Como Assim Eu Sou Uma Meio Sangue?
1 Capítulo 1 - Minha vida normal
Notas iniciais
Para o começo de tudo, eu quero deixar bem claro que isso não é um diário. Na verdade, eu nem sou muita fã de diários. Acho entediante ter que começar todas as páginas com “Querido diário” e com a data do dia. E se eu não lembrar em que dia as coisas aconteceram? E se eu estiver perdida no tempo ou não puder relatar toda noite o que aconteceu comigo durante o dia? Existem outros meios pelos quais eu posso lhes contar a minha história e porque não um e-mail?
Meu nome é Susanna Ferreira Jones, tenho 16 anos e moro no Brooklyn, Nova York, Estados Unidos. Minha mãe é brasileira e veio morar aqui com 23 anos, após aceitar uma oferta de emprego que lhe foi oferecida. Mas não deu muito certo e ela acabou montando seu próprio negócio, uma cafeteria no centro da cidade a qual ela batizou com o nome de Brazilian’s Coffee. No ano seguinte, ela acabou por se apaixonar por um jovem chamado Robert Jones, meu pai, um soldado do exército americano que apareceu na loja certo dia. Não demorou muito para que começassem a namorar e um ano depois, se casaram. Passaram-se mais nove meses e então eu surgi no mundo, para a felicidade dos dois.
A minha infância no Brooklyn foi maravilhosa. Meus pais foram as pessoas mais amorosas e compreensivas que conheci naquela época. Mas então, quando eu fiz cinco anos, meu pai foi convocado para a guerra novamente e eu tive um estranho pressentimento no momento da nossa despedida, de que nunca mais o veríamos novamente. Infelizmente, eu estava certa. Dois anos depois, um oficial do exército apareceu na porta da nossa casa e entregou a minha mãe uma carta e uma caixa, onde as medalhas e o uniforme furado, rasgado e manchado de sangue estavam. Naquela tarde, eu me tranquei no meu quarto e chorei, até finalmente cair no sono. Foi um golpe duro e inesperado tanto para mim quanto para minha mãe. A partir daí, eu comecei a ter problemas na escola e com algumas crianças da vizinhança, mas minha mãe entendia a situação. Sabia que a partir daquele momento, nada seria como antes. E então ela resolveu reabrir a cafeteria, que ela havia fechado quando se casou,mas que nunca vendeu. Aquilo lhe deu um novo ânimo e nos rendeu dinheiro suficiente para que pudéssemos comprar um novo apartamento de três quartos, próximo a cafeteria.
Mas ainda assim, eu me sentia extremamente mal. A falta do meu pai acabava comigo e eu precisava de um lugar ou um mundo no qual eu pudesse me esconder. Então eu comecei a ler. Eu pegava dezenas de livros nas bibliotecas do colégio por mês e quando chegavam as férias, eu revirava a casa toda atrás de todo e qualquer livro que eu pudesse ler. E foi em uma dessas reviradas, que eu encontrei um velho livro empoeirado e grosso, de capa aveludada e vermelha e cujas letras douradas diziam: “Deuses e heróis da Mitologia Grega e Romana”. E em três meses eu já sabia de cor todas as histórias daquele magnífico livro.
