A vida no Brasil era boa. Só pude reconhecer isso quando fui obrigada a me mudar para um continente a milhares de quilômetros de distância da minha terra natal, da qual o Oceano Atlântico nos separava. Minha família e eu vivíamos num pequeno apartamento, localizado no Humaitá, bairro da Zona Sul do Rio de Janeiro. Eu me lembrava claramente da sensação maravilhosa de abrir a janela do meu quarto e me deparar com o Cristo Redentor, no cume do Corcovado, fazendo um plano de fundo para uma paisagem estoteante de tirar o fôlego.

Eu gastava uns bons minutos observando as pessoas pedalarem na ciclovia e, ainda que bem nova, cobiçava os bonitões musculosos, de variadas faixas etárias, que praticavam seu cooper. Para os mais assíduos, eu havia atribuído-lhes nomes imaginários. Fazia uma estimativa do horário em que Pedro Henrique ou Filippe – sim, isso mesmo, com i e dois pês – passaria defronte ao prédio.

Além de admirar os homens, eu invejava as belas mulheres de pele dourada, queimada pelo sol, e seus corpos ornados com curvas proporcionais. Considerando que eu não me encaixava nesse padrão de beleza, pelo menos tentava me bronzear, mas nunca alcancei esse objetivo, tendo em vista que minha pele excessivamente alva, após longa exposição ao sol, acabava, no máximo, por me proporcionar noites em claro consequentes a uma ferrenha ensolação. Isso sem mencionar a vermelhidão que só abrandava semanas mais tarde.

Mesmo que não me agradasse admitir, o meu esteriótipo enquadrava-se perfeitamente ao cenário cinzento e às constantes temperaturas baixas de Berlim. Isso porque as influências oriundas das ramificações materna da minha árvore genealógica, com extensas gerações de alemães, búlgaros e holandeses, predominavam nas minhas características físicas.

Meu irmão, por outro lado, herdara os traços latinos de papai. Sorte a dele. A pele acastanhada e o cabelo cacheado tornaram-se qualidades sobrelevantes na cidade habitada por pessoas majoritariamente pálidas. Não foram poucas as vezes nas quais testemunhei meninas, mulheres e até homens suspirarem ou lançarem olhares maliciosos a Victor. Nessas ocasiões, eu não sabia se sentia um leve pesar devido a minha falta de sorte ou se me enojava por alguém pensar nesses termos a respeito do meu irmão mais velho.

Mudamo-nos para a Alemanha na época em que eu tinha treze anos de idade. Não fazia muito tempo desde que meu pai havia pedido a exoneração do seu cargo de Professor Adjunto de Física na Universidade Federal do Rio de Janeiro, quando minha mãe cogitou a ideia absurda de juntarmos as nossas trouxas e, nas palavras dela, “recomeçarmos a vida” em seu país de origem.

De princípio, supus que papai, cuja saúde mental ainda se achava preservada, não concordaria com essa insensatez. Todavia, devido à vasta habilidade persuasiva da esposa, ele afinal cedeu ao seu desejo. Claro, meu irmão e eu, fazendo jus ao clássico padrão de aborrecentes, reclamamos até o momento em que não houve mais jeito e, infelizmente, fomos compelidos a embarcar naquele maldito avião. Dessa forma, deixamos para trás nossos amigos, nossa cultura, nosso país e o clima quente equatorial. E demos as boas-vindas – nem tão boas assim – aos costumes europeus de uma nação desconhecida, salvo o que nos fora contado pela carrasca Avelina Berg Soares, eventualmente conhecida como nossa mãe.

Diante disso, cinco anos depois, ali estava eu, perante o velho conhecido Institute Saint Claire, um colégio religioso bilíngue que me dava nos nervos. Apenas duas pessoas naquele lugar mereceriam a sua atenção e ambos pertenciam à mesma família: os irmãos Reinke. Karl e Heinrich se tornaram meus melhores amigos logo que eu cheguei arrastada a esse inferno de Odin.

