Collonys
7 O Plano
Notas iniciais
MERLY — Everd13, 3:42AM
Já faz meia hora que estou no banheiro. Não! Eu não estou com nenhum problema digestório ou coisa do tipo. Estou aqui porque é um dos poucos lugares seguros e acessíveis da nave. Um dos lugares onde não serei vigiada pelas minúsculas câmeras espalhadas na Everd13. Estou sentada na tampa do vaso sanitário olhando para o que meu holomografizador está exibindo: nada. As finas luzes estão apagadas. Já estou desistindo de ficar ali, sozinha e esquecida, quando o pequeno vidrinho no meu aparelho começa a brilhar. Em poucos segundos o holograma dele aparece. Cabelos pretos curtos e olhos de mesma cor. Olhos estes que posso observas atrás de seus óculos de grossa armação. Ele é considerado um dos poucos casos de pessoas com problemas visuais. De qualquer modo deverá passar por mais algumas cirurgias no futuro para que possa enxergar como todos nós.
— Ah! Oi Merly! — Ele está com um semblante alegre. Seu indicador empurra o óculos para consertá-lo, mesmo que isso não seja necessário. É uma mania que repete sempre que está nervoso.
— Você está atrasado! — Não demonstro nenhum sorriso, mesmo que esteja feliz por ele estar bem. — Me deixou aqui plantada por mais de meia hora!
— Me.. me de-desculpe. É sério. — Balanço a cabeça devagar, como se aceitando suas desculpas. — Mas e então? Conseguiu convencer o seu irmão a participar da missão?
— É claro que eu consegui. — Solto um riso abafado. — Foi muito fácil!
— Realmente… a parte difícil vai começar a partir de agora, não é?
— Com certeza. — Estou séria novamente. — A gente vai ter que tomar muito cuidado. — Um silêncio perdura entre nós durante alguns instantes antes que eu volte a falar. — Eles não descobriram você, não é?
— Ainda não, mas é uma questão de tempo até que isso aconteça. — Seu indicador repete o movimento de consertar o óculos. — Eles já estão desconfiando muito de mim. Temo que nós não possamos mais nos comunicar por um certo tempo.
— O quê? Como assim? — Estou espantada. Conversar com ele é a única coisa que me desestressa. Seus conhecimentos sobre coisas que quase ninguém sabe me fazem ficar ainda mais interessada. — Eu não posso continuar o plano se você não me der as instruções corretas.
— Eu sei disso. Mas você ainda vai continuar recebendo instruções minhas. — Ele deve notar que eu não entendi, pois assim que vê minha expressão confusa continua a explicar. — Vou mandar arquivos de leitura pra você de vez em quando. Mandar arquivos entre as nossas naves chama menos atenção do que manter uma chamada holográfica.
— Hum… — Não estou nada feliz, mas tento parecer confiante. — Tudo bem. Só… tome cuidado. Promete?
— Prometo. — Seus lábios se unem num sorriso. — Agora tenho que desligar. Adeus Merly.
— Até mais! — Com mais um sorriso, seu rosto desaparece. Fico sentada por mais alguns minutos me sentindo incapaz, já que não posso ajudá-lo de nenhuma forma. Sem contar que, se descobrirem ele, não vai demorar muito tempo para me descobrirem também. Balanço a cabeça para me livrar destes pensamentos negativos e tento me focar no que é importante no momento: Ajudar Píotsy a roubar um uniforme e entrar na nave que será enviada hoje a noite. Essa é a parte difícil e não sei se vou conseguir concluí-la.
***
PÍOTSY — Everd13, 4:00AM
Meus olhos se abrem quando um apito realmente irritante penetra meus ouvidos.
— Que droga…? — Começo a me questionar sobre a fonte do barulho quando percebo que ele sai do relógio na cabeceira da minha cama. — Como isso é possível? — Me pergunto. Eu não fazia a mínima ideia de que o meu relógio pessoal continha um despertador. Além do mais, quem o teria acionado? Não demoro muito pra perceber o óbvio: Merly. Ela obviamente quem o fez. Fixo meus olhos no extremo da parede a minha frente e balanço as mãos, indicando que eu já estou acordado. Rapidamente, o barulho do apito some. Algumas pessoas se mexem em suas cabeças, me perguntando ocasionalmente se está tudo bem, mas eu apenas aceno com a cabeça em sinal de aprovação.
