Color Me

1 Capítulo único


— Você já pensou que quando rola pro lado diferente da cama o seu dia muda? Ou quando acaba se virando pra um lado que não tem costume a energia ao seu redor muda? É como se você entrasse no mundo do invisível e de repente pudesse ser capaz de ver a alma ou energia das coisas?

Taehyung falou calmamente enquanto bebia o milk-shake, seu encontro estava girando o canudo de alguma bebida alcóolica e parecia que não havia percebido que estava o encarando de boca aberta e olhos arregalados...

...por mais de um minuto.

Pela falta de simpatia, sorriso ou comentário, Taehyung sabia que não tinha falado a coisa certa. Ele não era bom em “ser outra pessoa” ou “ser normal”, mas o que era ser normal? Vestir uma camisa polo e calça social pra um encontro num bistrô para parecer elegante? Taehyung estava confortável na calça jeans e moletom de donuts.

Ele havia até tirado as mechas verdes do castanho. E isso sim havia sido um erro.

— ... Não... – Seu encontro estreitou os olhos, e esperou que Taehyung falasse alguma outra coisa, provavelmente dizer que estava brincando e mudar de assunto. Aparentemente não tem um manual para primeiros encontros.

Seu encontro mexeu no celular, provavelmente pensando numa desculpa ou numa emergência. Taehyung gira os olhos.

— Eu cuido disso. – E se levantou deixando o dinheiro do milk-shake, jogou a mochila nas costas e saiu do bistrô sem olhar para trás.

[...]

— Qual a sua constelação favorita? – Disparou depois de morder um pedaço do hamburguer.

Outro encontro, dessa vez mais casual, hamburguer, coca-cola e batata-frita, dessa vez seu par era um dançarino, Taehyung também dançava, mas não era profissional, ele era apenas bom, já seu encontro ganhava a vida com isso.

— Não acho que eu tenha uma. – Ele respondeu rindo. – Mas conheço o Cruzeiro do Sul...?

Taehyung mastigou mais rápido para poder falar.

— É a menor de todas as constelações, mas é uma das mais notáveis, talvez por isso tenha ficado na sua memória.

Ele riu dispensando o assunto.

— Foi mal, mas... Não quero parecer rude nem nada, mas por que você está de lente? Pra não usar óculos? Acho que você ficaria bem, aqueles modelos quadrados que estão na moda e as celebridades costumam usar.

— Ah...

Era um assunto um pouco delicado. Taehyung sempre usava lente castanha, daquelas claras que destacavam seus olhos, era bem perceptível embora ele não gostasse de falar a respeito.

— Você não precisa me explicar se não quiser. – Ele deve ter percebido o desconforto do garoto.

— É por causa do grau. – Mentiu com um sorriso, mas depois disso ele ficou desconfortável, não pela mentira, mas porque sabia que não daria certo com o dançarino.

Taehyung não conseguia ser ele mesmo, nem na cama, não importava quão bom ou experiente (não que isso significasse alguma coisa), fosse seu parceiro. E o dançarino era incrível.

Eles estavam desconectados e Taehyung não conseguia passar disso, ele deveria ter ido embora como havia feito no bistrô, mas o dançarino era adorável com seu sorriso e covinhas e cabelo prateado.

Ele estava um pouco decepcionado na verdade, com ele mesmo.

No final daquela noite, Taehyung pegou um táxi saindo da casa de seu encontro, o garoto havia dito que mandaria uma mensagem, mas era óbvio que não iria.

Olhando para o espelho ele encarou o reflexo sem as lentes. Olhos verde e azul. Era estranho, mas ele não precisava de mais nada que o acusasse disso.

[...]

— Vamos fazer o jogo de 10 fatos aleatórios, pode ser sobre qualquer assunto.

O garoto sorriu enquanto ajeitava o óculos.

— Ok. – Taehyung estava confiante. – Eu já comi as “tampas” dos biscoitos e jogava o recheio fora. Eu subo as escadas de dois em dois, já comprei um shampoo que dizia que não ardia nos olhos e deixei cair de propósito, mas ardeu mais que o fogo do inferno.

Não era isso que seu encontro tinha em mente, deu pra perceber pela forma como ele engasgou com a bebida.

