Como Ser O Pior Aluno de Hogwarts

4 Lição 3 – Conheça seus tutores. Se possível, passe uma cantada em um deles.


A cerimônia do chapéu seletor não demorou muito mais. Foi só até a pequena Rosie Weasley ser escolhida para Grifinória. Por mais que Douglas ficasse arranjando maneiras não-mágicas de importunar Logan, sua atenção estava fixa na mesa principal. Não porque estivesse acontecendo alguma coisa de importante ali. Nada disso. Ele estava de olho na garota do Caldeirão furado.

Não sabia bem o porque, mas ela era seu objeto de cobiça. “Talvez por causa da rejeição” pensou o escocês observando a morena conversar com um professor baixinho, que mais parecia um duende, com aquelas orelhas pontudas e os cabelos lambidos.

O Diretor Longbottom levantou-se, segurando algumas fichas na mão, enquanto Black levar o chapéu seletor embora. — Bem vindo! – A voz dele ecoou por todo o salão principal, fazendo os estudantes se calarem no mesmo instante. – Muitos de vocês devem me conhecer. Eu sou Neville Longbottom, o professor de Herbologia. Porém, este ano, não serei apenas mais um professor de vocês. Com a aposentadoria da professora McGonagall, o conselho de pais de Hogwarts me indicou para assumir a direção da escola.

Vários burburinhos começaram nas quatro mesas de alunos, tamanho era o espanto. Ninguém imaginava que o atrapalhado mestre de Herbologia, fosse o escolhido para assumir o tão importante posto de comando. Ainda mais depois do que ocorreu ano passado, quando o Jeremy Fiennes, pai de Douglas Fiennes, veio à escola para reclamar da nota baixa do filho no exame final, e saiu com as pernas bambas por causa de uma azaração que levara do professor.

— Urrrum. — Longbottom pigarreou, fazendo o silêncio voltar a reinar velozmente. – Bom, essa é apenas uma das mudanças que tenho que anunciar. Com a saída da professora McGonagall, a disciplina de transfiguração será lecionada pelo professor de Defesa Contra Artes das Trevas, Trey Black.

O professor, que voltara ao seu lugar assim que o anúncio fora feito, fez algumas reverências para as saudações efusivas que os alunos demonstravam. Eram palmas, gritos e berros entusiasmados com a escolha.

— Parece que ele é bem popular aqui — pensou Logan em voz alta, ao assistir a animação dos estudantes da Grifinória.

— E é. Ele é o diretor da casa. – Respondeu James, irmão de Albus.

— Calma, calma. Ainda não terminei. – As mãos do diretor subiam e desciam, pedindo para que todos se aquietassem. – Com a nomeação de Black, a disciplina Defesa Contra Artes das Trevas ficará a cargo da professora Willys. – A mulher magricela, com os cabelos pretos na altura do queixo, e com frios olhos negros, se levantou, causando poucas palmas.

— Ninguém gosta dela. – Comentou o Potter mais velho. – A professora Willys e muito azeda. Ela ficou três meses no lugar do Black, enquanto ele fazia alguma missão pro ministério.

— Devido a problemas pessoais, o Professor Landis não será mais o diretor da Sonserina. O posto será assumido pela professora de Poções Lily Royer. – A mesa do canto comemorou, berrando com força.

“Então o nome dela é Lily. Belo nome.” disse Logan a si mesmo, ao ver a morena do Caldeirão Furado, se levantar e agradecer, com um sorriso vitorioso nos lábios.

— Hunm... Mais um apaixonado. – O garoto negro e rosto fino sentado ao lado de James.

— Por que, Fred? – Perguntou Albus, do outro lado da mesa.

— Porque todo ano alguém se apaixona por ela. – Respondeu o rapaz. – Só que ninguém tem chance. O que ela tem de bonita, tem convencida.

“Convencido por convencido, eu sou mais eu”, pensou o escocês, quando a professora olhou para a mesa da Grifinória. Os olhos verdes se aprofundaram nos dele. Teve certeza que a morena o estava encarando. Ele sentiu alguma coisa forte naquele olhar, isso não podia negar, mas não sabia bem o que era. Poderia perder tempo divagando sobre aquilo. Passar horas e horas perdido ali, em busca de alguma conclusão.

— Pessoal... – Ralhou Neville, trazendo-o de volta a terra. – Continuando...Com a aposentadoria da professora Hooch, as aulas de vôo serão ministradas por Oliver Wood, um dos maiores goleiros da história do quadribol e um ex-aluno de Hogwarts.

O salão principal irrompeu em palmas e berros quando Oliver saudou o corpo discente. Parecia mais um estádio de futebol do que uma escola. Era assobios, coisas voando para todos lados, meninas comentando sobre o quanto ele era lindo, meninos falando discutindo sobre partidas e defesas salvadoras que o jogador fizera.

