Color Blind
1 Capítulo único
Você só passa a enxergar determinada cor quando conhece sua alma gêmea. A cor que você não vê é a cor dos olhos da pessoa que está destinada a cruzar seu caminho.
Min Yoongi não consegue ver verde nem marrom.
Taehyung não vê azul.
As cores não vistas têm tom de cinza.
[...]
Os pais de Yoongi nunca identificaram a cor marrom.
Você não precisa da sua alma gêmea para ser feliz, existe uma grande chance de não encontrar com sua alma gêmea ao longo da vida, mas existem belas histórias. De pessoas que se conheceram na rua, numa fila, passando um pelo outro numa escala rolante.
A única regra é que tem que ser pessoalmente.
Yoongi gostava do inverno, era sua estação favorita, não havia verde nas árvores, ou cores brilhantes nas vitrines, mas ao mesmo tempo os grandes e pesados casacos e todas as propagandas de chocolate aumentavam, ele via apenas cinza.
Ele odiava chocolate.
Ele odiava não poder ver duas cores.
Ele odiava sua alma gêmea.
[...]
Taehyung odiava o céu, odiava a manhã, era sempre triste ver uma imensidão cinza o seguindo.
Ele fingia ver o azul.
No espelho, antes de dormir ele via o verde e o castanho em seus olhos.
Seu peito doía. Por um desconhecido.
Ele não gostava dos comentários sobre a cor de seus olhos.
― Coitado da sua alma gêmea. – As pessoas costumavam dizer.
Taehyung comprou lentes de contato castanho.
Era uma cor "normal". Ele nunca mais iria se sentir mal por uma pessoa que ele não conhecia.
Ele se joga na cama.
Não ver marrom era normal. A maioria das pessoas não conseguia, considerando ser uma cor comum. Era aceitável quando crianças pintavam trocos de árvore de cinza ou descreviam uma estrada de terra.
Mas o que ele tinha nos olhos era raro. Heterocromia. Olhos de cores diferentes, seria belo se isso não afetasse diretamente outra pessoa.
Taehyung estava cansado de ir dormir com lágrimas nos olhos.
[...]
― Acho que nós deveríamos terminar.
Yoongi coça os olhos, ele teria ficado surpreso se já não estivesse acostumado a levar um pé na bunda depois de um mês.
Curiosamente esse havia durado por dois meses. Era um recorde.
― Você... Você é um cara legal, mas...
Yoongi estoura a bola do chiclete, sem mascarar sua expressão apática.
― Eu sei.
Ele entendia. Do fundo do coração. Mas quando eles se conheceram, o garoto tinha cabelos vermelhos, uma cor que ele podia ver e agora ele havia pintado de castanho por conta do novo trabalho e Yoongi simplesmente não conseguia evitar de encarar aquela massa cinza que ele odiava.
― Me desculpe. Vai dar certo, um dia nós vamos encontrar nossas almas gêmeas.
O garoto aperta seu ombro antes de se levantar e ir embora, uma péssima tentativa de consolo. Pelo menos ele teve a decência de deixar o dinheiro pelo café que sequer havia terminado.
Yoongi espera o garoto sumir pela rua antes de sair do café com um cigarro no canto da boca enquanto puxa o celular.
― Jimin, vamos ver um filme.
Não é um pedido e Yoongi faz questão de que não soe como um. O garoto do outro lado da linha apenas ri.
― Hyung, estou na fila comprando nossos ingressos.
― Eu quero saber porque você já estava na fila? – Numa situação normal ele estaria irritado, mas é impossível ficar bravo com Jimin.
― Hyung, eu sou vidente!
Park Jimin é um garoto mais novo e também seu vizinho. Yoongi havia gostado do garoto de graça, o que era dizer muito, considerando que ele era uma pessoa mais reservada.
Eles haviam se conhecido no corredor do prédio.
Na ocasião Jimin estava brigando com a porta de casa. Ele sacudia a maçaneta como se isso ajudasse em fazer a porta abrir. Yoongi estava carregando compras quando o viu naquela luta inútil.
