Notas iniciais
Olavo é o banguela, mas eu não ia colocar o nome do coitado de "Banguela", nê? Na minha fic ele tem a aparência do Soluço mais velho, só que com o cabelo preto e não castanho, na forma humana e a de um dragão medieval na sua outra forma. Aproveitem e comente. :*

Quando voltamos para casa Soluço não disse uma palavra com ninguém, nem o pai, nem Bocão, mal disse nada para mim no caminho de volta, só chegou e trancou-se no quarto. Ele deitou-se na cama e se perdeu em seus pensamentos.

Eu estava do lado de fora, se precisasse.

Ele pensou em tudo o que aconteceu naquela manhã: de como conseguiu entender o animal e como sabia o idioma dos dragões. Apesar da inquietação seu cansaço era maior. Soluço dormiu apesar de tantos pensamentos ao mesmo tempo.

Sei disso porque ele contou.

Soluço acordou quando sentiu uma presença entrando pela janela do quarto. No começo era a mesma do dragão negro, mas se transformou em humana. Se deparou com um rapaz adolescente: o rosto do rapaz e de Soluço eram parecidos, porém ele era mais velho, eu diria, uns cinco anos; tinha o jeito viking que ele sempre quis ter, era forte, alto, cabelos negros. Quase gritou. Ele o olhava e parecia envergonhado.

– Desculpa! Eu nem devia estar aqui mas precisava ver você. — Ele estava agitado como se fizesse algo errado.

– E você é...? — Soluço perguntou procurando sinais de embriaguez, não encontrou.

– Meu nome é Olavo e... bem... Argh! Eu nem devia dizer...

– Algum problema?

Ele respirou bem fundo, reunindo sua coragem e finalmente confessou o motivo da visita:

– Sou eu... Sou aquele dragão de antes.

Ele acreditou por um minuto mas seu bom senso o lembrou do quanto aquilo era idiotice. Eu tampouco acreditei, no começo.

Soluço riu um pouco e encarou o rapaz a sua frente, que parecia um louco.

– Escuta, se for alguma brincadeira não tem graça. Passei por muita coisa por uma só manhã e não preciso de um... — ele ia continuar seu discurso, porém, o rapaz se aproximou e o olhou nos olhos. Olhos esses humanos que transformaram-se em um olhar de um dragão: a cor ficou brilhante e verde como os do animal de manhã e as pupilas em linhas retas. Agora Soluço iria dar um grito mas Olavo pós sua mão na boca do garoto, abafando o som e eu nem ouvi.

– Agora acredita em mim? — Ele perguntou de um jeito sarcástico, se divertindo com o susto. Soluço se libertou da mão grossa do homem de cabelos escuros e começou a fazer perguntas, quase gritando.

– Como pode...? Por que você é um dragão? Melhor ainda, como você pode ser dragão? Todos são como você?

– Não sei... A maioria, eu acho.

Um pensamento assustador veio a Soluço. Se aquele jovem a sua frente era um dragão... Isso podia dizer que...

– Olavo, quantos de nós matamos sem saber que eram dragões?

Ele antes estava com um sorriso irônico mas agora tinha o semblante sério e respondeu com o peso daquela notícia.

– Muitos, Soluço...

Esses pensamentos também me vieram. Tinha muita coisa para ser esclarecida mas eu só saberia do resto depois.

– Não acredito... O tempo inteiro matávamos quem podia ser um membro da família. — Quando disse isso Olavo ficou tenso, como se lembrasse de algo ruim. Soluço decidiu não continuar falando nisso, ele devia ter algum trauma de um ente querido que se foi por meio de nossas mãos assassinas. — Espera, como sabe meu nome?

Ele sorriu e abaixou a cabeça por um instante para reunir novamente sua coragem.

– Prometi que não ia contar muito rápido, só posso dizer que sou uma das pessoas que mais te conhece nesse mundo. Um dia eu conto.

– Eu quero saber! – Seu tom assustou até a ele mesmo era autoritário e também teria me assustado. Por um segundo Soluço sentiu seus dentes mais afiados e as pupilas se comprimindo.

– Tenha paciência, garoto! Estou tentando proteger você.

– Não me proteja. O que você não pode me contar?

– Nada agora, vai ser melhor se você souber aos poucos. Foi muita coisa para um dia só, vai piorar se eu contar tudo de uma vez. Paciência, está bem?

– Tudo bem, mas você vai me contar, não vai?

– Na hora certa...

– Só uma coisa... Por que me chamou de irmão?

– Isso vou ter que contar agora: você é como eu.

A princípio ele ficou confuso mas então percebeu o que ele quis dizer. Aquilo me assustou e com certeza a ele na hora. Foi dada uma sequência de milhares de sentimentos diferentes ao mesmo tempo. Não podia acreditar, em seu possível eu verdadeiro.

– Eu sou um dragão?! – Gritou e cobriu sua boca. Foi para a janela e verificou se eu ouvi alguma coisa.

– Calma, garoto, sua namorada só vai saber mais tarde. — Olavo riu irônico.

Um lado de Soluço ficou muito feliz por saber que era especial.