Suspirando profundamente, ajeitei o gorro vermelho de lã a fim de cobrir minhas orelhas congeladas e, segurando firme numa das alças da mochila sobre o ombro, encaminhei-me para dentro. Ao menos os corredores apinhados de estudantes estavam devidamente aquecidos pela eficiente calefação. Na fileira dos armários, encontrei Heinrich com uma cara amassada de sono e bocejando deliberadamente enquanto pegava o livro de geometria analítica para a nossa primeira aula do dia.

— Hey, Ever! — Ele deu seu sorriso de dentes alinhados ao que me postei ao seu lado, abrindo a porta do meu armário. Logo em seguida, ele juntou as mãos em frente aos lábios, soprou entre as palmas e as friccionou uma na outra. — Acho que meus dedos vão necrosar neste frio!

— Se está reclamando, imagine como estou me sentindo.

Heinrich riu em consequência à minha nítida irritação e escorou o ombro na porta do seu armário numa pose relaxada, acompanhando meus movimentos ao passo que eu jogava a mochila de qualquer maneira dentro do compartimento.

— Mesmo com o seu sotaque, às vezes me esqueço que você não nasceu aqui, brasileirinha. Se bem que eu pensei que estivesse acostumada a viver em Berlim, até porque já faz cinco anos, não é?

— Não se sinta ofendido, mas nunca me acostumarei com esse lugar. Não depois que minha vida foi destruída desde que chegamos aqui. Minha mãe morreu, meu pai enlouqueceu e até meu irmão anda cheio de mistérios comigo.

— Não sabemos se a sua mãe morreu, realmente.

— Ah, por favor, Henz! — Dei o meu típico sorriso irônico de canto de boca. — De louco, já basta o meu pai. Que outro motivo haveria para ela ter sumido de repente? Até os policiais deram esse caso como encerrado. Eles não têm mais o que investigar, não há pistas ou qualquer indício de que ela tenha sofrido um acidente ou fora vítima de um sequestro.

Meu amigo fez menção de falar, no entanto, assim que ele abriu a boca, eu o cortei sem cerimônia.

— Chega! — eu disse e ergui a mão como sinal para ele se calar. De imediato, Henz apertou os lábios e assentiu. — Não quero mais pensar nisso.

E, nesse exato momento, fui salva pelo gongo! O sinal tocou bem a tempo.

— Vamos, está na hora de enfrentar a aula da Srta. Schmidt.

Heinrich deixou escapar um grunhido gutural de resignação, porém eu encaixei meu braço ao dele e o guiei, meio relutante, em direção à sala 304. Diferentemente dele, eu preferia uma aula chata de geometria a ter que enfrentar aquela conversa capciosa que sempre me deixava mal.


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Logo no meu primeiro dia de aula no Saint Claire, eu descobri muitas semelhanças do esquema social alemão em comparação com a escola no Brasil. Talvez em qualquer parte do mundo fosse igual. Um adolescente nerd jamais alcançaria o status de “popular”, não importava se dispusesse de uma beleza estonteante, de um jeito descolado ou de muito dinheiro. Ter um coeficiente de inteligência maior do que a maioria, por si só, já era uma medida inversamente proporcional à popularidade, semelhantemente aos dois pólos de uma pilha ou a condição orgânica de polaridade impeditiva da mistura da água com o óleo.

A despeito de que houvesse uma ínfima possibilidade de existirem exceções à regra geral, no meu caso não funcionaria. Em primeira instância, eu não podia negar que a minha família contava com uma situação economicamente estável, contudo nada acima dos padrões. Em segundo lugar, eu estava muito longe de ser considerada uma Miss Universo. Em terceiro lugar, eu era estrangeira. E, sobretudo, uma tremenda CDF. Em suma, de qualquer modo, não existiria a menor esperança para mim.

Entretanto, não era como se eu estivesse lamentando, nem me fazendo de vítima. Na verdade, o ponto bom de ser dotada de uma inteligência superior à média — além de poder debochar da cara das patricinhas burras sem que elas entendessem meu linguajar —, é que eu podia dormir ou ouvir música às escondidas durante os tempos de aula e, mesmo assim, obter excelentes notas nos exames.

