Como Cães E Gatos
1 Capítulo 1 - Lei De Murphy
Notas iniciais
Eu estava começando a duvidar da minha capacidade de fazer amigos. Agachados atrás do muro que separava os prédios e observando as pessoas que circulavam na ala de Medicina, eu me sentia como uma idiota psicótica que assiste tanto Investigação Discovery que desconfia até do casal de velhinhos adoráveis da casa ao lado.
— Você tem certeza que ele fugiu para essa direção? — Perguntei pela milésima vez na esperança de evitar o que iríamos fazer.
— Bo Na, eu já falei que o Sr. Uruca está aqui.
Olhei para Jung Hoseok com o que eu esperava ser a minha pior careta de brava, que como sempre não assustou em nada. Ele continuou ignorando o fato de que estávamos prestes a adentrar o território do inimigo, com seu típico sorriso de "tudo vai dar certo" que geralmente eu amo, mas naquele momento me convidava para dar uma bela voadora naquele ser humano desmiolado.
Existem alguns fatos sobre uma Universidade que ninguém questiona, e um deles são as brigas antigas entre os cursos, um tipo de ódio que a maior parte dos participantes não entedem uma vez que é resultado de uma situação antiga, mas continuam recriando e repassando com as gerações. E quando se trata dos estudantes de Medicina e Veterinária nós levamos a rivalidade compartilhada muito a sério e não nos misturamos de forma alguma.
Até que o nosso mascote endiabrado resolveu fugir diretamente para o departamento médico. Tudo graças ao idiota chamado Hoseok, que foi passear com um gato siamês de oito anos, mais inteligente que todos nós juntos. Acredite quando eu digo que provavelmente o Sr.Uruca pode resolver um teste teste matemática melhor do que qualquer pessoa que eu conheço.
— Vamos sair daqui e encontrá-lo antes que o coordenador descubra e nos mate. — Sentenciei e comecei a sair do nosso esconderijo — Caminhe naturalmente ao meu lado.
O meu "agir naturalmente" foi interpretado como um "pareça um maluco". Jung Hoseok desconhece o sentido real da palavra naturalidade e parecia uma hiena com diarreia, enquanto andávamos pelos corredores e ele ria baixinho como o retardado que eu mais adoro neste mundo.
A pior parte de estar em um lugar onde você sabe que não deve ficar é aquela sensação de que todo mundo está te olhando e jugando você. Fiquei esperando alguém pular na minha frente e me acusar de invasão. Senti meu rosto esquentar e foquei em observar cada canto em busca da inconfundível cor cinza claro do felino idoso e rabugento.
Gatos são animais naturalmente curiosos e adoram se esconder e procurar coisas novas para brincar. Mas quando já viveram tempo suficiente em suas sete vidas, e no caso do Sr.Uruca, sete reencarnações que somaram para resultar em seu mal humor natural, eu só conseguia imagina-lo escondido em um buraco escuro, esperando algum humano desavisado passar para atacar seus pés.
Nosso departamento não podia receber mais uma reclamação ou o diretor da Universidade diminuiria a verba direcionada para os animais abandonados que tratamos na clínica daqui. E isso significaria deixar os mesmos ainda doentes em abrigos, onde acabariam morrendo ou sendo sacrificados.
Aos doze anos um animal salvou a minha vida, sem que eu conseguisse encontrá-lo para agradecer. Desde então, eu jurei que faria o mesmo como agradecimento.
— Lee Bo Na? Você já notou que estamos quase chegando na sala do Conselho estudantil? — Hoseok me cutucou e apontou na direção da última porta do corredor. — Eu não sei você mas prefiro manter distância do F4.
Encarei a porta trancada e não consegui conter o suspiro de frustração. Claro que além de perder o mascote do nosso curso ainda teríamos que nos envolver com as quatro pessoas que mais me irritavam na Universidade, mesmo sem sequer nos conhecermos. Aquele tipo de ranço por alguém que você sabe que não precisa conversar para compreender que não gostaria de manter por perto.