Ainda no mesmo local, fito novamente o extremo da parede e pronuncio a palavra “Agora?” em tom de questionamento apenas com o movimento dos lábios. Se alguém me visse agora poderia achar que eu estou louco, mas é porque poucos sabem da verdade.
Câmeras.
Escondidas e praticamente microscópicas, as câmeras estão em todos os lugares. Em cada corredor e em cada compartimento. Merly me contou que só descobriu sobre os sistemas de câmeras quando futucava seu holomografizador — e não me pergunte como ela conseguiu este objeto esquisito, pois não faço a mínima ideia. No início Merly pensou que só haviam algumas câmeras espalhadas na nave, mas logo descobriu que o lugar estava infestado. Segundo ela, os próximos passos não foram difíceis. Ela simplesmente conseguiu hackear o sistema, alegando que quem o criou obviamente não tinha medo de ser hackeado. Faz sentido. Não existe vida no espaço além de nós então… Quem poderia nos hackear? Até porque se alguém de dentro do nosso sistema de naves hackeasse (como Merly fez, estranhamente sozinha), é claro que não seria para nos prejudicar. Os chamados “loucos” não existem mais entre nós. Foram descartados. Só vivem aqui os que estão aptos para viver em conjunto. Esse é o lado sombrio de nosso sistema e pouco comentado por nós, tripulantes. Nenhum de nós quer ser… bem, descartado.
Lá em baixo, uma das apenas dez portas do compartimento se abre, dando acesso livre aos corredores fora do quarto. Sei que Merly está mais uma vez fazendo seu trabalho. Não demoro para me desafivelar e, leve como sempre, deslizo em direção a porta. Assim que passo, ela desliza novamente para se fechar.
Merly passou o dia anterior todo me ensinando a como chegar no lugar onde estavam guardados os uniformes para a “Missão de Resgate”. Ela sugeriu que esperássemos o “dia” acabar, até que a nave ficasse deserta. “Vamos fazer isso na hora certa”, ela me disse quando o sinal tocou para que fôssemos para nossos compartimentos. Parece que a “hora certa” são ás 4:00 da manhã. Perfeito! Tudo bem eu agradeço a isso por um lado. Neste horário a gravidade está desligada, o que faz com que meus movimentos praticamente não me exijam nenhum esforço.
Paro em uma encruzilhada entre corredores. Se eu continuar e ir em frente, irei para o refeitório. Se eu virar a direita, para as salas de aula. Faço como Winnie me ensinou. Com um pequeno empurrão deslizo pelo corredor à esquerda. Continuo voando pelos corredores durante um longo tempo, virando de vez em quando aqui e ali. É uma sensação em parte nova para mim. Eu nunca pude voar fora do meu compartimento. Sempre que a gravidade era desligada, lá estava eu, totalmente preso. Voar aqui fora é algo totalmente diferente e, com toda a certeza, muito mais divertido. Pensando nisso, não percebo quando chego ao local esperado: a porta de um elevador. As portas, como quase tudo na nave, são brancas. Acima delas, uma placa amarela avisa: USO EXCLUSIVO PARA FUNCIONÁRIOS DA SLP. OUTROS TRIPULANTES ESTÃO PROIBIDOS DE UTILIZÁ-LO. Qualquer outro tripulante sensato teria dado meia-volta. Eu, no entanto, continuo parado na frente do elevador, flutuando a três palmos do chão. A verdade é que não existe outro caminho para o compartimento onde estão guardados os uniformes, pois este elevador leva a um corredor especial. Se Merly não tivesse me contado, mais uma vez eu nunca teria como saber disso. Eu nunca teria me questionado. Sem contar que eu adoro andar de elevador. São poucas as vezes em que podemos fazer isso; apenas em “excursões” para conhecer o que acontece nas partes inferiores da nave. Fazemos isso, é claro, em outros elevadores; nos que não existem placas mandando a gente se afastar.
As portas do elevador se abrem. Ele obviamente está vazio. Uso as minhas mãos para me puxar para dentro e ele logo se fecha. Levo um baita susto quando o teto do elevador bate em minha cabeça e entendo que ele está descendo, mas xingo Merly mentalmente por ter feito eu bater a cabeça. Percebo que o elevador não tem números marcando os andares, apenas sequências de letras e números que eu não entendo o que significam. De repente, o símbolo R2 acende e as portas novamente se abrem se abrem, dando acesso a um amplo corredor sem saída.
Eu não teria nenhum problema em deixar o elevador e deslizar até a última porta do corredor, para a sala que contém os uniformes. Porém, estou deveras preocupado com a pessoa que ali está.
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