vai devolver. E nem foram todas. Apenas uma dúzia.

— Ótimo, uma para cada soco que eu vou dar na cara dele.

Ela ia dizer alguma coisa quando olhou para alguém atrás de Ritchi, pressionando os lábios um contra o outro. Ele não precisava (ou não queria) se virar para saber quem era, e realmente não precisou (ou não quis). Sttan Molihnar colocou uma de suas mãos sobre o ombro desnudo do ruivo, passando-a pelo pescoço logo depois, como se fossem velhos amigos.

— Ritchi, cara, há quanto tempo não te vejo.

Ele não pareceu notar seu olhar de desprezo. Sttan era alto, mais alto que Ritchi, embora um pouco menos musculoso, com cabelo castanho avermelhado, embora não tão vermelho quanto o seu. Vermelho como uma fênix renascida, Melon costumava dizer. Tinha olhos castanhos quase rubros também, mas que pareciam ser tão falsos quanto os de London. Usava um casaco vermelho e amarelo muito grande pra ele.

Os pais de Sttan tinham uma rede de restaurantes bastante famosa em Middleland. Melchior contara uma vez que eles pagavam suborno a Enzo Granelli para que a máfia mantivesse os restaurantes menores longe da cidade. Após sua prisão, eles vinham tendo consideráveis dificuldades em se manterem no mercado.

— Onde estão as facas de Owl? — indagou, separando-se bruscamente de sua mão.

Sttan pareceu se surpreender, embora não do modo que Ritchi gostaria.

— Para que as quer? Ele tem tantas que nunca notaria a falta de algumas. — Owl notaria se houvesse um único grão de poeira em alguma das lâminas, isso era sabido. — Calma aí, cara, depois eu as devolvo. — Sorriu jovialmente, mostrando uma fileira de dentes brancos e perfeitos demais.

Mia pareceu notar a tensão entre os dois.

— Sttan, devolva as facas dele. Owl vai ficar deprimido se ver que algumas estão faltando. Você pode usar outras.

Ele olhou para a namorada como se fosse a primeira vez que a visse ali. Encostou o nó dos dedos lentamente em sua têmpora esquerda e os deslizou até a bochecha. Mia pareceu desconfortável com o toque.

— É isso mesmo que você quer? — ele indagou.

Ela hesitou, torcendo o nariz.

Sttan virou-se novamente para Ritchi.

Depois eu as devolvo. É melhor eu entrar — disse, referindo-se ao prédio. — Tenho alguns calouros para torturar.

O punho direito de Ritchi acertou o nariz de Sttan tão rápido que ele só notou quando estava no chão, urrando de dor. O maior o ergueu com as duas mãos e o empurrou violentamente contra as tábuas de madeira que limitavam o acesso ao prédio queimado. Sttan voltou a cair no chão, de joelhos e sangrando.

Ritchi olhou para Mia, que apenas observava o namorado com uma profunda consternação. Estava claro que ela estava acostumada com aquilo.

No final daquela rua, um caminhão de lixo atravessava a esquina, seguindo na direção deles.

Sttan cuspiu dois dentes quebrados.

— Você quer as facas? — Ele abriu o casaco e tirou de dentro uma caixa de veludo azul do tamanho de um teclado de computador. Ritchi já tinha visto aquela caixa, sabia que havia exatamente uma dúzia de facas ali, todas de pequeno porte. Ele estava fechada, porém abriu-se quando ele a segurou entre as mãos ensanguentadas, derrubando seis ou sete dos artefatos afiados. — Vai pegar. — Naquele momento, o caminhão de lixo passava em frente ao prédio. A caixa foi atirada, caindo bem na caçamba.

O fedor que ela exalava era como um complemento.

Ritchi olhou para Sttan com desprezo. Ele já estava com o nariz quebrado, não sentia vontade nem de terminar o serviço. Recolheu as seis facas que caíram da caixa enquanto ele entrava no prédio através da tábua, cuspindo sangue no chão. Eram bonitas, as facas. Uma delas tinha o cabo branco em formato de osso, com a lâmina afiada como uma navalha. Outro cabo era de couro negro, e a lâmina dessa era a mais comprida, mais ou menos quinze centímetros, com vários detalhes ornamentais por toda ela. Tão bonitas quanto mortíferas.

— Vou indo — disse à Mia. Ela assentiu, com uma vista cansada.

O caminho para a casa de Owl pela Avenida Coruja Dourada estava deserto. Ritchi acabou passando pela mansão dos Lemnsack Hentz, fazendo-o sentir-se como um intruso. Através das grades do muro, pôde ver Ethan, Nicholas e Lorenzo entrando na casa após a desastrosa conversa que tiveram poucos minutos antes. Ainda estava com raiva de Melchior por ter dito aquilo a Lorenzo, mas não era estúpido a ponto de achar que ele fizera aquilo sem motivo. Desconhecia-o, mas havia um.

Também sentia pena de Lorenzo. Ele estava claramente com depressão, mas seus irmãos eram cegos a isso. Ver aquele garoto pequeno com olhos cinza e foscos com aquela expressão triste e vazia era de cortar o coração. Se Ritchi sentia isso apenas olhando-o uma vez, imaginava como Ethan e Nicholas sentiam-se convivendo com ele todo dia.

Um dos irmãos de Melon tivera aquilo uma vez. Ou foi um dos primos dele. Sim, fora Howl, filho de Lance. Após sua mãe deixá-los com o pai, que não era muito melhor que ela, o mais novo dos gêmeos caiu numa depressão profunda e cruel. Fora ano passado, ainda se lembrava do aspecto adoentado que Howl adquirira. Emagrecera muito, a ponto de ficar diferente do irmão gêmeo, considerando que eles eram idênticos. Não tinha vontade de comer e passava a maior parte do tempo dormindo ou sonhando acordado. Sonhando com o pai que nunca viria, com a mãe que nunca voltaria.

Pouco antes do Natal, Melon levara Howl para aquele parque de diversões que se instalara em Middleland. Fora como um banho de felicidade, como se tivesse ido ao céu e voltado. E era uma coisa tão simplória, apenas um parque, mas que devolveu um sorriso tímido àquela criança. Com o passar de dezembro, Howl fora lentamente voltando a ser o menino hiperativo que costumava ser. Tudo por causa de Melon. Era disso que gostava nele, o modo como ele agia como uma mãe coruja para com os irmãos e primos, tomando conta deles com um cuidado feroz. Devolvera a vida de Howl, e isso era uma coisa da qual ele ficaria grato para sempre. Era um menino doce.

