Collonys
11 Irreal
Notas iniciais
CAPÍTULO 11: IRREAL
WINNIE
Está tudo escuro. Sei que meus olhos estão abertos, mas eles não conseguem captar nada além de escuridão. Meus pés não tocam o chão e sinto que estou flutuando no vácuo. Para a falar a verdade eu não consigo sentir meu corpo realmente. É mais como se apenas os meus pensamentos estivessem aqui. Como se a minha presença não fosse sólida. E não é.
Aos poucos começo a perceber o que está acontecendo. Minha mente está sendo... desbloqueada? Sim. Foi desse modo que chamaram o “favor” que fariam a mim. Favor este que promete me fazer diferente de tudo o que já fui e sou agora.
Começo a sentir um frio na barriga e é só por causa disso que percebo que estou voltando à minha forma sólida. Volto a sentir minhas mãos, depois meus pés, e então volto a novamente enxergar.
Minha visão está meio turva; esbranquiçada. Olho para baixo e percebo que meu corpo está normal. Vejo à minha volta e arfo com o susto. Estou com certeza em uma das naves da SPL. “Impossível…” Digo em meus pensamentos. Dou um passo pra frente e paro no mesmo instante com mais um susto. Embora meu corpo pareça normal à vista, agora percebo que está muito mais leve do que o habitual. Respiro fundo e me obrigado a andar.
Embora seja extremamente estranha, a leveza do meu corpo não me prejudica. Continuo a andar sem parar, observando tudo ao meu redor. Viro um corredor aqui e ali sem pensar duas vezes. Sinto uma força de atração vinda de algum lugar importante. Cada passo me faz querer mais chegar lá. Quando me dou conta estou parada em frente à uma parede; meus olhos desejando algo além dela. Involuntariamente eu me movo para a frente e para a minha surpresa — e grande alegria, com toda a certeza — meu corpo passa pelo metal como se ele não estivesse ali. Assim que atravesso todo o material me encontro num compartimento padrão pequeno. Um garoto de cabelos escuros está encolhido numa das paredes próximas e fita o chão.
— Olá…? — Digo timidamente, embora tenha quase certeza de que ele não pode me ouvir. Como na maioria das vezes eu estou errada. Sua cabeça levanta rapidamente e ele olha para mim assustado. — Ér… desculpe assustá-lo, mas é que… Bem, não precisa ficar com medo de mim.
— Não estou com medo de você. Apenas pensei que era mais um Borp. — Sua voz está chorosa e seus olhos meio avermelhados atrás dos óculos de armação escura. — Me desculpe eu… devo tê-la desviado do seu caminho.
— Como assim me desviado? — Pergunto confusa.
— Eles estão te desbloqueando, correto? — Aceno com a cabeça em aprovação. — Tive que usar minha capacidade total para me livrar de um problema. Provavelmente utilizei energia demais e acabei te puxando pra minha mente. — O garoto deve perceber a minha expressão confusa, pois tenta me explicar. — Você não está aqui realmente. Olha… — Suas mãos pegam um pedaço de metal ao seu lado e ele o lança em mim sem hesitar. Me encolho instintivamente, mas o pedaço de ferro me atravessa e bate na parede atrás de mim.
— Você é louco, por acaso? — Estou furiosa. — E se você tivesse me acertado?!
— Impossível! — O garoto revira os olhos, impaciente. — Você não está aqui de verdade, é só uma projeção do meu cérebro. Seu corpo está descansando em alguma maca lá em Collonys e… — Seus olhos se arregalam, surpresos. Sua respiração está mais forte. — Quem é você? Acho que pulamos essa parte...
— Winnie. — Seus olhos ainda estão vidrados em mim. — Winnie Cratt. — Sua expressão se suaviza e percebo um sorriso esboçado em seu rosto.
— Winnie! A amiga de Píotsy, não é?! — Balanço a cabeça em afirmação, embora não entenda como ele sabe da minha amizade com Pío. — Sim, é claro! Ruivos, sempre tão evoluídos… — Seu sorriso desaparece novamente ao olhar para o canto da sala. Meus olhos seguem o seu e então por mais uma incontável vez neste dia fico surpresa com o que vejo. Um homem com um uniforme de Borp está caído no chão, os olhos abertos fitando o nada. Está morto.
— Oh meu Deus!! — Minhas mãos cobrem a minha boca e meus olhos começam a lacrimejar. — Você fez isso? — Vejo mais uma vez que ele está assustado. Ele se levanta num impulso e avança até mim. Eu não tento correr, apenas me encolho com medo.
— Isso foi preciso Winnie… Olha, não dá pra conversar agora, você precisa voltar.
— Voltar para onde? — Ainda estou encolhida, mas ouso lançar um olhar à ele.
— Para a base! Você precisa terminar o seu desbloqueio com sucesso, é algo vital! — Meu medo começa a desaparecer e estranhamente sinto que posso confiar nele. — Presta atenção… Quando você olhar para o sol você vai dizer à pessoa mais autorizada que conhecer que “Hartep está vivo e está embarcando para Collonys”. Isso é urgente então por favor olhe para o sol. Agora estenda a sua mão!
— O quê? Eu não estou entendendo mais nada… O que eu devo dizer…? E pra quem? Por favor me explica direit… — Hartep segura meu pulso e sinto a maior dor que já senti em minha vida enquanto o mundo à minha volta desaparece novamente.
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