Ele apenas riu e seguiu para o conforto de sua casa.
― Ei, você não vai me ajudar? – Seu tom era de semi-pânico, provavelmente porque Yoongi era sua melhor chance de conseguir entrar em casa e ele estava simplesmente indo embora sem oferecer qualquer tipo de ajuda.
― Não? Eu nem te conheço.
― Park Jimin. Agora, você vai me ajudar? Essa porta estúpida é de bater.
― Eu tenho cara de chaveiro? Ligue para um.
― Eu estou trancado do lado de fora! Só se eu tentar me comunicar por fumaça.
Yoongi girou os olhos, mas deu passagem para que o garoto entrasse em seu apartamento.
― Você pode usar o telefo—
Jimin já estava abrindo a porta da varanda e se colocando de pé na grade do maldito décimo andar.
― Obrigado, por me deixar cortar caminho!~
E ele pulou para a varanda ao lado.
Como se não fosse nada.
Como se não estivessem numa altura absurda e como se não houvesse a menor chance dele virar chiclete na calçada.
De qualquer forma, depois disso eles se tornaram amigos.
Yoongi gostava do garoto. Ajudava que ele mantinha os cabelos escuros e tinha olhos azuis.
― Yoongi Hyung, nós devemos ser irmãos! – Ele disse certa vez.
Jimin nunca mencionou que cor ele não conseguia ver e Yoongi nunca perguntou.
Era o bastante.
Assim como a companhia do mais novo era o bastante quando um idiota o dava um pé na bunda.
Yoongi passa o braço pelos ombros do garoto assim que se aproxima dele na fila.
― H-hyung, v-você está finalmente aceitando ir num encontro comigo? – Sua timidez mal disfarçada enganaria apenas o mais tolo.
― Quem iria aceitar sair com você?
― Você. – Responde carinhosamente.
― Pirralho.
[...]
Era inverno, estava frio, mas mesmo assim Yoongi estava sentado na varanda, não na grade, ele não tinha nenhuma tendência suicida, mas numa banqueta que ficava largada do lado de fora.
Jimin aparece na varanda ao lado, todo agasalhado e esfregando as mãos.
― Hyung, você vai ficar doente.
Yoongi assopra a fumaça do cigarro, mas continua confortavelmente onde está.
― Só vou terminar esse cigarro.
Jimin gira os olhos. E faz o que já estava acostumado, salta de uma varanda para outra. A distância era ridícula, mas isso sempre fazia Yoongi ter um mini ataque cardíaco.
― Meus pais estão se divorciando. – Yoongi dispara, encarando o céu cheio de nuvens pesadas, parecia noite, mas ainda era o começo da tarde.
O garoto imediatamente o puxa pela mão o forçando a entrar em casa onde a temperatura era aceitável.
― O que aconteceu? Achei que eles se davam bem.
― Meu pai encontrou a alma gêmea.
― Oh.
― Minha mãe nunca procurou por outra pessoa, nunca olhou para outra pessoa. – Ele aperta as mãos com tanta força que as unhas cortam a palma da mão. Ele também não percebe que seus ombros começam a tremer. — Eu odeio isso, odeio isso tudo.
Jimin o abraça.
― Eu sinto muito, Hyung. De verdade.
Yoongi não repara que já estava chorando.
[...]
Yoongi odiava pegar turnos extras, mesmo que desse um merecido alívio financeiro, sempre acontecia algo que o fazia se arrepender de ter saído de casa, às vezes, era bem cedo, antes de chegar no trabalho, como o metrô parar ou algo assim.
Era sábado à noite e Seokjin havia achado que trazer “pequenos talentos” para se apresentarem iria aumentar a popularidade do café, mas às vezes era só um aglomerado dos amigos de quem quer que estivesse no palco e eles nem consumiam tanto assim.
Em suma, Yoongi achava uma perda de tempo.
O garoto da vez era melhor do que a maioria que já passou por lá, as pessoas estavam curiosas. E por pessoas, eram os frequentadores assíduos do lugar, não os hipsters que vinham ver as apresentações dos amigos, eram o tipo que pagavam um valor absurdo num café sem gosto do Starbucks.
