Coletânea Lesbohistórica
4 Desabrochar - LKMazaki
Sobre a autora
LKMazaki é o pseudônimo de uma escritora de ficção-científica e fantasia natural de Manaus e com recém-completos 30 anos. Vive há uma década em Porto Alegre e nunca fica reticente diante de desafios. Traz sua contribuição para a coletânea no intuito de experimentar uma temática inédita para si, a Ficção Histórica, e também para falar de um de seus assuntos preferidos: a história da cultura lésbica japonesa no Século XX. A temática lésbica está presente em seus trabalhos, sejam eles obras sobre o cotidiano, robôs, sociedades espaciais ou distópicas. Seus trabalhos podem ser encontrados em: https://lkmazaki.com.
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1919 — Asakusa, Japão
A primavera da minha vida foi tomada pelo frio do outono na virada daquela estação. As folhas tornaram-se secas e dentro de mim a inquietação crescia como presságio mórbido do que nem poderia imaginar.
Não poderia dizer isso a ela. Não para Eiko. Seu sorriso tinha um brilho e calor tão intensos que jamais desejaria ofuscá-lo.
Porém aquela já era uma batalha perdida para minha vontade:
― Kaoru-chan? ― chamou a voz tão suave e doce que por si só iluminava o mundo. Até então eu estava com o olhar perdido, fintando o pátio da escola. As outras alunas chegavam, a maioria em pares, para mais um dia de lições na nossa nobre escola.
― Eiko-chan, muito bom dia ― cumprimentei à moda formal. O rosto delicado e tão feminino de minha grande amiga estava voltado na minha direção. Seus olhos expressavam a nota de consternação que se traduziu em palavras:
― Está tudo bem?
O vento trouxe o ar frio para o corredor. Um arrepio me passou pelo corpo inteiro, quase doloroso:
― Eiko-chan... Será que.... Você pode vir comigo à sala de música?
As íris de Eiko refletiram com intensidade a claridade do dia. Sua expressão ganhou tons suaves, mas carregados de emoção. Ela desviou o olhar:
― Claro, Kaoru-chan.
Com a inauguração do segundo prédio de aulas, as antigas salas de música e teatro tinham sido abandonadas. Não soaria bem que uma escola de tanto prestígio na classe média de Asakusa, voltada para a perfeita educação das filhas das mais importantes famílias, reutilizar instalações antiquadas tendo tantos recursos. Fora sabendo disso que eu e Eiko tínhamos escolhido a sala de música como nosso esconderijo particular. Um espaço pequeno, tomado de antigos móveis ali depositados, mas um lugar de imensa importância para nós. Ali, e apenas ali, não seríamos julgadas por nossa amizade.
A porta se fechou com um clique suave por dentro. A luz do dia entrava pelas brechas da cortina de tecido amarelo. Tudo estava parado, estático, mas dentro de mim a tempestade já tinha começado há muito tempo.
Abracei Eiko, envolvendo seu corpo tão magro e frágil em meus braços. Ela não resistiu, mas sim apoiou-se contra mim. Seu rosto em meu ombro, nossos corações tão próximos quanto poderiam ser. Eu podia sentir o coração de Eiko tão nitidamente quanto o meu próprio. O calor da sua pele... o cheiro de lírios dos seus cabelos... sua respiração pontuada por suspiros mínimos...
― És tão preciosa, minha querida Eiko ― falei num sussurro quase trêmulo. Uma nota entre a dor e a alegria escapou dos lábios da minha amiga.
― Kaoru-chan... Eu...
― Por favor, não diga nada agora...
Tão próximas.... Tão próximas.... Sentia como se nossas almas estivesse se misturando em uma única:
― O que aconteceu, Kaoru-chan? ― indagou-me outra vez, minha preciosa amiga. ― Posso ver o medo por detrás dos teus lindos olhos.
Ela sabia. É claro que saberia. Minha alma era como a água mais cristalina diante do seu olhar carinhoso:
― Eiko.... eu tenho tanto medo.... O mundo quer nos distanciar.
Eiko se afastou o mínimo para fitar meus olhos amedrontados. Suas pupilas dilatadas eram como armadilhas inescapáveis:
― Tua família disse algo? ― ela perguntou. Olhei para baixo, para o uniforme preto à marinheira de Eiko, e depois para seu rosto.
― Marcaram um jantar para que eu conheça meu noivo ― falei. O olhar gentil de Eiko, tão belo, tão puro, preencheu-se com uma sombra de dor que rasgou meu coração.
― Entendo ― ela disse, fraca ― É o natural né, afinal já estamos no outono...
