Colore-me
2 Aonde Estou
Notas iniciais
Quando meu corpo retomou a consciência mal percebi que não estava em casa. Não parecia importante no momento. Ou meu cérebro simplesmente associou que eu estivesse.
De qualquer forma, sei que a dor que senti quando voltei a raciocinar acordada, foi enorme. Minha cabeça latejava e eu sentia pulsações por ela. Era como enfiar uma agulha em minha cabeça e ficar tirando e colocando o tempo inteiro. Um gosto ácido e horrível estava em minha boca, o que me fez retrair-me.
Sentei-me onde estava deitada e gemi de dor.
A visão não estava clara, embargada. Havia poucas vezes em que tinha enxergado assim. Nenhuma por álcool, mas todas por sono. O ambiente em que me encontrava dificultava tudo ainda mais porque estava escuro. Porém, um raio de luz escapava por uma pequena brecha nas cortinas fechadas. Era tarde e ela estava se indo já.
Com a pouca claridade no ambiente, foi então que percebi que eu, absolutamente, não estava em casa. Onde eu estou?
Tentava me lembrar de onde fora o último lugar que estivera e o máximo que minha mente conseguia retornar era em eu correndo.
Por que eu corria?
Duas palavras. Uma fisgada na cabeça. E um desmoronamento psicológico.
Alma gêmea.
Em nossa sociedade de oito bilhões de pessoas, existiam gays e lésbicas. E não havia preconceito generalizado. Era uma coisa normal. Cada um havia seu par, independente do sexo. As pessoas andavam muito preocupadas com achar a sua alma gêmea, que preocupar-se com a dos outros.
Entretanto, nunca acharia que encontraria minha alma gêmea correndo por aí e que ela fosse uma mulher.
Apesar de achar alguns corpos femininos bonitos, eu tinha quase 100% de certeza que minha alma gêmea era um homem. Isso estava me levando à loucura.
Um cheiro de café adentrou pelo quarto e me encolhi. Aconcheguei-me entre as cobertas e fingi estar dormindo para avaliar quem teria me sequestrado. Meu olhar ficou recaído para uma cômoda distante, até finalmente, a porta abrir-se e a luz ser ligada.
Fechei os olhos e relaxei o corpo.
Finge que está dormindo, pensei aflita e nervosa. Eu precisava balançar meus pés para aliviar a tensão. Não balance os pés, Dream, não balance.
Tentei manter meus olhos num lugar só, porém conseguia senti-los movimentando-se de um lado para o outro. Meus nervos me corroíam pedindo para aliviar o estresse de alguma maneira.
O estresse aumentou ainda mais quando ouvi passos chegando mais perto e logo senti uma respiração próxima a meu rosto.
Devia ter preparado algo para atacar.
Não saber como se é dormindo é realmente horrível nestas situações.
Os passos começaram a se afastar e suspirei aliviada internamente. Todavia, meus pés começaram seu tremelique.
— Eu sabia — ouvi.
Uma voz grossa que me fez reconhecer que era um homem. Meu corpo inteiro tremeu. Eu não reconhecia essa voz de lugar algum.
— Você não precisa ter medo, não vou machucá-la.
Continuei com os olhos fechados e controlei meus pés.
— É sério — ele continuou. Novamente os passos e uma cadeira se arrastando. O cheiro de café se aproximou e isso me fez perceber que minha barriga implorava algo para comer.
Meus olhos abriram-se de repente e só não fui cegada pela claridade da lâmpada porque uma mão estava de frente ao meu rosto.
Meu coração disparou tão rápido que não achei que fosse possível fazê-lo acalmar-se novamente.
O homem retirou sua mão de frente ao meu rosto e comecei a encará-lo, afastando-me cada vez mais.
— Chamo isso de reflexo. Mesmo estando de olhos fechados, quando a luz está ligada, você vê algo mais escuro chegando não é? — ele sorriu. — Eu usava isso para testar se minha sobrinha estava acordada ou dormindo. Geralmente abrimos os olhos. Não é sempre.
Apoiei meus ombros na parede e ergui-me para sentar-me.
O homem estava mais para um rapaz. Não sei quantos anos ele tinha, mas parecia aquela espécie de homem casado que atraí qualquer mulher.
Ele era bonito, não posso negar. Loiro nato, dos olhos bem escuros, e também um pouco pálido. Seu rosto era liso, ou parecia ser, e sua boca possuía traços finos e avermelhados.
— Por que estou aqui? — perguntei, finalmente, a frase que me atormentava desde então.