Yoongi já estava de avental. As mesas estavam cheias de copos e pratos sujos. Seus colegas de trabalho estavam muito ocupados prestando atenção no garoto de cabelo vermelho fogo.
A voz dele era grave e parecia não combinar com alguém tão jovem. Yoongi tinha certeza que o garoto poderia cantar o hino e ficaria perfeito.
Por um mero segundo eles fazem contato visual. Olhos castanhos e verdes, ainda que escondidos pela lente, encontram olhos azuis.
Yoongi consegue não derrubar a bandeja inteira.
Ele não consegue ter um relacionamento quando as pessoas descobrem que ele não vê duas cores.
Ele odeia sua alma gêmea.
O garoto abre um sorriso que não estava lá antes. Ele volta a se focar em outras pessoas, mas volta e meia ele procura Yoongi, o atendente está sempre no fundo, com uma expressão neutra, mas ele não pode controlar o rubor nas bochechas.
Era ele.
O garoto ruivo canta mais outras duas músicas até deixar o violão de lado e basicamente voar do palco na direção do atendente, que escapou por uma porta nos fundos assim que estava terminando os últimos acordes.
Privacidade seria necessário.
Taehyung era um mestre com as lentes e as tirou antes de passar pela porta dos fundos para encontrá-lo.
― Meu nome é Taehyung, eu não acredito que finalmente nos encontramos. Como se chama? – Ele dispara assim que o vê, encostado numa mureta, cigarro em mãos.
Yoongi arqueia a sobrancelha e sopra toda a fumaça na direção do garoto.
― Você não sabe ler?
Taehyung lê a tag do avental. Yoongi.
― OK... — ele se sente desconfortável com a falta de abertura do outro. Não era assim que ele esperava conhecer sua alma gêmea.
Ele repara na tatuagem na mão.
Uma borboleta.
― Uau, que legal! – Taehyung traz a mão tatuada para mais perto de seu rosto. – O que significa?
― É só uma tatuagem. – Yoongi puxa a mão de volta e enfia no bolso.
― Você não quer nem conversar comigo?
― Por quê?
― Sou sua alma gêmea! – Diz frustrado.
― E...? — Ele sopra a fumaça na direção do rosto do garoto. — Volte para o seu colégio particular.
― Qual o seu problema? – Taehyung basicamente grita.
― Você.
Taehyung arregala os olhos.
― Você tem alguma ideia do que é não ver duas cores!? Parecia que o mundo me odiava e todos tinham pena de mim. Pobre Yoongi que não vê duas cores.
― Eu não tenho culpa! Além disso eu não consigo ver azul. Sabe o que é azul? O céu! O mar! Eu não via nada!
Yoongi apaga o cigarro na calçada.
― Eu sinto muito, mas não é minha culpa. – Taehyung emenda num tom mais controlado.
Yoongi gira os olhos e recua alguns passos.
Taehyung o segura pelo braço.
― Espera.
― O que?
― Me deixa ver pela última vez.
Yoongi torce os lábios a contra gosto, mas vira o rosto. Taehyung não repara, mas ele segura a respiração.
― Satisfeito?
Taehyung morde o lábio inferior e balança a cabeça de forma negativa.
― Sinto muito por te desapontar. – Yoongi diz num tom seco antes de virar as costas e ir embora.
Taehyung olha para o céu que volta a ser uma massa cinza. Sua alma gêmea o rejeitou.
― Não, você não sente.
Yoongi ainda consegue ouvi-lo.
—/-
― Kookie, ele me rejeitou. Ele era tudo que eu sempre quis e ele me rejeitou.
Jungkook o abraça.
― O que você achou do azul?
― Era tão frio. Eu preferia nunca ter visto. – Ele se embrulha nos braços do amigo.
― Onde você disse que ele trabalha? Eu vou mata-lo.
― Eu não disse.
― Então, onde?
― Eu não vou dizer.
Jungkook apenas suspira.