Crianças não deveriam ter depressão.

As facas pinicavam as palmas de suas mãos quando chegou à casa de Owl, um prédio com apenas um andar, branco e estreito, que estranhamente combinava muito com os Olrwen.

Tocou o interfone e esperou pacientemente. Uma voz rasgada e envelhecida atendeu após longos segundos, parecendo terrivelmente mal-humorada.

Ham, sim? O que quer? — Olenna Olrwen tinha duzentos anos de idade e era tão doce quanto café velho e rançoso.

— Olá, eu tenho uma coisa que pertence a Owl — disse, polidamente. — Eu vim devolver.

— Rhanys não está aqui agora. Ham.

— Eu sei disso. — Sua paciência estava oscilando. — Mas não é algo que eu poderia devolver a ele agora. Preferia deixar no quarto dele.

— Ele sempre fica irritado quando mexem no quarto dele, sempre, sempre. Ham.

Ritchi começou a imaginar com qual facilidade alguma daquelas facas atravessaria a pele de uma pessoa. Mas a velha estava só se divertindo com ele.

— Você quer me fazer o favor de abrir essa porta?

— E por que eu faria isso, ham?

— Para eu poder arrancar a sua língua com uma das facas de Owl, quero ver se realmente é de aço.

Um curto silêncio se seguiu após isso, apenas para ser quebrado pela mesma voz robótica do interfone.

— É assim que eu gosto, Ritchi, ham.

A porta metálica se abriu com um clique. Ritchi entrou na casa dos Olrwen, sentindo-se claustrofóbico. O pátio era muito pequeno, de tamanho suficiente apenas para ser usado como garagem, e todas as paredes estavam cobertas de raízes verdes que pareciam querer engolir todo o resto da casa.

Ritchi nunca tinha passado do pátio, e descobriu por que ao chegar à pequena, mas cômoda, sala principal. Nunca tinha visto tantas corujas na vida. Não de verdade, eram estátuas, algumas do tamanho de uma unha, outras grandes como vasos. E eram de todas as cores, vermelhas, azuis, douradas, pretas e verdes, mas a maioria era branca, tão branca quanto a neve. Empilhadas por todos os lugares, estantes, prateleiras, mesinhas de centro, de estar e pedestais, ocupavam a sala inteira. Mesmo assim, o lugar era estranhamente confortável. E aconchegante.

Olenna Olrwen estava sentada num dos dois sofás brancos, vestida de branco de cima abaixo, com uma corrente dourada pesada no pescoço e o cabelo branco preso num coque tão apertado que repuxava sua pele enrugada. Ritchi nunca tinha visto algo tão pequeno e enrugado desde a última vez que abrira um pacote de ameixas secas. Ela era, no mínimo, três vezes menor que ele, e parecia que se quebraria ao menor sopro de vento, mas sabia que era forte como um animal de carga. Era possível ver as veias de suas mãos através da pele muito pálida, mas os olhos azuis e pequenos que o mediam de cima abaixo eram tão claros e lúcidos quanto os de uma garotinha.

Aquela sobrecarga de informações não pareceu passar despercebida por Olenna Olrwen. A velha exalava uma aura majestática por toda a sala, a postura reta como uma régua, as mãos sobre os joelhos cruzados, estava clara que nascera e morreria na riqueza. Tinha a dignidade aristocrática de uma lady. Não, de uma rainha, Ritchi pensou. Tomava chá elegantemente numa xícara que aparentava custar mais do que todas as corujas daquela sala, branca e com detalhes floridos. O resto do jogo de chá estava na mesinha de centro, ao lado de uma coruja azul com aspecto zangado.

Ela fez um sinal para que ele se sentasse.

— Então, ham, Ritchi Revonne. — Possuía um pigarreio característico que se repetia impiedosamente a cada frase que falava, e sua voz era incrivelmente alta, doce e pura, como se tivesse sido conservada mesmo depois de tantos anos. — Há quanto tempo não vejo esses cabelos vermelhos, hein. — Ela deu uma risada gasta. — Sempre quis cortar o cabelo de Rhanys, mas ele se recolhe de medo de tesouras. Bem irônico, para alguém que coleciona facas. — Olenna derramou o chá do bule numa xícara e entregou a Ritchi junto com um pires. — Aqui, sirva-se. Não se acanhe, rapaz, sou velha, mas ainda conheço as cortesias, ham.

Sentado no sofá perpendicular ao dela, Ritchi torceu o nariz. Ele detestava chá, e Olenna sabia disso, mas teve de tomar. O líquido era ralo, verde escuro, e exalava um cheiro repugnante. O gosto era pior ainda.

Ela bebericou novamente de sua xícara.

— Não é um chá delicioso? Costumo dizer que é ele quem me mantém viva por tanto tempo, ham. Até hoje nunca contei a ninguém do que é feito, e olha que faço desde… 1952. Ou 1953. Ham, o tempo passa. Gostou das corujas?

Seria impossível disfarçar o olhar um pouco mais. Os olhos amarelos das aves fitavam-no acusadoramente, sempre austeros.

— Sim, claro. São maravilhosas. — Ritchi percebeu que seu tom de voz não combinava com as palavras. Olenna também.

— Não seja um mentiroso, garoto, ham. — Deu outro gole do chá. Ritchi viu-se forçado a fazer a mesma coisa. — Sei que não fazem seu gosto, mas a única coisa boa da velhice é poder ser excêntrica. É uma responsabilidade também, se não eu não passaria de uma pobre velha, não é mesmo? Ham, nunca envelheça, Ritchard. A cada ano que se passa, a ideia de pular de um precipício se torna cada vez mais atraente. A única coisa que se espera é ficar tão senil a ponto de achar que se tem vinte anos de novo. Infelizmente, ainda tenho sanidade o suficiente para arcar com os deveres de ser velha. Aí que entram as corujas, ham.

— Quantas a senhora tem aqui?

— Seiscentas e quarenta e sete — ela respondeu, sem nem hesitar. — Ham, me enganei, seiscentas e quarenta e seis. Derrubei uma ontem. Uma das preferidas de Rhanys, ele quase obliterou.

Com obliterar, ela se referia ao modo como Owl ficava quando sofria um grande trauma, tipo quando passavam a mão em seu cabelo. Começava a chorar, gritar e se debater incessantemente.

Teve a sensação de que a conversa-fiada acabara.