― Não é natural. Não é ― exclamei em meu desespero que emergia das profundezas que tentara aprisioná-lo. Eiko pareceu amedrontada diante da minha agressividade. ― Não quero me casar. Não quero que a primavera chegue. Eiko-chan.... Tudo o que posso querer está aqui.... Nestes momentos.... Nesta sala.
Eiko desviou o rosto. Suas notas de dor agora já eram acordes gritantes de sofrimento. Ela sorriu, mas ali eu só conseguia enxergar o choro:
― Acho que.... Não temos como evitar, não é... ― disse ela. ― É como em Hana Monogatari. Histórias tão belas, de amizades verdadeiras, mas que terminam em pura melancolia.
Claro que eu conhecia o Hana Monogatari. Não havia aluna que não tivesse lido as revistas shôjô, onde os contos da famosa Nobuko Yoshiya-sensei foram publicados. As amizades das histórias eram em algum ponto parecidas com a nossa amizade. Mas nada poderia se comparar ao que eu sentia por Eiko.
Minha vida não poderia existir se tivesse que me afastar dela.
― O sinal ― disse Eiko, quando o soar do sino de início dos períodos de aulas chegou até nós. ― Vamos nos atrasar.
― Eiko... ― eu não queria soltá-la.
― Kaoru-chan... ― mas ela se desvencilhou dos meus braços. ― Por favor, não fique com essa expressão tão dolorosa, por favor.
Ela se aproximou e seus lábios tocaram meu rosto. Minha pele pareceu queimar onde ela tocou e meus olhos fitaram sua boca fina e delicada. Seu rosto estava rosado como provavelmente o meu estava.
Eiko deu um passo para trás e fez uma reverência breve e silenciosa, saindo em seguida. Eu permaneci olhando para o vácuo da sua ausência por longos instantes, até o soar do segundo sinal do início das aulas.
― Incomum ver você chegar tão em cima do horário, Senhorita Yamakawa ― comentou a aluna que sentava à cadeira ao lado da minha na sala de aula. Era o intervalo entre a segunda e terceira aulas. Várias alunas tinham levantando para ir conversar às mesas das amigas, mas eu não tinha sequer me movido desde a saída da professora.
― Yuna-chan ― falei, sem me preocupar com formalidades com a minha amiga mais próxima na turma. ― Foram só alguns minutos depois do usual.
― Eu sei, só estava te provocando, Kaoru ― disse Yuna, apoiando o rosto na mão de maneira pouco elegante. Ela era uma pessoa bem alheia às normas de etiqueta no geral, mas eu já tinha me acostumado àquilo. ― Né...
― Hm?
― Você estava por aí de novo com a Aida, não estava? ― perguntou Yuna, me pegando de surpresa. Provavelmente só minha expressão foi o bastante para que ela tivesse sua resposta. ― Sabe que os professores vão dar uma bronca em vocês se pegarem essas atividades de Classe S.
― Classe S... ― repeti, com frustração. Aquele era o apelido hediondo que utilizavam para "garotas que são amigas demais". Nos últimos tempos aquele termo também era sinônimo de algo perigoso para pais e professores. ― Eiko-chan é minha amiga.
― Eu sei que é ― disse Yuna, parecendo divertir-se. ― Eu adoraria que a professora Sato fosse assim minha amiga também. Tenho inveja de você.
― Como é?
― Não diga isso que te falei para ninguém, está bem? ― pediu ela, erguendo uma das mãos diante do rosto como um pedido de desculpas. ― Meu pai me mata se eu levar uma advertência escrita por comportamento Classe S.
Esbocei um riso com aquela conversa toda e voltei minha atenção para reorganizar meus materiais antes do começo da próxima aula. Só desejava que as horas passassem. Depois dos períodos da tarde iria buscar Eiko para que voltássemos para casa juntas.
Porém, quando as aulas acabaram e eu fui até a sala de Eiko descobri que ela já tinha ido embora. Aquilo me doeu muito. A rejeição era tudo o que eu mais tinha temido ao longo daqueles meses em que velei o segredo sobre o noivado.
Agora estava tudo perdido. O fim da minha vida e da minha maior felicidade tinham sido definidos para tão próximo a mim que jamais poderia desviar de tal destino pavoroso.
Tomei o caminho para casa sem atenção. Meus passos foram me conduzindo enquanto eu refletia sobre minha imensa dor. Nos meus pensamentos as tantas lembranças dos momentos de sorrisos na sala de música eram pontuadas pela expressão de sofrimento que eu colocara no rosto de Eiko naquela manhã.
Será que aquilo era realmente o natural?
― Kaoru, chegou cedo hoje ― foi o cumprimento que minha mãe me deu quando me viu trocando os sapatos à porta. ― Sua irmã está aqui. Depois venha conversar conosco.
