Come back to me G!P
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Há muitos anos abdiquei das lágrimas, retenho sempre a vontade de chorar. Antes, a cada palavra dura, cada ato que me sangrasse, eu deixava as lágrimas falarem por mim e escorrer minha alma em cada gota, até que não restasse mais nada para lamentar.
Hoje, não sei mais chorar, e nem pretendo reaprender, meu rosto já esta salgado demais. Então, quando sinto meus olhos arderem, levanto a tampa do piano e deixo a melodia falar por mim. Os versos me decodificam e me sinto exposta, aberta somente ao reflexo da tampa negra de madeira.
Estou em frente ao piano, tenho muito para colocar para fora, alma manchada de tantas coisas que venho guardando, porém minha mente está como as teclas brancas.
Somos assim quando nosso reservatório tá cheio, as palavras não formam uma frase coesa na mente, um nó se forma na garganta e os olhos ardem. Olhei as teclas embaçadas.
Teclas brancas são as notas naturais, dó, ré, mi, fá, sol, lá, sí. Teclas pretas são os sustenidos e bemóis, os conhecidos acidentes.
Acidente
Houve um acidente, porém sem sirenes, não foi ouvido nenhum som. Eu estou caindo *(falling), me apegando novamente, lutando para não morrer mais um pedaço em mim.
Lembranças da noite com Regina mais uma vez retornaram a minha mente, seu corpo quente me aquecendo e a forma como ela falava sussurrando durante o sono. Suas palavras me chamando de linda e a forma como seu corpo se encaixou ao meu, buscando por proteção.
Proteção
Então uma antiga composição de minha autoria retornou aos meus dedos e comecei a toca-la, sentindo cada sibala que saia em minha boca.
Ali estava minha alma exposta.
Ali estava eu.
E ali estava a canção que fiz para meu pai.
Não vou fazer de novo.
Amar de braços abertos, sem medo de cair.
Eu já caí. (O 'cair' pode ser interpretado como medo de apaixonar/amar)
Aprendemos com os erros, como um bebê aprende a andar. Caindo, levantando.
Chorando quando buscamos a quem amamos.
E eu não vou fazer isso de novo.
Nunca amarei novamente.
Never again.
Você me ensinou a mentir, aprendi aos seus pés.
Corri para a porta, rosto vermelho ardendo pelo golpe.
Cai nas escadas, precisava voltar a ser ele.
Sua familia está espalhada ao seu redor como as páginas rasgadas de um livro. O livro onde eu escrevi Eu Te Amo.
O livro que você arrancou da minha mão e não vou fazer de novo.
Never again.
Meu telefone tocou, olhei na tela 'Regina Mills' e mandei para a caixa postal, como tenho feito nas últimas quatro semanas.
Já faz um mês que dormi com ela, um mês que prometi me afastar e estou cumprindo. Um mês sem vê-la.
Never again
Telefone tocou novamente anunciando uma mensagem
Regina: Você está acordada?
Exalei o ar lentamente antes de responder.
Emma: Yeah.
Regina: Você está ocupada?
Olhei mais uma vez o piano a minha frente, fechei a tampa e me levantei. Aproximei-me da lareira, peguei o controle e a acendi.
Emma: Não realmente.
Meu telefone tocou, o nome de Regina na tela, decidi atender. "Alô?"
"Oi Emma," a voz dela parecia cansada
"Está tudo bem?" perguntei
"Tudo está bem. Eu só não conseguia dormir."
Sentei na poltrona e admirei as chamas. "Por que não?"
"Eu acho que minha mente tá muito cheia."
"Eu sei como é", suspirei.
"E por alguma razão, falando com você me faz sentir melhor."
"É?" sorri
"Sim. Oh! E eu tenho algo pra te perguntar."
Sorri da excitação súbita. "OK"
"Amanhã será a apresentação da peça para algumas pessoas especiais, uma pré estréia. E eu adoraria ter você lá, se puder."
"Oh." Limpei a garganta, "Bem, eu estava pensando em pegar meu irmão amanhã e dar um passeio com ele e a Ruby, aproveitando minha folga. Então acho que não vai dar tempo. Desculpa."
"Não se desculpe. Eu entendo. Talvez você possa vir na estréia" Não havia nenhum vestígio da animação de segundos atrás.
"Sim claro. Estarei na estréia"
A lareira não estava quente o bastante, pensei em chamar Regina para dormir comigo como naquela noite. Apenas dormir.
"Regina?"
"Sim Emma?"
Mas eu deveria ter mais cuidado com isso. Alguns atos simples podem ser terrivelmente mal interpretados.
"Eu vou dormir agora. Mas vou falar com você amanhã?"
"Claro. Boa noite, Emma."
"Boa noite, Regina."