— Então, eu vim trazer isso. — As facas de Owl estavam repousadas no sofá, do lado esquerdo de Ritchi, onde Olenna não poderia ver. Mesmo assim, sabia que ela tinha consciência delas mesmo quando ainda estava no interfone.

Os olhos azuis e observadores dela percorreram os artefatos cuidadosamente.

Ham, essas são as da caixa de veludo azul, não?

— Sim, aquele Sttan Molihnar as roubou.

— Conheço aqueles Molihnar, nenhum deles presta. O filho principalmente, ham. Ele obliterou Rhanys ontem, levei mais tempo para trazê-lo de volta do que o usual. Tomara que não se torne uma rotina, ham. Espero que tenha, pelo menos, quebrado o nariz dele.

Ritchi não conseguiu deixar de sorrir.

— Fiz isso, mas ele jogou a outra metade das facas num caminhão de lixo.

— Você devia ter jogado o resto também, junto com ele, ham. É mais fácil se livrar dessas que sobraram do que devolvê-las para o devido lugar e esperar que Rhanys as aceite de volta. Ele divide a coleção em caixas. Se falta uma faca, ele se livra da caixa inteira. Um desperdício, mas discutir com meu neto é como discutir com uma porta. Tenho oitenta anos e nunca vi ninguém tão teimoso. Teimoso como um verdadeiro Olrwen, ham. Vê aquele quadro ali?

Olenna apontou com um dedo enrugado para o alto da parede da sala. O quadro era o retrato de uma mulher esbelta com cabelos muito claros e grandes olhos azuis.

— É a Dama Prateada, Ondromeda Olrwen — adivinhou.

— Sim, ham. Consigo traçar minha linhagem até aquela vadia esquecida por Deus. Ela era esposa de John Francis Hentz, sabia? Ham, todos os grandes leões dourados têm um pouco de sangue Olrwen, embora não o contrário, graças aos céus. Deve ter sido o destino quem trouxe seus dois herdeiros mais novos para perto de nós novamente. Mais novos, e provavelmente os últimos, ham. Sempre achei os Hentz um pouco loucos. Mas como eu comecei a falar dela? Ah, sim, teimosa como uma verdadeira Olrwen, aquela ali. Naquele tempo, as mulheres mal podiam sair de casa se não fosse acompanhada de um homem da família. Ondromeda fundou uma empresa de mineração chamada Coruja Branca que era filiada à Kruger-Vorheel, tenho certeza que você conhece a história, ham. — Ritchi não conhecia. — A maioria das pessoas acha que Olannis, meu pai, fez isso, mas as pessoas são burras. A única coisa que ele fez foi quebrar os laços com a empresa do padrasto, aquele grande idiota. Ham, a Coruja Branca cresceu um pouco, mas quando ele morreu, foi lentamente consumida pela ganância dos meus irmãos, que acharam que podiam fazer o que bem entendessem com ela. Arruinaram a beleza que Ondromeda criou, os homens Olrwen. A empresa quase faliu até que Osmine, mãe da falecida Onnie, morreu e só eu sobrei, então me livrei daquela coisa, ham. E aqui estamos, cem anos depois, cercados de corujas brancas, com vinte e um milhões de dólares no banco que vão permanecer lá até que eu esteja sob sete palmos de terra, ham. Ottis mal pode esperar por isso, ninguém aguentaria uma encarquilhada. Se eu não fosse a própria, também não aguentaria. Oh, mas veja só, estou tagarelando como uma velha tola e você aí, se esforçando para ouvir e tomar esse chá que eu sei que você odiou. Dê-me aqui.

Olenna pegou a xícara das mãos de Ritchi e, para sua surpresa, estraçalhou-a na parede. Os cacos se espalharam pelo chão, junto com o líquido.

— Enquanto arrumo uma desculpa para a bagunça, se livre das facas para mim, sim, querido? — ela pediu. — Faça-me esse último favor, acho que não passo deste ano, principalmente porque essa porcelana era de Odette, ham. Ah, e cuidado com os cacos.

Algo o fez beijar as costas da mão de Olenna antes de sair. A velha deu um sorriso simpático.

— Vou mandar Rhanys para uma daquelas colônias de férias essa semana. Aquela escola de deficientes em que Ottis o colocou dá férias nos primeiros três meses do ano, ham. Até ele voltar, essa onda de assassinatos já deve ter acabado. Ele só ataca de noite, parece uma coruja, ham. Muito cuidado, Ritchi Revonne, nunca se sabe quando um assassino pode estar bem debaixo do seu nariz.

Após sair da casa de Olenna Olrwen, Ritchi vagou a esmo por Jardim de Ouro e seus arredores, sem nenhum destino específico. Parou uma vez em algum lugar qualquer que vendia bebidas. Melchior sempre o usava quando queria fazer algo proibido a menores. Quando ficou bêbado o suficiente para ainda poder andar sem cair, foi a noite quem o fez, e decidiu voltar para casa. Não era inteligente vagar pelas ruas desertas da cidade e do condomínio na escuridão com um assassino a solta. E ele só ataca à noite, Ritchi pensou, parece uma coruja. A Coruja. É um bom nome pra ele. O pensamento o fez rir.

Sua casa tinha apenas um andar, cujo teto era abobadado, e ardia em cores vermelhas e amarelas sobre a luz branca da lua, que se erguia no céu como uma bola de prata tecida num negro tão escuro como um mar de petróleo. Ritchi atravessou a porta de entrada, mas não sem antes errar a chave na fechadura meia dúzia de vezes. Seus movimentos estavam ainda mais desajeitados do que pretendia que estivessem.

Terry estava sentado numa poltrona branca tão grande que parecia engoli-lo, segurando um pêndulo de Newton cujas cinco esferas prateadas estavam presas a um suporte por fios de náilon. Observava o pêndulo se mover com uma atenção absurda. Quando parou, grunhiu de frustração.

Ritchi se aproximou e puxou uma das bolas metálicas para trás, soltando-a logo depois. Ela despencou e chocou-se contra outra, que chocou-se contra outra, que chocou-se contra outra, que impulsionou a bola do extremo oposto para frente. Terry voltou a observá-las, absorto. Ritchi jogou-se no sofá, cansado e tonto.

Sua tia Margareth entrou logo em seguida. Margareth era irmã de sua mãe, Farris, recentemente viúva, tinha quase sessenta anos e insistia em ser chamada de Maggy. Era baixa e roliça, a pele enrugada já despencando, com os cabelos ruivos que todos na família Oschini pareciam ter, e por sorte tinham. Ritchi sabia que seus avós maternos eram extremamente racistas, tendo morado numa daquelas colônias apenas para pessoas com cabelo ruivo e olhos azuis por toda sua vida.