Apesar de não estar com ânimo para as conversas delas eu sabia que aquilo não era apenas um convite. Deixei minha pasta no quarto e passei no lavabo para lavar o rosto e mãos antes de ir para a sala. Tanto a minha mãe quanto minha irmã usavam quimonos de tecidos tingidos à mão. As flores da roupa de minha irmã eram vibrantes em rosáceo, mescladas a galhos de verde vivo. Já o tom geral do quimono de nossa mãe era um pardo escuro, com poucas flores tingidas:
― A quanto tempo, Kaoru ― cumprimentou-me Moriko, com um sorriso elegante. Seus longos cabelos negros estavam caídos com graça pelos seus ombros e costas e a maquiagem abrilhantava sua presença.
― Irmã ― foi minha resposta, curvando-me antes de sentar à mesa baixa ao centro do cômodo forrado de tatame pardo. O chá foi servido por uma de nossas empregadas e logo estávamos outra vez sozinhas.
― Como estão os estudos? ― perguntou-me Moriko, após bebericar tão suavemente seu chá que de verdade deve ter apenas encenado o gesto.
― Bem ― foi minha resposta. ― As provas trimestrais estão se aproximando.
― Kaoru sempre nos dá bons resultados ― comentou nossa mãe.
― Você sempre foi inteligente, Kaoru ― elogiou-me Moriko. Sorri de leve e baixei o olhar.
― Ainda tenho muito para melhorar ― falei.
― Não é preciso que estude tanto assim ― colocou mamãe. ― Não há muita utilidade em conhecimentos de história e aritmética para uma mulher casada.
Minha respiração travou no peito. Era óbvio que o assunto surgiria, mas não sentia que poderia suportar:
― Não diga isso, mamãe ― disse Moriko, num tom de risada. ― Mulheres podem gostar de conhecimento.
Só então eu entendi que aquilo tudo era uma encenação:
― Né, Kaoru ― disse Moriko. ― Mamãe estava me falando do jantar com seu noivo. Estava pensando em ajudá-la com a roupa para a ocasião.
― Faça isso, Moriko. Kaoru não sabe se vestir como uma moça.
― Né, mamãe ― falei, numa voz tremida. Sabia que estava indo muito além dos meus poucos limites, mas não poderia me entregar daquela maneira à armadilha que tinham preparado.
― Fale, Kaoru ― autorizou ela.
― Será que.... Não existe alguma possibilidade de.... De adiar esse jantar? ― falei, tropeçando nas sílabas.
― Do que está falando, Kaoru? ― indagou mamãe, a voz ficando severa de imediato.
― É que.... N-Na verdade.... Ainda mal começou o outono... ― eu ia falando, sem realmente conseguir articular pensamentos para falar.
― Sua tola ― ela chiou. ― Esse noivado já está atrasado demais. Se não adiantarmos as coisas você vai se formar e ainda não teremos nada definido.
― Mas...
― Calada!
A exclamação cortando me esmagou dentro dos meus sentimentos doloridos. Não conseguia respirar direito e sentia o choro preso na garganta começando a vencer minha resistência. Podia sentir os olhares me esmagando. Não podia resistir. Levantei e saí quando as primeiras lágrimas começaram a vencer pelas minhas pálpebras.
― Kaoru-
Não parei, não obedeci. Corri para meu quarto e puxei a porta para fechá-la com força, quase tirando-a do lugar. Ali dentro estava tudo às escuras, mas eu tropecei até minha cama ocidental, me largando sobre as cobertas. O choro explodiu, me fazendo abafar os gritos de desespero com os travesseiros.
Aquele era o fim. O meu fim. Só conseguia pensar em Eiko e na tristeza que tinha colocado também sobre a vida dela:
― Kaoru?
A voz de Moriko veio da porta, me fazendo calar. Busquei respirar e tentar controlar as lágrimas. Ela entrou depois de um instante e foi até a janela, abrindo-a. Depois veio até a cama, onde sentou do meu lado. Tive que reunir todas as minhas forças para também sentar-me quando meu corpo parecia pesar toneladas:
― Você está assustada, não está? ― foi a primeira pergunta que ela me fez. Não era a pergunta que eu esperaria.
― Sim ― foi o que articulei. Ela lançou um olhar carinhoso na direção da minha escrivaninha e a pequena estante, recheada de livros de literatura ocidental e revistas.
― É normal ficar assustada com um futuro que não se entende ― ela disse.
― Você não parecia assustada quando tinha minha idade ― falei, relembrando do tempo em que aquele quarto era de Moriko e eu ainda era só uma criança.
― Eu estava ― contou Moriko. ― Muito, na verdade.
Aquilo me surpreendeu. Fitei seu rosto tão elegante e suave. Ela permaneceu entretida com os móveis, como se estivesse de alguma forma revisitando seu próprio passado:
― Você tem falado com aquela sua amiga, Eiko?
