Coletânea Lesbohistórica

6 Sânscrito - Nathalia Martins


Sobre a autora

Nathalia M. vive pela escrita e sonha em ser uma escritora profissional. ainda estudante e mineira, se inspira em grandes escritores, principalmente em Clarice Lispector, sua maior ídola.

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Parte I (Dia Branco)

"Ave María, grátia plena, dóminus tecum"

Seus joelhos estavam colados a madeira gelada, a luminária ao lado de sua cama traçava, em tons de laranja, seu rosto. As mãos estavam unidas, entrelaçadas a um terço vermelho, que tanto representava a forma que vivia, mas não a si mesma.

"Benedícta tu in muliéribus"

Seu cabelo estava solto, era grande o bastante, mas não a incomodava. Ele obtinha a cor do luto, propriamente dizendo, era até mais preto que o mesmo.

Luto pelos desejos mortos, pela situação que se encontrava. Luto pela vida que nem chegou a viver. Não da forma que deveria ser.

"Et benedictus fructus ventrus tui Jessus"

Na verdade, todas suas características representavam o luto.

Desde sua boca desenhada, desde seus olhos estreitos e também pretos, acompanhadas de suas sobrancelhas um tanto grossas. Desde seu nariz totalmente delicado a sua estatura mais baixa que o normal.

Elisa. Esse era o nome da garota que alinhava a perfeição, que era o encontro do luto e da esperança.

Talvez, ela fosse uma pura contradição.

"Sancta María, mater Dei"

Elisa de contradições, de sonhos, dos lutos. Mas, quem era, realmente, Elisa?

Quem sabe era a garota que foi abandonada após seu primeiro choro, deixada nas portas do convento Santo Antônio, quem sabe, a que foi criada por Madre Virgínia com o único intuito de se tornar freira ou ainda, quem sabe, era uma noviça que se sentia deslocada.

Quem era, realmente, Elisa?

Mais um dos mistérios que persiste a vida humana, que nos instiga a buscar seu resultado, mas na verdade ele não precisaria ser buscado, ele já obtinha sua resposta. Ela era, com certeza, a mulher que via o tempo passar na sua frente, mas não o acompanhava, deixava o ir, porquê os limites preenchia a sua existência.

"Ora por Nobis peccatóribus"

E o tempo está constantemente movendo-se, de forma automática e inabalável. Ele não para, nem por mil rezas, nem por um lamento ou por uma urgência.

O tempo não anda em círculos.

Essa era a tormenta de Elisa. Sabia que o tempo tem seu início e seu fim, para cada indivíduo, e ela estava o desperdiçando sendo uma pessoa a qual lhe escolheram para ser. Não queria se tornar uma freira, queria ser apenas ser ela mesma, mas uma coisa que a moça não sabia era de como conter o tempo.

Porque, simplesmente, não é possível. Os humanos tem o falho hábito de querer possuir o irreal, o ilusório e querer combater o impossível.

Como o tempo. Como a morte. Como a paixão. Como a vida. Como o início e o fim. Era impossível combater a veraz Elisa.

"Nunc et in hora mortis nostrae."

Apesar de tudo, ela nunca deixara de rezar. Rezava diversas vezes, para poder ir além dos mares, para poder sentir o vento que te arrastaria mundo afora.

§

1934— Recife, Pernambuco

Quarta-feira é cheia de esperança. Elisa andava no pátio do convento, passando suas mãos no azulejo do que representa o Gênesis; ela ia ao encontro da esperança em forma viva, seu peito sucumbia, as roupas da noviça dançava conforme o vento, o vento que acarinhava seu rosto e a fazia sonhar.

A moça, na verdade, ia ao encontro de Madre Virgínia, a buscava pois é na quarta-feira que ela, junta a outras freiras, iam em bairros para realizar caridades, quarta-feira significava para si muito mais, era o dia cheio de esperança. Elisa buscava a Madre como buscava sua liberdade, mas nesse caso, sem tanto pudor e ao contrário da liberdade, Madre Virgínia a encontrara, já acompanhada das outras senhoras. Seu sorriso a acalentava tanto como o beijo na testa que ela acabou em lhe dar. Era momentos assim, que fazia Elisa sentir leveza em cada partícula do corpo.

Enquanto dava passos para chegar ao lado de fora do convento, seu corpo afundava de tanta leveza, afundava completamente nas esperanças, provavelmente tão macio quanto aquele sol matinal das 07:00, que na verdade não era tão macio assim, mas ela fazia ser.

Os dias de quarta eram assim, leves. Ela ia em direção aos bairros mais necessitados, essa era a parte em que gostava da vida como futura freira, fazer alguém abrir um sorriso, não pela caridade, não pela reza e sim pelo carinho, e Elisa tinha de sobra.

Em tantas casas, tem a da Rua das Florentinas, número 251, fachada alegremente azul com a arquitetura clássica de Recife em que morava Dona Dulce. As mãos machucadas de tanto trabalho, rugas que denunciavam a sua velhice, cabelos brancos e a inconstante fraqueza que a deixava deitada nas camas impossibilitada de tantas coisas, mas sempre de sorriso aberto, principalmente ao sentir a mão da mais nova. As freiras junto à Elisa iam regulamente rezar pela alma e pela vida de Dona Dulce e em seus 92 anos, naquele dia, a reza era diferente. A idosa era uma pessoa especial para Elisa, ela se acostumara com o jeito atípico da mesma, acostumara com a presença doce dela. Era recíproco, ambas a tinham com a 'pessoa mais importante'.

As filhas da velha senhora choravam ao lado da cama em que ela ficava, ao mesmo tempo Madre Virgínia benzia a mesma que suspirava pesadamente mostrando a dificuldade e o pesar que era respirar. Elisa irá sentir falta dela, seu corpo doía, não estava mais leve e a futura morte a sufocava. Mesmo que a senhora não havia chegado a falecer, a morte já sufocava a moça com antecedência, pois a morte nos sufoca desde os nossos nascimentos.