[...]
Yoongi se olha no espelho. O garoto tinha olhos lindos.
Mas era só um garoto. Ainda no colégio, com uma vida confortável, ele merecia alguém menos problemático. Merecia desfrutar da vida colegial e as descobertas universitárias. Não que ele entendesse da última parte. Yoongi nunca tinha se dado ao trabalho de fazer o vestibular, ele não tinha como viver de um emprego de meio período, ele precisava de um full time.
E o que ele iria fazer? Fingir que tinha uma vida legal e que estaria disponível para sair com o garoto? Ele que pegava turnos e mais turnos de trabalho, que cheirava a cigarro, não tinha carro, não pretendia fazer uma faculdade.
Yoongi não era bom o bastante.
― Por que você está aí sentindo pena de si mesmo? — Jimin puxa o cigarro acesso que o mais velho segurava e nem estava se dando ao trabalho de tragar.
Ele colocou entre os lábios e fez o que havia o visto fazer várias e várias vezes. Ele tossiu, é claro, mas continuou até que seus olhos não ficassem mais marejados ou irritados com a fumaça.
O gosto era horrível.
― Eu encontrei minha alma gêmea.
― Oh. — Ele sopra a fumaça de um jeito elegante, como se tivesse visto muitos filmes clássicos. — Como foi?
― Não foi.
― Eu sinto muito. – Ele diz sinceramente com pezar. Como sempre, Jimin não questiona.
― Por quê?
Jimin da de ombros.
― O que mais eu deveria dizer? Vocês tem a linha vermelha do destino e por alguma razão não estão juntos, então eu sinto muito.
― É, eu também. — Ele encara o céu, as nuvens pesadas correndo anunciando uma tempestade.
Quando as primeiras gotas começaram a cair, foi rápido e forte, aquela chuva que faz as pessoas saírem correndo e não abrirem lentamente seus guarda-chuvas. Os dois continuaram onde estavam, Jimin largou o cigarro no chão.
― Mas sabe, você não pode ganhar do destino.
― Experiência própria?
Jimin da um sorriso triste.
― Você pode dizer que sim.
Eles continuaram ali tomando um banho de chuva, até que não muito tempo depois, apareceu um arco-íris. Jimin apertou os olhos e sorriu, mas o que escapou deles não foi a água escorrendo de seu cabelo e sim uma lágrima.
Yoongi decide que Jimin era mais bonito que o arco-íris.
[...]
É madrugada quando Yoongi fecha o café e segue pelas ruas frias e escuras, a fumaça do cigarro fazendo companhia.
Ele corta caminho por um beco, na rua paralela ele vê dois garotos andando rápido, eles não estão focando em Yoongi, mas num outro garoto de capuz mais para frente.
Yoongi para na sombra do prédio.
Ele escuta algo se chocar contra a porta de uma das lojas, provavelmente empurraram ou pressionaram o garoto ali. Ele se odeia um pouco por não ir até lá, mas o que ele poderia fazer?
Seus ouvidos estão zumbindo com o barulho dos carros da rua principal, ele volta a escutar os passos ficando mais distantes e ele segue para baixo da luz do poste.
Era um garoto. Seu tênis estava sujo de lama, seus olhos encaravam o nada, suas mãos tremiam e estavam sujas de sangue. Seu cabelo era igualmente vermelho vivo, eles se encaram.
E olhos azuis encontraram olhos verde e castanho.
Ele se encolhe e começa a chorar. Yoongi volta a encarar o sangue nas mãos do garoto.
― Taehyung...?
― Eu sinto muito. Eu sinto muito.
― O que aconteceu...?
― M-meu pai....
Yoongi perguntava de agora, mas aparentemente Taehyung estava falando de outra coisa. Ele tinha um olho roxo e não era recente, apenas o lábio cortado era de agora...
Talvez o destino quisesse apenas provar para ele que não havia vida perfeita. Yoongi realmente desejou que aquele garoto tivesse uma, mas aparentemente eles tinham algumas coisas em comum.
― Você precisa lavar as mãos e tomar um banho.