Ele me ofereceu o copo de café que estava segurando o tempo inteiro. Em uma enorme batalha entre aceitar o café ou não, deixei-o com a mão tempo o bastante no ar para que ele recuasse, desistindo, então.
Eu ia aceitar...
— Eu te vi caída no chão, sua boca estava com sangue seco — ele fez uma careta — foi nojento de limpar.
— Você me limpou?!
O coração, sabe ele? Estava prestes a ter um ataque.
O rapaz recuou e rendeu-se com as mãos ao ar.
— Ei — protestou — nada íntimo. Não queria que você sujasse meus lençóis, eu ainda nem tenho uma máquina de lavar.
Mesmo não me enxergando, tinha quase toda certeza que meu rosto não era o mais agradável de ver, ainda mais com a cara de emburrada que fiz.
Sem que ele percebesse, olhei para baixo para ter certeza se ainda vestia as mesmas roupas. Por sorte, eu continuava com minhas calças arrebentadas. Obrigada Senhor!
— Prosseguindo — ele continuou — te vi lá no chão, então te peguei e coloquei no carro. Depois te trouxe pra cá, aí chamei um amigo meu que te examinou.
— Que tipo de examinação? — questionei precipitada.
— Uma examinação médica? — eu senti o tom de ironia dele, mas não retruquei. — Então ele disse que nada grave tinha ocorrido, mas sabe — ele começou a sussurrar — é um pouco iniciante e me disse para não te levar no hospital porque tava tudo bem. Mas se você estiver sentindo alguma coisa, podemos ir lá agora.
— Não, tudo bem — eu lhe ofereci um sorriso.
Acredito que isso o pegou de surpresa porque eu não tinha uma das melhores expressões naquele momento.
Retirei os cobertores de cima de mim e comecei a sentir o frio chegar. Meus braços arrepiaram-se e levantei-me com cuidado. Apesar das dores nas costelas e nos músculos da perna, consegui manter-me estável em pé.
— Você quer algo para comer? — ele perguntou. Levantou-se da cadeira e deu alguns passos em minha direção, temendo que fosse cair.
— Não — meu estômago dizia sim, mas, eles sempre dizem, não é? —, obrigada. Onde é o banheiro, por favor?
Ele passou por mim e comecei a segui-lo. Uma porta depois de estar fora do quarto e eu havia chego ao banheiro. Agradeci com o sorriso e adentrei no pequeno cômodo.
Quando fechei a porta, meus olhos lagrimejaram e minha visão começou a embaçar.
Droga, os olhos ficarão vermelhos!
Apoiei minhas mãos na pia e respirei fundo.
Aliviando a tensão e o estresse acumulado, comecei a tamborilar meus dedos sobre a pia. Mas ainda não fora o suficiente e lagrimas escorreram de meu rosto para aliviar a merda dos sentimentos.
Ele com certeza repararia que eu havia chorado no banheiro, e foi por isso que respirei uma, duas, três, quatro, cinco, seis vezes, fundo, e abri a torneira despejando água gelada em meus olhos.
Como um efeito imediato, minha visão ficou mais nítida e lavei o rosto. Funguei. O nariz já estava vermelho. Droga.
Enxuguei o rosto na toalha de rosto e então tomei coragem para olhar o desastre que aparentava.
Os cabelos azuis estavam horrivelmente despenteados. Por instinto agarrei o bolso de minha jaqueta e encontrei o presente de Hap por lá. Alívio, novamente. E como uma marca de guerra, um pequeno risco cortava meus lábios.
Ajeitei os cabelos e deixei o banheiro.
Sem saber exatamente para onde ir, segui o caminho que me pareceu obvio. Acabei sendo levada para outro quarto e fugi de lá rapidamente. Após, consegui encontrar a sala e o rapaz escorado sobre o balcão de mármore que separava a cozinha da sala.
— Obrigada — disse.
Ele parou de fazer o que fosse que fazia e sorriu, assentindo.
— Não foi por nada. Eu até perguntaria o porquê eu te encontrei num estado tão deplorável, mas acho isso um pouco insensível.
— É.
Eu corria atrás de uma garota, com uma pele extremamente linda e morena. Eu corri atrás dela porque ela fora a primeira cor de pele que havia visto além da minha, sem sal e sem graça, e corri atrás dela porque só podemos enxergar a cor da pele real de nossa alma gêmea. Eu a havia encontrado.
— Tudo bem — ele deu de ombros e caminhou até eu —, sem perguntas.