Achava aquilo nojento, mas, por sorte, eles estavam mortos. Uma grande sorte, já que seu pai, Ike, era moreno.

Maggy sentou-se ao lado de Ritchi no sofá. Usava um batom vermelho-sangue, a mesma cor de seu vestido, e seus grandes orbes azuis brilhavam, contrastando-se. Mesmo com o tempo atacando-a cruelmente, seus olhos ainda eram bonitos e carismáticos.

— Vai sair? — perguntou, meio tonto.

— Ah, vou, se vou — Maggy exclamou. Ela sempre fazia aquilo. — Sabe aquele carinha da loja de bebidas em que você normalmente vai? — Ela sabia que Ritchi bebia, mas não parecia se importar. Provavelmente também sabia que ele era gay.

— O loirinho com cabelo curto ou o moreno de olhos verdes? — indagou, sorrindo. Maggy deu uma escandalosa gargalhada. — Eles têm idades para serem seus filhos, mas sabe como todo mundo gosta de um novinho.

Eles riram novamente até que ouviram o grunhido irritado de Terry. Ele havia virado o pêndulo de cabeça para baixo, e náilon das bolas havia se entrelaçado, criando um emaranhado de fios transparentes.

Ritchi delicadamente pegou aquele das mãos dele, pegou outro pêndulo de dentro da gaveta, e o entregou a Terry.

Enquanto desemaranhava o primeiro pêndulo, ouvia Maggy falar.

— Sou velha, Ritchi, sei qual o meu lugar.

— Olenna Olrwen é a mulher mais velha de Jardim de Ouro, senão da cidade, e está aí, firme e forte.

— Em cima de alguns milhões de dólares.

— Bem, alguns milhões acrescentam beleza em qualquer um.

Farris surgiu de dentro da cozinha com um avental cor-de-rosa e uma blusa manchada de, pelo menos, uma dúzia de cores diferentes. O cabelo, apertado por um coque, tinha a cor do cobre, e seus olhos denunciavam-na como uma autêntica Oschini. Mais nova que Maggy, não parecia ter mais de quarenta anos.

— É meia-noite, o que você está fazendo numa cozinha, mulher? — Maggy perguntou. — Vamos sair, nos divertir. É domingo, ora essa. Venha conosco, Ritchi, sei que vai matar todas as aulas amanhã mesmo.

— Ela tem razão — Ritchi murmurou. Farris dirigiu aos dois um olhar cansado. Desde a morte de Lance Chioren, ela e Leoh Chioren haviam parado de se encontrar as escondidas na calada da noite. Tendo um amante ou não, ainda perdia de meia dúzia para um, em relação à Ike.

— Quietos, vocês dois — ela disse. — Estou separando os ingredientes do jantar de terça-feira, chamei os Chioren para jantarem conosco. — Ou seja, Ike havia chamado. Sua mãe nunca teria se arriscado a ficar tão perto de Leoh novamente. — Ritchi, venha me ajudar. Estou cansada.

Deu um beijo na bochecha de Maggy e seguiu com a mãe pela cozinha. Enquanto fatiava a carne branca com uma peixeira que mal batia nos pés das facas de Owl, Farris pôs outro pedaço do lado da tábua.

— É carne vermelha — ela disse. — Sei que não gosta de frango.

Ele sentiu um pesar no coração. Não importava o quanto quisesse, nunca conseguiria ficar com raiva de sua mãe pelo que fosse. Sabia que ela só havia usado Leoh como um ponto de apoio, alguém de quem pudesse receber algum carinho, ao invés da frieza gélida que dividia com Ike desde muitos anos. Só se casara com ele por causa da gravidez que teve de Terry. Quando ele nasceu, ela sentiu-se feliz, até descobrir o motivo pelo qual ele ainda não sabia falar com dois anos de idade, que foi quando engravidou de Ritchi.

Ter um filho com retardo mental era um peso em suas costas que estava carregando há dezessete anos. Às vezes, Ritchi sentia vontade de ser menos problemático, mas simplesmente não conseguia. Precisava descarregar as frustrações de casa em alguma coisa. Se não era na bebida ou na violência, era em Melon. Mas Melon se fora. E agora ele estava sozinho. Assim como Farris.

A carne vermelha significava muito mais do que parecia.

Naquela noite, em sua cama, logo após chutar os travesseiros que estavam impregnados com o cheiro de Melon para o chão, Ritchi começou a sentir a cabeça latejar. Ele nunca precisava dormir para sentir ressaca. Se não bebesse de novo, a teria mesmo acordado.

Levantou-se, suado e só de cueca, vestiu uma bermuda qualquer e subiu a janela de seu quarto, inspirando prazerosamente o frio ar da noite. Ele adorava o frio, era tão puro e sublime. Podia ver a mansão dos Lemnsack Hentz dali, assim como o prédio queimado. A casa de Melon também.

Perguntou-se que tipo de torturas aqueles calouros da fraternidade de Sttan Molihnar estavam sofrendo naquela hora, já que a ideia das facas de Sttan se fora. Lembrou-se dele encostando o nó dos dedos no rosto cândido de Mia. Duros como pedra, seus olhos evitaram-no. Perguntou-se se ele já lhe batera alguma vez. Nunca havia perguntado a ela porque, se a resposta fosse sim, sabia que nada conseguiria parar a sua fúria.

A segunda veio e foi, e todo mundo parecia triste. A única pessoa feliz na casa de Ritchi era sua tia Maggy, que passara a noite fora e voltara sorrindo como um passarinho. Foi na manhã de terça que o corpo foi encontrado.

Estava no terreno do prédio queimado, sobre a terra dura e seca. Primeiramente, todos pensavam que havia se suicidado jogando-se da janela do quarto andar do prédio, mas quando os paramédicos viraram o corpo nu ensanguentado de Sttan Molihnar e viram as diversas perfurações de facas em suas costas e o pentagrama desenhado na pele cinza e fria, ficou subentendido que não havia sido suicídio coisa nenhuma.

Sttan fora a segunda vítima da Coruja.

Quando perguntou a Mia sobre aquilo, ela simplesmente abanou a cabeça em desdém.

— Sttan que queime no inferno. E sim, antes de você perguntar, ele me batia. Mas não importa. Estou com outra pessoa agora, alguém bem diferente dele.

