Collonys
3 Lançamento
Notas iniciais
LANÇAMENTO
Desespero.
São poucas as palavras que podem descrever precisamente o que sinto neste momento, e desespero é uma delas. Winnie, a pessoa que convivi por tanto tempo está indo embora.
Há sim uma chance de não ser um adeus eterno. Mas como avisados durantes os anos após o descobrimento de Collonys, nós não seremos realocados imediatamente. O primeiro grupo — no caso o que Winnie está participando — será enviado para que se acostumem a viver no planeta, ainda com a ajuda de alguns dos nossos equipamentos. Eles terão o trabalho de descobrir como é viver sobre um solo novamente, depois de pouco mais de dois mil anos sem esse "luxo". Testarão o planeta, provando se o lugar é seguro ou não.
Como Winnie mesmo disse: Cobaias.
Dez anos mais tarde, então, o resto de nós será realocado para lugares diferentes no planeta, colonizando-o por completo. Sendo assim, eu posso tanto parar em algum lugar perto de Winnie, como no outro lado do mundo. Mesmo depois de toda essa loucura é possível que eu ainda veja Winnie. Estando com 25 anos de idade cada um e há 10 anos sem nos ver, imagino eu que será um encontro meio estranho, e tudo isso supondo que ainda possa acontecer. Winnie é filha de um Borp, um homem que serve e trabalha, alguém muito importante na nave. Minha família é só mais uma das muitas a bordo da Everd13 e, logo, não temos nenhum privilégio, por menor que seja. Não acredito que minha instalação no planeta chegue a ser assim tão perto da de Winnie, e quanto mais eu penso nisso, mais ainda parece provável que tal coisa aconteça.
Balanço a cabeça me livrando destes pensamentos ruins e me concentro no que meus olhos estão captando. O desespero volta a invadir minha mente, mas desta vez não deixo que ele me faça pensar em coisas terríveis.
Winnie. Ela está realmente indo embora.
Estou no Grande Salão, o maior lugar da nave. Aqui, todos podem se acomodar. Alguns poderiam achar meio apertado por causa da proximidade das cadeiras, mas não deixa de ser organizado. Sem contar que para quem vive numa nave do nascimento até a morte, lugares apertados não parecem grandes problemas. É, realmente não há do que reclamar.
No grande telão que se projeta a nossa frente, podemos ver o pequeno foguete intitulado Univthy1 deixando a Nave-mãe. Sem janela alguma para evitar qualquer corte desnecessário e que seja prejudicial aos tripulantes, o foguete que tem um tom avermelhado segue para dentro do novo planeta, o futuro e novo lar de todos nós. No canto superior direito do telão, as três divisões de números estão zeradas, indicando que a contagem regressiva já terminou. Indicando que chegamos ao nosso destino. Indicando que agora só nos resta esperar e torcer para que o foguete Univthy1 chegue sem problemas ao solo Collonyano.
“Dez anos...”
As palavras ecoam em minha mente de novo. Tenho que parar de pensar nisso, ou serei atormentado por isso durante este longo tempo.
Atrás de Univthy1 mais oito naves seguem em uma bonita fileira. Nelas não há tripulantes, e sim suprimentos como comida, água — o nosso mais escasso e precioso bem — e materiais para a construção de moradias. Não acredito que sejam moradias muito bonitas ou seguras, até porque nenhuma coisa do tipo é montada a BASTANTE tempo.
Poucos minutos se passam quando percebo que a nave de Winnie está tão longe ao ponto de ficar meio enevoada. As outras oito naves seguem o mesmo exemplo, e, em poucos segundos, todas elas somem de vista. Penso tristemente em Winnie na nave, e sei que ela também está pensando em mim. Meus olhos começam a lacrimejar ao pensar na última vez em que nos vimos, na noite passada.
***
O foguete mandado diretamente da Nave-mãe para nós já estava pronto. Além de Winnie e de seu pai — a única família dela — mais alguns tripulantes da Everd13, nossa nave, haviam sido escolhidos para serem os primeiros a passarem 10 anos no planeta. Todos com posições e tarefas mais importantes na nave, é claro. A checagem dos nomes junto de um rápido teste de DNA estava acontecendo, até porque eles não gostariam de errar e mandar um qualquer para estreiar o grande planeta. Naquela noite, eu e Winnie nos encontramos em um dos compartimentos especiais, onde a gravidade estava sempre ligada. Se aproximava da meia-noite, e por isso a gravidade no resto da nave estava desligada, o que, aos nossos olhos, dificultava a comunicação. O compartimento estava vazio, então provavelmente não seríamos surpreendidos por ninguém para nos expulsar de lá. Winnie estava mais linda do que o habitual. As mangas de seu macacão, a nossa roupa padrão, haviam sido dobradas e, por mais estranho que isso pareça, a aparência de Winnie parecia bem modificada. É claro, seus longos e cheios cabelos ruivos ajudavam a melhorar seu visual, além de deixarem o ambiente extremamente cheiroso com uma essência de guaraná — sim, eu amava guaraná e Winnie sabia disso.
— Isso... não vai ser um adeus... você sabe, não é? — Suas palavras saíam engasgadas por causa do choro que mais uma vez começava a tomar conta de seus corpo. Eu ainda não havia me acostumado come ela deste jeito, e estava começando a achar que Winnie estava doente. Seria possível uma pessoa chorar tantas vezes ao dia como ela estava fazendo? A coitada devia estar, no mínimo, desidratada. — Quando estivermos com 25 anos nós... nós vamos nos encontrar denovo!
— É, nós vamos sim. — Por mais que meus coração estivesse apertado, me forcei para não chorar. Seria uma imensa vergonha fazer isso na frente de uma garota, tirando o fato de que fazendo isso ela se sentiria ainda pior. — Mas olha... não precisa pensar em mim o tempo todo. Você sabe que aqui na nave estamos todos seguros. — O que eu havia falado? “Não precisa pensar em mim o tempo todo”? Ótimo! Agora Winnie pensaria que eu era um narcisista idiota. No entanto, essas palavras não pareceram afetá-la, porque sua expressão não mudou nem um pouco. — Quer dizer... não precisa ficar sozinha, sabé? Você não vai estar me traindo... bem... eu quero dizer... não me traindod e outro jeito, traindo nossa amizade, até porque nós não estamos juntos e... — O dedo indicador de Winnie pousou em meus lábios, me avisando para parar de falar. Sim, eu estava muito nervoso, e as frases que meu cérebro me obrigava a falar não pareciam estar ajudando nada. Euqueria poder ajudar Winnie de algum modo, mas eu não era um heroi, nem aqui e nem em qualquer outro lugar.
— Eu vou simplesmente esperar você me encontrar, porque eu tenho certeza de que isso vai acontecer. — Sim, aquela era a Winnie que eu conhecia. Determinada, otimista, e sem toda aquela água jorrando dos olhos. Era a minha Winnie.
Não precisamos dizer mais nada, pois nossos olhos se comunicaram entre si. Mensagens de adeus eram transmitidas por eles. Sorri para Winnie, e ela sorriu de volta. Não eram sorrisos de felicidade. Mas também não eram sorrisos de tristeza. Eram apenas sorrisos que mostravam o quanto sentíamos um pelo outro. Senti as mãos quentes de Winnie segurarem as minhas, e em pouco tempo estávamos fortemente abraçados. Aquilo obviamente não era um beijo, algo que eu esperava. Mas mesmo assim, percebi que o abraço quente de Winnie era realmente o que eu queria naquele momento, e ela também queria o meu. Certo. O beijo ficaria para a próxima, talvez daqui a 10 anos.
Eu esperaria, sem problemas.
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