Como Eles Chegaram
2 Capítulo 2
Notas iniciais
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Thiago está parado num bar próximo ao shopping, enquanto toma uma água, sem gás, com um pouco de gelo por favor. Olha o relógio. A tv espreme mais sangue de algum acontecimento bizarro sobre uma garota dividida e guardada em malas diferentes. Outra noticia. Uma velha que tinha sido dada como morta, assusta todo um velório ao levantar do caixão e gritar a plenos pulmões:
BARRA NA ZU ABSU! Eles estão vindo! Os demônios estão entre nós, estão entre nós Ftaghn, seus asseclas assumiram corpos humanos. Al-Haz'red. Shub-Niggurath!
Thiago começa a prestar atenção no que a velha está dizendo quando o dono do buteco muda pro futebol.
Muda o canal e pela porta ele vê o Irerê estacionando a moto
- Ae.
- Bom?
- Tranquilo.
Thiago entrega os papéis que trazia consigo, Irerê dá uma olhada rápida pelo material.
- Cê viu o lance da velha que voltou dos mortos?
- Hein? Cê já tá podendo beber?
- Ela acordou no caixão dizendo que os demônios estão entre nós.
- Mundo tosco. Cadê o povo?
- Deve tá chegando.
- Uma cerveja por favor. Nada do Gabriel?
- Quem?
- O Gabriel, ah quando ele chegar cê lembra.
- Pera, telefone. Oi chegaram? Estamos só esperando o Gabriel. Sei não, amigo do Irerê. Aham. Ok Até.
- Ó lá o cara.
- Ah tá. Tinha esquecido.
- O besta mora longe e ainda num comprou uma moto, acho é pouco.
- Hahaha
- Dá mais duas cervas, vambora. – Diz isso entregando a grana pro rapaz, guarda os papéis e uma das cervejas numa mochila, a outra pro Gabriel.
- Ae maluco toma procê.
- Meu herói! Putz gelada hein?
- Vou entrando com a moto, encontro vocês lá.
- Falou.
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Irerê, Thiago, e Gabriel chegam em frente ao cinema. Esperavam mais pessoas no shopping. Mas também, filmes ruins. Cadê os outros dois?
Gabriel é o primeiro a notar o casal abraçado:
- Olha lá.
Irerê, acaba de beber a cerveja e joga lata fora, olha na direção.
- É mesmo, e chegando perto deles, Vamos parar com essa pouca vergonha.
Os dois se afastam, ois geral.
Luiz é o primeiro a comentar:
- Esse é o único que parece render...
Todos se aproximam, lêem a sinopse, Thiago é o primeiro a concordar:
- É parece que sim, nada como um suspense pra manter a calma.
Apesar de estranhar o comentário, Gabriel volta com um sanduíche na mão.
- Cara se eu não comer primeiro eu desmaio de fome. Que filme?
Luíz aponta.
- Hmm, ok tá aqui minha grana, compra lá?
Todo mundo passa a grana e Júlia entra na fila.
Ingressos na mão chocolates, amendoins, pipocas e coca-cola. Cadê o Irerê?
Ele volta correndo: Tive que ir no banheiro primeiro
e entram.
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A sala é mal iluminada, um abajur com uma cor não definida ilumina mal e porcamente o ambiente que cheira a mofo.
Uma das paredes é tomada por uma estante, a única coisa na casa que parece forte o suficiente, madeira grossa e antiga, livros empoeirados, todos eles foram reencapados. Um trio bizarro de gatos empalhados povoa a parte de cima da estante.
Um quadro com umas flores mal desenhadas e numa escolha de cores questionável diz Van Gogh embaixo.
Leandro não apostaria nisso. Um barulho familiar, unhas pequenas arranhando o assoalho, Jack? Rato dos infernos, cadê você? Ash.
Na próxima sala um piano de cauda, semi-coberto com um lençol.
Uma vitrola, não, isso chama gramofone, daqueles de dar corda e tocar um LP 78 rotações.
Próximo a ele um disco com uma capa de papel escrito Réquiem e logo embaixo Brahms. Dentro ao invés de um encarte, uma partitura, com alguma coisa escrita em alemão e uma assinatura. Hehehe autógrafo?
Volta pra perto da escada. De fora num parece que tem outro andar. Não sobe. Corredor pequeno e outra porta mais à frente.
Cozinha, bules, xícaras, panelas, colheres de pau, armários de madeira. Pia engraçada, que? Mármore? Uma janela pequena mostra o quintal, nada atraente. Notas fortes são tocadas no piano.
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Letícia passa pela porta, uma mulher com um vestido comprido esvoaça na sua frente. Encosta na parede, o vestido balança, parece rodopiar sozinho, o véu da mulher procura se prender em algum lugar. Ela não parece ter braços. Pernas não ajudam, do contrário estaria fora da casa já. O vento pára, o vestido também. A mulher ainda parada no mesmo lugar. Um pedestal revela que o manequim não representa perigo. Ela se aproxima, um vestido velho daqueles armados, um véu fora de moda.
- Caralho! Que merda!
Ela olha em volta, uma das paredes é repleta de roupas velhas, masculinas e femininas, uma das mesas grandes agulhas de vários tamanhos e carretéis de várias cores, dedais, giz, fita métrica.
Em um canto da sala, próximo à janela, uma máquina de costura movida a pedal.
O barulho de piano faz com que ela vire a cabeça.
- Ué, ele não sabe tocar assim.
Antes que ela chegue perto a porta bate.
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O filme era de um diretor brasileiro, filmado nos EUA com roteiro de um japonês. Uma refilmagem que poderia ter sido melhor. Um celular toca. Todos olham pro Gabriel.
- Num é meu não!
- Mas ta vindo daí, desliga isso!
- Num é o meu! Péra.
Acha preso na poltrona do lado, um celular. Desliga a chamada.
Sem maiores interrupções até o fim do filme.
O telefone toca fazendo o Gabriel pular de susto.
- Eu desliguei essa porcaria!
O identificador ta escrito Azathot 96015042
Ele estende o aparelho ainda tocando pro Irerê.
- Toma, eu num vou atender isso não.
- Fresco – pega olha a chamada, — É brincadeira né? Se somar dá 666, hehehe.
A ligação cai. Eles continuam andando pra sair do cinema, toca de novo.
- Fala chefe! O que cê manda? UOUUUUUUUU!
Ele grita tirando o telefone do ouvido, do aparelho um zumbido forte. Ele larga o telefone e cai de joelhos no chão. Gabriel e Thiago tentam segurar, mas só pegam o braço e ele bate de cabeça no chão, desacordado.
Luiz pega o celular e desliga. Irerê abre os olhos de uma vez e respira forte como só conseguisse fazer isso agora.
- O que foi cara cê ta bem? O que houve?
Ele não responde, olha na direção do celular, vai até o Luís, pega da mão dele. Júlia é a única que nota o estranho olhar vidrado dele encarando o aparelho.
- N-nada...num foi nada, tô bem. Vambora.
Guarda o celular no bolso e começa a andar como se realmente não tivesse acontecido nada.
Apesar de preocupados, ninguém diz mais nada.
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