— Quem? — indagou.

— Nicholas Hentz.

Ritchi levantou uma sobrancelha, lembrando-se das suspeitas de Melchior sobre o garoto dourado e seu irmão mais velho.

— Ele é bem promíscuo, sabe — disse a ela.

— Esqueceu que eu também estudo na Academia Alphonse Enoi? Estou um ano atrás de Ethan, mas, naquela escola, não há quem não conheça a fama daquele lourinho. — Mia deu uma risadinha. — Não importa, não estamos namorando. Apenas ficando.

Ritchi imaginou quanto tempo levaria para Nicholas se enfiar por baixo das saias de Mia e então dar o fora nela, mas preferiu não dizer nada. Algumas pessoas só aprendiam na base da decepção.

Por cima da multidão que se amontoava em volta do prédio e da ambulância que lá havia, deu outra olhada no pentagrama. Cinco pontas, vermelhas e sanguinolentas. O rosto de Sttan estava petrificado numa expressão surpresa e indignada, como quem diz “Não acredito que estou morto.”

Nem eu, Sttan.

Seguiu rua abaixo até chegar ao Cruzamento Apogeu dos Deuses e pegar a Avenida Andante.

Tocou a campainha de uma casa vermelha e marrom, de apenas um andar. Um garoto de olhos castanhos e cabelos escuros abriu a porta, com as bochechas vermelhas. Transpirava.

— Ron — Ritchi disse, alegremente. — London está em casa?

— Claro que está, ele nunca sai daquele quarto. — Crianças costumavam exagerar. — Espero aqui, vou chamá-lo. — Sem sair do lugar, Ron virou-se de costas, fez uma concha em volta da boca com as mãos e berrou o nome do irmão mais velho. Virou-se de volta, animadamente. — Ele já está vindo.

Então fechou a porta na cara de Ritchi.

Quando ela voltou a se abrir, London estava lá, com olhos castanhos, parecendo sonolento e mal-humorado.

— Sabe que horas são? — ele resmungou. — Até Deus teve de descansar no sétimo dia. Vamos, não fique parado aí, seu imbecil, entre.

Ritchi deu-lhe um abraço carinhoso e um beijo na bochecha, que London retribuiu.

— Tão carinhoso — o menor disse, em tom de desdém misturado com sarcasmo. Ele tinha suas próprias maneiras de demonstrar amor. — Apenas uma coisa grande traria o grande Ritchi Revonne à minha porta às dez da manhã de uma terça-feira. Por que não foi à escola?

— Porque eu não estava com vontade. Por que você não foi? Melchior não está mais lá, ele não vai poder mudar as nossas notas, como sempre fazia.

— Meus pais estão se divorciando — ele disse, com uma profunda indiferença. — A história de Lance e minha mãe se espalhou, e olha que só chegou à público há três dias. Eles foram ver um advogado essa manhã, e eu tive que ficar em casa cuidando dos pirralhos.

— Mas, ao invés disso, você estava…

— Dormindo, enquanto meus irmãos destruíam a casa, isso mesmo. Já que eles não ligam para o meu futuro, também não ligarei para o deles. Vamos ao meu quarto, você sabe que Ron e Jimmi são passarinhos de Melchior.

Melchior provavelmente já sabe do que vou dizer. Deve estar interrogando cada um dos calouros da fraternidade de Sttan que estavam no prédio nesse momento.

O quarto de London era pequeno e abafado, pintado de marrom-claro que tornava-se escuro pela falta de luz. A única janela existente parecia que não era aberta há anos, estava coberta por uma pesada cortina negra. Havia pentagramas encrustados em todas as paredes, de metal ou de papel, era impossível não se olhar para eles.

— A polícia veio aqui, depois da morte de Lance? — indagou, sentando-se na cama.

London estava sentado na poltrona da escrivaninha quando respondeu.

— Veio. Falaram com meus pais, não sei o que, mas falaram. Depois me fizeram algumas perguntas. Onde eu estava na festa, na hora em que ele foi encontrado morto. Depois de Lance obliterar Owl e Melchior tê-lo trazido de volta, depois dele ter arrancado alguns bons dentes daquele filho da puta, simplesmente saí da mansão e fui para casa. O pátio estava bem vazio àquela altura, então não vi ninguém, e o rio estava limpo. A questão é que, se Lance foi encontrado lá, ele foi morto entre eu ter saído da mansão, dois minutos depois de eu tê-lo visto pela última vez, e Melchior tê-lo encontrado, que também é poucos minutos depois. Melchior demorou-se um pouco porque estava procurando Marco, se não poderia ter pego o assassino no flagra.

— Vamos chamá-lo de Coruja.

— Coruja?

— Sim. Ele só ataca à noite.

— Só atacou uma vez.

— E tentou outra.

— Não sabemos se realmente foi ele.

— Lorenzo disse que foi Owl.

— Eu sei, eu estava lá. Mas não foi ele. A polícia analisou as facas de Owl, nenhuma combinava com os ferimentos de Lance, e nenhuma tinha rastros de sangue.

De repente, a memória da uma dúzia de facas da qual ele tinha se desfeito recentemente veio à sua cabeça. Remexeu-se na cama, desconfortável. London percebeu.

— Você tem um segredo. Conte-me.

Ritchi pigarreou.

— Sttan Molihnar foi encontrado morto hoje, no terreno do prédio queimado. Da mesma forma que Lance, morto a facadas. E… tinha… um pentagrama nas costas dele.

Os olhos pequenos de London fixaram-se nos seus tão profundamente que teve de virar o rosto. Ele sempre intimidava as pessoas apenas olhando. Era uma agonia tão grande quanto fitar Owl.

— Você acha que eu fiz isso? — indagou, suavemente, mas não o deixou responder. — Você ainda tem um segredo. Conte-me.

Relutantemente, o fez.

— Então você acha que a faca que Owl, teoricamente, usou para matar Lance pode ter sido jogada no caminhão? — London perguntou. Naquele momento, Ritchi se arrependeu de ter contado a ele. London era o maior suspeito que havia daquele crime, e ele se livraria daquela acusação de qualquer forma, mesmo que isso custasse jogá-la em outra pessoa.

— Acho que pode tanto ter sido Owl quanto ter sido você — disse. — Mas acontece que Owl não tinha motivo, e ele não é a única pessoa em Jardim de Ouro que tem facas… — parou de falar quando percebeu-se cerrando os punhos. London ainda o fitava penetrantemente com aqueles olhos âmbar.