Reencostei melhor na poltrona. Algumas chamas são melhores quando não são reatiçadas.
***
Acordei com a lembrança do sonho estranho que tive, sonhei que após a ligação de ontem da Regina, eu a chamava para dormir aqui. Freud dizia que sonhos são o que tememos ou queremos. Suspirei e olhei o teto.
Quatro semanas, ou melhor, um mês e um dia sem ver Regina. Passei a responsabilidade de administrar as aulas para Ruby, afinal elas eram amigas, e Ruby toca muito bem. E se eu estou sendo 100%, honesta, tem sido um mês muito difícil.
Não é como se eu estivesse apaixonada. Não é como se eu sentisse alguma coisa sobre Regina realmente. Porém a falta de sexo estrelar combinada com a constante lembrança de como me deixei levar tão fácil, estão mudando um pouco minha rotina. Eu odeio que Regina
não me mande mais mensagens de bom dia e bons sonhos. Eu odeio que ela não apareça mais na produtora com uma tupperware ou me chamando para almoçar. Eu odeio que minhas quartas e sextas à tarde estão vazias devido a falta de suas aulas agora não mais minhas. Eu odeio me preocupar com qualquer uma dessas coisas.
Esfreguei meus olhos, ótimo jeito de curtir minha tarde de folga, deitada na cama sem fazer nada além de maratonar Game of thrones. E hoje é a pre-estréia dela, a pré que ela me chamou ontem e recusei.
Peguei meu celular e li as mensagens que Ruby me mandou após eu recusar outro convite e Ruby levantou perguntas interessantes:
Ruby: Por quê? Por que não vamos sair? Por que não aproveitar todas as belas mulheres e a liberdade para fazer o que quiser? ME RESPONDA PINOQUIIITAAAA!!! Vou dar na sua cara!
Encarei o teto mais uma vez, novamente os olhos chocolates retornaram a minha mente.
Em toda a minha vida, ninguém nunca tinha esperado tanto de mim como Regina fez. Ninguém nunca tinha cuidado tanto de mim assim. Ninguém nunca tinha pedido para que eu ficasse e dormisse, porque não queriam nada além de sexo, e eu também não.
Ou então eu achava isso.
Respirei fundo me lembrando da forma como sai de madrugada do apart da Regina. Ela ainda dormia tão serena.
Ouvi o barulho da porta do meu loft sendo aberta, apenas duas pessoas tem a chave, Ruby e David.
Desci as escadas, quase tropeçando em minhas meias, para ver quem é.
"Oh meu Deus, você ainda está de cueca e top!" Ruby gritou. "E meias!!"
Revirei os olhos.
"Não, eu só estava indo para a academia. Eu estava prestes a me vestir."
"Pinoquita, eu te sigo no Instagram. Eu vi seu post da academia às 6:30 desta manhã."
Porra. Está certa.
"Sim, bem. Duas vezes ao dia, como os profissionais fazem." pisquei
Parece estúpido vindo da pessoa mais preguiçosa do planeta. Ao menos Ruby teve a consideração de olhar simpático.
"Olha, Pinoquita. Você tem que sair de casa." Abri a boca para protestar, mas fui imediatamente cortada. "E não apenas para a academia ou Starbucks, Chipotle ou levar o Kitito nos cantos. Quero dizer, você tem que fazer algo produtivo."
"Quer dizer, como ir a bares e boates com você?"
"Exatamente! E é exatamente por isso que eu estou aqui! Estou te arrastando essa noite." ela foi em direção a minha geladeira.
"Rubes, eu não quero sair."
"Sim, é por isso que você está indo." disse abaixada olhando dentro da minha geladeira.
Gemi e sentei no sofá.
Rubi pegou uma cerveja e abriu-a com um abridor de garrafas do seu chaveiro, dando um longo gole, olhando para mim o tempo todo durante esse processo.
O olhar dela sobre mim estava me incomodando e desejei ter meu telefone para me distrair do silêncio constrangedor.
"O que?" perguntei
"O que o que?"
"Por que você está me olhando?"
Rubi revirou os olhos. "Porque eu não entendo por que você não pode simplesmente chamar ela."
Revirei os olhos, ela estava falando de Regina novamente.
"Pinoquita, você me obrigou a ir com você no teatro assistir ela amanhã, o mínimo que você podia fazer é sair comigo hoje. Você sabe que detesto teatro, nem cinema eu gosto!" debruçou no balcão da cozinha.
"Eu vou sair com você essa noite. Mas eu não quero fazer nada. Eu só quero que seja uma noite fria, ok?"
"Ugh, tudo bem. Você não quer ter nenhum divertimento. Entendi." Deu outro gole.
"Obrigada." Me levantei "Eu só quero uma noite agradável e chata." gritei indo em direção ao quarto.