Sufoca tal como um cigarro e a sua fumaça.

§

As possibilidades da vida é algo a ser pensado. Existindo o acaso ou não, a vida nos desafia a pensar constantemente sobre. Acaso, destino ou algo predestinado, a única certeza agora é de que Elisa se encontrava ainda na rua de Dona Dulce, onde possuía uma esquina com local vago, não agora. O azul não era a cor presente mais e sim o vermelho e branco da lona do circo que ia sendo montado. Seus pensamentos se tornaram vermelhos: a curiosidade lhe sucumbiu, lembrara que nunca havia ido em uma apresentação de um circo. Pensamentos brancos: agora ela queria mais do que tudo presenciar pelo menos uma vez. Apenas uma.

Ela passava em frente, observando os bastidores: alguns fincavam no chão a parte que restava da lona e outros pegavam materiais do caminhão, mas seus olhos pairaram sob uma mulher encostada em uma grande caixa de madeira junto a outras pessoas que fumavam enquanto conversava com ela, a mulher tossia freneticamente, talvez sentisse sufocada pela fumaça do cigarro. Seus cabelos, que mantinha um pouco abaixo da nuca e era penteado com ondas em sua extensão , chamavam atenção, não sabia-se se eles eram ruivos, loiros ou um castanho levemente claro, aquele cabelo era único. Oh! E as suas roupas, usavas calças com toques femininos, durante aquela época as calças se popularizaram entre as mulheres, acompanhadas de uma camisa com mangas até o cotovelo e Elisa desejou ter a coragem para usar aquelas roupas; a sua vida era totalmente feita de desejos.

Tosse. Cigarro. Fumaça.

A fumaça que atravessava o olhar daquela mulher, ora comparados com a cor do mel, ora comparados com a perdição e consequentemente, a entrega. Era como qualquer pessoa dispersa-se junto as fumaças ao ver ela, a do cabelo incompreendido.

De certo, Elisa ficou parada olhando o circo por um bom tempo sem perceber, pois as outras irmãs a chamavam para acompanha-las e o olhar da garota não era mais atravessado e sim atravessava a noviça, que assustara ao perceber a garota na sua frente. Seus cabelos eram realmente confuso.

— Ficaste curiosa pelo circo, não é? — Gritos das freiras a chamando, mas o circo a atraia. Era algo tão simples e que ela nunca chegou a ver, pensava repetidamente vezes "O que conheço do mundo?". — Não precisa me responder, venha ver a apresentação, amanhã às 19:00 e cesse sua curiosidade.

Gritos de um lado, silêncio de outro.

— Agradeço pelo convite, gostaria muito de comparecer, mas infelizmente, não é possível.

Uma estranha lhe fazia um convite para conhecer um circo, porém era mais estranho Elisa querer, subitamente, aceitar. Não controlamos nossas vontades, aquela moça lhe convidar foi apenas um percursor do que iria acontecer. Algo cresceu em seu peito, a leveza voltou com a esperança em pequenos detalhes da liberdade chegar.

— Apenas venha e me encontre. Meu nome é Catarina!

Não tinha tempo de mais nada, Elisa era puxada para longe de Catarina. Madre Virgínia a xingava, enquanto ela pedia desculpas, mas nada a abalou, andava pelas ruas alegres de Recife, o bonde passando ao lado delas, mulheres e homens andando, ou calmamente ou apressadamente, comércios e lojas ora vazios, ora cheios, como no caso da Casa Gondim, que anunciava alguns artigos femininos importados da Europa e que agora recebia duas jovens animadas ao entrarem no local, com boinas em seus cabelos, com vestidos bem assentados que obtinha um decote nas costas e marcavam bem as suas curvas. Elisa irá a qualquer custo nesse circo.

O acaso não é uma certeza, mas tenha a certeza de que um dia, todos serão instigados e testados a acreditar nele.

§

Recife era iluminada pelo céu escurado estrelado e pelos lampiões a gás, e em poucos lugares, pela luz elétrica, a novidade entre as cidades. Elisa não importava com o movimento noturno da cidade, ia apenas em busca de uma coisa, que a puxava intensamente: o circo. Mantinha seu cabelo preso, as roupas simples que pouco usava (ao contrário dos trajes de noviça) e um salto de tamanho médio.

A noite pode ter dois significados, dois sentidos, duas verdades. A sua obscenidade e a sua beleza, mas hoje, para Elisa era o mistério. Mistério do que poderia vir com a chegada da noite.

Vermelho e branco, novamente, só que agora eram acompanhados das luzes, de pessoas e da euforia. Ela chegava perto da entrada, o ingresso custava 15 réis e o mais rápido possível ela entrara dentro da lona, encontrando um belo picadeiro.

Sentou na segunda fileira atrás de um casal apaixonado, ao lado de íntimas amigas e também de uma criança que era repreendida pela mãe por ter derrubado a pipoca no chão. Mas entre tantas crianças ali, nenhuma se encontrava tão eufórica como Elisa. Por que ela estaria assim? Era tudo que o circo representava, é questão de sentimento, de sentir que algo tão simples representava o recomeço, como se as luzes apagassem do nada, mas voltassem mais forte, mais alegre e acompanhada de uma salva de palmas; era o que acontecia no momento, um apresentador centralizado, todos à espera e o sentimento de Elisa pulsando em seu peito, o recomeço, o otimismo e a estranheza.

Todas as apresentações tiveram com si o mesmo sentimento: A do mágico, malabaristas, palhaços, bailarina, alguns outros e finalmente, a equilibrista.

Que obtinha os olhos que te fisgam, o cabelo assentado; ruivo, loiro e um pouco de castanho claro, ainda não se sabe o certo. Catarina. Aquilo parecia tão perigoso, a mulher se equilibrava em um arame esticado, mostrava ter confiança no que fazia.

As luzes se apagando após a última apresentação, recomeço. O local se evacuando, otimismo. Catarina se aproximando, estranheza.

Ambas sorriam abertamente, alegres. Catarina sussurrava em meio as pessoas "Você veio" direcionado para Elisa, que apenas mexeu em concordância.