Aquela era outra pergunta que eu não poderia esperar. Meu coração pulou no peito de medo por algo que nem conseguia entender bem:
― Sim...
― Contou para ela do noivado?
― Contei ― meus olhos desceram para minhas mãos. ― Ela não pareceu surpresa.
― Não teria porquê ficar surpresa. Afinal estão terminando a escola ― pontuou Moriko. ― Ela também deve estar envolvida com noivado.
― Acho que não ― falei. ― O pai dela deseja que ela faça um Curso Superior.
― Faculdade? Verdade? ―Moriko me olhou com tanta pressa que não pude evitar corresponder-lhe o olhar. Ela estava surpresa. ― Essa é.... Uma decisão incomum do Senhor Aida.
― Talvez nem tanto, irmã. A escola hoje em dia tem muitas professoras que frequentaram a Universidade.
― Várias mulheres têm feito coisas que não se esperam delas nestes tempos ― ponderou Moriko, afastando os olhos de mim.
Aquelas palavras pareciam ter muitos sentidos, então preferi não comentar mais nada. Aproveitei aquele momento para respirar um pouco. A sensação de peso sobre meu corpo diminuía aos poucos:
― Sabe, Kaoru ― retomou Moriko. ― Na época da escola eu também tinha uma amiga que me era muito querida.
― Irmã... ― falei, tomada pela surpresa daquelas palavras.
― É verdade ― ela disse. ― Éramos muito próximas. Tão próximas quanto duas pessoas podem ser próximas em uma vida. Eu acreditava que não poderia seguir com minha vida quando tivesse que me separar dela.
Eu mal podia acreditar no que estava ouvindo. Moriko sempre tinha sido uma imagem de perfeição para mim. Imaginar que ela tenha passado por algo tão parecido com o que eu estava passando...
― Por isso, Kaoru, eu quero te dar um conselho de irmã. Um conselho para que leve consigo.
"Deixe isso para lá. "
Meus olhos se arregalaram sem que eu pensasse nisso. Moriko tinha um olhar encoberto pelas sombras dos seus longos fios negros lisos:
― Deixe. Isso é apenas uma bobagem da juventude. Você precisa crescer e se tornar uma adulta ― disse-me ela antes de levantar. Seu lindíssimo quimono deslizou pelo quarto e desapareceu na entrada enquanto meus olhos estavam grudados na sombra deixada pela sua passagem.
Só existia um único caminho diante de mim e eu não sabia se poderia atravessá-lo sem deixar minha própria alma pelo caminho.
Apesar de toda a maldição do meu destino o jantar acabou sendo adiado em um mês devido aos estudos de campo que o rapaz para quem meu pai tinha me prometido iriam tomar mais tempo do que o esperado. Essa informação não me acalmou em nada o coração, mas me fez perceber o tamanho da minha ignorância em meio ao meu próprio destino. Eu não fazia ideia do que era a vida ou a pessoa a quem teria que me sujeitar dentro de meio ano. Ainda que mamãe vivesse falando pelos cantos que ele parecia um bom rapaz, eu jamais teria certeza até o dia em que estivesse acorrentada a ele sem retorno.
O meu sofrimento era perene, dia e noite, dormindo ou acordada. Durante as aulas eu só tinha esperança de conseguir falar com Eiko a sós outra vez, mas cada dia ela evitava-me com empenho pouco disfarçado. Ela saia cedo, chegava tarde, estava sempre em sala conversando com colegas ou acompanhada por alguma das novatas que ajuda nos estudos de gramática. Quando não a via minha alma parecia vazia, mas quando a via ao longe a tempestade daquela dor parecia me destruir por dentro.
Eu não sabia o que fazer. Eu não tinha nada que pudesse fazer. Iria sofrer e definhar até o ponto em que não pudesse mais suportar a dor de respirar. E, ao longo de todo esse processo fatal, minha expressão sequer tremeria, pois desde sempre tinha sido ensinada a suportar tudo quieta, a não fazer alarde dos meus sentimentos ou pensamentos. Não existia liberdade alguma no meu mundo imediato, por isso eu, mais do que nunca, me afundei na literatura estrangeira. Ah, como era invejosa da liberdade incrível daquelas mulheres dos romances europeus. Elas se viviam de corpo e alma, amavam de corpo e alma e também odiavam assim. Eu só queria ser como uma delas.
Mas no meu mundo, como no mundo do Hana Monogatari, tudo era pautado pela melancolia, a frustração e o medo do futuro. Esse era o meu mundo.
― Kaoru ― me chamou Yuna por alguns minutos antes que eu percebesse. ― Ei, você está longe do mundo hoje.