Mas para tudo havia um porém. A maior parte do corpo docente nem sequer me enxergava na sala de aula, afinal o meu desempenho acadêmico nunca deixava a desejar. O único professor que flagrou meu pseudo ato de rebeldia foi o Sr. Newton. E ele não estava disposto a perdoar algo que julgou como verdadeiro desplante da minha parte.

Ele era, de longe, a pessoa mais enfastiosa que eu tivera o desprazer de conhecer até então. Por lecionar Noções de Física Experimental, imediatamente após eu ter sido matriculada no St. Claire, o Sr. Newton criou uma grande expectativa em relação a mim ao tomar conhecimento de que meu pai também era um físico e contribuinte do campo científico. Quando ficou claro que eu não tinha a menor aptidão ou cobiça pela carreira, e chegava a desdenhar de todas essas baboseiras de Einstein, seu encantamento inicial referente à minha persona desapareceu. Mas, nem por isso, ele desistiu de me atormentar, fosse tirando pontos por mau comportamento em sala ou exigindo que eu alinhasse a postura na cadeira.

Em virtude disso, lá estava ele diante da turma, com o espaçoso quadril apoiado na borda da mesa, que constantemente rangia em reclamação ao enorme peso do seu corpanzil, e me fixava com seus olhinhos ardilosos de ave de rapina, prestes a caçar um suculento roedor desavisado.

E eu era o camundongo em questão.

Fiz um rápida inspeção ao redor, apercebendo-me de que a cabeça de todos os alunos se achavam viradas na minha direção. Algumas garotas mantinham a mão na frente da boca na finalidade de abafar o riso. Eu não tinha prestado atenção às últimas palavras do professor, mas sabia que seu mau humor era atribuído ao episódio de que, mais uma vez, fui flagrada usando fones de ouvidos.

Conformada com o meu destino, certa de que iria levar a minha primeira advertência formal, estava a ponto de me levantar e sair da sala, quando o Sr. Newton resolveu se pronunciar:

— E então, Srta. Soares? — ele perguntou, distorcendo meu sobrenome com seu sotaque germânico carregado. — Todos nós estamos aguardando pela demonstração da sua genialidade. Qual a solução para a equação no quadro?

Ah, então era isso? O seu intuito era de que eu solucionasse uma estúpida equação de física que não teria nenhuma função real na minha vida dali por diante? Ou melhor, no fundo, o Sr. Newton desejava que eu não fosse capaz de resolver a questão a fim de me envergonhar perante os outros colegas e, dessa forma, cumpriria ao seu propósito de que eu servisse de exemplo aos outros.

Meu sistema parassimpático ativou o modo alerta. Sendo assim, senti ondas de calafrios subirem pela coluna, um suadouro sem precedentes umedeceu as palmas das minhas mãos e a pressão sanguínea acelerou com tamanha intensidade que eu podia senti-la em meus ouvidos, me ensurdecendo, à medida que minha cabeça latejava. Eu estava plenamente consciente do suspense imposto no recinto, bem como da zombaria estampada no rosto rechonchudo do Sr. Newton, embora meus olhos estivessem vidrados no quadro, onde uma conta gigantesca ocupava a metade do seu espaço.

Havia duas alternativas para mim: desistir e, assim, deixar o Sr. Newton se escarnecer da minha inabilidade, ou encontrar a resolução daquela bodega – o que certamente parecia ser a opção mais absurda – e, em consequência, rir internamente da sua cara de tacho.

Mesmo que o pensamento fosse demasiadamente ousado, projetei essa visão vindoura e tive o ânimo renovado, sendo influenciada por uma coragem incomum em relação ao meu natural, portanto segui até o quadro, sem ponderar duas vezes. Não podia ser tão difícil, não é? Bem, esse era meu lado otimista falando, porque o lado realista sabia muito bem que aquilo era mais complicado que qualquer coisa que ele já tivesse passado antes, visto que seu único objetivo era me intimidar. Mas, como não existia outro jeito, pelo menos eu iria tentar.

