Coletânea: Realidade Abandonada
5 Ode a Dor
Notas iniciais
Lá estava ela, trajando um vestido longo de mangas compridas e folgadas — vestimenta que uma vez fora preta, agora marrom encardido —, uma bota já danificada pelo tempo e várias correntes escuras penduradas pelo pescoço. Seu cabelo era curto de tom negro e espessura oleosa.
Fazia malabarismo com tochas e cuspia fogo em meio a praça central da capital, enquanto as pessoas que gostavam de seu simples e monoto show, jogavam algumas esmolas dentro de uma lata de tinta vazia.
Seu nome não importa, muito menos de onde vem ou como vieste parar numa vida como esta, a única coisa que pode ser dito por hora, é que viver como uma mendiga fora uma mera opção e não resultado de quaisquer circunstâncias financeiras.
Seu passado é oculto.
Já passando das onze da noite, recolheu seu material de trabalho e os pôs dentro de uma velha mochila, antes de contar o dinheiro, que mal deu ele para comprar um sabonete e um pacote de pães.
Andou durante vinte minutos sem pressa alguma, aproximando-se de uma estação de metrô desativado. Dentro, era pura imundície: jornais, sacolas plásticas, algumas poças de água. Um odor horrendo de ratos mortos, comida azeda e o cheiro de algo queimando, vindo de uma enorme fogueira feita no centro do acampamento, invadia as narinas da mulher.
Esse era seu lar. Seu e de mais algumas pessoas, na qual nem ao menos trocava olhares.
Entrou dentro de uma tenda feita por lonas escuras e madeiras podres, jogou-se em cima de uma cama improvisada de papelão e uma coberta doada por alguém.
Solidão.
Sentia uma dor terrível no peito, as lágrimas escorriam de seus olhos escuros. A melancolia invadia cada pedacinho da sua alma. Era a sensação mais deslumbrante que já sentira.
Ela podia simplesmente voltar para a casa de seus pais para matar a saudade, e livrar-se da solidão, até mesmo poderia encontrar um homem para amar, mas não.
Ela gostava da dor, a dor da saudade, a dor de um coração que almejava um amor verdadeiro, a dor da solidão, do desprezo e da miséria.
Levantou-se do coxão e tirou a roupa, deixando amostra seu corpo magro e doente. Entrou dentro de uma bacia de água ao lado do leito para levar-se.
O suicídio já visitara sua mente muitas vezes, mas tirar a própria vida e forçar o estado estado de inexistência não era exatamente o que queria, além do mais, já estava morrendo pouco a pouco. Ela sabia disso, mas não tinha noção do que a matava.
A morte era atrativa. A jovem a desejava, do mesmo modo que uma leoa faminta desejava sua presa.
Depois de se lavar, deitou-se novamente embrulhada em uma toalha, esperando sua amada buscá-la, e a aceitaria de bom grado.
O fim não seria hoje, talvez em outro dia, outro ano, mas amanhã ela abriria os olhos e a dor seria a única beleza de seu mundo.
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