―Yuna, me desculpe ― falei. ― Estava só pensando.
― Você tem pensado muito, é verdade ― comentou minha colega. ― Quer ir na livraria no caminho para casa?
― Eu... ― pensei em recusar, pensando em procurar Eiko mais uma vez. Porém, depois de tantos dias, percebi que não adiantaria continuar insistindo. ― Claro, seria ótimo.
Nós tomamos o rumo da livraria sem muita pressa depois das aulas. Yuna adorava aqueles pequenos passeios, sempre parando para admirar os mesmos córregos, templos e comprando sempre os mesmos tipos de doces. Ela falava sem parar sobre as mais recentes briguinhas envolvendo alunas do segundo ano. Fofocas como aquela eram os principais assuntos dentro da santa instituição cristã de educação para moças e devo dizer que também me divertia bastante com aqueles assuntos, apesar de ser péssima para conseguir as informações. Nisso a Yuna era boa e por isso nossa amizade tinha um pequeno acréscimo de diversão pela possibilidade de ouvir dela todas as conversinhas que rondavam pelos corredores:
― O que dizem é que a Takeuchi não deixou a Naba sequer falar algo durante a reunião do Conselho Estudantil ― seguia falando ela, em meio tom, quando já nos aproximávamos da livraria mais frequentada pelos estudantes do bairro.
A Livraria Himawari era cuidada por dois irmãos. O mais velho, Yashiro, tinha por volta de 25 anos e era o alvo favorito das alunas de nossa escola. Quando chegamos não era diferente do habitual e duas garotas do primeiro ano pediam recomendações sem fim para o vendedor de sorriso simpático. No caixa ficava a discreta Himeko, um ano mais nova do que o irmão e responsável pela organização do lugar. Talvez por causa das constantes conversas afetadas ao redor do Senhor Yashiro ou sempre tenha preferido dirigir-me à Senhorita Himawari pontualmente. Como eu frequentava o lugar desde o começo do colégio a proprietária até lembrava das minhas preferências de compra:
― Muito boa tarde, senhoritas ― cumprimentou-nos Himeko, com um sorriso pequenino no seu rosto suave.
― Senhorita Himawari ― respondi, sorrindo. Depois de tantas quadras ouvindo as histórias frívolas da escola e agora vendo a figura sempre tranquila de Himeko eu me sentia em um raríssimo momento de calma durante aquele momento tempestuoso.
― Como tem passado, Senhorita Yamakawa? Faz algum tempo que não aparece ― comentou a jovem Himawari, sorrindo diretamente para mim. ― Nem você nem a Senhorita Ainda, na verdade. Ela está bem de saúde?
Aquela pergunta me fez voltar a sentir uma pontada dolorosa no peito. Claro que quase sempre que vinha até a livraria era na companhia de Eiko. Ela era consumidora fervorosa das revistas shôjô e eu acabava acompanhando várias das suas compras:
― Acredito que ela esteja bem ― me forcei a dizer, com um sorriso pálido. Algo na expressão da mulher me fez questionar se estava falhando em cumprir meu papel de boa aluna.
Àquela altura Yuna já estava entretida nas prateleiras de lançamentos enquanto eu tentava me lembrar do motivo de estar naquele lugar, agora que a falta de Eiko tinha sido tão brutalmente relembrada. Pensei em ir para casa, mas antes que desse meia volta a voz de Himeko chegou até mim novamente:
— Chegou um livro novo daquela autora que você gosta, Yamakawa — ela disse. — A Nobuko Yoshiya.
— Verdade? Então irei levar uma cópia — falei, sem hesitar. Não que acreditasse realmente que novas histórias melancólicas e sem esperança da Yoshiya fossem me ajudar, mas porque poderia me lembrar de todas as vezes em que eu e Eiko tínhamos discutido seus enredos em nossos momentos na sala de música. Aquela escritora era parte daquele nosso mundo, por isso sentia que pelo menos esta eu iria manter comigo.
Depois de comprar o livro me despedi rapidamente de Yuna, ainda totalmente entretida com as revistas sobre invenções, carros e outras esquisitices. Voltei para a rua e percebi a claridade típica do final de tarde. Pela primeira vez em algumas semanas chegaria em casa por volta do anoitecer. Estava tão distraída que quase colidi com uma mulher sem perceber. Dei um passo para trás e pedi desculpas enfaticamente:
— Ah, Yamakawa?
— Professora? — levantei o rosto, reconhecendo a voz de Setsuna Toshio, professora de literatura da nossa escola. Ela era uma mulher bastante jovem, de cabelos finos presos atrás da cabeça e óculos discretos. Ela me sorriu.
— Você está bem? — perguntou ela, referindo-se ao quase acidente.