***
Por um tempo, meu desejo foi realizado. Minha noite estava quase tão calma e chata que Ruby considerou sair antes das 11, afinal eu já estava um pouco alta.
Dancei um pouco com Ruby e algumas outras meninas aleatórias, mas eu não tinha a minima intenção de passar dos beijos.
Então eu a vi do outro lado da pista. Ela estava sentada em uma mesa com algumas pessoas e de costas para mim, conheço bem aquela silhueta. Minhas mãos estiveram sobre ela e memorizaram tão bem todo aquele corpo que eu a reconheceria em plena Time Square lotada, mesmo de olhos vendados.
Meu coração atropelou uma batida e engoli a seco.
Regina.
Senti-me uma idiota, em pé no meio da pista, cercada por corpos suados dançantes, completamente imóvel. Porém eu não estava pensando nisso, porque de repente estava sendo atingida com duas emoções conflitantes. De repente eu queria encontrar uma garota qualquer e sair dali. Mas ... ainda mais do que isso, eu queria ir lá e dizer 'Oi' ... Ou algo assim.
Só para ver como ela está.
Balancei a cabeça em negativo. Isso é uma coisa idiota para pensar. Claro que Regina está bem. Ela estava indo bem antes de me conhecer e ela ficará bem depois também.
Regina não parecia ser o tipo que sai à noite, talvez seja só para comemorar a pré estreia da peça. Mas nada foi pior do que ver a cena seguinte. Do que ver um homem colocar o braço em volta dela. Do que vê-la inclinar-se para seu toque e rir do que, com certeza eram piadas estúpidas.
Ele é um cara mais novo, com barba por fazer. Droga! Ele é bonito.
Revirei os olhos e fui em direção ao bar.
Pedi duas doses de whisky e uma Coke com rum. Preciso de algo mais forte em meu sistema. Entornei os dois copos e pedi outra rodada igual ainda sentindo minha garganta queimar.
"Ambos são pra você ou você se importaria de compartilhar?" uma linda ruiva parou ao meu lado.
É por isso que amo essa boate. É famosa por atrair lésbicas lindas e elas não têm vergonha de se aproximar, fazendo meu trabalho muito mais fácil.
"Eu só estava pensando que eu teria que encontrar uma linda mulher para compartilhar isso comigo. Parece que ela me encontrou." entreguei-a a Coke com run.
"Precisa de uma carona?" perguntei educadamente, afinal é sempre assim que começa, me pedem carona e nos agarramos no meu carro, claro, apenas beijos se estou como menina.
Porém a ruiva jogou a cabeça para trás rindo.
"Eu estou bem. A menos, claro ... você precisa?" Ela sorriu para mim me desafiando.
sorri lentamente. "Eu posso dirigir, linda. Não se preocupe." pisquei.
Levantei o copo e a mulher fez o mesmo.
"Por uma noite de sexo que será mais quente do que todas que eu já tive!" falou
Pisquei surpresa com o brinde contundente, brindamos e engoli o líquido de uma só vez. Pedi mais uma rodada e entornei também, a ruiva me olhava surpresa.
A título de curiosidade sutilmente olhei na direção de Regina e ela ainda estava ao lado do cara. Só que agora ele se inclinou sussurrando em seu ouvido. E não pude ver o rosto dela. Não sei se ela estava gostando de sua atenção ou não.
Tive que desviar o olhar.
Quando me virei de volta para o bar, vi a garota na minha frente, olhando na mesma direção que eu estava olhando antes.
"Alguém conhecido?" perguntou
Olhei de novo rapidamente e encolhi os ombros.
"Não, não realmente."
E é verdade. Não conheço Regina. Não sei sua comida favorita ou a cor favorita ou o que ela faz em seu tempo livre e eu não me interesso em saber.
Mas eu sei coisas mais íntimas do que isso.
Conheço seu rosto quando ela está gozando. O olhar dela quando estou batendo no lugar certo. E seu olhar de carinho ao terminar.
Suspirei e pedi outra bebida.
"Para alguém que você não conhece, você com certeza esta chateada."
"Não, não. Eu estou surpresa de vê-la aqui. Ela nunca foi muito de sair." Virei de uma vez meu novo copo.
A ruiva deu um passo mais perto, invadindo meu espaço pessoal e colocou as duas mãos nos meu quadris. "Se você estiver chateada, eu posso ser útil"
Eu não poderia fazer sexo com ela com receio dela descobrir meu segredo. Porém me divertir um pouco não teria problema nenhum. Segurei em sua nuca e a beijei.
"Vamos sair daqui" a ruiva falou durante o beijo.
"Daqui a pouco." a beijei com mais vontade.
"E só por curiosidade, qual nome devo gritar quando você me fazer gozar?" Ela sorriu amplamente, um brilho malicioso nos olhos.