Taehyung assente, mas continua sentado no chão da ruela. Yoongi estica a mão. Ele vê o ruivo hesitar, esticar a mão e parar no meio do caminho.
― Minhas mãos estão sujas.
Yoongi decide por ele, o puxando pela mão.
― É? As minhas também.
Eles seguiram de mãos dadas até chegarem ao endereço de Yoongi. O mais velho precisou da mão livre para pegar as chaves. O ruivo começa a olhar ansiosamente para os lados.
― Eu não deveria estar aqui.
― Só tem eu em casa. – Ele destranca a porta depois de algumas tentativas falhas em colocar a chave na fechadura. A luz do corredor era péssima. – Meu pai se mudou, minha mãe não fica mais em casa.
Taehyung concorda com um aceno fraco.
― É por isso que você odeia almas gêmeas? – Pergunta olhando para a decoração da casa.
― Em parte. Eu odeio o conceito. Meus pais estavam juntos e nunca conheceram suas almas gêmeas, achei que isso era incrível, até o meu pai conhecer a dele e largar minha mãe.
― Meus pais são almas gêmeas e isso não impediu que ele fosse um bêbado e batesse nela... ou em mim.
Taehyung aperta a barra do moletom.
Yoongi empurra uma xícara de café quente na direção do garoto. Taehyung aceita sempre mantendo o olhar baixo. Era estranho, Yoongi não era bom com pessoas ou relacionamentos.
― Eu fiz a borboleta porque ela começa como um lagarto que constrói seu próprio casulo e só depois de um tempo cria asas. É a mudança, todos somos assim. – Disse de repente, não era seu feitio jogar conversa fora, mas...
Taehyung era diferente, ele era sua alma gêmea e segundo Jimin, eles estavam conectados e não poderiam vencer o destino.
― Oh... – O garoto parece pensativo e então ele puxa o moletom, o retirando e vira de costas para Yoongi, havia uma tatuagem, uma única asa pegando no meio das costas e descendo até quase na cintura.
― Por que só uma asa? – Ele queria esticar a mão e tocar.
― Porque eu sou um anjo caído.
Eles voltaram a se olhar e Yoongi vê até demais, vê a si mesmo naquele garoto, alguém que tenta ficar de pé, mas está constantemente sendo derrubado pela vida, mas ainda assim ele insiste.
Por quê? Ninguém sabe.
― Eu te dou as minhas asas.
Yoongi estica a mão, a mão da borboleta tatuada, sobre a dele.
E os olhos que Taehyung encontra não era nem um pouco gélidos, mas gentis. Ele sorri pela primeira vez no dia e ele aperta a mão de Yoongi.
Os dois ficam acordados até o nascer do sol, sentados na varanda do pequeno apartamento.
― Eu não consigo ver a cor do céu ou do mar, mas consigo ver a cor dos seus olhos. — Taehyung vira o rosto o encarando.
Yoongi olha em volta, o marrom era cinza e o verde era cinza, mas conseguia ver o brilho e a cor nos olhos do ruivo.
Conseguia ver o marrom claro e brilhante e o verde intenso. Ele só via vida quando olhava para Taehyung.
― O que aconteceu com o seu pai?
Taehyung volta a encarar o céu alaranjado.
― Ele abusava da minha mãe. — Yoongi estremece. — Não sexualmente, apenas fisicamente, as vezes de mim. Minha mãe foi embora, tem dias que ele está bem, tem dias que não... Eu só queria que ele parasse, eu tentei como eu tentei todas as outras vezes, mas eu apenas...
Yoongi acende um cigarro.
― Eu sinto muito que a nossas vidas sejam uma merda.
― Foi por isso que você me rejeitou? — Ele para na frente do mais velho, não se importando com a fumaça voando em sua direção, mas Yoongi faz questão que mudar a mão do cigarro. — Você achou que eu tinha uma vida perfeita e a sua era uma droga?
― Basicamente.
― E você presumiu isso por causa do meu uniforme?
― Yeah.
― Você é um idiota.