— Sim, claro — me apressei em dizer. Por algum motivo pensei que seria estranho sair friamente e decidi alongar o mínimo o diálogo. — Você também frequenta a Livraria Himawari?
— A Livraria? Ah, não com muita frequência — respondeu a professora, parecendo divertir-se com algo. — Na verdade eu moro aqui.
— Aqui? — não consegui evitar a falta de educação ao perguntar algo de modo tão incisivo, mas não era como se pudesse esperar aquela resposta.
— Sim, eu alugo uma peça no andar que fica em cima da Livraria — ela explicou, certamente vendo minha confusão. Porém, aquela resposta apenas aumentou minha curiosidade.
Mordi a língua para não dar vazão a mais um questionamento. Desviei os olhos já pensando na maneira de me despedir demonstrando minha culpa por ser tão indiscreta:
— Quer conversar lá em cima? Isso se você não tiver hora para voltar para casa — convidou a professora Toshio, me chocando mais uma vez.
— Seria um prazer — respondi, seguindo o ensinamento de educação e gentileza como um robô.
O andar de cima inteiro era uma única casa de madeira. O piso era novo e tudo muito bem conservado. Fiquei na sala enquanto a professora buscava chá e dois copos. Aceitei a bebida e tomei um pequenino gole de educação. Era impossível que meus olhos não fossem para os cantos com curiosidade. Tudo era muito limpo e haviam muitos livros organizados:
— Eu disse que alugava uma peça dos Himawari, mas a verdade é que eles são bastante generosos e deixam que eu utilize o que precisar — comentou Toshio, após também tomar um gole do chá frio.
— A senhora mora aqui... — falei, sem saber muito a intenção das minhas próprias palavras. — Mas... Não é casada?
— Não sou — confirmou Setsuna, encarando-me com os olhos finos que tinha. — Deve parecer estranho para você.
— Um pouco — admiti. De algum modo toda a estranheza daquele momento me fazia sentir como se estivesse fora da realidade e, estando fora, era capaz de falar com uma professora sem a distância adequada. — Minha mãe sempre diz que a vida de uma mulher é o casamento.
— É o que muitos pensam — concordou a professora. — Mas eu nunca pensei dessa maneira.
Olhei para aquela mulher com expectativa. Ela sim parecia como algo fora da realidade, falando daquela maneira. Ela tinha olhos afetuosos na minha direção:
— Você tem parecido cabisbaixa nestas semanas, Yamakawa — disse ela. — Não só você...
Desviei o olhar. Até a professora sabia que eu e Eiko eram tão próximas. Surpreendia que não tivéssemos nunca sido suspensas ou levado uma advertência por aquele comportamento tão "classe S":
— Você já tem noivo, Yamakawa?
— Sim — falei num sopro. — Ainda não o conheci, mas está tudo acertado.
Ela meneou a cabeça:
— Deve estar sendo difícil.
Meu coração batia forte:
— Sabe... — começou Setsuna, fintando o chá diante de si com muita concentração. — Nem todas as pessoas foram feitas para as mesmas coisas. Isso é verdade mesmo para cada uma de nós, mulheres.
— Algumas foram feitas para o casamento — continuou ela. — Outras para as artes. Outras para batalhar por uma vida para si. Ainda que não seja fácil, cada vez mais mulheres se tornam professoras, enfermeiras e secretárias.
— Eu.... Não imaginava que isso acontecesse — admiti, sentindo vergonha da minha ignorância.
— Não a culpo. É difícil enxergar algo diferente quando tudo ao seu redor mostra uma única direção — consolou-me a professora Toshio. Ela então olhou para o relógio ocidental de corda à parede. — Acho que você precisa ir se não quiser atrasar-se para o jantar.
— Verdade. Desculpe por incomodá-la — falei, levantando-me assim como ela.
— Não foi nada. Se não tivesse comprado peixe apenas para mim e Himeko hoje certamente iria convidá-la para comer conosco — disse Toshio, sorrindo de novo de sua maneira tão receptiva. Chegamos à entrada e eu calcei meus sapatos enquanto pensava.
— Professora, desculpe ser intrometida de novo — falei, sem querer me livrar tão rápido daquele instante de liberdade surreal. — Mas.... Você disse que comprou o suficiente apenas para duas pessoas? Mas...
Setsuna sorriu de novo como se achasse graça:
— O Yashiro mora mais no centro da cidade, com a esposa dele, Yamakawa — ela respondeu. — Boa noite.
Cheguei em casa praticamente na hora do jantar. A refeição foi silenciosa como sempre. Minha mãe apenas me perguntou onde tinha passado na volta e se contentou quando falei da livraria. Depois disso fui para meu quarto e acendi as luminárias com a desculpa de fazer meus exercícios de aula.