Catarina havia a puxado para perto, sussurrando para perguntar qual o seu nome, sendo respondida e logo após continuando a sussurra:

— Venha comigo!

E ela foi, seguindo-a para um lugar desconhecido, com uma desconhecida, em uma situação também desconhecida.

Mas seu corpo a seguia. Seguia seus traços, seus cabelo que agora estava solto, tudo sobre ela. As mãos estavas unidas, indo a um só lugar. Algo nela fazia todos a seguirem.

E lá estava, o local mais próximo que esperava. Era o local de trás do circo, em que todos não eram artistas, eram desconhecidos.

— Quero te mostrar a verdadeira magia do circo — Elisa tinha o semblante confuso, enquanto a outra se aparentava bem animada. — Do melhor circo aliás! O nosso diferencial é não fazer o uso de animais.

Elisa não entendia, tanto que lhe faltavam palavras, ao contrário de Catarina que falava e explicava a todo momento. Apresentou um por um e explicou cada detalhe do lugar e a noviça, apenas prestava atenção, falando só o necessário.

— Sabes que nunca fui a um circo? De fato, é estranho, mas este foi o meu primeiro.

— Me sinto honrada, senhorita Elisa.

Risos, olhares, estranheza.

— Enfim, preciso ir. — Ela queria ficar, por isso, fez questão de que a mulher a encontrasse. — Sou noviça do convento Santo Antônio, me procures e me encontre!

Seus passos eram apressados para não ser descoberta entre as poucas luzes da noite, por Madre Virgínia e por Catarina.

§

De acordo que vamos se encontrando e entendendo com o próximo, cedemos a inúmeras permissões. Elisa e Catarina cederam a permissão de se conhecerem. Entre fugas e apuros, ambas permitiram criarem um laço de confiança, a cumplicidade e confissões.

Catarina permitia contar sobre sua origem cigana. Elisa permitia contar sobre ser órfão.

Catarina permitia contar sobre sonhar em ser uma grande atriz, se inspirando em Hedy Lamarr. Elisa permitia contar sobre as coisas simples do dia a dia, como não conhecer o mar, mesmo morando em um litoral.

Se permitiam.

O circo Junqueira ficara na cidade por um mês e durante as apresentações, com a cumplicidade criada entre as duas, Elisa foi capaz de conhecer o novo, como no dia 12 de maio que Catarina chegou com uma bicicleta vermelha, em um local de encontro aleatório, a cada dia que passava, as bicicletas ficavam mais famosas. A moça tinha em uma bolsa, roupas de banho.

Naquele dia, Elisa sentia o vento como nunca antes, andando em uma bicicleta feia e estranha, observando o cotidiano e sentindo o perfume aguçado de Catarina; ela queria se misturar com o vento, para entrar em contato constantemente com aquele perfume da marca Joy de Patou, que em sua composição tinha matérias primas raras e o frasco envolto por um fio de ouro, Elisa não sabia como ela havia arrumado tanto dinheiro para comprar aquela fragrância.

— Para onde estamos indo?

Os cabelos se enroscando, voando por causa do vento, a voz de Elisa soando mais alta para ser possível a outra escutar. Suas mãos suava em volta da cintura de Catarina.

— Conhecer a imensidão do mar — Catarina respondia enquanto gargalhava de felicidade. Ela parou a bicicleta fazendo menção ao mar com as mãos. — Em mais um dia, venha comigo?!

A praia de Boa Viagem pouco se encontrava cheia, tinha alguns vendedores de caju e carros passando na avenida do mesmo nome logo atrás, onde elas andavam de bicicleta há poucos minutos. Elas se sentaram na areia, as ondas quebrando na costa e voltando a sua infinidade, para algum ponto longe daqui, em outro lugar para vivenciar outras histórias, outras vidas, outras pessoas. Em vários tons de azul, vários níveis de perigo, de beleza, de intensidade; como o amor.

Elisa olhava tudo com esplendor, era algo tão... imenso, gigantesco. Ela queria sentir a imensidão entrar em seu corpo, seus ossos.

Elisa observava o mar, Catarina a observava; com seus olhos fechados sentindo a brisa, os cabelos soltos ao vento, alguns fios grudados à boca, que sorria.

Elas se entreolharam, sorrindo uma para outra, o corpo gritando em gratidão, em permissão...

Dia 11 de junho, em uma sexta, o dia que Elisa descobriu o mar e que Catarina descobriu que olhar para Elisa era como emergir em águas profundas do mar, a qual nunca havia chegado e nem sabia que existia; sentia cada palmo do seu corpo encher de água, se afogando e se desesperando, pelo simples olhar de Elisa. Aquele olhar preto, totalmente ao contrário do azul intenso do mar, mas obtendo o mesmo efeito. Aquele olhar preto facilmente confundido com a escuridão da noite fria. Facilmente confundindo com a causa do afogamento de Catarina.

Contudo, foi numa terça, dia 19, que o improvável aconteceu. Com o sol se pondo, a equilibrista apareceu no convento exigindo falar com a noviça. Madre Virgínia recusava deixar, a freira não sabia dos encontros, Elisa sabia fugir sem deixar rastros, já que não foi a primeira vez que fugira. A moça que estava perto da sala de visitas, escutando o alvoroço e uma voz conhecida, a voz pacífica que era acompanhado pela bela mulher de origem cigana. Elisa conversara com a Madre, pediu para que deixasse conversar com a moça, que ao ver quem chegava a abraçou confortavelmente.

— Vim para me despedir, a companhia vai embora amanhã.

O silêncio pairava naquele cômodo. Um nó na garganta, crescendo de forma incontrolável e querendo explodir. Catarina sorriu, aquele sorriso que percebemos todas as cores do mundo nele. Não era um sorriso triste.

Confusão.

— Siga seus desejos e faça parte da companhia conosco. Conversei com meu papa e estamos precisamos de ajuda nos bastidores.

— Estais louca? A minha condição não permite realizar tamanh...

