Como Treinar o seu Dragão Interior 1,5
2 Como tudo começou
Notas iniciais
Aquele dia começou como o resto; acordei meio tarde, desci as escadas pra tomar café quando meu pai, Dazbogu: o Invejoso, me chamou para fazer mais um de seus “Pequenos” serviços.
— Melequento, venha cá. – Meu pai chamou como se eu fosse um escravo. Obedeci e parei de frente para ele.
— Sim, pai? – Deixei escapar um pouco de medo.
— Eu tenho uma missão para você.
— Qual, senhor? – Eu sei que é estranho me ver falando assim, acontece que meu pai sempre me fazia ter medo dele, me obrigava a ser respeitoso ou eu era castigado; ele só mostrava ter amor pro mim se eu me comportasse, ficasse quieto e fizesse tudo o que ele mandasse. Manipulava-me.
— Preciso que roube o colar de ouro de Hagnar: o Feroz!
— Q-quê?! Como assim?! Ele vai me matar! Não tem nada mais fácil?
Ele não disse nada! Só ficou me olhando com cara de bravo, achei que fosse me bater. Abaixei a cabeça e juntei minhas mãos em posição de respeito.
— Sinto muito, senhor. Farei como disse. – Falei me rendendo.
Dazbogu nem me deixou tomar café, praticamente me expulsou de casa, me obrigando a ir para a casa do tal Hagnar. Chegando lá eu fiquei parado de frente para uma janela durante um tempo, tentado ter coragem – Ou idiotice! – para fazer o que meu pai mandou.
— Por que você está ai parado? – Ouvi uma voz anasalada, a voz do meu primo, o Soluço. Eu estava tão apavorado que me assustei com ele, dei um pulo e um grito, acabei ficando com cara de idiota.
— Soluço? O que você quer, seu inútil?! Não se meta! – Essa não foi a primeira vez que tratei o Soluço desse jeito, como falei para a Astrid, eu já não era o melhor primo do mundo.
— Escuta aqui, garoto, fiquei preocupado com você, eu só queria saber se está tudo bem. Desculpe me importar. – Soluço ativou o seu “mecanismo de defesa”. Às vezes quando uma pessoa é abusada pelos outros ela cria barreiras, fica grossa, mal-humorada e reservada, mas não se engane, por dentro ela só quer com quem conversar.
— Para a sua informação, estou aqui como um exercício de coragem para me tornar um homem de verdade! Eu estava indo agora mesmo pegar o colar de ouro do Hagnar e...
— O quê?! Ficou maluco?! Roubar desse bruto é sentença de morte! Quem te desafiou quer testar a sua burrice!
— Olha, foi o meu... – Eu ia dizer senhor. – pai que mandou. Ele deve ter um motivo, então eu vou fazer.
— Melequento, é sério, não faça isso! Você vai se machucar e eu vou ter que tomar uma atitude.
— Você?! – Forcei uma risada. – Que engraçado! Você nem sabe se defender sozinho, como vai...
— Ah, chega! Não sei por que ainda tento. Faça o que quiser, não ligo! – Soluço me interrompeu e foi embora chorando.
Senti-me culpado, mas ignorei, eu não estava com cabeça. Voltei a ficar de tocaia e vi que o quarto daquela janela estava vazio e o colar estava bem perto. Estiquei a minha mão com cuidado, peguei o que tinha ido buscar e sai correndo que nem um maluco. Parei ofegante nos fundos do Grande Salão para me recompor, quando consegui respirar normalmente comecei a rir. Tinha sido fácil.
— Consegui! Não acredito! Deu certo! – Eu estava muito contente, comecei a brincar com o colar e fazer imitações com o que meu pai diria e o que Hagnar estaria pensando. Pensei que isso faria meu pai gostar mais de mim.
De repente, senti uma coisa fria e afiada nas minhas costas.
— Não falei que tinha alguém nos espiando? – Era a voz de um adolescente. Acontece que Hagnar tinha três filhos, todos brutamontes, mas sabiam ser inteligentes quando queriam.
Quando ele falou aquela frase, lembrei-me do quanto fui escandaloso na conversa com o Soluço. Nós dois fomos.
— Pois é, te devo um barriu de cerveja. – Outro dos três apareceu com uma espada no meu pescoço.