Porém, naquela noite eu não estava com qualquer capacidade de pensar em equações ou textos de geografia. Deitei na cama e fiquei encarando o teto, repassando as poderosas palavras que a Professora Toshio tinha me dito na nossa conversa.
Viver por si mesma. Isso parecia tão fantástico quanto impossível. Como poderia pagar uma casa, comida e roupas sem meu pai? Poderia trabalhar, mas a verdade é que eu não fazia ideia do que era um trabalho de verdade. Conhecia professoras, mas não tinha diploma para dar aulas, conhecia vendedoras, mas não tinha nada o que vender. Também conhecia empregadas, mas pensar nas broncas terríveis que minha mãe dava nas nossas empregadas me fazia desistir também dessa ideia de imediato.
Seria realmente possível uma mulher viver por si naquele mundo onde os homens mandavam e nós éramos destinadas a sermos boas esposas e mães sábias?
— O livro — falei ao silêncio do meu quarto, lembrando da tarde. Fui até minha pasta e tirei o embrulho do volume que tinha comprado. O título era misterioso como poderia se esperar de Yoshiya-sensei.
Duas virgens no sótão.
Comecei a leitura às oito da noite sem pretensão de ir longe. Porém, aquele livro me tomou de uma maneira arrebatadora através de suas páginas.
Aquela era uma história de amor. Mais do que isso, era uma história de paixão. Ao invés de duas estudantes que seguiam seus destinos a contragosto ao terminar a escola, ali o que se via eram duas mulheres, estudantes universitárias, que nutriam uma paixão recíproca.
Nunca tinha visto um beijo entre homem e mulher na minha vida. Mas, naquela noite, eu senti como se tivesse visto um beijo real entre duas mulheres, bem diante dos meus olhos. Meu coração pareceu quase explodir de emoção naquele momento. Naquelas palavras tão belissimamente encadeadas pelas mãos da artista eu senti, num momento fugaz, que aquelas duas mulheres eram eu e Eiko, e finalmente entendi a dimensão da dor que me assolava naqueles dias.
Eu era uma daquelas mulheres. Eu queria, com todas as minhas forças, viver uma vida para mim mesma. Eu queria, como eu queria, ser com Eiko o que aquelas personagens eram uma para a outra. Amantes.
Com aquele entendimento enfim alcançado, foi muito fácil traçar minha trajetória. Era possível que estivesse apenas me iludindo sobre o mundo e sobre eu mesma, porém não iria voltar atrás naquilo sem ir até o limite do que podia fazer.
— Aida-san? — ouvi a voz da estudante falar. — Tem uma aluna de outra sala querendo falar com você.
Eiko olhou na direção da porta aberta. Era horário de almoço, então os sons de conversas preenchiam tudo. Ainda assim eu, mesmo sem desviar os olhos da pessoa que aguardava, pude sentir que várias cabeças se voltaram na minha direção. Eiko levantou, apressada e veio até o corredor, caminhando mais alguns metros para que ficássemos longe das vistas da turma:
— Pois não? — ela perguntou, estando com as orelhas muito vermelhas. Seu rosto estava a menos de dois metros de mim, tão lindo quanto eu me lembrava, mesmo quando transfigurado por notas de choque e raiva.
— Preciso falar com você, Aida-san — falei, com a voz mais pesada do que esperaria. Tinha feito questão de ater-me às formalidades totais para que Eiko entendesse que eu não estava ignorando a distância que ela colocara entre nós. Porém seus olhos pareceram denunciar que aquele tratamento lhe incomodava.
— Eu... — ela falou, hesitando. Quase não passava ninguém pelo corredor, mas ela fez questão de aguardar que a última pessoa desaparecesse dentro da sala. — Não sei se hoje terei tempo após as aulas...
— Então voltarei amanhã para perguntar novamente — falei. Sentia uma força dentro de mim como nunca antes. Eu não era mais como uma das tantas folhas secas do outono, caindo ao sabor do vento. Eu sabia o que sentia e entendia o que precisava fazer e isso me dava uma vontade que não imaginava possível. Eiko me encarou nos olhos e sua expressão que tentava ser contrariada quebrou-se diante do meu olhar.
— Kaoru-chan... — ela disse, numa voz sôfrega. Aquele tratamento fez a chama daquele sentimento arder dentro do meu peito com a força do motor de uma locomotiva. Suspirei como se precisasse arrancar um pouco do ar escaldante que me queimava por dentro.
— Por favor, Aida-san — pedi, sem mais conseguir manter o tom uniforme. Minha voz tremia, meus olhos piscavam demais, mas minha determinação era a mesma, irredutível.