— Se liberte! De si mesma. — Catarina em um de carinho pegou a mão da futura freira logo após de a interromper. Realmente, a moça se aprisionava de forma tão brusca, que acanhava seu próprio ser. — Preciso de você e da sua amizade ao meu lado, me acompanhe, eu suplico...

— Eu te acompanharei pelo único motivo de também precisar de você e da sua amizade! – Falou em um sussurro tão fino que era capaz de se quebrar.

— Me encontre, no mesmo local e mesmo horário amanhã.

Sorrisos abertos, corpo em confusão.

O dia 19 foi passando e Elisa preparava sua fuga e uma carta para Madre Virgínia em agradecimento, quando finalmente aquele dia chegou, a ansiedade de ambas cresciam, Catarina seguia em sua rotina, a esperando chegar, enquanto Elisa esperava ir. E novamente, o sol começando a se por, novamente a ex noviça fugia com seus macetes e deixando rastros dessa vez, chorava pelo que deixava para trás e quando encontrou a menina doce do olhar desafiante, desatinou a chorar ainda mais, ganhando um abraço. Corpos tão próximos, se acalorando e aconchegando fazer esquecer de qualquer insegurança e dessa forma, coladas, seguiram a um único destino.

Elisa pediu para que Catarina a procurasse e a encontrasse, assim ela o fez.

Desejo

(s.m.)

1. Aspiração, querer, vontade.

2 Expectativa de possuir ou alcançar algo.

Parte II (O circo)

Na escuridão, temos sanidade? Quem somos? Quem éramos? E por quê a paixão nos enfraquece? É sentindo na pele, com a escuridão adentrando nos poros e a impulsividade nos domando, que sabemos a resposta.

Aquela noite era como qualquer outra, em que Catarina e Elisa estavam deitadas, uma em frente para outra, no mesmo chão forrado e no mesmo espaço. Em que as verdades estavam expostas, mas com uma névoa sobre elas. Elas estavam ali, conversando e rindo na escuridão, já que a luminária estava apagada, a escuridão que tocava na pele de cada, sútil e ardente.

Esse era o primeiro dia do circo na cidade de Feira de Santana, interior da Bahia e apenas montaram toda a estrutura, no dia seguinte as apresentações começarão que durarão 2 semanas. Esse era o primeiro dia de Elisa conhecendo o hodierno. Esse era o primeiro dia que Elisa deitava ao lado de Catarina, a escutando falar sobre pessoas que admira e de um assunto novo que prendia a atenção da equilibrista; o feminismo.

— Como assim você não conhece Narcisa Armália? Tudo bem que ela foi totalmente esquecida depois de morrer sozinha, pobre e paralítica — Catarina falava em tom debochado e revoltado enquanto comentava sobre, mas entre elas era apenas perceptível a respiração das duas. — Ela foi a primeira jornalista mulher, combatia a opressão e o patriarcado, e ainda sobrava tempo para escrever coisas lindas.

Elisa sorria encantada, escutar a voz dela lhe causava sentimentos ao quais não entendia.

— Lembras de algum? Cite um poema para dela para mim, apenas para mim. — Desnorteada, sem algum resquício de sanidade. Isso era o efeito da escuridão ou de Catarina?

— Tem um que gosto muito da intensidade, acabou se tornando meu favorito. "No seu límpido espelho a ramaria, curva, de um bosque punha sombra e afogo." — Parou de falar e o espaço foi preenchido pelo silêncio e a voz da moça que tinha efeitos aveludados se calou.

— Não ouse parar de falar, jamais, sua voz me acalma. Você me acalma.

Estamos mudando ou não éramos quem queríamos?

O corpo de Catarina pesou, não esperava por isso. Não sabia o que falar. "Fale qualquer coisa, pensa em alguma coisa." Ela pensava enquanto puxava da sua mente alguma citação da poeta.

— Então, como eu disse, ela lutava contra a opressão que nós, mulheres, sofremos e em uma crônica ela escreveu: "Desprezada, embrutecida, castigada, e vendida a mísera arrastada o longo suplício de sua existência até que a morte viesse libertá-lá e a pá da terra levantasse entre ela e o seu opressor uma eterna barreira. Nada há que justifique essa tenaz perseguição da mulher (...)"

Estamos sob o controle do impulso, ele nos determina, nos aguça e não dá o direito de repensar.

Catarina sentia a respiração leve de Elisa, indo e vindo, a levando aos céus e a fazendo cair no concreto. Começara então, a traçar delicadamente o rosto da outra. No nariz, na sobrancelha, olhos, ao redor do rosto e na boca. Cada parte de Elisa era milimetricamente planejado para a enlouquecer; o macio da sua pele e tudo que a envolvia.

Elisa sentia tudo, mas não falava, pois não tinha forças. Sentia um toque sutil, contudo ardente, que ao contrário do que pensara, não era a escuridão, era apenas Catarina voltada para si e tirando o seu sono, a causando formigamento e assim, a ex noviça tomada pelo indecifrável, beijou o canto da boca de Catarina, se enrolando em seus braços e esperando a luz trazer a sanidade que lhe foi tirada.

E chegou. Trazendo sensações contínuas e persistentes durante os 10 dias que permaneciam ali, acompanhados de palavras a serem ditas e da incerteza.

Elas foram para algum lugar, mas se perderam por lá.

Como o suor de todos que escorriam até a terra, os milhares de suor que caia após o ensaio dos artistas circenses que também arrumavam o lugar para mais tarde. E mesmo cansadas, as duas garotas conversavam em sintonia, entretanto alguns olhares as investigavam. Antônio, pai da equilibrista, descansava em uma cadeira de plástico fingindo ler o jornal daquele dia primeiro, que estampava em letras garrafais "São Paulo e o Sr. Getúlio Vargas. A candidatura do dictador — Partido Constitucionalista — Federação dos Voluntarios — Acção Nacional — Definem-se as atitudes." Observava inclusive elas saindo de mãos dada, indo para algum lugar.