Quando eu fiz dez anos, minha mãe resolveu que ia me deixar fazer um e-mail e eu insisti que ela colocasse nele o nome de Princesa_Ariadne, pois a história dessa personagem era a minha favorita. Eu odiava Teseu por tê-la largado no meio do caminho quando havia prometido desposá-la, mas amava a gentileza e o carinho de Dioniso por ela e a forma como ele a havia conquistado e casado com ela, tornando-a imortal para que pudesse viver para sempre juntos e lado a lado como um belo casal. Mas isso não vem ao caso no momento. O fato é que o primeiro e-mail que recebi, depois é claro daquele de confirmação, foi o de um cara chamado Richard Russel Riordan de quem eu nunca havia ouvido falar em toda a minha vida. Eu sabia que não devia abrir aquele e-mail, pois eu não sabia quem ele era e aquilo podia estar cheio de vírus, mas depois de ler o assunto do qual se tratava, eu não consegui conter a curiosidade. Estava escrito mais ou menos assim:
Remetente: richardrusselriordan@hotmail.com
Destinatário: princesa_ariadne@hotmail.com
Assunto: Acho que isso é algo que você deve saber para o seu bem
Obrigado por me salvar aquela vez, minha jovem, eu nunca esquecerei aquele dia (eu sinceramente não me lembro desse fato, mas se ele diz...). Talvez alguém esteja encobrindo suas memórias com uma forte névoa agora, mas isso certamente a fará lembrar-se de tudo. Não peço que você acredite nos relatos desse jovem que irei lhe apresentar a seguir e nem que pense que isso tudo é uma mentira, apenas peço que o leia e tire suas próprias conclusões. Tenha uma boa leitura,
Seu amigo secreto, RRR.
Obs.: Por favor, não conte a ninguém sobre isso. Isso deve ser nosso segredo e peço pelos deuses que você não o publique em nenhum lugar e nem mande para nenhuma editora. Eu sei o que faço.
E logo depois desse breve texto, havia um arquivo anexado. Era um livro que o tal Richard havia nomeado de Percy Jackson e o Ladrão de Raios. A história toda estava em primeira pessoa e primeiramente, eu achei que era um diário, mas como não havia data e nem o vocábulo “Querido Diário”, eu achei que não era nada disso. Era apenas um texto narrativo que contava a história de um garoto de 12 anos que descobrira que era um semideus, filho de Poseidon, e que parte em uma aventura perigosa com outra semideusa, filha de Atena, e um sátiro que é seu melhor amigo, em busca do raio de Zeus, que havia sido roubado. Confesso que ao terminar de ler isso, eu senti uma vontade louca de pegar um táxi para Long Island e visitar o Acampamento Meio Sangue, mas havia dois problemas. Primeiro: eu era apenas uma mortal, e mesmo que eu pudesse ver através da névoa, eu nunca poderia atravessar a barreira mágica do acampamento. Segundo: nada do que eu lia era real. Aquilo era apenas ficção! Deuses gregos? Semideuses? Monstros? Aquilo era apenas a religião de um povo que havia vivido há milhares de anos. Não tinha como aquilo ser real. Era impossível!
E aquilo se repetiu ao longo dos anos. A cada um ano, mais ou menos, eu recebia outro livro daqueles, com uma história mais emocionante que a outra. Aquilo durou por mais ou menos quatro anos, até que as coisas começaram a mudar. A partir do sexto livro, a história começou a ser narrada em terceira pessoa e o foco passou a não estar mais no Percy e sim nos novos personagens que apareceram. Eu sentia como se fosse uma personagem daquela história também. Eu sentia a angústia, o medo, a tristeza, a dor, a felicidade, o ódio e o rancor que os personagens sentiam como eu nunca havia sentido ao ler livro algum. Mas o mais incrível de tudo era o fato de que toda vez que eu terminava de ler um livro, algo chegava para mim pelo correio. Quando terminei o primeiro livro, uma caixa com flores de Lótus do Cassino em Las Vegas chegou para mim, juntamente com um saquinho com vinte dracmas de ouro. Quando terminei o segundo, recebi uma enciclopédia toda em grego de todos os deuses e monstros gregos. No terceiro, recebi toda a coleção de Mitomagia, além de um cartão prateado das Caçadoras de Ártemis. No quarto, recebi um pergaminho com um projeto de Dédalo e uma Flor da Lua, como a que Calipso deu a Percy. No quinto, recebi