Colors of the Past

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Boa Leitura!

A casa sempre se manteve iluminada, como sempre preferimos que fosse, todos os cantos preenchidos pelas mais variadas cores. Os cômodos traziam consigo um detalhe que representava algum morador da casa. Costumávamos brincar, falando que cada um tinha seu próprio lugar ali dentro.

Era comum ver crianças correndo, perdidas em seus mundos de brincadeiras; era comum escutar o som de suas mães resmungando aqui e ali, ou de seus pais incomodados com as brincadeiras barulhentas; era comum escutar o som de panelas na hora do almoço, acompanhadas de um ótimo cheiro, quando todos se juntavam para fazer a comida.

Não era comum ver a casa quieta, caída em uma inesgotável paz, como sempre parecia estar agora, não era mais comum ver crianças por aqui, nem pais resmungando; e o barulho do almoço não era mais tão agitado quanto antes, até o cheiro parecia ser diferente agora.

Quando foi que a casa começou a ficar escura?

Costumava caminhar entre os corredores, passando de cômodo em cômodo, pelos quartos, pelo salão, cozinha e banheiro, mantendo sua iluminação por mais tempo que os outros, mas suas cores começaram a ficar acinzentadas em algum momento. Atravessava a pesada porta de magno, os três quartos pareciam estar com suas portas fechadas o tempo todo, quando será que as luzes de lá se apagaram?

Mesmo naquela época, eu mal conseguia ver os gobelins na sala de tão fraca a luz era, suas cores então, estavam todas debotadas. A sala de jantar já nem era mais utilizada, era muito grande para tão poucas pessoas que habitavam ali e a biblioteca era mal iluminada e empoeirada, não tinha como ler algo ali sem danificar sua visão. Foi lá que achei o pesado livro de recordações da família, tão antigo que havia se tornado uma relíquia, em sua contracapa havia uma árvore genealógica, traçado entre seus vários galhos, o nome de todos os nossos antepassados, muitos já haviam se apagado há séculos. Ele passou a ser minha maior distração durante os anos seguintes, gostava de relembrar das cores que a casa possuía.

Folheando as páginas algum dia, notei que faltava uma fotografia, curioso, tentei voltar a biblioteca, talvez estivesse por lá, mas quando cheguei a porta de magno, havia uma brecha, onde era possível ver a escuridão que dominava em seu interior. Foi ali que senti pela primeira vez a tensão que tomava conta dos cômodos restantes, o outro lado da casa já tinha se perdido na história, levando tantas cores que já pertenceram a esse lado.

Naquele dia, minha irmã estava na cozinha, encarava uma fotografia com algumas crianças correndo pelo salão principal, acredito que aquela era a que faltava no livro. Recordo que ela parecia triste, como se estive em outra realidade, experienciando coisas que não pôde e já não poderia mais fazer aqui. Cuidar da casa sempre foi o nosso objetivo principal e deixamos o resto de lado. “Posso fazer isso depois, temos tempo”, costumávamos falar, mas o tempo não parecia concordar e ele fez questão de nos mostrar isso.

Não me lembro quando foi que a escuridão começou a tomar conta desse lado da casa. Um dia fui buscar um copo de água, mas a escuridão me proibiu de entrar. Outro dia, tentei ir ao quarto de minha irmã, queria mostrar uma fotografia nossa a ela, mas a escuridão também bloqueava o caminho.

Até chegar o momento em que a escuridão estava do outro lado da porta do meu quarto, me trancando aqui dentro. Não me restava escolha além de me acomodar desse lado, me perdendo nos infinitos nomes de todos aqueles que já viveram nessa casa, nas cores que preenchiam as fotografias e as memórias que elas me proporcionavam. Aguardando a hora que a escuridão atravessaria aquela porta e me engoliria com o resto da casa.

Lembro que quando ela entrou, eu estava observando uma das primeiras fotografias, um grupo de pessoas estavam em frente a casa, a porta de entrada estava aberta e eu conseguia ver facilmente e a cancela logo após ela que levaria até o corredor, o salão principal, os quartos, a cozinha, o banheiro e a porta de magno.

A casa estava em seu auge, tudo imensamente iluminado e colorido. Fazia um imenso contraste com o aquele momento, onde a escuridão engolia tudo.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!