— Eu não tinha motivo para matar Sttan — disse, por fim. — Mas também não acho que tenha sido Owl. Melchior me contou que Olenna Olrwen pretende mandá-lo a algum lugar longe, para mantê-lo longe dessa Coruja. Ham, que irônico, manter uma coruja longe de outra.

Ritchi acabou rindo com a imitação do pigarreio da velha. London continuou igual. Ele nunca sorria.

— Se os ataques continuarem mesmo depois da ida dele, isso comprovará sua inocência — Ritchi disse. — Será que é por isso que Olenna pretende mandá-lo para longe?

— Não sei. Melchior saberia, não nós. Não somos mestres dos segredos, nem detetives. Talvez seja melhor deixar isso para os profissionais. Agora vamos deixar corujas, facas e mortes de lado e discutir por qual motivo você quer voltar com Melchior, mas não volta.

— Eu quero voltar com Melon, mas Melchior vem de brinde.

— Acho engraçada essa distinção que você faz entre o nome e o apelido dele. Sabia que Ethan Lemnsack e Gabriel Melnick voltaram? Sim, Melchior trepou com Gabriel, mas, no fim, era apenas por um interesse maior, como sempre foi. Ele está solteiro agora. Você terminou com ele por nada. Parabéns, Ritchi.

Um travesseiro foi arremessado pelo quarto, chocando-se bem contra a cara de London, que ajeitou o cabelo elegantemente, sem se importar. Ritchi estava com a cara enfiada no colchão, tentando se asfixiar.

— Queria que as coisas voltassem a ser como eram… ano passado — o ruivo murmurou.

— Como, nós três fazendo ménage à trois?

— Sexo a três é bem mais divertido.

— Sei disso, sei disso, e me arrependo de muitas coisas na vida, mas o fato de termos parado com isso não é uma delas. Você é de Melon, assim como ele é seu. Eu não posso pertencer a esse grupinho. É desconfortável.

— Você parecia bem confortável a minha frente e atrás dele.

— Ah, sim. O que seria mais confortável do que foder Melon Chioren e ser fodido por Ritchi Revonne?

— Foder só com Ritchi Revonne. — Ritchi pegou-o pela mão e o puxou para o colchão, junto de si. Fê-lo ficar de bruços, deitando-se em cima.

London tentou sair, mas era impossível. Ritchi tinha uma vez e meia o peso dele.

— Me solte — disse, calmamente. — Se fizer isso, vai se arrepender depois. Nunca transou só comigo.

— Me arrependo toda vez que me prostituo, mas então eu olho para o dinheiro e fico feliz. — Enfiou uma mão por baixo de sua camisa, sentindo a pele macia. — Você é tão gostoso.

— Obrigado. Me esforço para ficar assim.

Ritchi virou London para olhá-lo nos olhos e, pela primeira vez em muito tempo, beijou-o. Era bem diferente de Melon, muito mais diferente. Seus lábios eram mais finos e menos compridos, enquanto a língua de Melon era calma e doce, a de London era mais agressiva e, de certa forma, desesperada. Ele estava esperando por aquilo, dava para perceber.

As roupas eram inúteis, todas voaram longe de uma só vez.

Enquanto Ritchi pressionava seu corpo nu contra o de London, foi se relembrando de como era. Não faziam sexo juntos há quase um ano, mas sabia que ele gostava de ser mordido na nuca, no pescoço e nas costas.

Chupava a língua dele quando deu uma palmada em sua nádega. Passou para o pescoço, apenas ouvindo seus suspiros de prazer. Sua ereção erguia-se com força total.

— Ritchi… — London gemeu, quando ele enfiou a língua em seu umbigo. — Me relembra uma coisa.

Ele fez um trajeto de saliva de sua barriga até seu ouvido, antes de sussurrar:

— Vinte centímetros. Às vezes dá vinte e um, nunca sei de onde começar a medir.

— Está bom para mim. Vamos, faça seu trabalho e me foda. Faz um ano que não transo, acho que voltei a ser virgem.

Virgem ou não, penetrar em London foi prazerosamente difícil. Ele mordia o nó de seus dedos a cada estocava que Ritchi dava. Deitava-se de lado, com o ruivo por trás dele, bombardeando-o violentamente, masturbando seu membro e mordendo seu pescoço. Dar prazer a London sempre fora fácil, ele gostava das coisas mais simples.

Quando derramou sua semente dentro dele, sua mão foi lambuzada também.

Lambia o sêmen de London de seus dedos, enquanto o observava se vestir.

— Melchior vai ficar sabendo disso — ele disse, com uma adorável indiferença.

— Que fique. Ele vai jantar na minha casa hoje, posso aproveitar e falar do nosso relacionamento conturbado na frente da família dele e da minha.

— É mais fácil ele mandar os passarinhos dele te matarem antes.

— Talvez ele seja a Coruja.

London não respondeu. A possibilidade quase não existia, é claro, mas estava lá, pairando no ar, como um inimigo invisível, que só sabemos que existe quando ataca nosso pescoço e rasga nossa garganta, num misto de desespero e sangue quente e rubro.

Na noite daquele mesmo dia, cheiros inebriantes cobriam sua casa de cima a baixo. Farris era realmente uma ótima cozinheira, mas cozinhar apenas para si mesma e para dois filhos não era muito produtivo. Ritchi se surpreendeu ao ver seu pai em casa naquele dia, tão cedo.

Quando se olhava para Ike Revonne, podia-se ver perfeitamente que Farris só se casara com ele por causa de sua gravidez indesejada. Totalmente ao contrário da esposa, Ike tinha feições grosseiras e quadradas, o cabelo preto e curto, sem nenhum atrativo em especial. Seus olhos eram castanhos e sem brilho, e seu maxilar, que parecia ser a única coisa que Ritchi herdara dele, era quadrado.

Belo como a mãe, irresponsável como o pai, era o que Melchior dizia de Ritchi sempre que tinha de tirá-lo de algum problema. Foi o que ele disse depois de terem se amado naquela clareira, três anos antes.

Foi à cozinha, onde Farris usava um avental por cima de um vestido preto que caía graciosamente por seu corpo delgado até os joelhos. Estava descalça, com um cinto prateado em sua cintura, servindo de adorno, e seu cabelo ruivo estava preso num rabo-de-cavalo, mas estava claro que ela não pretendia deixá-lo assim.

— Ritchi — ela disse, num misto de nervosismo e ansiedade —, ponha os pratos na mesa, sim? Não, não os convencionais, os da prateleira de cima, de porcelana, com detalhes azuis.

