Notas iniciais
É pequena, mas espero que gostem ♥ Boa Leitura!

O céu estava cinza, as calçadas, ruas e prédio igualmente. A chuva caía, não torrencialmente, mas constante e bem sólida. Carros cinzas e pretos passavam pela avenida logo ao meu lado, um atrás do outro, tanto numa direção como noutra. As nuvens carregadas não se dispersavam, pelo contrário, assim que uma parecia se descarregar outro assumia seu lugar, mais densa e mais monótona. A parca iluminação do dia refletia esse mar cinzento por todo lugar, mesmo que ainda fosse apenas o comecinho da tarde.

Havia carros coloridos passando ao meu lado também, e muitos guarda-chuvas de cores variadas, assim como lojas, de roupas, comida, eletrônicos e por aí vai. Havia sim esse monte de cores ao meu redor, eu tinha certeza absoluta disso, a mesma certeza que tenho de meu próprio nome. Porém, não conseguia vê-las. Essas cores não atraiam mais meu olhar, ou haviam ficado mais opacas e deprimentes. A culpa não era do dia ruim, e eu sabia disso, é que era mais fácil pensar assim, doía menos.

Minha mente havia parado desde meu desastroso fracasso. Não era mais a mesma e eu duvidava muito de que algum dia voltaria a ser. Mesmo assim, minha vida não havia parado, e isso era o pior, minha rotina continuava e eu tinha que segui-la, ainda vivia na realidade, em um bairro, em uma cidade, no meio de uma sociedade. Não podia parar tudo e ficar em meu quarto, esperando apenas que as cores pacientemente voltassem a ser como eram. Não vou dizer que era forte e estava tentando me mudar, porque não era isso, eu não era eu mais, parecia um robô, que não pensava, meu corpo apenas seguia uma rotina da qual já havia se acostumado, enquanto minha mente vagava para lugares que eu não conhecia. Mesmo enquanto conversava, comia, trabalhava, estudava meu corpo fazia coisas que eu já havia me acostumado a fazer, até mesmo as piadas, mas a mente já não processava essas coisas mais, estava lá, trancafiada em algum lugar que eu não encontrava, como uma criança perdida e assustada. Era assim, dia após dia. Até mesmo quando dançava.

A dança sempre me mostrou quem eu era e o que estava sentindo, era assim que eu me entendia nas piores situações. Mas agora, enquanto estava ali, na aula, vestida apropriadamente para os ensaios, eu me olhava no enorme espelho e via apenas um borrão. A música soava, mas não significava mais nada. Muitas delas eu conhecia, umas chegaram a ser as minhas favoritas, daquelas que você ouve até sua terceira geração enjoar, mas que agora não transmitiam nada, eram apenas sons, notas e letras misturadas e emboladas umas nas outras. E meu corpo a mesma coisa, uma mistura de movimentos e passos, um em cima do outro, tentando se encontrarem e se entenderem, juntamente com a música. Um verdadeiro horror, era isso o que parecia.

Ainda assim eu ia, em todas as aulas, mesmo que me dissessem coisas das quais eu já sabia. Sabia que havia fracassado, sabia que isso acontecia com outras pessoas também, sabia que não era o fim do mundo, sabia que eu não era mais a mesma e sabia que minha dança havia ficado triste e deprimente, sem nenhum significado especial. A pior parte, era ver que as pessoas não entendiam a diferença entre “saber” e “praticar”. Nada em mim dava indícios de mudar, voltar a ser quem eu era antes. E o mais assustador, era que isso havia parado de me ferir, assim como todas as outras coisas, até mesmo os sentimentos mais felizes. Como uma pedra fria e pesada, esquecida sozinha no meio de uma tempestade que não se via fim.

Todos os guarda-chuvas estavam escorados no suporte logo perto da entrada, pingando e formando pequenas poças logo na porta. O dia escurecia rápido e ia embora, isso me tranquilizava, saber que havia conseguido por mais um dia, e não via a hora dele realmente chegar ao fim. Os guarda-chuvas foram sendo retirados um a um aos poucos, até sobrarem apenas dois, um era o meu, todo transparente, sem nada em especial. Palavras de despedidas foram sendo ditas a mim e fiquei por lá por mais algum tempo, tentando trazer algum pedacinho da minha mente para mim e pensar em mim mesma. Foi tão difícil, especialmente depois que descobri que eu não queria fazer isso realmente. O aparelho de som tocava uma música calma baixinho, apenas para trazer uma energia diferente para a sala, a treinadora sempre fazia isso. Ao menos, essa era a ideia, eu sabia. Mas para mim, só enchia mais o ambiente de sons, me deixando um pouco irritada. Em lugar nenhum eu conseguia aquele silêncio que tanto buscava, o silêncio absoluto.

Mais um som se misturou a bagunça dos outros, a chuva fazia seu conhecido barulho, o vento agitava árvores e os toldos das lojas, os carros passavam com seus motores ligados, as motos faziam um barulho absurdo toda vez que passavam em frente ao local em que eu estava, pessoas conversando passavam, algumas riam alto, e a música no aparelho de som apenas complementava a bagunça de tudo isso. Mas esse som que ouvi, novo, fez todos os outros se silenciarem, ao menos para mim, como se algo puxasse minha alma para fora, dando-a um pouco de tranquilidade. Era uma música, uma música de verdade, não um som com notas emboladas uma em cima da outra, não um ritmo frenético e incessante. Era música mesmo, uma que chamou atenção em algo profundo dentro de mim.