Taehyung ficou tão constrangido que disse que iria ao banheiro, mas foi embora pela saída dos funcionários atravessando a cozinha.

[...]

— Num apocalipse zumbi, você acha que os zumbis seriam como em Train to Busan ou algo mais Walking Dead?

Dessa vez seu encontro era num café numa livraria, o garoto era nerd e estava usando uma camisa dizendo: Written and Directed by Quentin Tarantino. Ele era apenas dois anos mais velho.

— Se você quer dizer como as pessoas ficariam quando o vírus se espalhasse, óbvio que seria algo mais Train to Busan, porque é um vírus, essa coisa de se alastrar no cérebro é muito blasé.

Taehyung gostava de boas discussões, mas talvez não fosse ideal para um encontro, ele estava se sentindo um pouco afrontado.

— Pra onde você iria? – Perguntou tentando voltar ao ritmo agradável da conversa.

— Eu ficaria em casa.

— O que? – Taehyung soltou a xícara de qualquer jeito no pires. – Seus mantimentos iriam acabar, você precisa seguir para uma floresta, para uma ilha, um lugar distante.

— O conceito de sobrevivência vai mais do que ter sua própria plantação, é preciso conhecimento tecnológico.

Taehyung decidiu desinstalar o tinder. Não era a primeira vez em que tentava, já havia saído com garotos de sua idade, esse era um pouco mais velho, já havia tentado inclusive com garotas, mas elas também ficavam desconfortável com seu jeito de se expressar.

[...]

Seu despertador decidiu não tocar e ele teve que sair correndo para a aula do jeito que estava vestido, de calça xadrez do pijama e uma camisa velha com parte da gola rasgada. Sorte que ele era estranho, ninguém iria falar nada.

Ele só esqueceu de um detalhe. Não teve tempo de colocar as lentes.

— Merda. Merda. Merda. – Taehyung estava pulando de um lado pro outro dentro do banheiro.

Sua mochila estava cheia de papeis velhos, embalagens que ele deveria jogar fora, em algum lugar deveria ter um caderno e uma caneta.

Depois de jogar água no rosto, ao ponto de ficar com a franja pingando, ele abriu a porta e esbarrou com um garoto que estava entrando.

O garoto era mais baixo, e tinha cabelos loiros. Taehyung o conhecia, ele estava se graduando em música e costumava fazer uma apresentações de rap num clube de madrugada.

— Uau.

Foi a primeira coisa que o estranho disse encarando seus olhos.

Taehyung estava em choque. E isso não acontecia. Nunca.

— Dizem que quando você tem olhos de cores diferentes é porque não completou o que deveria na sua vida passada. Você tem algum sinal ou marca? – E saiu pegando o braço de Taehyung e virando para explorar.

— Eu...

— Aqui! – O loiro segurou sua mão, havia uma espécie de mancha avermelhada bem nas costas de sua mão.

— O que isso significa?

— Foi como você morreu. – Taehyung rapidamente escondeu a mão. – Eu também tenho. – Erugeu a mão próximo dor osto, a mesma marca no mesmo lugar.

— O que isso significa? – Perguntou agarrando a mão dele e examinando as marcas de suas mãos lado a lado.

— Acho que nós morremos juntos. Destino ou algo assim. A propósito, meu nome é Min Yoongi.

— Eu sei. – Disse rapidamente. O garoto ergueu a sobrancelha e Taehyung sentiu o rosto esquentar. – Quer dizer, eu já vi algumas das suas apresentações.

— É? Eu já vi alguns dos seus trabalhos. – Disse se referindo aos quadros. – Viu? Destino.

— Kim Taehyung. – Ele se apresentou com um sorriso.

— Ok Kim Taehyung, é um prazer conhecê-lo nessa vida também. Que nossos caminhos continuem a se cruzar. – E fez uma espécie de reverência.

Taehyung queria dizer que ele era estranho, mas estranho era a palavra que as pessoas usavam para machucá-lo, ele não queria dizer isso para Yoongi.

— Vão sim, sábado a noite às 23h.

Yoongi riu. Era o horário em que ele iria se apresentar. Ele ergueu a mão com o sinal e Taehyung repetiu o gesto.

Ele não se importou de chegar atrasado, de pijama e sem as lentes. Ele tinha um encontro com o destino.

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