Sem se perderem desta vez.

Elisa e Catarina queriam explorar a cidade, não haviam conversado sobre a estranha noite até este dia, tudo que faziam era evitar o assunto. Mas como evitar o que lhe corrói por dentro?

Passos e silêncio. Rostos e mais rostos. Curiosas vidas passando por elas, rostos diferentes, mas com o mesmo semblante cansado. Rostos e mais rostos, se transformando em iguais para Catarina, pois o único rosto que lhe importava era o de Elisa.

As garotas seguiam para uma praça, praticamente vazio, era a Praça do Nordestino (Dom Pedro II). Ao sentarem em um pequeno banco, sentiam as folhas de uma das diversas árvores ali, esta em específico ao lado delas, caindo sobre as mesmas . Os únicos barulhos do local era o vento batendo sob as folhas das árvores e dos poucos carros que ali passava.

Pouco tempo, muito sentimento a ser entendido. Tinha muito a ser dito e elas sabiam disso. Mas as dúvidas a impediam e dúvidas não são mais que gritos inaudíveis que eternizam na cabeça e se transforma em grandes ecos que ultrapassam o nosso espaço próprio.

Somos escutados através do nosso desconforto.

— Escutei a minha vida inteira sobre o que era pecado ou não... Eu me tornei um? — Elisa disse com a voz embargada.

Dúvidas ecoando e ultrapassando.

— Pecado? Que pecado? — perguntou confusa se virando para olhar Elisa, olhar todas as partes que a atraía nela.

Dúvidas. Silêncio. Rostos e mais rostos. Folhas caindo. Magnetismo que as puxavam para perto. Muito perto.

Pecado?

Elisa vira os olhos de Catarina tão perto dos seus que a culpa a fez fugir, correu de volta para o lugar que o circo estava, deixando a outra para trás e parecia que tinha algo a impedindo respirar, talvez fosse a boca de Catarina se aproximando, chegando tão perto... talvez, fosse toda a presença dela.

Com certeza era. E com essa certeza se isolou, o corpo estava todo gélido, lembrava dos momentos simples que se tonavam maiores que deveriam.

Arrepiava e ardia.

Como Catarina que andava calmamente, esta por vez, ardia pelo sol que a fazia suar. Já Elisa ardia porquê lembrava de cada toque, cada aproximação e mesmo tentando esquecer, sempre que fechava os olhos via os pares de olho castanho claro, a boca meio fina e a pintinha ao seu lado, as sobrancelhas feitas, o seu tamanho mais alto, seu cabelo ambíguo e o seu corpo, sempre seu corpo.

Catarina havia chegado no terreno, não encontrando quem queria. Se isolou também, tentando fugir da confusão que a rondava.

Samsara vem de origem cigana, representa o ciclo de existências, uma sucessão de renascimentos, seguindo entre vários modos de existência até alcançar a liberação. A mãe de Catarina, Tâmara, a lembrava disso todos os dias e mesmo a equilibrista possuindo pouca ligação com a parte da sua origem, sempre lembra de tudo que sua mãe dizia.

Tâmara morreu precocemente e a verdade é que Catarina não teve tempo de criar quaisquer laço com parte da sua origem, tudo o que sabia era pouco comparado com a vasta cultura desse povo, mas guardara todas as informações transmitidas. Com a morte de sua mãe, parte de virou apático e nada lhe fazia mais sentido, queria voltar no tempo e perguntar todas as coisas sobre a vida cigana. Por um bom tempo, Catarina estava ao lado de sua mãe no caixão enterrado, sentia como se os vermes a devorassem e a terra à sua volta estivesse toda em seu pulmão, entretanto, nada era tão intragável como o vazio de a não ter, da sua voz cantando cantigas ciganas não a fazer mais dormir. Todavia, foi conhecendo uma noviça que ela descobriu o que realmente Tâmara queria dizer ao contar o significado de Samsara.

Elisa era sua sucessão de renascimentos, seu caminho a liberação.

Foi assim, relembrando sobre sua mãe e sobre Samsara que percebeu o que já estava exposto: estava inteiramente, completamente, intensamente apaixonada por Elisa Ribeiro, de 24 anos que já foi uma noviça, mas seguiu suas vontades.

Ela precisava arrumar para a apresentação, contudo, era questão de necessidade ir ao encontro da pessoa a qual era apaixonada. Decidida, andando em passos duros, rodando por todos os lugares para admitir o que a segurou por um tempo. Mas ela não encontrou Elisa e precisando de se concentrar e arrumar, desistiu de a procurar e enquanto todos trabalhavam arduamente para preparar as atrações, Elisa havia sumido.

Catarina, arrumando pensava nela, vendo o público se chocar com o ilusionista pensava nela, apresentando pensava nela. Conseguia pensar nela em qualquer coisa que fizesse, até tirando o vestido rosa, que usava, e a sua maquiagem.

A paixão não decide se nos enfraquece ou nos fortalece.

— Presumo que a deixei preocupada, porém precisava espairecer. — Elisa aparecera de repente, tocando sua mão gélida no ombro de Catarina, assustando-a. — Necessito que me entendas, mas é certo que precisarei partir.

Fugir exige coragem. De algum modo, fugir é sempre a primeira opção, mas o que não nos conta é que todos os nossos receios continuam nos acompanhando, realizando um ciclo depreciativo. Elisa fugia, corria, se desesperava, ia para longe e acabava se esquecendo de que Catarina sempre estaria ali, lutando por espaço, lutando contra seus olhos pretos por atenção, e a conquistando. Ela era conquistada por Catarina a cada novo luar e para seu azar, enquanto falava que irá embora, a lua já estava as observando, as refletindo.

Catarina havia sentado, queria chorar, se transbordar e gritar que estava apaixonada. Ela não sabia lidar com situações assim, onde já se viu uma moça em seus 26 anos não saber reagir aos seus sentimentos amorosos?