— Olha, rapazinho, – O terceiro pôs uma espada no meu peito. – o papai tá ocupado e disse que podíamos fazer o que quiséssemos com você. Não se preocupe, vamos fingir ser civilizados. Façam fila, rapazes.
Às vezes você está tão apavorado que nem consegue gritar. Eu estava cercado e não sabia o que fazer, eu já até estava rogando a todos os deuses que me viam a memória quando apareceram mais duas espadas. Elas desarmaram os brutos e uma veio direto para a minha mão. Era o Soluço! Ele foi mais desajeitado que isso na hora, mas é assim que eu me lembro.
Lutamos como uma verdadeira dupla, como se tivesse sido tudo ensaiado. Com direito a acrobacias, manobras evasivas, saltos e até um estouro de galinhas, eu até esqueci que estava com medo e me deixei divertir. Os filhos de Hagnar fugiram com medo e eu e Soluço nos escondemos para caso eles voltassem.
Naquele esconderijo, depois de um tempo de silêncio, começamos a rir.
— Já sei: você se lembrou do meu aniversário e planejou tudo isso.
— Eu ia dizer a mesma coisa.
Rimos mais um pouco.
— Formamos uma bela dupla. – Soluço disse todo alegre.
— Parece que sim. – Parei pra pensar.
De repente, Soluço pareceu se entristecer.
— Bom... Acho que vou indo. – Ele começou a ir embora.
— Espera ai! Hã... Obrigado... – Falei cheio de vergonha.
— De nada, família é família. – Ele sorriu de novo.
— Legal. – É... Eu fiquei meio sem graça, mas foi porque essa era a nossa primeira conversa. Meu pai sempre me dizia para ficar longe dele. Quando eu já estava indo embora, Soluço perguntou:
— Quer se encontrar aqui pra brincar amanhã?
Dai aconteceu, do nada começamos a nos falar muito, ficamos amigos e descobrimos que nossos gostos era muito parecidos; nós dois queríamos que nossos pais sentissem orgulho de nós, queríamos conhecer o mundo, sentíamos um pouco de receio em relação a caçar dragões e outras coisas.
Falamos sobre a luta durante dias, durante esse período passamos a andar juntos fazendo de tudo. Quando me dei conta, já tínhamos nosso esconderijo, aperto de mão secreto, códigos... Era muito bom! Nós tínhamos entre sete ou oito anos na época e amizade de infância é sempre boa.
Eu também passei a defender o Soluço; eu batia em todo mundo que o incomodasse, trocava socos com valentões, etc. Soluço retribuía como podia, fazendo pequenas vinganças – Planos bobos de criança, mas que sempre davam certo. – e dando foras quando havia ofensas verbais.
Acho que dá pra se ter uma ideia de quantos “amigos” eu perdi desde que comecei a andar com ele. Às vezes parecias que éramos eu e Soluço contra o mundo. Ele a inteligência e eu a força. Até meu pai passou a me negligenciar, e Soluço me dava apoio. Mas isso não importava, nossa amizade estava ótima, parecia coisa de historinha infantil, não tinha como melhorar.
Ai, conhecemos a garota.
Foi um dia normal, já estávamos com quase onze anos, brincávamos como em todos os dias, fingindo que estávamos em uma guerra.
— Renda-se, você não tem escapatória! – Falei fazendo o maior teatro.
— Eu prefiro morrer que ser um covarde! – Soluço retribuiu do mesmo jeito.
Ficamos trocando golpes com espadas de madeira que Stóico tinha feito para nós, xingando um ao outro de brincadeira, quando a Astrid passou; com aquela marra que tinha desde criancinha, cabelo preso em duas tranças bem duras e aquele capacete com chifres que ela não usa mais. Distrai-me e levei uma espadada na cabeça.
— Ai!
— Desculpa, primo, me distrai.
— Com o que?
— Hã... Bom... – Soluço ficou cor de rosa.
— Ah, entendi... Tem uma garota! – Ri e baguncei o cabelo dele.
— Para! – Soluço riu de volta. – E... Bem, eu não sei se realmente tem uma garota...
— Não entendi. – Falei confuso.
— É que eu não sei se ela gosta de mim, mas eu gosto muito dela.
— Gosta quanto? – Provoquei.
— Você vai rir!
— Não vou não, palavra. – Cruzei os dedos atrás das costas. Soluço puxou a minha mão mostrando que eu menti. – Tá bom! Tá bom! Mas sério, pode contar.
