Como Treinar o seu Dragão Interior 2
20 Fique forte
Notas iniciais
Mais uma vez, me deu um branco total. Só despertei quando estávamos em um tipo de “ala médica” com os curandeiros e as wiccas se esforçando ao máximo para curar o braço com a flecha do dragão; fogo mágico, orações, feitiços... Nada adiantou. A única coisa boa que eu vi nisso tudo foi a empatia dos dragões, todos se preocupando tanto, sofrendo tanto. Como se fosse algum parente muito próximo ou até com eles próprios. Outra coisa para a coleção do quanto eles são superiores a nós, humanos.
Quando finalmente voltei para a terra, decidi ir falar com a Stormy que estava tão em choque quanto eu. – Percebi isso pelo jeito que ele se virou para mim quando a chamei.
— Stormy? – Chamei-a pela terceira vez seguida.
— Hm? – Ela se virou para mim como se levasse um susto e tentou disfarçar.
Sorri para passar-lhe confiança.
— Tá tudo bem, tenho certeza que os curandeiros ou as wiccas vão dar um jeito.
Riso sem vida.
— A situação deve ser feia para você vir até aqui e me dar esperanças. – Stormy ajeitou o cabelo. – Soluço me contou que você é pessimista e não acredita em finais felizes.
— Prefiro o termo “realista”. – Sentei-me ao lado da Nader. – E sim, durante muito tempo eu não acreditava em nada e nem em ninguém... – Percebi que tinha falado demais muito tarde, mas decidi continuar. – Mas eventos recentes me fizeram repensar esses conceitos e acabei acreditando de novo.
— Traduzindo: “Conheci o Solucinho e ele me fez acreditar no impossível, coisa que eu não fazia desde miudinha.”. – Ela fez uma interpretação bem forçada minha jogando o cabelo e fazendo uma voz rouca e anasalada.
— Ei! – Rimos. – Quando eu jogo meu cabelo assim?
— Ah, sei lá. Tipo assim. Mil coisas, sabe? – Stormy jogou mais o cabelo.
— Para, eu não jogo o cabelo! – A segurei ainda rindo.
— Não, você pisca seus olhinhos bem assim. – Olavo apareceu do nada e entrou no assunto imitando o jeito que eu pisco.
— Tem razão, ela pisca muito. – Stormy foi na onda. Os dois foram aproximando seus rostos de mim piscando tanto que eu senti uma leve brisa. Deve ter sido impressão minha.
— Odeio vocês! – os afastei meio bruta, mas ainda achando graça.
Rimos mais um pouco, até que a onda passou e voltamos para a preocupação com o anônimo prestes a perder o braço. Olavo viu Soluço olhando pro nada e decidiu confortar o casula. E eu continuei na minha missão de distrair a Stormy.
— Ei, Stormy?
— Sim? – perguntou ela sem animo.
— Bem... Hã... Como é voar? – O assunto era meio delicado, mas como qualquer coisa haver com voo fazia os olhos de um dragão brilhar, decidi arriscar. Meio idiota eu sei, mas eu estava de mãos atadas.
— Você já voo no Soluço. – Ela deu um sorriso sem graça.
— Sim, eu sei. – Corei um pouco. – Mas eu estou falando de voar sozinha, sem depender de ninguém... Eu sei que deve ser diferente.
— Até que é... – Stormy se ajeitou. – Voar é... Ah, como eu posso explicar? – Ela se jogou um pouco para trás. – Quando eu estou no céu, eu nem sinto frio, eu me sinto tão...
— Livre? – Completei a frase por ela e nós sorrimos.
— É... Eu nem me canso, antes de pousar. É um desejo indescritível de ficar no ar para sempre, explorando, viajando... Ou só ficando por lá mesmo. No treinamento, o Soluço ficava cabulando aula para ficar explorando os céus. A ilha onde vocês descobriram onde o Eret estava, ele encontrou quando deveria estar meditando.
Ri.
— O Soluço, o viking mais nerd que eu já conheci, cabulando aula?
— E o que dava mais raiva era que ele podia cabular a aula mais difícil de todas que no final ele se dava melhor do que quem se preparava.