— Os convencionais também têm detalhes azuis — ele disse, enquanto se esticava no armário da cozinha. Aqueles pratos deviam custar mais que sua casa inteira, fora o presente de casamento de seus avós maternos. Não se lembrava de alguma vez terem sido usados. — Quem vai notar a diferença? Aliás, estamos recebendo os Chioren ou a rainha?

— Os Chioren sempre foram um pouco arrogantes.

— Nenhuma família que divida uma casa com quinze pessoas pode ser arrogante. Ah, me enganei. São apenas catorze agora.

Farris lançou-lhe um olhar reprovador, mas Ritchi passou a mão por sua cintura e beijou sua bochecha. Era bem mais baixa que ele.

— Você está linda. — Puxando o prendedor que usava, viu que havia um brilho incomum em suas mechas vermelhas. Os Hentz são leões, os Olrwen são corujas. Os Revonne são fênix. Ou, pelo menos, os que também são Oschini.

Sua mãe enrubesceu. Abraçou-o ternamente, antes de despachá-lo para arrumar a mesa de jantar, enquanto terminava de passar a maquiagem e calçava alguma coisa.

Ritchi não fazia ideia de como seus pais pretendiam enfiar mais catorze pessoas dentro de casa, dentre os quais a maioria era composta de crianças. Leoh Chioren era a única pessoa no mundo capaz de tirar um exército de dentro das calças. Julgava-se capaz de lembrar o nome de todos os passarinhos de Melchior, mas quando eles começaram a chegar, acabou perdendo a conta.

Sabia apenas que eles eram Julie, Samwell, Daemon, Marco, Robbet e Tarly. Hugh e Howl, filhos de Lance, apareceram também, com um semblante estranho, parecendo um misto de apreensão e tristeza, assim como Robb e Grey Thanathos. Melchior surgiu por trás daquela horda, segurando Teo nos braços.

Enquanto os adultos conversavam num canto e as crianças brincavam do lado de fora, Melchior sentou-se elegantemente no sofá da sala, segurando Teo com um braço e dando mamadeira com o outro.

Como não podia deixar de ser, usava um sobretudo preto.

— Ritchard — ele disse, polidamente, sem nem olhar pra ele. Ritchi agradeceu por isso. Não queria ter que encarar aqueles olhos púrpuras.

— Melon — falou, sentando-se na poltrona perpendicular ao sofá. A entrada do jantar ainda levaria algum tempo para ficar pronta, apenas para dar tempo à conversa-fiada dos adultos. — Como… estão as coisas?

— Onde? — ele indagou, fitando-o pela primeira vez. — Com os meus passarinhos, comigo, com o meu império, com os assassinatos, com o quê?

— Com tudo.

— Tudo?

— Tudo.

— Oh, bem, vamos lá. — Teo engasgou. Delicadamente, Melchior tirou a mamadeira da boca dele, limpou o leite que regurgitara, e quando o bebê começou a reclamar, voltou a alimentá-lo. — Acho que Hugh e Howl já choraram o que tinham que chorar. Apesar de Lance ser um filho da puta que não ligava mais para eles do que ligaria para um chiclete que grudou em seu sapato, era o único a quem tinham. A mãe deles se casou novamente, saiu do país. Não sei para onde foi, nem vou procurar saber, mas salvo engano ela teve um filho esses dias. Eles vão ter que morar conosco, agora. É uma pena. São bons meninos. Não mereciam isso.

Ritchi imaginou se o apreço de Melchior pelos gêmeos o impediria de descarregar todo o ódio que sentia por Lance, se ele realmente fosse a Coruja.

— Marco está apaixonado por Ethan — ele disse. Aquilo realmente o surpreendeu. — Bom, vou te dar um motivo para ficar feliz. Você tinha razão, a lealdade dele realmente está pendendo para o lado dos Lemnsack Hentz. Eu perdi o controle daquele garoto. Ele fez Lorenzo se apaixonar por ele, e agora está correndo atrás de seu irmão mais velho. Quer que eu diga a Ethan que ele tem dificuldade em matemática, para que possa ficar perto dele. As pessoas estão ficando cada vez mais precoces, não acha? Sofrendo por amor. — A expressão de Melchior era indecifrável. — O pequeno italiano cego está enfurnado numa depressão profunda cuja origem mal conhece. Não sabe que está gostando de Marco mais do que deveria, e está taxado como louco por todo Jardim de Ouro. Absolutamente ninguém acredita que Owl poderia ter feito aquilo com Lance, já que ele não tinha motivo. Eu não acredito, nem você. — Ele sempre fazia aquilo, adivinhava os pensamentos das pessoas. — Esse boato chegou aos ouvidos de Olenna Olrwen, e ela é uma tremenda vadia, é mais poderosa do que eu pensava. Está querendo saber quem é a Coruja também.

— Está investigando em paralelo, assim como você.

— Está, embora eu não saiba como. — Melchior deu um grunhido de frustração. A mamadeira já havia acabado. Após limpar a boca de Teo dos resquícios de leite, apoiou-o no ombro e passou a balançá-lo levemente, para que arrotasse. — Gostaria que Owl não fosse autista. Me sinto tão impotente com isso. Algo me diz que a Senhora da Língua de Aço já foi uma mestra dos segredos, ou algo parecido.

— O que me diz da polícia?

— Seja quem for a Coruja, não deixou absolutamente nenhum rastro, e mata sempre do mesmo modo. Trinta e seis facadas nas costas, com uma faca de tamanho mediano, ainda não encontrada. Lâmina sem nenhum furo. Os legistas disseram que o pentagrama foi desenhado depois das facadas, e isso foi o que me fez perceber que eles são imprestáveis, cada um deles. Que tipo de pessoa deixaria outra desenhar um pentagrama em suas costas com uma faca, a não ser que estivesse morta? Deuses, as pessoas estão cada dia mais estúpidas. — Teo arrotou. Melchior o deitou novamente e colocou uma chupeta em sua boca. — Aconselhei London a parar de se exibir com pentagramas aqui e acolá. As pessoas já acham que ele é satanista, agora estão achando que ele matou Lance e Sttan para fazer rituais. Falei com os calouros da fraternidade dele que estavam no prédio queimado. Na segunda-feira, quando a provação acabou, eles foram embora, mas Sttan continuou lá, sozinho. Ninguém o viu desde então. Os pais dele disseram que ele costumava passar as noites fora, normalmente com a namorada, mas Mia disse a mesma coisa que os calouros. Ninguém viu onde Sttan esteve entre as três horas da tarde de segunda e a manhã de terça-feira.