Recordei dos preceitos fundamentais de Mecânica Quântica lecionados pelo meu pai. Primeiramente, identifiquei as variáveis de valores relativos, no segundo momento, isolei mentalmente as de grandeza absoluta. Na postulação, a velocidade da luz era aproximada para 3x108 m/s², o que facilitava um pouco. No decorrer do desenvolvimento, estive plenamente concentrada, mas nem por isso deixei de sentir o peso do silêncio quase palpável às minhas costas, salvo um ou outro burburinho esporádico entre alunos, que logo sofria a interferência do professor.

À certa conjuntura, reparei que alguma coisa se encontrava fora do lugar ou ausente. Franzi o cenho, contemplativa, enquanto analisava outra vez a equação. Separei-a por etapas e finalmente confirmei minhas conjecturações.

— Essa fórmula está errada — eu falei. — Quero dizer, não errada, mas incompleta. Falta alguma coisa.

— Não, Srta. Soares, a fórmula está perfeita — ele retrucou, altivo, na medida em que gingava em seus calcanhares, transferindo o peso do corpo de um pé para outro. — Eu mesmo a desenvolvi durante os anos de graduação. Além disso...

— Achei! — soltei um gritinho agudo de contentamento. — Na verdade, não está faltando, mas sobrando. Existem muitas variáveis, deveria haver uma constante bem aqui.

O semblante vitorioso do Sr. Newton, aos poucos, se desmanchou e transformou-se em aturdimento. Em seguida, ele alternou alguns olhares entre mim e o quadro, no fim, optando por me encarar com olhos esbugalhados, de modo que me induziu a pensar que, num piscar de olhos, um par de chifres tinha brotado das minhas têmporas por geração espontânea.

Bom, isso não importava. De qualquer modo, era no mínimo agradável ver um vinco acentuar-se naquela testa oleosa. Se porventura fosse possível, meu sorriso de satisfação rasgaria a minha face ao meio. Podia parecer presunção da minha parte, mas eu não tinha dúvida de que minha teoria estava correta.

Engula essa, Sr. Newton!

Não dispus de tempo suficiente a fim de desfrutar da minha vitória, já que, no instante sucessor, o sinal do horário de almoço ecoou pelos corredores e, sem hesitação, a turma se lançou porta afora, antes que o Sr. Newton inventasse de detê-los como acontecia corriqueiramente.

O professor permaneceu de braços cruzados por cima da barriga bastante protusa, com o semblante fechado e de sobrancelhas unidas enquanto corria seus olhinhos aguçados pela fórmula preenchida e corrigida no quadro negro. Caso eu não estivesse enganada, ele nem sequer se deu conta de que seu tempo de aula tinha acabado. Pior, ele não passou suas trocentas páginas de dever de casa, algo que nunca acontecera até então.

Depois de decorrido uns bons minutos, eu notei que a minha presença não se fazia necessária por ali, então tratei de juntar meu material e deixei a sala, porém não antes de espiar por cima do ombro para presenciar o Sr. Newton paralisado na mesma pose, os olhos vidrados adiante, aparentando a própria personificação do Buda, só que de pé.

Guardei os livros no armário e peguei a carteira. Consequentemente, me dirigi ao refeitório, onde esperava encontrar meus amigos na nossa mesa de sempre. Uma lembrança me assaltou ao passo que me encaminhava ao meu destino pretenso. Nas segundas-feiras, o cardápio da cantina oferecia duas opções principais: käsespätzle, uma massa coberta com muito queijo derretido, dentre outros ingredientes igualmente engordativos e deliciosos, ou eintopf, um guisado fumegante, que sempre era muito bem-vindo nos dias frios como aquele. Só de imaginar, meu estômago grunhiu em aprovação e, pela primeira vez no dia, eu considerei que a semana não tinha começado tão mal. Contudo, no exato segundo em que pisei no refeitório, meu bom humor se esvaiu, prontamente substituído pelo estranhamento.

De repente, os olhares de quase todos os estudantes convergiram a mim logo que atravessei as portas duplas, eram dezenas de cabeças viradas na minha direção. A seguir, o cochicho habitual nas mesas aumentou de intensidade. Fiquei dividida entre retroceder e sair dali o mais depressa possível ou seguir adiante, uma vez que meu estômago resolvera dar cambalhota devido ao cheiro do queijo derretido que ocupava o salão.