"E se eu disser que estou apaixonada? Que você me faz arder? Que desejo seu toque? Você ainda vai embora?" Pensara enquanto olhava exclusivamente para o chão. Elisa se virou e ia em direção a porta, mas escutou um sussurro a chamando e decidiu se voltar para olhar Catarina.

Pecado?

— Eu imploro para ti, não vá embora. Acredito estar apaixonada por você.

Pecado?

Se passaram 1, 2, 3 dias que Catarina havia confessado isso. 1, 2, 3 dias que Elisa decidira não ir embora. 1, 2, 3 dias que Elisa ignorava Catarina.

Mas no ciclo depreciativo que Elisa estava, ela parou novamente na garota. Olhos. Sorriso. Boca... Pecado.

A equipe estava na correria, arrumava os objetos para outra temporada, em outra cidade. A ex noviça observava Catarina suada de longe. Imagens apareciam e ela os expulsava. Os expulsava e eles voltavam, como uma rotina monótona. Era impossível não ter Catarina com si, pois era as ações da equilibrista que a movia.

Movia inclusive para perto dela. Como impulso ou como fraqueza, Elisa puxava Catarina pelos braços para algum lugar da cidade, queria a ter por perto, queria a possuir.

— Ei, para onde estou sendo levada? — Catarina perguntava não apreensiva, mas surpresa. Tudo o que mais pediu nesses três dias era ter Elisa por perto mais uma vez.

— Sinceramente, não sei. Só quero ficar com você.

Confusão era o resumia tudo o que passaram.

— Peço desculpas ao ocorrido anterior. Me perdoa, dançando comigo? — Elisa falou e fez uma referência direcionando-se para a garota em sua frente. Estavam no mesmo local de dias anteriores, na Praça do Nordestino.

— Dançar? Como, se estamos sem música? — Mesmo em relutância, ela levantara e colara o seu corpo ao dela. O vento suave, as folhas continuavam caindo.

— Escute a música com o seu coração. — Colocou a mão no peito esquerdo de Catarina. — De qualquer forma, tem uma que eu gosto, costumava a ouvir no rádio. 'How deep is the ocean'. Elisa e Catarina começaram a cantarolar, pois as duas conheciam aquela melodia e ao mesmo tempo que cantavam, rodopiavam e realizavam os passos de dança na praça vazia.

O quanto eu te amo?

Eu não direi nenhuma mentira

Quão profundo é o oceano?

Quão alto é o céu?

Quantas vezes no dia eu penso sobre você?

Quantas rosas são polvilhadas com orvalho?

Pararam, encarando-se, corpos se combatendo. Mãos deslizando sob o corpo uma da outra. Bocas chamando por companhia. As folhas ainda caindo.

O quão longe eu poderia viajar

Para estar onde você está

Quão distante é a jornada

Daqui para a estrela

E se eu te perder, o quanto eu poderia chorar?

Quão profundo é o oceano?

Quão alto é o céu?

Se envolvendo, enroscando, ardendo. Se juntaram, arrepiaram, sentiram. No meio de uma praça vazia, dançando uma música imaginária e vento as moldando, se beijavam, se completavam, se entendiam. Faziam se arder, ardiam loucamente pela paixão, pelo beijo, pelo desejo.

Se dissolviam. Se buscavam.

§

Mesmos corpos. Mesmo desejo. Cenários diferente.

Elisa e Catarina conseguiram dia de folga, na nova cidade em que estavam, Ilhéus. Visitaram toda o lugar e se encantaram com a cidade. Horas e horas sorrindo uma para outra, horas e horas com o corpo formigando em paixão.

Cansadas, arrumaram um lugar apenas para elas, depois que chegaram do passeio. Conversas entre beijos arfados ardendo entre si. Em qualquer assunto, os olhares era uma entrelinhas perigosa de ser entendido, tão perigoso como a nunca pedindo um toque específico.

— Paris me entorpece! Ela me chama a todo momento, custo negar atender seu pedido, porém é preciso. — Catarina falava enquanto a pouca luz do local iluminava o diálogo entre elas sobre receios e sonhos. — Elisa, imagine Catarina Junqueira nos grandes palcos, atuando em Paris, de preferência no 'Théâtre de l'Odéon'.

Riram ao ponto de descobrirem o que uma simples risada pode causar.

— Eu acredito piamente em ti. — Elisa falava ao pegar a mão de Catarina e acariciar a mesma. – Mas, para isso é preciso que você se permita.

— Só se você vier comigo, está é a minha única condição.

— Sempre a acompanhei e sempre a acompanharei.

Quando dois corpos se tornam um só? Quando somam entre si, se aterrem, se difundem, se desmancham, se misturam? Único. Unicamente dois corpos tornando um só. Adentrando, contorcendo.

Quando um olhar de cumplicidade se torna tentação? Elisa a viu, contrapondo com aquela pouca luz e a ansiou. Foi chegando mais perto e a beijou, a tomou inteiramente para si.

Em iminência se despiam, nuas e expostas ao fogo vivo que antes, Catarina e Elisa guardavam para si, mas agora partilhavam em cada toque, cada arrepio, cada lampejo, cada vibração e cada vez que Catarina tocava nas costas de Elisa. Lhe dedilhavam, lhe visitavam.

Sem terem pressa, se tornavam apenas um corpo, adentrando em cada curva corpo do corpo, contorcendo em cada ofegada. Sussurros, diversos deles, que só as duas podiam entender a magnitude.

Entretanto, nem todo sussurro vem acompanhado da paixão insaciável. Júnior, o malabarista, conversava com o Sr. Antônio enquanto os mesmos limpavam o picadeiro com esfregões. Sérios, com semblantes carregados de rancor.

— A suspeita do senhor estava correta, o que acaba me causando grande preocupação. — Júnior comentava o que parecia ser um grandioso segredo.

— Faça o que for preciso, não a quero perto da minha filha. — Falava rigidamente.

Onde um limite terminava, começava outro no mesmo espaço. E entre limites, duas medidas adormeceram, com seus ideais, rancores e paixões. Senhor Antônio dormia sob um lugar que borbulhava em gosto amargo de todas as suas dores amontoadas, Catarina e Elisa dormiam aconchegadas, corpo à corpo e também borbulhavam, neste caso, de paixão e tranquilidade.

