Notas iniciais
Espero que gostem ♥

Talvez ela não devesse estar ali mesmo.

Hinata olhava pela janela do trem enquanto as árvores passavam rápido do lado de fora. Pelo fraco reflexo da janela ela pode perceber que seus olhos claros estavam ainda inchados pela noite que passou em claro chorando. Os últimos dias ainda estavam frescos na sua mente: a traição de seu agora ex-namorado Toneri; a sua demissão do emprego de meio-período e o fato de quase ter reprovado em Inglês. Ok, vamos por parte.

Há uns 4 dias atrás, às vésperas do fim do semestre, Hinata saiu mais cedo do colégio e resolveu ir visitar seu namorado, Otsutsuki Toneri, que havia faltado por algum motivo. Ela já era conhecida do porteiro do prédio, que a deixou entrar sem questionar. Se Hinata tivesse prestado um pouco mais de atenção, teria notado sinais do que já a estava esperando: o olhar de pena e tensão do porteiro, o fato de haver dois copos recém-usados na mesa — um com batom — ou o fato do quarto de Toneri ser o único cômodo do apartamento que estava de porta fechada. Quando Hinata abriu a porta, sentiu toda sua respiração e batimentos pararem por alguns segundos: Toneri estava deitado, nu, e por cima dele sua “melhor amiga” Lia se divertindo à beça. Hinata armou um escândalo, quebrou alguns objetos do apartamento da família de Toneri, deu uns tapas e chutes no jovem e na garota também, um verdadeiro show pros vizinhos fofoqueiros que apareceram pra ver o que estava acontecendo. Mas o que mais doía era lembrar o que Toneri disse quando ela perguntou o porquê de ele ter feito aquilo.

— Você é sem graça, Hinata — Toneri deu um sorriso de canto, encarando a jovem boquiaberta — Eu precisava me divertir um pouco mais, você me entende?

O tapa que ela deu nele quando ele disse isso ainda ardia em sua mão, e ela deu uma olhada na palma.

— Deveria ter batido mais… — Ela murmurou enquanto o trem parava e a moça da locução anunciou a parada. “Cidade de Suna: 10 minutos embarque e desembarque”.

As lembranças dos últimos dias infernais não pararam. Assim que pode sair do prédio de Toneri — e fugir dos olhares e comentários dos vizinhos — Hinata correu pro seu trabalho na pequena cafeteria no centro da cidade. Mais uma vez deveria ter prestado atenção aos sinais: assim que entrou no pequeno estabelecimento, uma jovem de cabelos curtos e azuis a cumprimentou, dizendo estar em treinamento; na sala dos funcionários, seu armário estava sem o post-it habitual com os recados do dia; e o filho do patrão, Neiko, estava lá. E ele nunca estava lá.

— Hyuuga, você pode ir na minha sala, por favor? — Neiko a chamou enquanto ela ainda pegava seu uniforme de dentro do armário — Não se preocupe com o uniforme, apenas venha.

O que se passou no escritório Hinata definiria como um discurso fraco e ensaiado: ele disse que infelizmente teriam que ser feitos alguns cortes, e como ela era funcionária de apenas meio período… Enfim, Hinata sabia que tudo era pura mentira. Além do fato de que, quando saiu, ela pode ver claramente Neiko apertar a bunda da garota nova enquanto ela dava um sorrisinho sacana. “Mas é claro.” pensou Hinata.

— Você é um cabeça-oca, eu claramente disse ovos mexidos e bacon fatiado — ela ouviu uma voz feminina comentar, provavelmente novos passageiros que embarcaram — Como diabos você conseguiu que a cozinheira cortasse os ovos em tiras e… eu nem sei o que fizeram com meu bacon!

Hinata ouviu uma risada. “O trem irá partir em 5 minutos”, a moça da locução alertou.

— Digamos que eu tenho meu jeito de fazer as coisas — Uma voz masculina respondeu às reclamações anteriores. — Não pode estar tão ruim, experimenta pelo menos, Sakura.

Hinata desviou o olhar da janela por alguns segundos, vendo os prováveis donos das vozes se sentando nos bancos vagos em sua frente. Só teve um rápido vislumbre antes que tudo que pudesse identificar eram cabelos: um deles tinha cabelos rosas e o outro cabelos loiros.

“Rosa é uma cor legal”, Hinata pensou antes de voltar sua atenção novamente para a paisagem do lado de fora. O trem começou a sair da estação lentamente.

— Pelo amor de Deus, é só um doce! Me dá um pedaço! — o casal da frente começava a brigar novamente, e Hinata pegou seus fones de ouvido — Você é um pé no saco, sabia disso, Naruto?

— Você é muito chorona mesmo, eu não aguento — o rapaz tinha um leve sotaque, Hinata notou enquanto procurava por alguma música no seu smartphone. — Toma, um pedacinho de torta de limão porque eu sou muito bonzinho, Sakura.

“Sakura…” algo dentro de Hinata deu uma pequena martelada, mas ela apenas sacudiu a cabeça e deu play na música. “Próxima parada: Konoha. Previsão de chegada em quarenta minutos”, anunciou a voz da locutora. Hinata adormeceu, apenas desejando que aquela viagem nunca acabasse e ela não precisasse enfrentar a vida real.

— … Eu ainda acho que a gente não devia fazer isso — mesmo ainda com os olhos fechados e tomada pela sonolência, Hinata sabia que aquela voz era familiar e estava muito próxima — Talvez chamar algum funcionário… Naruto?!