Meu estômago ganhou, como de costume.

Sentindo as bochechas esquetarem, puxei o gorro um pouco mais para baixo, de modo a cobrir minhas orelhas super aquecidas de vergonha, e entrei na fila, sem encarar ninguém especificamente, apenas o dorso de um aluno vestido com um casaco cinza. Permaneci assim até chegar a minha vez de escolher a comida.

Depois de pagar pelo almoço, cravei os dedos trêmulos nas bordas da bandeja de plástico e caminhei em linha reta para o lugar mais isolado, bem no fundo do salão. Nem Henz, muito menos Karl, que costumava se atrasar por ser o último a sair da sala de aula, estavam presentes. Comecei a dar pequenas garfadas na massa, ainda que ela não me parecesse tão atrativa quanto antes.

— Isso está muito bom! — Henz surgiu na minha frente, vindo de algum sentido que eu ignorava e, mesmo antes de sentar-se à mesa, já devorava vorazmente a comida. — Por que não está comendo? — perguntou de boca cheia, entreolhando meu rosto e o prato cheio diante de mim, na medida em que jogava a carteira sobre a mesa e se acomodava em seu assento.

Estreitei os olhos, consumida por uma irritação que nem eu sabia de onde aflorava, e precisei conter meus instintos para não soar tão ríspida quanto achava que deveria.

— Foi você, não foi? — disse baixo, porém rápido e em tom de urgência. Meu amigo estancou com o garfo parado no ar e elevou as sobrancelhas, transparecendo surpresa com a acusação.

— Eu? O que eu fiz?

Projetei o tronco sobre a mesa para ficar o mais próximo de Henz e, assim, ser compreendida mediante um sussurro.

— Contou sobre o meu encontro com Mitchell, o cara da biblioteca, na semana passada. Só pode ser esse o motivo para todo mundo estar me encarando agora.

— Todo mundo? Quem está te encarando?

— Olhe à volta, espertinho.

Heinrich espichou o pescoço por cima dos ombros e estudou o perímetro ao entorno da nossa mesa, apercebendo-se do mesmo que eu. Enfim, assumiu uma fisionomia atordoada e voltou a me olhar com uma das sobrancelhas erguida.

— E por que eu contaria a respeito de você e do ner... quero dizer, do Mitchell? Talvez ele quem espalhou a fofoca para se engrandecer. Afinal de contas, nem eu sei o que uma gata como você viu em um cara esquisito como ele.

Com esse esclarecimento, Henz deu de ombros, indiferente, e prosseguiu com a refeição. Eu, em contrapartida, fiquei quieta, sentindo o calor invadir minhas bochechas outra vez.

Não que eu fosse confessar algum dia em voz alta, mas a verdade é que sempre tive uma queda – abismo, na verdade – pelo Heinrich. E ouvi-lo dizer abertamente que me achava uma gata... Bom, isso certamente me pegou desprevenida. Em contrapartida, não me animei com o elogio, tinha noção de que ele não o utilizou como subterfúgio de uma indireta, ele só agiu do seu jeito casual, sendo sincero em suas opiniões, embora eu não concordasse especificamente com essa.

Não muito tempo mais tarde, vi Karl se aproximar do local onde nos encontrávamos, equilibrando a bandeja da cantina em uma das mãos e, debaixo do braço livre, segurava alguns livros timbrados com o símbolo da biblioteca.

— A cada dia me decepciono mais com a comida dessa escola. — Ele depositou a pilha de livros na cadeira sobressalente ao seu lado e se alojou em outra, largando a bandeja em cima a mesa sem o menor cuidado. — O sauerkrau¹ está parecendo uma papa industrializada de neném.

— Se você não fosse um natureba chato — Henz disse, contorcendo as feições em uma careta de desagrado para a comida no prato do irmão mais velho —, estaria desfrutando dessa massa maravilhosa em vez de comer essa gororoba nojenta.