— É a cara dele! – Rimos de novo. – Espera ai... O Soluço! – Sai em um pulo parecendo uma louca. Stormy ficou me olhando com cara de quem não entende nada, depois que percebeu o que eu queria, ela fez o mesmo.
Chegamos onde Soluço e Olavo estavam, aquele estava sentado cabisbaixo de mãos juntas apoiadas na testa e este estava com as mãos nad costas do caçula, curvado como quem quisesse dar apoio.
— Sim, eu sei. Ele está tentando ganhar coragem. – Olavo falou como se lesse nossos pensamentos. Admito, senti falta disso.
— Como assim?! – Stormy berrou quem nem uma louca.
Olavo nos puxou para um lugar separado onde ninguém pudesse nos ouvir.
— Vocês sabem como ele é, ele acha que não é capaz.
— Mas ele é um Saint Flamma! Um Supremo! Um Deus Dragão ou sei lá como devo chama-lo! Quem melhor para fazer um milagre do que um Deus?! – Stormy se descontrolou de novo.
— Eu sei, mas não é assim que a banda toca, e você sabe. – Olavo permaneceu calmo. Stormy bufou e cruzou os braços.
— Como assim? – Perguntei sem entender nada.
— Ah, é! Não te contaram. – Olavo bateu na testa de leve para diminuir a tensão, depois limpou a garganta e decidiu me explicar tudo. – Quando um dragão tenta usar sua chama para curar qualquer um, é preciso que duas coisas não aconteçam: a primeira é que o dragão não pode ter dúvidas de se deve curar ou não e a segunda é que o dragão não pode duvidar de si mesmo. Quanto mais o dragão tem certeza de que deve curar ou de sua capacidade, maiores são as chances do resultado ser perfeito; somando essas duas coisas o resultado será milagroso.
Surpreendi-me.
— Foi assim que curaram os feridos na época da Jaguadarte?
— Assim mesmo. – Ele falou sério.
— Meus Deuses... – Fiquei nervosa. – D-deixem que eu falo com ele, ele vai me ouvir. – Falso otimismo.
Pela milionésima vez, eu vou dizer: eu não duvido do Soluço! Mas também o conheço muito bem. Desde criança a autoestima dele era muito baixa, hoje em dia está um pouco melhor, mas ele sempre fica com o pé atrás. Resultado de anos de abusos emocionais, verbais, psicológicos e às vezes físicos. É muito triste, e agora, perigoso.
Respirei bem fundo, contei até dez mentalmente e fui até onde Soluço estava... E nada! Ele tinha sumido. Quando fui perguntar para o anônimo mais próximo que eu vi, percebi que ele estava olhando muito para certa direção, segui seu olhar até uma abertura na parede onde o Soluço estava; ele afastou algumas pessoas, o pai do ferido chegou perto de ele e o abraçou separado do abraço, Soluço pôs as mãos em prece e se agachou ao lado do braço ferido; chamas me milhares de cores diferentes surgiram e dançaram em formando uma aura em volta do Menino-Dragão, seus cabelos acompanhavam e seus olhos ficaram com as aspecto draconiano, mas dessa vez eram de outra cor... Um degrade de prata para branco e tinham o centro antes da pupila dourado. Por um momento, voltei a ser a Astrid de quinze anos na primeira vez que vi seu verdadeiro potencial. Soluço soprou dentro das mãos, as palmas tinham um fogo que possuía mais cores que um arco-íris; Soluço aproximou as mãos da ferida com cuidado, ao encostar o paciente fez uma expressão de dor que logo murchou, as chamas penetraram no corte e em um piscar de olhos ele se curou. O paciente começou a mexer o braço devagar, mostrando que já estava bem. A multidão aplaudiu e gritou o nome do Soluço. O Menino dragão saiu de lá em órbita sendo assediado por todos. Não me controlei e o abracei que nem uma idiota; pulei em cima de ele quase o fazendo cair, obrigando-o a acordar do transe, e entrelaçando as pernas em sua cintura, Soluço me segurou rindo e me girou.
— Quer matar o coitado?— Olavo gritou.
Todos rimos.
Notei que meu ombro estava meio molhado, interpretei como lágrimas do Menino-Dragão. Falei ao seu ouvido.
— Você foi ótimo. Continue sendo forte que tudo ficará bem.
Soluço riu de nervoso.
— Exatamente.
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