Taehyung sorri novamente e Yoongi começa a rir.
[...]
― É um castigo dos deuses. — Jimin encara o horizonte, suas pernas sacudiam na grade e Yoongi queria pedir que ele saísse de lá, pois não era seguro.
Mas o garoto parecia extremamente confortável.
― O que?
― Você só consegue ver as cores quando olha para ele, unicamente para ele. Você quebrou seu coração, então até que ele se cure, você só pode ter olhos para ele se quiser ver tudo.
― Não é tão ruim. Ele é bonito de se ver.
Jimin da um sorriso de lado.
― Você tem que curar o coração dele, ok?
Yoongi assente, mas queria entender porque Jimin era tão enigmático quando falava de alma gêmea, talvez ele estivesse apenas romantizando ou talvez fosse experiência.
Ele teria que perguntar para saber.
[...]
Desde então Taehyung estava na casa de Yoongi, ele continuava indo para o colégio. Aos poucos suas coisas iam aumentando no apartamento, primeiro sua escova de dente, depois algumas roupas, então seu vídeo-game estava instalado na sala.
Taehyung estava na varanda quando ele viu o vizinho sentado na grade. Yoongi já havia falado sobre ele.
Park Jimin.
Taehyung boceja alto e se espreguiça de forma exagerada e com isso ele ganha a atenção do vizinho que sorri em sua direção, ele só queria fazer barulho o bastante para não assustar o outro.
Era o maldito décimo andar.
― Você é a alma gêmea do Hyung.
Taehyung olha surpreso. A voz dele era muito bonita, assim como ele.
― Kim Taehyung.
Jimin também parece surpreso.
― A sua voz é muito grave, uau. – Ele pula para a varanda de Yoongi. Eles tinham quase o mesmo tamanho. – Seus olhos são lindos.
― O-os seus também.
― São? – Jimin pende o rosto para o lado e sorri como se estivesse constrangido, embora a única pessoa realmente envergonhada ali fosse o ruivo. – Obrigado!
― Você deveria aparecer no café, eu vou cantar lá novamente, hyung também me conseguiu um bico por lá.
― Omelas, certo? Estarei lá.
Ele estava se pendurando na grade para pular para a própria varanda, quando Taehyung o segura pelo braço.
― Jimin-sshi... você também é como o hyung?
Jimin sorri docemente para o garoto inseguro a sua frente.
― Não, nós não somos parecidos.
E com isso ele pula a grade e volta para a casa. No final daquele dia, Taehyung percebe que nunca explicou a pergunta que iria fazer para Jimin.
[...]
Omelas era um café administrado por Seokjin, ele era pouca coisa mais velho que Yoongi, mas era mais sábio. Ele dizia que seu jeito de pensar foi moldado por sua alma gêmea que era um estudante de filosofia.
A voz de Taehyung era única.
Ele cantou e Yoongi não conseguiu mais se concentrar, ele tinha um sorriso orgulhoso no rosto.
Jungkook estava sentado numa cadeira, com um pirulito no canto da boca, ele olhava para o amigo, mas volta e meia caçava Yoongi com os olhos. Jimin também estava na mesma mesa e lançava olhares para o garoto.
― Você quer que eu chame o hyung para atender a gente?
― Não. – Jungkook se ajeita na cadeira. – Eu queria bater nele, por ter feito o meu amigo sofrer, mas eles parecem bem. Então eu só queria ver de perto.
― E como é?
― É bom, fico feliz por eles. – Jungkook olha para o ruivo no palco a tempo de vê-lo abrir um largo sorriso na direção de Yoongi que estava encostado na parede ao fundo do café.
Jimin estica a mão e tira o pirulito da boca do outro, e o toma para si sem se importar.
― É bom ver a felicidade por trás de todas essas camadas de cinza, não é? Eles são genuínos.
Jungkook arregala os olhos.
― Como você sabe?
Jimin sorri.
― Porque eu também só vejo em cinza.
A música acaba e todos aplaudem de pé. Jungkook está chocado demais para se levantar. Jimin apenas olha na direção do palco, ainda com seu pirulito no canto dos lábios.