Neville abaixou a cabeça, balançando-a de um lado para o outro. Devia ter deixado para anunciar a novidade no final da refeição, seria muito mais fácil. Agora seria um sacrifício para fazê-los se calarem.

— Que seja aberto o banquete. – Falou o diretor, desistindo de controlar o grupo.

Em questão de segundos, enormes travessas de prata surgiram no centro das mesas. Eram as mais variadas iguarias. Coxa de frango, costeletas de porco bem assadas, batatas coradas com queijo, torta abóbora, bolinhos de chocolate com recheio de calda quente, e jarra e mais jarras de suco de abóbora.

Os olhos de Logan nunca tinham visto tanta fartura a sua frente. Nem mesmo na casa de Holly, que era o lugar mais bem servido de comida que já vira na vida. O Sr. Henderson, pai de Holly, era açougueiro, por isso, fazia questão que todas as refeições fossem bem abastecidas com muita comida. Kendrick sempre passava por lá depois que saía do trabalho, e mesmo que o pai da amiga o achasse um folgado que só aparecia para filar bóia, a Sra. Henderson sempre deixava um prato pronto para quando o amigo da filha chegasse.

— Hey. – Sentiu a mão de Mark tocar em suas costas enquanto comia uma coxa de frango maior do que sua boca podia morder. – Parece que somos de casas rivais. Que azar!

— Culpa daquele chapéu estúpido. – Logan respondeu, limpando a boca com a manga das vestes.

— Será sempre bem-vindo nas masmorras da Sonserina. — Faulkner disse com um sorriso. – Agora... – Ele se abaixou e sussurrou perto do ouvido do amigo. – O professor Longbottom quer falar com você na sala dele.

O escocês franziu a testa. O diretor estivera na casa para entregar a carta, mas o que será que queria com ele? Apenas uma coisa lhe vinha a cabeça: A confusão no Expresso Hogwarts. Ainda mais depois que ouvira Hagrid dizer que Douglas Fiennes era um dos mais populares na escola.

“Que bosta, Já vou pra diretoria na abertura do ano letivo”, pensou, escondendo o rosto entre ambas as mãos. Pelo jeito, o talento que tinha para se meter em confusão tinha entrado em ação antes mesmo que percebesse.

— Vamos. – Kendrick levantou, revirando os olhos com raiva. Era demais esperar que conseguisse ficar um dia sem que nada acontecesse.

Provavelmente o tal Fiennes deve ter ido reclamar antes da cerimônia. Claro, tipos como ele, os perseguidores, adoram usar todo e qualquer benefício que podem adquirir, ainda mais quando as regras estão ao seu favor.

Enquanto iam para a sala do diretor, Logan não pode deixar de notar como os corredores eram diferentes das outras escolas. Paredões de pedra maciços, mas extremamente limpos e com tochas e velas ao invés de energia elétrica. A luz tremulava quando algum vento diferente vinha de uma das janelas sem vidro, entalhadas direto nas muralhas, igual a aquelas fotos de castelos antigos que se vê em livros antigos ou naqueles documentários sobre arquitetura antiga. Era incrível, nada comparado as paredes de alvenaria sem graça, pintadas em tons ainda mais sem criatividade, com pôsteres idiotas pendurados, pregando uma infinidade de ideologias que, no final das contas, ninguém presta atenção.

O que achava mais interessante eram as armaduras, estátuas e quadros. Tudo ali parecia ter vida própria. Viu uma das armaduras coçar o que seria a região das nádegas, e enquanto deixava a espada no chão, a do lado, deu-lhe um cascudo no elmo repreendendo-a por abandonar a arma. Teve que rir da mulher gorda sendo perseguida por entre as várias molduras por um anão de jardim com cara de apaixonado que levava um buquê de flores e uma caixinha com um anel dentro.

Estava morrendo de vontade de fazer perguntas sobre como tudo aquilo funcionava, se tinha algum tipo de motor ou software para que os fizessem agir de maneira tão atípica, mas ficou com medo de que rissem da cara dele.

— Chegamos. — Mark avisou, quando ficaram de frente para um gárgula de quase quatro metros, perto de uma parede de tijolos claros.

— A senha. – Pediu o gárgula, sem abrir os olhos para ver quem era, e com uma voz que dava tédio só de ouvir. Ele devia estar dormindo ou qualquer coisa assim.

— Deixe me ver... – O garoto da Sonserina levou a mão ao queixo e contraiu o músculo da testa, aproximando as sobrancelhas, tentando se lembrar. – É uma rima besta...Ah é. Swimming, swimming, in the swimming pool. When days are hot, when days are cold in the Swimming pool.