Karl se indignou com resposta do irmão, e ambos começaram a discutir acerca das suas preferências alimentares. Enquanto eu comia, observava o impasse entre eles, sem me intrometer. De fato, o episódio era bem familiar a mim, uma vez que o mesmo ocorria entre meu irmão e eu.

Os irmãos Reinke rebatiam um ao outro, porém em vez de me atentar para isso, eu estava ocupada devaneando a respeito das suas discrepâncias físicas. Apesar da genética compartilhada, assim como Victor e eu, os dois eram muito diferentes no quesito aparência, de modo que, à primeira vista, ninguém associaria o parentesco entre eles.

Karl era alto, pálido, magro, dono de grandes olhos sagazes que continham um pronunciado tom de verde esmeralda, e de um nariz fino ligeiramente curvado na ponta. Pelo menos desde que o conhecia, ele preservava os fios do cabelo negro bem aparados. De maneira divergente, Heinrich tinha a pele tão alva quanto a do irmão, mas de um subtom rosado, que lhe conferia o ar de saúde; seus olhos azuis eram intensos e os fios de cabelo castanho acobreados possuíam vida própria, pois apontavam para todas as direções. E que, naquela nesta tarde, deixavam-no especialmente atraente.

Sacudi a cabeça, libertando-me desse devaneio inapropriado e, entediada com a falta de progresso na briga descabida que ainda se desenrolava entre os Reinke, larguei os talheres, que ocasionou um tilintar agudo ao se chocar com o prato de louça.

— Ei, chega de briga vocês dois! — impus, fuzilando ambos com meu olhar intimidador. — Daqui a pouco, eu já terei de quebrar o nariz do Mitchell, aquele filho da...

— Por quê? — Karl me cortou antes que eu concluísse o xingamento. — O Mitchell é um cara legal.

— Os nerds sempre se defendem. — Heinrich rolou os olhos.

Assumindo que Karl começaria a discutir novamente, eu interferi bem a tempo, quando ele abriu a boca.

— Porque ele divulgou o que aconteceu entre nós na semana passada. Agora está todo mundo cochichando. Além disso, foi um acidente, eu nem queria...

— Quem disse que as pessoas estão falando disso? — Karl ergueu uma das sobrancelhas sugestivamente.

— Não venha me dizer que isso é coisa da minha cabeça, porque eu vi os outros me olhando quando entrei no refeitório — afirmei categoricamente, mas ele permaneceu com seu ar ostensivo de quem sabia muito mais da história que eu. — O Henz está de prova!

Eu indiquei seu irmão à minha destra, e este me olhou de volta, espantado e um pouco confuso. Ao que parece, Heinrich já estava tão entretido com a comida que, nessa ocasião, nem ao menos tinha noção da temática da conversa.

— Não disse que o assunto em questão não tinha a ver contigo — replicou Karl. — Só tenho certeza de que o Mitchell não está incluído nisso.

— Ok, se você sabe de alguma coisa, por que não desembucha de uma vez? — Henz falou sem paciência.

O irmão revirou os olhos teatralmente e empurrou sua bandeja para longe na intenção de se concentrar em nós dois.

— Todos estão comentando a respeito do seu feito na aula de Física do Sr. Newton.

— Hm... Isso? — indaguei sem mostrar empolgação e, em seguida, dei um gole no meu refrigerante de cereja. — Pra que tanta comoção por causa disso? Eu só achei um erro numa equação estúpida.

— Pelo o que ouvi nos corredores, enquanto vinha para cá, o problema não foi você ter resolvido a questão. O Sr. Newton, ao ver que você estava distraída escutando música, disse à turma que iria passar uma fórmula dificílima que ele demorou anos para desenvolver e para a qual não existia solução viável, com o objetivo de te dar uma lição. Mas, como todos percebemos, o tiro saiu pela culatra quando você descobriu onde estava o empecilho para resolver o problema.

— Espera um segundo... Está me dizendo que eu solucionei uma fórmula que demorou anos para ser desenvolvida?

Ele balançou a cabeça em negação.

— Não sei como fez isso, mas você terminou de desenvolvê-la.

Então, meu queixo pendeu. Literalmente.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.