"Eu acho que você sabe muito bem qual o meu nome."
A ruiva sorriu e piscou. "Ok, então Emma Swan, vamos sair daqui?" Beijei ela outra vez.
Por alguns segundos imaginei ser Regina ali. Me lembrei dela e durante o beijo olhei em sua direção, ela estava saindo com todos da mesa, o cara com o braço possessivamente sobre os ombros dela.
Parei o beijo e sai daquele lugar, nem lembro se dei alguma desculpa a ruiva.
Sai pelo grande portão de ferro e olhei ao redor. Vi o idiota falando com Regina, ela parecia negar algo. Apenas senti meus passos até lá.
"Não há taxis por agora Regina." O imbecil falou.
"Tudo bem, vou esperar a Tinker." Regina disse
"Não precisa, eu te levo." o idiota falou de novo segurando em sua mão, sorrindo para ela e eu senti minha mandíbula travada.
"Eu vou levar ela" Falei e entrei no meio dos dois, pegando no braço de Regina e puxando para longe dele. Ela me olhou assustada.
Ouvi ela falar com o idiota que estava tudo bem, que me conhecia. Rosnei, por que ela tinha que ficar dando explicações para aquele pedaço de merda!?
"Emma, pára." Ela parou e soltou o braço da minha mão. "Quem veio com você?" me perguntou.
"Não importa. Por que? Você quer ir pra casa com aquele idiota?! Quer levar ele pro seu apartamento também?!" Ela olhou ao redor, parecia envergonhada, acho que eu estava gritando.
"Emma, você esta bêbada. Com quem você veio?" Esfregou meus ombros com as mãos, seu olhar preocupado.
Olhei ao redor, e então percebi que a rua estava girando um pouco, algumas pessoas nos olhavam. Avistei meu carro do outro lado, era melhor eu ir pra casa, realmente estava muito bêbada. Dei alguns passos e senti Regina me puxar e uma buzina muito alta perto da gente. Ela parou em minha frente.
"Não vou deixar você dirigir assim." me estendeu a mão " Me da sua chave." ordenou
Olhei para ela séria, de forma intimidante e ela riu.
"Me dá a chave logo Swan."
Relutante peguei a chave do meu bolso e então percebi que havia um papel dobrado ali. Peguei a chave e o papel junto. O abri, mas estava embaçado demais, havia números e letras, possivelmente de alguma das meninas que beijei. Regina tirou o papel da minha mão e bufou ao ler. Amassou o papel e jogou na rua, me puxando pela mão em seguida, indo em direção ao meu carro.
Sentei no banco de passageiro e ela sentou no de motorista, olhando confusa para o painel e cambio.
"É automático" falei e ri
"Não posso te levar pro meu apartamento porque minha irmã está tentando engravidar. Tenho que ficar fora até meia noite." Me olhou "Onde posso te deixar."
"Na minha casa." falei e apontei o GPS.
Vi ela brigando com o aparelho para tentar achar meu endereço arquivado, não estava confiando muito em minha memória para indicar minha casa.
Após alguns minutos errando para sair com o carro, finalmente estávamos na estrada. A todo momento ela me olhava preocupada.
"Se você não pode ir pra casa antes da meia noite, ia pra casa daquele cara?" perguntei amarga.
"Não. Ia pra outro lugar." Parou o carro quando a máquina informou "back home". Peguei o controle e abri o portão, apontei minha vaga.
Desci, tudo parecia girar mais. Em segundos ela estava ao meu lado me abraçando, ou apoiando, não sei. Entramos no elevador e ela pediu a chave da minha porta.
E agora ela esta aqui, dormindo no sofá junto comigo, suas pernas entrelaçadas a minha. A lareira nos esquentando e dois copos vazios de achocolatado sobre a mesinha. Estou de pijama e ela está vestida uma roupa minha.
Não me animo ao lembrar o porquê ela teve que trocar urgente de roupa, meu estômago ainda reclama disso e meu rosto cora.
Regina remexeu e deitou melhor a cabeça em meu ombro, respirando o ar quente sobre meu pescoço e fechei os olhos apenas para aproveitar este momento. Sua mão sobre meu abdômen, as vezes fechando e abrindo os dedos devagar durante os sonhos que estava tendo. As vezes sibilando palavras inaudíveis. E eu fiquei sentindo o perfume de shampoo dos seus cabelos, parecia maçã.
Nunca me passou pela cabeça relacionamento ou casamento. Eu não acredito nessas coisas.
Não há ninguém que pudesse me aceitar assim, do jeito que sou.
Eu não acredito que os seres humanos são destinadas a ficar com apenas uma pessoa para sempre, mas por um milésimo de segundo, neste momento, eu posso ver por que algumas pessoas acreditam e fazem isso.

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