— Tá tudo bem, ela só não pode ficar aqui — a voz masculina respondeu, num sussurro mas tinha um tom… brincalhão? — E se ninguém notar ela aqui e ela acabar voltando seja lá pra onde esse trem voltar?

— Por isso eu estou dizendo pra gente chamar um funcionário e… Naruto! — a garota sussurrou de volta.

Hinata sentiu algo a tocar no ombro e balançar suavemente.

— Ei… moça… Chegamos na parada final, então… Desculpa atrapalhar esse sono. — a voz masculina parecia bem próxima.

Hinata abriu os olhos vagarosamente e por alguns segundos pensou se ainda estava sonhando: um par de olhos a encarava, mas não eram simples olhos. Eram de uma cor azul tão profunda, mas tão profunda, que Hinata pensou se ao menos era capaz de existir um tom de azul tão bonito. Porém, tão bonito quanto os olhos era o jovem que fitava Hinata: Ele era loiro — isso Hinata já sabia— e tinha os cabelos médios e levemente bagunçados; parecia alto, levemente musculoso e bronzeado; e também sustentava um sorriso que Hinata não soube identificar se era irônico, sarcástico ou apenas perfeito mesmo.

— .. moça? — Ele repetiu, claramente segurando o riso — Sakura, ajuda aqui, acho que eu dei pane na turista.

Hinata se moveu um pouco, retirando os fones de ouvido e esfregando os olhos, ainda sonolenta.

— Ai meu Deus, você deve ter assustado a garota — a voz da outra menina se fez mais próxima, ela provavelmente tinha movido o rapaz e passado na frente — Ei, desculpa meu amigo, ele não tem noção das coisas as vezes. É que a gente chegou na estação final e você ainda estava dormindo, então a gente não queria que… Hinata??

Hinata abriu os olhos e deixou um pequeno “Oh” escapar de sua boca. Era por isso que o nome Sakura e a voz eram um pouco familiares. Os cabelos podiam estar curtos e cor-de-rosa, e ela podia estar fisicamente diferente, mas aqueles olhos verdes e o jeito quase pedagógico de conversar à denunciavam: Era Sakura Haruno, uma de suas melhores amigas da época em que ainda morava em Konoha. Lembranças atingiram Hinata como flashes, como repetidas vezes em que as duas dormiram uma na casa da outra, ou na vez em que jogaram fora toda a mesada comprando revistas com suas bandas favoritas. Sakura a segurou pelos ombros e a olhou incrédula:

— Você é mesmo Hinata Hyuuga ou eu estou te confundindo e pagando mico? — Ela falou esperançosa.

— Por favor seja a segunda opção — O rapaz disse, olhando curioso pras duas.

— Você ainda guarda aquele elefantinho de pelúcia? — Hinata respondeu olhando e dando um sorriso.

— Elefante de pelúcia? — o rapaz parecia ainda mais curioso.

— Sim, um que ela ganhou com 13 anos do Sas… — Hinata não conseguiu terminar pois foi interrompida por um abraço super forte de Sakura.

— OH MEU DEUS É VOCÊ MESMO! COMO EU SENTI SUA FALTA, HINA! E VOCÊ VEM DO NADA?! — Sakura a apertava e abraçava, e sussurrou — Mais uma palavra sobre o elefante e eu te mato, Hyuuga.

Hinata riu. Fazia tanto tempo que ela não se lembrava como se sentia bem com a melhor amiga.

— Eu juro que eu ia ligar assim que eu chegasse — Hinata abraçou de volta — Foi uma viagem de última hora, não tive tempo de avisar ninguém, só o papai. É muito bom te ver, Sak. Senti muito a sua falta.

— Sentiu porra nenhuma — aparentemente Sakura continuava boca suja quando irritada — Faz tempo desde a última vez que recebi uma mensagem, e olha que eu nem tô falando de ligações, ok? Tem tanta coisa que eu preciso te atualizar e…

Um apito se fez ouvir. Os três olharam em direção ao corredor do trem, onde um funcionário com cara de poucos amigos os encarava.

— Pretendem descer ainda hoje, jovens?

— Desculpa, a gente já vai — Sakura disse, olhando Naruto em seguida — Você pode ajudar a Hina com as malas? Nós dois não estamos carregando nenhuma mesmo.

— Claro, sem problemas — o loiro disse com um sorriso, puxando a mala de Hinata do espaço destinado à bagagem no teto do trem.

— Muito obrigada — Hinata agradeceu se levantando — A propósito, sou Hinata. Hinata Hyuuga, muito prazer.

— Olá, Hyuuga. Me chamo Naruto — o rapaz a olhou e deu um sorriso enquanto pegava uma das malas — Uzumaki Naruto.

“Uzumaki Naruto” Hinata pensou. “Por favor, pare de sorrir assim pois sou fraca”.

Sakura a pegou pela mão e a guiou para fora do trem, enquanto Naruto seguia ambas com as duas malas de Hinata

Quando Hinata pisou fora do trem, o ar a fez ter certeza: estava em Konoha. Tinha passado longos 2 anos e meio fora devido à bolsa de estudos que ganhou, e por isso havia deixado a pacata cidadezinha pra trás. Mas ver Sakura ali, ao seu lado, tagarelando animada sobre como Hinata havia mudado, ver alguns rostos familiares passando pela estação e sentir aquele cheiro característico de campo a fez sorrir e pensar que, finalmente, estava de volta em casa.

Notas finais
Até a próxima ♥