Até Elisa cair em um profundo buraco, apenas ela e vultos que riam, murmuravam , apareciam ao seu lado e sumiam.

— Vão embora! — Gritava em desespero e sentava-se no chão, se acolhendo no próprio corpo. Gritos começavam ecoar, era impossível decifrar as frases soltas, cuspidas em seu frágil ser. Todo ambiente em que estava ia em sua direção, a cercando em um minúsculo lugar. Apenas ela e vultos gritando.

Foi Elisa que gritou desta vez ao sentir algo te tocando, mas ao contrário do que pensou, não era asqueroso e sim, sútil. Despertou com olhos de cigana a encarando preocupada e sibilando um "Está tudo bem.", a morena buscou refúgio em Catarina, abraçando-a fortemente.

Os sonhos, ou pesadelos, costumam projetar o nosso subconsciente, nosso medos, fugas e exatamente, tudo o que sentimos. Escute os sussurros e gritos do sonho, como escuta o coração.

"Escute. Tente escutar." Pensava Elisa ao chegar no grande local que o circo estava, todos olhando para ela com o olhar atravessado, que te atingia como um ácido, todos sussurrando entrem si. Catarina também estranhava, ambas caminhavam sob ferros quentes. Escute.

Elisa tentava escutar os sussurros, entretanto, o que ela não sabia era que precisava escutar os gritos rondando o lugar, gritos que não eram perniciosos, eram gritos de aviso.

O mais óbvio é o que menos costumamos perceber.

Rondando e rondando, os gritos ensurdeceram Elisa e também Catarina. Um peso as atingiu, estilhaçando, cortando.

— Saia logo daqui! Saia do meu estabelecimento, você está expulsa. — Antônio andava em passos fundos, se direcionando para Elisa. Uma multidão a xingava e a expulsava, as duas garotas estavam atônitas.

— Pai, o senhor poderia explicar o que aconteceu? — Catarina falava enquanto segurava para não chorar.

— Essa aí, — olhava com os olhos em tom fechado e escuro — roubou o nosso dinheiro de tanto esforço.

Elisa não tinha força para suplicar, Catarina queria desabar. Então, os segundos que foram observadas pareceram milênios, sendo torturadas pelo silêncio. Os olhos das duas se encontraram, Elisa sussurrava "Eu não fiz isso, acredita em mim!" em lástima.

Então ela partiu, as raízes que criara em Catarina e no seu amor era arrancado com brutalidade. Conseguiu deixar uma carta para sua amada, logo depois saiu para a Estação de Ferro de Ilhéus, perdida e desconcertada, sem dinheiro e sem rumo.

O que somos sem destino?

Elisa roubava os passageiros, de forma a conseguir dinheiro para seguir onde quer que fosse. Chorava, a verdade era que precisava ir encontro à elas mesmo. Por pouco não foi descoberta, por pouco não foi presa, desta vez, justamente. Que Deus perdoasse todos os seus pecados, que Ele entenda a sua urgência de entrar naquele trem, como fazia no momento.

Catarina sentia como se mil urubus a roesse, teu corpo estava roxo como se estivesse sendo asfixiada. Repetia inúmeras vezes as cenas, o olhar de Elisa pedindo por abrigo, o último abraço, o último adeus. Fincada no olhar e no sorriso de Elisa, sentia a sua presença em cada canto, era mais que necessidade ela seguir a garota, uma forte atração a puxava, mas ela iria encontrar apenas o vazio ou a carcaça. Elisa havia sumido, suas linhas, sua voz, ela precisava voltar. Sendo assim, lembrou de seu grande sonho e tomada pela raiva, nada a controlou, pegou toda a economia do Circo Junqueira e levou consigo enquanto fugia para Paris. Elisa ia ao encontro do enigmático , Catarina ia ao encontro do seu sonho; uma tomada pela injustiça, outra pela impulsividade e raiva.

Não somos capazes de nos controlar.

Em contato com o mar, Catarina pegou a pequena carta de Elisa, para que mesmo em palavras, a tivesse no seu lado.

"Catarina,

Aprendi a minha vida inteira sobre o que era pecado ou não, mas não aprendi a encara-los, de certo que seria impossível, como eu seria capaz de encarar os olhos castanhos que me deixam inquieta? É através deles que enxergo a verdade sobre mim, enxergo que o meu pecado e a minha paixão é causado pela mesma pessoa. Ainda não aprendi a encara-los, contudo, aprendi a ama-los e talvez, por falta de coragem nunca te respondi quando se revelou para mim, a verdade é que eu estava exposta para você há muito mais tempo e pode ter isso também que me levou a não dizer o óbvio, estou apaixonada por você, uma paixão que me escancara e que continuarei a sentir até a eternidade. Lembre-se da profundidade do mar, da sua intensidade, do seu azul forte e de sua imensidão, assim, sempre se lembrará de como é minha paixão e do que já formos. Me encontre, estarei sempre a sua espera.

Com todo o amor que sinto por você, Elisa."

Ardência

(s.f.)

1.Qualidade ou estado do que arde, fica em fogo, queima.

2.Qualidade de aceso, cintilante, iluminado

Parte III (Na primeira manhã)

1935 — São Paulo

Seu peito dilacerava ao estar novamente no país, dilacerava pelas lembranças que aquele solo compartilhava com si. Catarina fazia força para segurar o bebê no colo, enquanto segurava algumas malas na outra mão, ademais ela fazia força principalmente para expulsar ávidos olhos pretos. Correndo apressadamente e fazendo milagres segurando tantas coisas.

— Catarina, ande mais rápido. Estamos apressados.

O dia estava ensolarado e ao passar pelo Rio Tietê, pôde perceber que o rio estava cheio de banhistas e a cidade, praticamente, fervia. Todos na cidade se encontravam animados, mas ela estava secretamente cheia de receio, de nunca encontrar quem amava.