Enquanto Soluço tentava arrancar algo mais de Olavo em sua casa, um pouco afastado dali, no salão, todos discutiam o que fazer com os dragões. A ideia do seu pai, o chefe, era como sempre: atacar o ninho. Uma ideia que ele sempre achou péssima, por ser perigosa e pelo fato de matar tantos dragões, finalmente ele sabe o porquê.

– Essa nova rota garanto que nos levará até o ninho em três noites. — Stoico disse confiante, querendo convencer a todos.

– Não foi o que disse antes? E antes...E antes? — Dazbogu disse irônico com os braços cruzados, sempre tentando fazer Stoico parecer incapaz para a liderança, o pior era que ele convenceu boa parte dos habitantes de Berk disso.

– Dessa vez vamos conseguir, sim. Tenho certeza. Então vocês podem ir comigo para a batalha ou ficar em casa desonrando suas famílias e seus ancestrais que morreram por uma chance como esta. — Seu discurso não incentivou ninguém, então tentou outra coisa — Tá bom, quem ficar toma conta do Soluço. — Dizendo isso todos se motivaram a ir, se levantaram e começaram a caminhar até os barcos. Eu teria rido se tivesse lá.

Se o pai soubesse da afronta a família...

– Ótimo! Uma boa caça aos dragões. Vamos lá. — Bocão falou, na verdade também não queria tomar conta do desastrado da vila, tomou um gole da sua caneca de cerveja e levantou.

– Bocão, quero que fique.

– Por que? Soluço já sabe se virar muito bem sozinho, não precisa de alguém que tome conta de seus passos o tempo inteiro.

– Preciso que treine os novos caçadores. Soluço será um deles.

– Ah! Finalmente! — Não estava sendo irônico, ele é um dos que sempre acreditou que Soluço podia ser um bom guerreiro se alguém botasse fé e o treinasse com paciência e calma, isso era importante para Soluço — Por que a mudança? Por causa do dragão que ele capturou?

– Uma parte minha não acreditou em uma palavra, mas eu sei o que ele quis dizer, Bocão. Está na hora de meu filho ser um homem, é hora de deixá-lo crescer.

– Parabéns! São poucos os que acreditam nele, não se preocupe, quando você voltar verá um Soluço mudado.

– Espero... — Murmurou ainda receoso pela sua decisão.

Quando a reunião terminou Soluço ainda estava conversando com o amigo dragão, tentando fazê-lo falar mais, porém ele sempre dizia que ia contar no momento certo. Eu tinha ido embora, ele me pediu e seu pai voltou quase ao mesmo tempo que isso.

– Soluço?!

O filho ouviu o chamado do pai, um pouco nervoso com o tom usado se virou para Olavo e declarou:

– É meu pai. Fique aqui. — Falou indo até a porta torcendo para ser uma coisa rápida.

– Seu pai? N-não posso conhecê-lo?

– Já tenho muitos problemas sem que tenha um dragão-humano na minha casa. Espera, já volto.

Soluço saiu do quarto estranhando o jeito que Olavo ficou quando disse que seu pai estava lá, parecia que era alguém que ele nunca viu mas queria conhecer há anos, ignorou o pensamento e foi ver onde Stoico estava.

O homem forte e intimidador se sentou em sua poltrona e o chamou, teve medo que fosse algo que fez, Soluço conteve seu temor e ficou a frente dele.

– Soluço, andei pensando muito sobre você. — Quando disse isso Soluço se preparou para algo ruim, respirou fundo para não sair correndo — Decidi que você tem razão.

– Tenho? — Mesmo confuso, seu ego inflou, embora se perguntasse do que ele estava falando.

– Chegou a hora de deixá-lo crescer.

– Jura?

– Você começa as aulas de caça e luta amanhã.

– Hã... isso. Pai, pensei muito e... cheguei a conclusão de que temos muitos vikings lutadores, mas não muitos fazendeiros, ou ferreiros, ou padeiros...

Não sabia o que dizer. Seu pai interrompeu não querendo ouví-lo, como sempre.

– Já decidi, você começa amanhã.

– Sim, senhor... — Tentou esconder a tristeza em sua voz e subiu para o quarto.

Olavo ouviu tudo com sua audição de dragão.

– Aulas de quê? — Olavo sabia a resposta, mas queria saber se mentiria para ele.

– De como caçar dragões... — Falou sem motivação por causa do que soube ainda agora, que iria ser treinado para matar seu povo.

– Seu pai tem que saber.

– Eu vou contar... Me ajuda?

– Vou fazer o possível... Nas aulas de como ser um dragão.

– Vou precisar de aulas?

– Não vai querer descobrir tudo sozinho.

– Mas... e se eu não for como você? Como vou saber?

– Lembra quando começou a correr na floresta? O que sentiu? E quando conseguiu me entender? Você tem sangue de dragão nas veias, um coração de dragão bate em seu peito. E você vai aprender a usar isso.

O jeito que ele falou o motivou, finalmente entendeu porque era tão diferente dos outros da tribo. Não é um deles, "um deles"? Nem eu me vejo mais como eles.

Soluço é algo melhor, algo mais, algo com o que ele podia se identificar, foi como se tivesse encontrado seu lugar no mundo, não iria perder a chance de saber mais sobre o seu verdadeiro ser, animado e com um sorriso perguntou:

– Quando começo?

– Amanhã, depois da sua outra aula.

Notas finais
"Faces idênticas" Sacaram?