— Ok... – Ele coçou a cabeça. – Sei lá, eu já me vi casando com ela.
Segurei a risada.
— Soluço, calma, tá? Tem muita garota por ai. Papai disse que temos que nos divertir o máximo que pudermos antes de...
— Ela não é um divertimento! — Soluço gritou.
— Uou! – Me espantei. – Pelo jeito é sério. Relaxe, eu não concordo muito com o meu pai, só estou dizendo que ainda é cedo pra pensar em casar. Só pra você ficar mais calmo, vou dizer o nome de uma garota que eu também gosto.
— Quê?! Melequento Jorgenson apaixonado? – Soluço provocou.
— Eu não diria apaixonado. – Me fiz de desentendido.
— Hã-ram... – Ele riu. Deu um soco leve no ombro dele.
— Tá ok, vamos falar os nomes delas no três: um, dois, três...
— Astrid! — Gritamos ao mesmo tempo. Ficamos em choque ao ver que era o mesmo nome. — Astrid Hofferson! — Gritamos o nome completo na esperança de que fosse coincidência. Quando vimos que ainda era o mesmo nome, ficamos mais uma vez em silêncio.
Caímos sentados na grama, ninguém falou nada durante horas. Horas mesmo, pois o sol já estava se pondo.
— Há, não vamos atrapalhar a nossa amizade por causa de uma garota! – Tentei amenizar a situação.
— Não mesmo... – Soluço respondeu nervoso. – Isso seria infantil... Garotas podem ir e vir, mas amizade e família são pra sempre...!
— É. Eu nunca diria nada contra você pra ela só pra gente se aproximar.
— É... E eu nunca faria nada contra você...
— Não é uma competição! Ela não é um troféu! Tudo tranquilo. – Falei disfarçando.
— Isso ai... – Soluço também disfarçou.
— Mesmo que fosse, eu ganharia. – Fui burro e deixei escapar.
Soluço me olhou quieto, depois me mandou um olhar de raiva e ódio que eu nunca vi nele.
— Calma, eu só estava brincando!
— Tudo é brincadeira pra você, não é?
— Solu... – Fui interrompido.
— Você já tem tudo! — Soluço levantou furioso. – É mais forte do que eu... É mais querido do que eu... Você nasceu assim, perfeito! Eu é que nasci quebrado!
— “Você já tem tudo”? — Me enfureci também. – Tudo menos um pai que me ama, uma inteligência como a sua... Se liga, Soluço! Você que sempre tem tudo!
Não sei como. Não sei por quê. Mas a nossa briga foi ficando cada vez mais séria; ficamos falando coisas que nunca tínhamos parado para pensar, coisas que nunca queríamos ter dito, tocando em assuntos pessoais: diferenças na família e na criação, motivos de inveja e um monte de coisas nada haver.
Estávamos chamando atenção, todos os que estavam em suas casas abriram as janelas ou foram para o lado de fora para saber o que era aquele estardalhaço. Montinhos de gente iam se acumulando enquanto nosso tom de voz aumentava.
Em um dado momento, a briga se tornou física: dei um empurrão forte no Soluço que o fez cair de costas numa carroça cheia de feno. Soluço se levantou com dificuldade e me olhou com tanto ódio... Eu já estava pensando em pedir desculpas quando ele veio pra cima de mim e me vez cair. Soluço começou a me dar socos e eu tive que me defender. Eram chutes e arranhões pra todo lado. Essa deve ter sido a primeira vez que tivemos contato com a Metade-Dragão porque eu juro que vi e senti nossos dentes ficando mais afiados, nossa força aumentando e as escamas aparecerem.
Parecia uma briga de animais, estávamos arrancando sangue e pedaços de pele um do outro.
— Pelos deuses, eles vão se matar!— Gritou uma anônima qualquer.
E era verdade, do jeito que iam as coisas parecia mesmo que um de nós ia morrer, porém, ninguém se dava ao trabalho de separar a briga. Por incrível que pareça, quanto mais pessoas tem no meio de uma situação perigosa, menos chances tem de alguém ajudar. Por muita sorte, Stóico e Bocão apareceram; cada um pegou um, e precisaram nos segurar firme porque queríamos brigar mais.
— Parem de brigar vocês dois, que coisa feia!— Gritou Bocão segurando Soluço pelas axilas bem longe do chão.