um colar com um belo pingente de sigma (∑) além de uma moeda de areia. Quanto ao colar, eu não entendi muito bem porque o recebi. O pingente era compreensível, pois meu nome começa com S e essa letra no alfabeto grego é o sigma, mas porque uma joia? Joias são caras! Mas enfim... Quando terminei o sexto livro, eu recebi as fotos de todos os personagens que apareceram em todos os livros. Eu as coloquei nas paredes do meu quarto e toda noite, antes de dormir, eu as encarava tentando me imaginar naquela realidade. As minhas preferidas, eu havia tirado cópia e as colado no teto, para que, deitada na cama, eu as pudesse ver melhor. Uma delas era uma foto em que Annabeth estava segurando um escudo com uma mão e puxando a camisa de Percy com a outra, e Percy está segurando o seu rosto gentilmente e a beijando com um sorriso nos lábios. Uma outra retratava um casal de jovens de pele pálida e cabelos e olhos negros. A garota parecia ser pelo menos dois anos mais velha que o garoto e bagunçava os cabelos dele com uma das mãos enquanto ele parecia reclamar e tentar afastar as mãos dela. Era bem óbvio que eles eram irmãos pelo modo como implicavam um com o outro. Os dois, é claro, eram Bianca e Nico Di Ângelo, filhos de Hades, o deus da morte e Senhor do Mundo Inferior. Doía ver Bianca ali, feliz e viva daquele jeito, quando eu sabia que ela havia se sacrificado para salvar os seus amigos. Mas o importante, é que ela estava nos Elísios agora e bem perto de sua mãe e seu pai. A minha última foto favorita era a de um garoto latino-americano de cabelos castanhos cacheados, olhos cor de avelã, pele morena, e orelhas um pouco pontudas como as de um elfo. Ele estava ao lado de um magnífico e enorme dragão de bronze e sorria para a câmera divertidamente como se estivesse planejando uma pegadinha para fazer com seus amigos. Leo Valdez era o nome dele. Um filho de Hefesto, manipulador do fogo e um dos nomes da minha lista de personagens favoritos. Eu lamentava que seu dragão de bronze e melhor amigo, Festus, tivesse sido destruído por um maldito sistema de defesa, mas às vezes, na vida, nós temos que perder as coisas boas para que as melhores tenham espaço para ficar. No sétimo livro, eu recebi um pacote de Jelly Beans e um urso de pelúcia que eu batizei de Teddy e com quem eu dormia abraçada toda noite. No oitavo, chegou para mim um pote de geleia de pêssego e um livro de mitologia que falava sobre eidolons, “camarãozillas” e divindades marinhas. No nono, recebi sementes de romã e a Pallas Atena em miniatura. No último, recebi uma foto dos campistas dos dois Acampamentos juntos e sorrindo. Eles estavam ralados, chamuscados e machucados, mas sorrindo.
Ultimamente, eu tenho usado todo o meu tempo ajudando minha mãe na Cafeteria e lendo, é claro. Minha mãe não aprova tanto a minha leitura constante quanto antes, mas talvez seja porque ela teve que comprar uns novos óculos para mim porque meu grau aumentou no fim do ano passado. Ou talvez seja porque ela ache que eu estou ficando maluca como Dom Quixote. Mas para mim, os livros são o único meio de eu me esconder do mundo e superar a dor da perda do meu pai, então, se eu parar de ler, terei que começar a tomar antidepressivos.
Estava tudo indo tão bem na minha vida! Agora eu não tinha mais problemas na escola, ninguém me odiava e talvez fosse coisa da minha cabeça, mas eu jurava que tinha um garoto me paquerando lá na Cafeteria e isso já fazia uma semana. Eu sinceramente não sei o que ele viu em mim, porque eu não sou atraente. Eu uso óculos, meus cabelos são cacheados, negros e batem na altura dos meus ombros e meus olhos são da mesma cor. Sou pálida como uma vela, não como Nico, porque o Nico é pálido de um jeito gato. Eu sou baixinha, tenho só 1,55 e não me importo muito com o que visto. Não sei o que aquele garoto tinha visto em mim, mas eu sei que estava gostando bastante disso!
Minha vida era normal, como a da maioria das adolescentes por aí. E esse talvez fosse o problema. Minha vida era normal até demais. Pelo menos foi o que eu acho que as Parcas pensaram antes de bagunçarem tudo.
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