Levantei da escada em que sentava e comecei a procurar, de onde vinha, o que era. Vinha de cima da escada, subi os degraus apressadamente, tropeçando quase no topo, quase caindo de cara no chão. Mas não me importei, porque era lá que a música estava, mais clara e nítida. Caminhei pelo corredor, aguçando o ouvido nas portas até encontrar a sala correta. A melodia era suave, com altos e baixos, caminhando com paciência e tranquilidade, cumprindo seu devido papel: me encontrar. Não tive coragem de abrir a porta quando encontrei a sala, o momento poderia ir embora e nunca mais voltar, não passando de um sonho em meio a tantos pesadelos.

Senti uma umidade em meu rosto, e toquei minhas bochechas com as pontas dos dedos. Água. Não, não era água. Lágrimas, mais especificamente. Eu estava chorando, meus olhos ardiam e as lágrimas rolavam por meu rosto. Eu estava sentindo.

Sentei tonta de surpresa ao lado da porta, ouvindo aquele som divino, a melodia que havia do seu jeitinho buscado fundo de mim um pedacinho de quem eu era. Abracei minhas pernas e chorei, chorei e chorei. Não sabia se estava chorando alto, mas isso não fez o som da música abafar, muito pelo contrário, por esses breves minutos, todos os sons externos se silenciaram, e o único que permaneceu foi o meu, aquela música, aquele pedaço de mim que havia reagido depois de dias imóvel e sem vida. Levantei os olhos, e mesmo com eles cobertos de lágrimas, pude ver, mais nítido que antes, embora ainda sem perfeição, as cores. Minha calça era preta, minha blusa branca e larga branca, minhas unhas estavam pintadas de vermelho, o corrimão da escada marrom, o chão era muito bem envernizado. Pela janela, o céu continuava cinza, mas eu podia jurar que havia um pequeno e singelo relance de azul nele.

Depois de alguns minutos, reparei que a música era até mesmo um pouquinho infantil. Não, não era isso. Era uma música que me entendia, apenas isso, e eu me sentia como uma criança perdida, perdida em um mundo e em uma rotina que ela conhecia muito bem, que ela mesma havia escolhido, mas ainda assim, perdida. Era sim, uma música melancólica, com altos e baixos. Mas era minha... minha música. Me ouviu e me entendeu, e me acolheu, me dando uma chance para que agora eu mesma pudesse fazer o mesmo.

Não fiz o mesmo, exatamente, mas fiz algo que pudesse ser semelhante. Abri a porta, ciente de que muito provavelmente a música chegaria ao fim. Mas ela não chegou, e eu sabia que ela estava sendo mais longa do que o habitual, pensei que talvez fosse por mim. Não que quem a estivesse tocando estivesse fazendo isso por mim, a música estava falando com sua própria voz, tanto comigo quanto com quem a tocava. E lá estava ele, sentado no banco em frente ao enorme e elegante piano branco, como se toda e qualquer coisa que acontecesse a sua volta não importasse, eu nem mesmo tinha certeza se ele havia me ouvido entrar. Mas não me importei, estava tudo bem, assim estava bom. Apenas fechei a porta e deixei que o nosso momento não vazasse por nenhuma fresta, eu não sabia o que o fazia tocar daquele jeito, o meu universo e o dele poderiam ser completamente diferentes, mas ainda assim estávamos juntos ali, nos comunicando de formas diferentes com a mesma música.

Havia quadros nas paredes, e sim, eu via suas cores, não apenas um cinza sem vida. Mas as saias rosas das bailarinas, o vermelho, amarelo e laranja das flores, a grama verde, o céu azul, todas essas eu via, podendo, mesmo que pouco, sentir os significados que transmitiam.

Olhei novamente para o piano. As mãos do pianista se moviam com elegância e paciência, de um extremo ao outro do instrumento. Seus olhos hora estavam abertos e hora fechados, seu corpo se movia e conjunto, sentindo cada nota tocada. E não foi diferente com a minha mente, que foi saindo daquele cansativo estado de inércia, pulsando, entendendo, sentindo, fazendo crescer em mim algo que ainda não sabia o que era, mas que era bom.

O momento era tão inebriante que achei que ele havia errado uma nota, mas não foi nada disso, a música apenas tinha acabado. Foi tão brusca a mudança, os sons de fora retornaram tão rapidamente, e foi exatamente como pensei, como um sonho bom que se perde quando você acorda. Mas, havia algo ainda ali que me fazia saber que aquele sonho poderia ser continuado, e estava na presença do pianista, que agora me observava fixamente assim como eu o observava, tentando entender um ao outro. A música havia acabado e comecei a sentir minha mente começar a esfriar novamente, mas antes que isso acontecesse, eu o ouvi dizer:

— Quer tomar um café?

Mais tarde, ele havia se tornado minha própria música. E como não podia ser diferente, dancei novamente para o mesmo público com aquela música, mas nada de gravação, ele estava ali, logo ao lado no palco, tocando-a para mim.

Pacientemente e com altos e baixos, tudo voltou a ficar colorido. O céu depois das nuvens cinzas era ainda mais bonito do que sem elas, os raios de sol que se esforçavam para aparecer depois de uma tempestade eram os mais reconfortantes. Demorou, não foi rápido, mas foi uma mudança paciente, calma, longa e amiga.

E eu tinha razão, minha mente não voltou como era antes. As cores passaram a ser mais fortes, e eu as notava em momentos mais inesperados, o cinza continuava ali, mas agora eu o via como uma oportunidade de ver coisas ainda mais belas. A minha música também continuava ali, carreguei-a para sempre comigo, junto com aquele que a tocou pela primeira vez. Mas as outras músicas não era mais apenas um monte de notas embaralhadas e sons sobrepondo-se uns aos outros, eram outras músicas, com seus significados e mensagens, que voltei a entender de novo.

O céu estava cinza, mas eu sabia que depois um azul maravilhoso iria aparecer e, talvez, um arco-íris também.

Notas finais
Me digam o que acharam, tá? Obrigada a quem leu até aqui! ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!