De certo que algumas coisas são predefinidas, como o risco que corremos ao seguir um caminho incerto, cheio de luzes que representa os sonhos, mas incerto. É por isso, muitas vezes, que alguns preferem o chão de concreto em que não ocorre nada e as possibilidades de se arriscar são menores. Alguns acreditam que, dependendo do caminho que preferimos seguir, o resultado é diferente.

A verdade é que os caminhos diferentes e consequentemente, o resultado diferente, são mentiras utópicas carregadas por geração por geração e deliberadas com palavras distorcidas. Nós, humanos, que somos diferentes, possuímos genéticas diferentes, trejeitos diferentes e principalmente, a forma que reagimos a cada situação é diferente, isso pois viemos de origens particulares com outras vivências, outras histórias e outra carga emotiva e até física, e é por isso que o final sempre será diferente para cada indivíduo, pois somos nós que possuímos divergências. Sabemos quem somos, a partir do momento que começamos a caminhada na única estrada que existe, é quando ocorre o mesmo, que vamos formandos nossos traços.

Catarina havia passado no mesmo caminho que Elisa havia também passado, tempos atrás. As duas tiveram descobertas, principalmente, sobre elas mesmos. Mesmo caminho, vivências diferentes e resultados diferentes.

Em 1935 havia tudo mudado, Elisa morava na capital de São Paulo agora, trabalhava como garçonete no 'Bar do Mané', que fora aberto em 1933 e morava em um cortiço com outras pessoas, que levemente era próxima. Catarina, havia se fechado com as possibilidades após sua má experiência em Paris, a cidade luz, já que não havia conseguido ser atriz e mal chegou perto disso, contudo, por sorte conseguira pelo menos um emprego, era babá de uma milionária família brasileira que morava na capital francesa, não fazia com tanto empenho, mas estava feliz com seu salário.

Elisa havia se acostumado. Catarina havia se frustrado.

Após de idealizaram tantas coisas, perceberam que idealizações são medos enfeitados de exageros, muito deles e independente de tantas idealizações e reações diferentes de acordo com as suas experiências, o que sobressaia em Elisa e Catarina era a saudade dando um nó ininterrupto nelas, a saudade que as deixavam desesperadas e sem lar, era um chamado agudo, como a garganta que sangrava e as obrigavam engolir o sangue preto coagulado, entalando e ficando preso no mesmo local toda vez que Elisa percebia que não tinha mais Catarina e que Catarina percebia que não tinha mais Elisa. Só não era vazio, pois a saudade tinha forma real, claramente, profana e impertinente

Honestamente, tudo nelas gritavam.

Catarina gritava para que Isabela não corresse muito, era certamente perigoso uma criança de dois anos correndo pelas ruas da capital paulistana, onde havia movimento constante de bondes e carros. No entanto, gritava mesmo a procura da pessoa a qual amava, mesmo em silêncio continuava gritando, bradando, clamando.

Catarina havia saído nas ruas para comprar as coisas a qual sua chefe havia pedido, mulher de pouco tempo pedia sempre a ajuda da moça e assim, basicamente, quem fazia tudo era ela.

— Isabela, pare de correr. — Gritava desesperada ao ver que a menina corria mais rápido, o bonde, da linha Bom Retiro, vindo em sua direção e preocupada, começou a correr também, suas mãos cheias de sacolas com tecidos finos.

O bonde vindo, a menina correndo, Catarina desesperada. Ela gritava, cada vez mais forte, em um chamado, um chamado tão estridente que nada poderia explicar.

O amor é como um chamado.

Catarina chamou e foi atendida, em frente à um bar, chamado Bar do Mané, viu a garota, Isabela, gargalhando e ao seu lado uma mulher. Ela travou, pois sabia de quem se tratava e então, ela renasceu e se libertou, as duas conversavam e logo depois os olhos pretos caíram sobre si e ela lembrou, com precisão, o que a paixão era capaz de fazer. Ela não sabia o mistério daquele olhar, daquela delicadeza e de seus traços fortes, no entanto, não ousava descobrir, única coisa que permitia era a admirar. Catarina foi chegando perto, primeiramente xingou a menina e depois se calou, mas continuava chamando continuamente.

O amor é como um chamado, de proteção, de apoio, de um lar. É um chamado de todas as coisas boas da vida e até das más que as envolve. O amor é silencioso, mas espaçoso.

— Não precisa falar nada, mas obrigada por salvar esta desvairada aqui. — Elisa riu do comentário de Catarina, ela já não ia falar nada mesmo, o amor é capaz de nos calar. — Eu demorei, mas de qualquer forma, te achei.

Isabela pouco entendia, era realmente entender a paixão resistente e delirante que possuíam.

— Não teve um dia sequer que não pensei em você. Sinto sua falta. — Elisa finalmente teve coragem de falar.

Não havia estranhezas, receios, desespero. Havia apenas duas mulheres que tornavam seus amores em único mais uma vez e que desejavam viver o amor que outros as impossibilitaram.

— Eu preciso ir, mas venha me ver no Parque Ibirapuera amanhã. Me encontre e eu entenderei que permanecerá. — Catarina disse indo embora, enquanto seu corpo pedia pela outra.

E aquele dia foi terminando, seus pensamentos permaneciam nos mesmos olhos desde que se encontraram e assim foi, também, no dia seguinte até o momento que o mesmo estava adormecendo, Catarina esperava inquietamente, nunca gostou da espera, pois a mesma não apresenta nenhuma precisão e a imprecisão lhe deixa inquieta. Observava o parque, que havia sido construído em pouco tempo, em 1926 e dispersa, viu uma sombra ao seu lado. Elisa. Nada era tão eletrizante como o amor que sentiam. Se abraçaram e na mesma sintonia de sempre, conversavam e riam.

Elisa e Catarina vieram, ambas permanecerão.

Permanecer

(v.i.)

1. Persistir com veemência; insistir.

2. Continuar durante um tempo num mesmo lugar.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.