Então me ofereceu um sanduíche. Fiquei surpresa.
— Obrigada. — Desta vez eu aceitei.
Ele deu de ombros, novamente e sorriu.
— Acho que nunca ouvi tantos “obrigadas” num dia só.
Eu não soube o que responder. Só mordi meu pão e junto a meu estômago comemoramos por estarmos sendo alimentados. Era um clássico pão com manteiga, presunto e queijo.
Era uma festa internamente. A fome estava tão grande que devorei o pão muito rápido. Ele ficou observando-me de longe, na cozinha e me senti despida.
O que é bem constrangedor porque, apesar de saber como é ficar nua na frente de outra pessoa, minha primeira experiência com alguém cinza não fora as mil maravilhas.
— Quer que eu te leve para casa? — questionou.
Neguei.
— Obrigada pela ajuda — ele sorriu de novo e respirei fundo. O sorriso dele era bem bonito. — Mas você já ajudou mais que o suficiente.
— Apesar da casa simples, eu tenho um carro.
— Eu não insinuei nada.
— Eu disse que sim? — ele riu. — Tudo bem. Pode ir se quiser assim.
Sorri e caminhei para a porta. Abri-a e fui cercada por uma rua deserta e escura. A noite já havia chegado e junto a ela o frio. Um pouco ao longe avistei um grupo de baderneiros caminhando na direção que eu logo tomaria.
Recuei dois passos e coloquei a cabeça para dentro da casa.
— Essa sugestão, ainda está em pé?
Ele balançou a chave do carro.
Eu caminhei atrás dele até o carro. Não tão moderno, mas nem tão atrasado. Eu não conhecia as marcas da época, de qualquer jeito. Logo ele deu partida e passamos pelos baderneiros.
— Não vai me dizer?
— Achei que você respeitasse isso...
— O nome da rua — ele riu —, eu não posso simplesmente adivinhar onde você mora.
Tapete da fama ou tomate. Qualquer um dos dois. Nenhum conseguiria ficar tão vermelho quanto eu estava. A ardência nas bochechas era forte.
— É — fiquei sem graça —, naquela mesma rua que você me encontrou.
— Sério? — ele ficou surpreso. — Que estranho.
Assenti.
O resto do caminho foi muito tranquilo e trocamos poucas palavras, o que acabou resultando que eu descobrisse que seu nome era Cauchemars, ele ficou bem surpreso com meu nome também. Depois, com um tempo de sobra e um pouco longe de chegar a minha casa, meus pensamentos divagaram para a garota misteriosa.
Eu tinha que encontrá-la. Eu iria encontrá-la. Se ela era mesmo minha alma gêmea, não a deixaria ir por mais um ano. Eu ainda tinha chance de me casar antes dos vinte e um.
Talvez essa fosse minha esperança.
Eu já tinha planos em minha mente e ambos pareciam brilhantes. Eu contaria para Hap, quando chegasse em casa, que havia encontrado minha alma gêmea e então, iríamos atrás dela. Procuraríamos primeiro em pistas de corridas, porque, apesar de nem conhecê-la sabia que isso era algo que gostava.
Tudo parecia perfeito.
Cauchemars parou em frente a minha casa e agradeci-o mil vezes, novamente, por ter me deixado em casa. Ele parecia aflito sobre alguma coisa e queria dizer algo, eu podia perceber pelas quantas vezes seus lábios abriram-se e se fecharam.
— Está tudo bem? — questionei, confusa.
Ele sorriu embaraçado.
— Sim — disse, por fim. Me deu um papel com o seu número anotado no mesmo. — Me mande uma mensagem caso precise de alguma coisa.
Assenti, grata. Depois deixei o carro.
Sorri um pouco sem jeito e esperei seu carro partir.
Então entrei em casa e me deparei com Sleep e o namorado dela no sofá e foi então que minha ficha caiu.
Meu corpo arrepiou-se inteiro. Dos pés à cabeça e senti-me ficando pálida. Sleep deve ter percebido que algo estava errado porque parou de se pegar com o namorado dela.
— Está tudo bem, Drê?
Assenti e corri escadas acima. Joguei-me na minha cama, e com os olhos ainda esbugalhados, tentava acreditar que Cauchemars era branco.
E não cinza.
Como Sloth. Como minha mãe. Como meu pai. Como Hap.
Cauchemars possuía uma cor tão diferenciada quanto à garota que eu vira correndo e saíra atrás.
Como não pude reparar?
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