― Eu nunca disse isso a ninguém.
― É? – Jimin o encara. – Eu também.
― Como você sabia?
― Porque você aprende a ver a vida como ela é. Mas ver seu melhor amigo achar sua alma gêmea é mágico, eu e você não fazemos parte disso, nós não temos uma alma gêmea.
― Você não se incomoda?
― A felicidade dos outros me deixa feliz apenas. – Jimin observa Yoongi segurar o rosto de Taehyung e beijá-lo docemente. Ele sorri instintivamente. – Eles tem asas, nós apenas caminhamos. É duro, não é?
Jungkook sorri e rouba o pirulito de volta.
― É? Eu sempre gostei de correr de manhã.
― Vamos apostar uma corrida então.
Taehyung e Yoongi sentam nas cadeiras vazias.
― Sobre o que estão falando? – O ruivo pergunta.
―Vocês. – Jungkook sorri para o amigo.
Yoongi olha um pouco desconfiado para Jimin, mas o outro apenas dá de ombros. Seokjin passa a atender a mesa deles.
Eles deixam o café antes do entardecer. Yoongi e Taehyung de mãos dadas. Jimin e Jungkook caminhando mais para trás.
Jimin coloca as costas da mão sobre a palma da outra mão e faz um pássaro, ele aponta com a cabeça para os dois e Jungkook ri.
Os dois saem correndo em direção a praia depois disso.
E ficam para ver as estrelas.
[...]
Yoongi abre a porta da varanda para fumar quando vê Jimin debruçado na grade segurando um copo de café.
― Acho que é a primeira vez que não te vejo parecendo que vai pular.
― Eu queria ter asas, mas agora me sinto melhor. – Ele sorri antes de assoprar o café e beber um pouco.
Yoongi assopra a fumaça do cigarro para aquele céu cinzento.
― Você nunca precisou de asas Jimin.
― Você já consegue ver as cores?
― Não, só quando olho para ele, mas não me importo. Não é uma maldição, acho que é sorte.
― Acho que sim. — Concorda se sentindo afetuoso.
― Quer vir tomar café?
― Nah, estou bem. – Disse esticando a própria xícara. – Até mais tarde Hyung, diga oi para o Taetae por mim.
Yoongi apaga o cigarro na grade e volta para dentro, Taehyung estava enrolado numa coberta no sofá, com duas xícaras de chocolate quente sobre a mesa.
― Jimin-sshi está bem?
― Sim, ele não quis vir tomar café conosco.
― Claro que não. – O ruivo passa a xícara para o namorado. Yoongi parece apenas confuso. – Ele está acompanhado.
― Ele estava sozinho lá fora.
Taehyung pega o próprio celular e disca para um número dos favoritos. Embora um pouco abafado dá pra ouvir a música de alguma balada pop tocando no outro apartamento.
― Esse é o toque do Jungkook. – Taehyung desliga a chamada antes que alguém atenda.
― Oh. – Yoongi começa a rir. – Jin vai gostar de saber que seu café une as pessoas.
O ruivo apenas deita a cabeça no ombro de Yoongi.
[...]
Taehyung estava trancando a porta de casa quando a porta ao lado se abre, Jimin e Jungkook aparecem no corredor.
― Hey. – Yoongi os cumprimenta com um aceno. – Vamos? – Pergunta segurando a porta do elevador.
Taehyung entra primeiro.
Os dois garotos se olham, mas não entram.
― Nós vamos de escada. – Jimin anuncia indo na direção da porta de emergência.
― Por quê? São 10 andares. – Taehyung encara indignado os dois.
― Nós gostamos de correr! – Jungkook grita antes de seguir o outro.
Taehyung e Yoongi não entendem, mas eles não perguntam. Jimin e Jungkook andam lado a lado.
E vira uma rotina.
Eles viram um grupo.
E as cores não importam. Almas gêmeas, o significado, nada importa, porque não é sobre encontrar alguém que irá te completar. É sobre todos os dias construir algo novo e único.
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