— Isso te frustra? — indagou, docilmente.

— O quê?

— Não saber quem é a Coruja, ver que ele se esvai de suas mãos como água?

— Oh, sabe como é, Ritchi. Sempre se pode usar um pote para pegar água.

Ele o fitava com aqueles olhos roxos, aqueles olhos de Melchior, de mestre dos segredos, ardentes e brilhantes, agressivos como uma quimera. Os olhos de Melon eram cor-de-rosa ou púrpuras, dóceis como um gatinho, agradáveis de ver.

— Vou descobrir quem é a Coruja. Não se preocupe. Oh, você soube que devolvi Gabriel a Ethan?

— Soube.

— Sei que soube, London te contou. — Aquilo fez Ritchi pensar se Melchior sabia que ele fora para a cama com London. Que pergunta estúpida, claro que sabia. — Eles voltaram a ser um casal feliz. Enquanto um se formou, outro se destruiu.

— Meninos — disse Farris, da porta da sala de jantar. — A entrada do jantar está na mesa. Venham se servir.

Era uma quantidade de comida realmente grande, a que havia na mesa. Ritchi pensou que fosse demais, mas então a horda Chioren avançou sobre os pratos e provou que estava errado.

A única coisa boa de eles serem tão numerosos é que não havia lugar na mesa para todo mundo. Assim, pode comer na sala, em paz, sozinho, longe de Melchior.

Até que ele se sentou bem ao seu lado.

— Agora, como anda você? — ele perguntou, logo antes de enfiar o garfo na boca. Ritchi sentiu ânsia. Nunca entendeu por que carne de frango lhe dava tanto nojo. E Melchior sabia daquilo.

— Bem — respondeu, seco.

— Ora, vamos lá, Ritchi. Sou todo ouvidos. Tem bebido demais?

— Não.

— Fumado?

— Só de vez em quando.

— E só cigarros normais, eu espero.

— Não vejo a diferença entre um cigarro normal e um de maconha, então prefiro ficar dentro da lei.

— Porque ter quinze anos e fumar é estar dentro da lei — comentou divertidamente.

O prato que Ritchi usava era de porcelana, a porcelana cara de sua mãe, aquela digna de se servir à rainha, então não podia quebrá-la na cara de Melchior. Lentamente, pôs o prato em cima da mesinha de centro, respirou fundo e contou até dez.

— Ah, a velha tática de respirar fundo e contar até dez para não estraçalhar quem te irrita. — Melchior riu. Ele era tão cruel, às vezes.

— Me deixe em paz.

— Vou deixar. Prometo que deixo, mas só depois de você prometer que não vai mais sair à noite sozinho.

Seus olhos estavam cor-de-rosa, claros como uma nuvem de verão.

— Não sou idiota de fazer isso.

— Bom. Muito bom, muito bem. Continue assim.

Melchior se afastou, deixando-o sozinho. Ele o estava torturando mentalmente.

Ele me prometeu que eu me arrependeria do que fiz, e o mestre dos segredos sempre cumpre uma ameaça. Promessas, nem sempre. Mas ameaças, sim. Deus, como eu queria Melon de volta, sem aquela aberração psicótica e sociopata com ele.

Devia ser por aquilo que Ethan Lemnsack quis tanto ter Gabriel Melnick de volta.

O jantar acabou e a noite caiu, escura e cheia de horrores. As ruas estavam vazias, como bem ficavam durante aqueles tempos, tempos em que Corujas estavam a solta matando inocentes com trinta e seis facas nas costas, e então desenhando um pentagrama em suas costas. Depois de os Chioren terem ido embora, a noite se encerrou com uma bela discussão entre Farris e Ike. Pelo visto, uma das amantes de Ike havia ligado para casa, e ele deixara o jantar com Leoh e Any para atender, fazendo-a passar-se por alguém do trabalho.

Ela certamente era alguém do trabalho, pelo menos isso era verdade.

Estava no primeiro andar quando ouviu um vaso se quebrando.

Não posso mais aguentar isso. Preciso sair daqui.

A lua estava cheia, gorda e prateada como uma moeda no céu.

Ritchi saiu pela janela de seu quarto. Não havia escada, mas havia uma grade florada bem na parede externa do quarto, que descia até o chão. Escalou-a para baixo, tomando cuidado por onde pisava, sendo furado duas ou três vezes por rosas, tão traiçoeiras quanto bonitas.

Muito tempo depois, Ritchi Revonne nunca chegaria a se lembrar por completo daquela noite. Lembrava-se apenas de ter saído de Jardim de Ouro, encontrado alguns velhos amigos, ter bebido um pouco além da conta e experimentado um pó branco que lhe deu calafrios e alucinações. Quando a noite já estava para terminar, voltou ao condomínio, mas estava tão bêbado e drogado que esqueceu o caminho para casa. Acabou se encontrando em frente ao prédio queimado, onde Sttan Molihnar morrera na manhã do dia anterior. As tábuas de madeira estavam seladas com aquelas faixas amarelas, como se aquilo impedisse alguém de entrar.

Nona tábua, da esquerda para a direita, se lembrava. Empurrando-a, entrou no prédio negros e cinzento. O térreo possuía apenas três paredes, da quarta restava apenas escombros. Cuidadosamente, subiu as escadas quebradiças até o quarto andar, que não passava de um grande salão de madeira apodrecida e cimento queimado, negro como o breu e assustador. Uma grande janela natural que ia do teto até o piso mostrava o escuro do céu, ameaçador.

Ritchi se inclinou e vomitou ali, sentindo gotas quentes escorrerem por suas bochechas.

Engatinhando, se aproximou da janela, e juntando toda a coragem que tinha, pôs a cabeça do lado de fora, olhando para o chão. Sttan Molihnar caíra daquela janela, e fora encontrado uma dezena e meia de metros abaixo, quebrado e morto.

Ritchi Revonne levantou-se e, na beirada da janela, esticou todo o corpo para cima, estendendo os braços para os lados, como uma cruz. Estava aspirando o ar puro da noite quando sentiu mãos em suas costas empurrarem-no para frente.

Quinze metros abaixo, o chão subiu para encontrá-lo. Por todo Jardim de Ouro, pessoas dormiam, e pombas brancas e corvos negros alçavam voo, como que avisados de um perigo que se aproximava.