— Mas que senha mais idiota. – Logan ria compulsivamente da cara do amigo, cantarolando aquela musiquinha de criança.

Entretanto, as risadas cessaram quando a escultura de pedra deu um grande bocejo, abrindo a bocarra e mostrando os dentes de pedra. Depois ela se afastou e um buraco meio da parede surgiu, revelando uma escadinha circular, que ia até o alto de uma torre, bom, pelo menos, era o que o escocês pensava.

— A sala dele é lá em cima. – Mark falou, vendo o olhar estupefato de Kendrick, maravilhado com o que acabara de ver. – Vai ter que ir sozinho. São as ordens.

Ele não respondeu.

Com certeza deveria ser para tratar sobre alguma coisa em particular, logo não poderia ser a confusão no trem, senão, Mark também teria que ser chamado, pois também fora responsável pelo o que ocorrera.

— Ok, aí vamos nós. – Ele começou a subir a escada.

Os degraus eram finos e na medida em que iam sendo deixados para trás, podia ver a espiral que formavam. As pedras nas paredes eram escuras e havia pouca luz, quase na penumbra.

O final não tardou a aparecer. Dava em um escritório circular, com uma escrivaninha de carvalho escuro, uma cadeira feita com o mesmo tipo de madeira e muito bem trabalhada, e vários e vários quadros com fotos de ex-diretores da escola. Podia-se dizer que estava uma bagunça considerável sobre a mesa. Papéis espalhados por todos os cantos, a lata de lixo escorada próxima a mesa estava cheia, quase transbordando.

Reparou que havia pelo menos quatro janelas naquela sala, e uma varada de frente para os jardins e com um telescópio preto apontado o céu. Devia ser a melhor vista do lugar, pensou Logan, ao ver o gramado bem cuidado e o lago reluzente, bem próximo.

— Eu sempre achei essa vista de perde o fôlego. – A voz amistosa chamou a atenção do escocês. Parecia ser de um velho.

Olhou para trás, completamente perdido. A sala estaria vazia se não fosse por sua presença ali. Então quem o chamara?

— Não precisa ficar assustado, meu jovem. – A mesma voz falou, agora com certo tom divertimento por vê-lo intrigado.

Kendrick encarou a parede com os retratos dos antigos diretores. Todos pareciam estar dormindo. Tinham um, que havia escorado a cabeça na moldura e parecia estar quase morto, de tão pesado que seu sono estava.

Apenas uma das figuras dos quadros permanecia acordado, ele deu um leve aceno com a mão, atraindo o aluno para perto. Era velho, tinha cabelos e barba enormes, com uma cor branca semelhante a da lua no céu, as vestes eram verde-esmeralda e usava um par de óculos meia lua, que fora empurrado para perto do rosto quando o escocês leu o nome.

— “Albus Percival Wulfric Brian Dumbledore. 1940 – 1997”. Parece nome de padre velho. – Ele riu, se lembrando do sacerdote da igreja onde seu costumava levá-lo quando era mais jovem. Tinha uma barba parecida e vivia brigando com Logan quando este aprontava.

— Eu certamente não sou um padre. Embora, devo concordar que meu nome não é lá muito moderno. – Dumbledore falou de maneira paternal.

— Você fala? – Perguntou o rapaz, achando bizarro o fato dos quadros falarem, se o fato que elas podiam se mover já não fosse esquisito.

— Mas é claro que falo, assim como os outros nessa parede. – Ele apontou para os outros retratos. – Como foi a sua chegada? Deve ter sido diferente vir parar em um lugar tão especial.

— Estava tudo bem até aquele chapéu idiota me sacanear. Desculpa aí o palavrão. – Desculpou-se ao ver a expressão do ex-diretor ficar severa.

— Tome mais cuidado com as palavras, rapaz. Existem crianças nesta escola. – Repreendeu o retrato. – E não se preocupe, vou ter uma palavra ou duas com o chapéu. Depois da Segunda Guerra Bruxa, ele ficou muito mais zombeteiro do que o de costume. Andou fazendo algumas confusões na hora da seleção... Olá Neville. – O Ex-Diretor acenou alegremente para Neville, que tinha acabado de entrar em sua sala, acompanhado pelo professor Black e pela professora Royer. – Estava conversando com o Sr. Kendrick. Foi uma ótima decisão tê-lo aceito.

Logan franziu o cenho. Dumbledore sabia seu nome. Mais uma coisa que iria para lista de coisas estranhas que via naquela escola.