— Eu queria que você não tivesse estado lá!— Gritei pro Soluço chorando sem perceber.
— E eu queria não ter salvado você!— Soluço se desprendeu do Bocão e caiu de pé quase torcendo o tornozelo. Também estava chorando bastante.
— Quer saber?! Você nem é tão legal assim! Sem mim você é só uma Espinha de Peixe Falante!
— E sem mim você é só mais um burro no meio de um monte de tapados!
— Pelo menos eu nunca serei um inútil como você é!
— Prefiro ser um inútil a um capacho do papai! — Nossa briga foi ficando mais e mais assustadora, ninguém sabia o que dizer.
— Aprendi muito sobre você hoje!
— E eu também!
— Pelo visto, a nossa amizade acabou!
— E já vai tarde! Eu nunca mais quero falar com você. Nunca!
— Nem eu também! Fica longe de mim!
— É claro, alteza real, com prazer!— Provoquei o Soluço de novo.
— Falou!
— Falou!
— Falou...! — Soluço chorou ainda mais e correu pra casa cobrindo o rosto. Fiz o mesmo.
Todo mundo ficou parado sem palavras.
— Vai até seu filho! Ele precisa de você. – Stóico falou com preocupado para o meu pai.
— Por quê? Já estava na hora do meu filho se livrar daquele peso morto.
— O quê?! – Antes de começarem uma nova briga, Bocão segurou o ombro do líder.
— Você fala com o Melequento e eu falo com o Soluço. Ele vai me ouvir.
— Mas o Soluço é...
— Eu sei, Stóico, mas se não for você, Melequento não vai ter ninguém. Vai!
Stóico respirou fundo e foi na direção da minha casa.
Todos bateram na minha porta várias vezes.
— Vão embora... – Eu dizia sem animo.
Já na casa do Soluço.
— Soluço! Abre a porta, Soluço! – Lá, apenas o Bocão tinha ido ver como ele estava.
— Não quero falar...! – Dava pra saber pelo tom de voz que ele estava chorando muito, mais que eu. Também, eu era o único amigo que ele tinha.
No dia seguinte, eu e Soluço nos encontramos no Grande Salão. Quando ele entrou eu estava bem na frente dele. Olhamo-nos com um olhar vazio, em silêncio, por um bom tempo. Depois, Soluço passou por mim como se eu não estivesse lá e sentou em uma mesa bem escondida no canto.
— Entendi... – Sussurrei com raiva.
Depois daquele maldito dia, nós nunca mais nos falamos. Quando finalmente conseguimos nos falar, eu já era um valentão com uma equipe própria que tinha o objetivo de atormentar o Soluço. Eu me sentia mal às vezes, mas meu pai sempre dizia para eu ignorar e continuar, pois “aquilo me moldava como homem”.
Eu e Soluço nunca mais tivemos uma conversa descente desde então. Eu me tornei um imbecil e ele um depressivo cheio de “mecanismos de defesa”, de novo.
Assim, acabou a nossa amizade durante quatro, tristes, anos.
Toda a turma, e até o nosso professor, estavam em choque. Alguns até estavam chorando, entre eles o Soluço.
A história foi longa, durando até meio-dia, mais ou menos. Todos ficaram tão concentrados que nem viram o tempo passar. Já eu estava cansado de contar e ouvir.
— Caramba... – Stormy disse espantada. – Desculpe, eu não...
— Relaxa! Já passou. – Soluço enxugou as lágrimas.
— Isso ai, já somos amigos de novo. – Abracei o Soluço pelo pescoço e dei um cascudo de brincadeira. Rimos.
— Isso ai! – Olavo nos abraçou do mesmo jeito. – Chega de chorar pelo que passou, vamos sacudir a poeira!
Olavo tinha razão. Não posso ouvir aquela voz. Soluço sempre foi o meu melhor amigo e sempre vai ser! Não vou estragar tudo de novo.
— Aliás... Tem umas garotas aqui que estão afim de você. – Olavo falou com um olhar malicioso.
— Não estou pronto! – Falei com um pouco de raiva.
— É, Olavo, vamos com calma! O clima ainda está um pouco pesado.
— Por isso mesmo, ele precisa cavalgar de novo.
— Olavo!
Dei um sorriso leve. Posso não ter conseguido ficar com quem que queria, mas era bom saber que os dois se importam tanto comigo. E é só disso que eu preciso.
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