Maravilhoso. Simplesmente adorável.
Ouvi o inconfundível miado e parei por um segundo, até estender a mão e abrir a porta com força. A sala estava vazia e as cortinas fechadas deixavam o ambiente escuro e me impediam de enxergar direito. Entrei na ponta dos pés, vasculhei os armários e embaixo da escrivaninha atolada de papéis.
Nada.
— Talvez ele esteja escondido embaixo do sofá.
— Você poderia tentar me ajudar. Saia desta porta logo Jung. — Resmunguei entredentes.
— Estou guardando a porta para você. — Revirei os olhos e me abaixei para olhar, encontrando o gatinho cinza me observado de volta com seus enormes olhos azuis. — E também odeio dizer que Park Jimin acaba de virar o corredor e já me viu.
Quando eu finalmente terminei o Colégio e consegui uma bolsa de estudos para uma das melhores instituições do país, pensei que todo aquele sistema idiota de panelinhas seria deixado para trás e eu poderia fazer o meu curso pacificamente. Mas a verdade é que a maldita cadeia alimentar que separa os grupos do campus da Korea University é ainda pior. Se você cursa Direito, Medicina, Engenharia ou Administração sua vida social está garantida. Mas pessoas de Humanas e de Veterinária não se encaixam nesse padrão.
Não que eu me importe com isso. Nunca quis ser popular ou me encaixei nos padrões de beleza que insistiam em nos empurrar garganta abaixo. Mas o que me deixava furiosa era o fato de que os próprios professores e coodenadores diminuiam o dinheiro e o apoio direcionados aos nossos cursos, como se fôssemos menos importantes.
Park Jimin, como estudante de Engenharia Química e herdeiro de um magnata do petróleo, representa a elite desse lugar, e também faz parte do quarteto mais temido e respeitado dessa Universidade constituído por riquinhos egoístas que não sabem respeitar ninguém que atravesse seu caminho e adoram fazer brincadeiras idiotas e maldosas com quem consideram inimigos.
E como invasora do seu espaço pessoal, eu estava prestes a entrar nesse grupo.
O termo Chaebol se refere aos herdeiros de grandes corporações da Coreia, significa "clã de dinheiro” e define um conglomerado de empresas, controladas por famílias na maioria dos casos, que se juntam em torno de uma empresa mãe. O F4, como as pessoas intitulavam, era composto pelos herdeiros das mais ricas corporações desse tipo. Além disso faziam parte do Conselho Estudantil e participavam das reuniões que definiam o orçamento e toda uma série e questões legais na KU.
— Por favor Sr.Uruca seja um gato bonzinho e saía dai agora para que talvez possamos fugir correndo. — Supliquei em vão. Recebendo um enorme bocejo como resposta.
— Sabe Nana? Eu acabei e lembrar que esqueci alguma coisa lá na sala. Vou indo na frente.
Aquele traidor me chamava pelo apelido sempre que iria aprontar ou me largar sozinha. E foi exatamente assim que Hoseok virou as costas e desapareceu pelo corredor tão rápido que mal acompanhei seus passos e ele já estava dobrando em direção a saída, sua inconfundível cabeleira laranja se distanciando.
— ...não sei quem era. O cara simplesmente saiu correndo...Não tem nada de importante aqui para roubarem hyung. Certo. Vou dar uma olhada e te ligo.
As luzes que foram acesas de repente me fizeram ficar cega por alguns segundos e quando me acostumei novamente com a claridade abri os olhos para me deparar com a figura surpresa do maior mulherengo da Korea University. Senti algo se enrrolar nas minhas pernas e encarei o gato que me olhava de volta em um claro "tente escapar dessa enrrascada, humana acéfala ".
— Posso ajudar?
Como diz a Lei de Murphy, se uma coisa pode dar errado, dará. E mais, dará errado da pior maneira, no pior momento e de modo que cause o maior dano possível.
Fale com o autor