— Era o mais justo, professor. – Longbottom disse de forma bastante séria. – Não foi culpa de ele a carta ter sido extraviada. Agora se me dá licença. — O diretor segurou os ombros do escocês o guiou em direção a cadeira diante de sua mesa atolada de papéis. Entretanto, os olhos do rapaz permaneciam cravados em apenas um alvo. A bela professora ao lado de Black. Ela apoiara as costas na muralha de pedra, próxima a entra, com os braços cruzados e um sorriso de desdém no rosto. “Sexy”. Disse a si mesmo, sentindo certas regiões do corpo formigarem.

Aquele mesmo sentimento que viera na hora dos anúncios batera novamente. Ele ainda não tinha descoberto o nome do que sentia, mas o chamava provisoriamente de empatia, até encontrar uma palavra melhor para descrevê-lo.

— Sr. Kendrick. – Começou Neville, fazendo-o voltar a atenção ao rechonchudo a sua frente. – Como o senhor sabe, sua condição aqui é um pouco diferente do habitual. – O diretor deu ênfase na palavra “diferente”. – Está alguns anos atrasado em sua educação, é maior do que os outros em sua classe, e é o mais velho do corpo discente. E como se isso já não fosse o bastante, o senhor tem um exscribend testatem. Sabe o que é um, não sabe?

— Não. Só que se pode fazer um número maior de feitiços. – Disse o garoto.

Podia ter dito “sei, sei” apenas para esse papo-furado andar mais rápido e ir direto ao que interessa, mas aquela história sobre o exscribend testatem o deixara curioso, ainda mais depois da dor que sentira no olho direito.

— Esse seu olho escuro é um exscribend testatem. – O professor Black aproveitou a deixa para explicar. – Ele copia todo tipo de magia que se vê. Seja ela comum ou das trevas. Isso significa com esse olho, você não precisa passar por todo o processo comum de aprendizagem. Não precisa de treinos exaustivos até conseguir fazer um feitiço perfeito, basta vê-lo em execução uma vez.

— Isso é bom, não? – Logan indagou, mas o som preocupado na voz de Black durante a explanação o fez ver o quão idiota fora a sua pergunta.

— Em parte. – O barulho das botas do professor batendo no piso de madeira indicava que ele estava caminhando nervosamente de um lado para o outro. – É bom porque é mais fácil para alguém que está atrasado, mas é ruim porque se não for usado direito, o dono pode ficar cego. Digo isso por conhecimento próprio.

Trey parou perto de Logan e apontou para seu olho esquerdo. O azul turquesa da pupila foi ficando nebuloso, tremulava igual a correnteza de um rio depois de uma chuva muito forte, e subitamente, o globo ocular ficou escuro como a noite, tão preto quanto o do escocês.

— Eu também tenho um. – Ele apontou para órgão.

— E é o que nos leva ao motivo dessa reunião. — Interrompeu Neville. – O professor Black e eu achamos melhor tirar Astronomia e Feitiços. No horário dessas matérias o senhor terá aulas especiais para desenvolver essa sua característica única. A primeira com o professor Black para controlar o exscribend testatem e a segunda com a professora Royer para aprender feitiços mais avançados do que o programado para um aluno de primeiro ano.

“Hum... Aulas particulares com Lily... Gostei” ponderou ao ouvir a idéia. Mais tempo sozinho com ela do que os alunos comuns, já era alguma coisa, agora só precisava descobrir como usar isso a seu favor.

— Alguma dúvida? – O diretor o arrancou de seu transe.

— Tenho. – Disse depois de ponderar alguns instantes. – Eu sempre tive esse olho, por que só agora ele despertou?

— Por causa da varinha. – Lily rebateu, sem dar chance a Black. – Antes você não tinha uma, então, não podia fazer nenhum tipo de mágica. Quando comprou a varinha de rabo-córneo foi como se o lacre que o mantinha trancado fosse aberto.

“Que legal, por causa dessa carta maldita, eu posso ficar cego”, Logan refletiu. Queria dizer isso em voz alta, mas sabia que isso causaria uma discussão.

— Bom, além disso. – Continuou o diretor. – Como você é sozinho, não precisa de autorização para ir às visitas a Hogsmeade. O vilarejo local. Também fará aula de aparatação, já que tem idade para prestar o exame.

— Só isso? – O rapaz perguntou. – Não que eu queria ir, estou adorando a companhia. – Ele subiu e desceu as duas sobrancelhas, enquanto Lily revirava os olhos. Era muita petulância daquele garoto.

— Claro, o professor Black vai levá-lo para a torre de Grifinória.

Assim que o escocês levantou, sentiu a mão de Black pousar em seu ombro. Foi estranho. Tinha a sensação de que conhecia aquele homem de algum lugar. Mas preferiu ignorar. Já havia tido um dia cheio, a única coisa que queria era ir pra cama e dormir.