O sinal que marcava o fim intervalo de almoço soou por toda a escola enquanto nos encarávamos naquela guerra de vontades veladas:
— Está bem — disse ela, baixinho entre os toques do sinal. — Na sala de música, depois das aulas.
Eu sorri, com um alívio que quase me tirou as forças das pernas. Eiko passou por mim como o vento, voltando para a sala de aula. Quase ri sozinha no corredor, voltando aos tropeços para a sala de aula.
As aulas do começo da tarde nunca foram tão irrelevantes na minha vida. Talvez Toshio-sensei tenha olhado na minha direção duas vezes enquanto explicava mais um movimento literário europeu, mas eu não registrei nada do que ela disse. Nada daquilo me importava mais. Apenas o sinal tão desejado do fim das aulas foi captado pela minha audição adulterada.
Tomei um desvio longo, visando não ser notada por ninguém no caminho para a sala de música. Quando cheguei lá Eiko já me aguardava. Sua figura magra e pequena cortada contra a luz amarelada que entrava através das cortinas. Ela virou-se na minha direção com a mesma expressão relutante de antes. Mas aos meus olhos isso não era empecilho para sua beleza única.
Larguei minha bolsa no chão sem pensar e fui de encontro a ela. Eiko pareceu quase assustar-se, mas não relutou quando a abracei. O toque do tecido do uniforme, o perfume e o seu calor invadiram meus sentidos todos de uma vez de forma tão abrupta que uma nota de emoção escapou de mim quando a apertei nos meus braços. Mergulhei meu rosto na curva do seu pescoço e senti vontade de rir e chorar ao mesmo tempo:
— Kaoru-chan... — arfou a minha amada amiga, abraçando-me de volta quase com desespero. A voz lacrimosa sobrepujando seu autocontrole. — Kaoru-chan...
— Eiko.... Minha Eiko.... — eu murmurava, repetidamente em vários tons, deixando meus sentidos serem engolfados pela presença que tanto me fez falta. Durante alguns minutos nós duas ficamos perdidas naquele alívio quase enlouquecedor de estar na companhia uma da outra. Apenas depois disso foi que Eiko afastou-se minimamente para encarar meu rosto. Nós duas estávamos abaladas pelo choro:
— Por que me chamou aqui, Kaoru-chan? — ela me perguntou.
— Porque eu não posso mais suportar a dor, é por isso — respondi sem hesitar. — Eu não quero estar longe de você, Eiko.
— Mas... você sabe... não há o que possamos fazer — relembrou ela, com a expressão dolorida. — Não importa o quanto tentemos fingir que é diferente.
— Não. Você está errada.
Eiko me encarou com estupor visível diante daquela contrariedade impositiva da minha parte:
— Nada vai me separar de você, Eiko. Eu já decidi o que quero para meu futuro.
— Do que está falando, Kaoru-chan? — ela indagou, num sussurro assustado, como se temesse qualquer resposta que eu poderia lhe dar.
— Eu vou para a Universidade com você — falei.
— Mas... — ela começou, numa tentativa de desviar os olhos dos meus, mas sem sucesso. — O seu noivado...
— Não importa. Irei falar com minha mãe. Se preciso irei falar com meu pai — proclamei. — Nada irá me impedir de realizar isto.
— Kaoru-chan...
— Nada irá me separar de você, Eiko — falei, com a voz pesada. — Eu amo você mais do que qualquer pessoa no mundo.
— ... !
Eiko tremeu sob minhas palavras e dentro do meu abraço. Seus olhos se tornaram incrivelmente brilhantes e uma lágrima silenciosa vazou para seu rosto delicado e magro. Levei minha mão para enxugar sua face e senti ela vacilar ao meu toque suave. Meu coração batia acelerado dentro do peito, mas ao olhar para seus lábios, tão próximos e tão perfeitos senti meus batimentos ainda mais violentos:
— K-Kaoru-chan... — gaguejou, a boca balbuciando palavras incompletas. Eu não conseguia mais evitar de me aproximar cada vez mais. Estava tomada por aquele sentimento que agora tinha nome.
Paixão:
— Eu te amo, Eiko. Eu te amo...
Nossos lábios se tocaram e tudo no mundo ficou silencioso. Eu sentia que já não existia mais fora da sensação de Eiko ali comigo. Não pensava mais, mas meu corpo agia. De algum modo o toque desajeitado se multiplicou em beijos tão doces como jamais poderia sonhar na minha vida medíocre. O som das nossas vozes hesitantes chegou aos meus ouvidos em algum momento.
Depois de um tempo que não poderia calcular, nós separamos nossas bocas uma da outra e unimos os olhares, incapazes de dizer qualquer coisa por outro longo momento:
— Kaoru-chan... — enfim retomou Eiko. — Isso é.... É loucura.
— Talvez seja, talvez seja — concordei, sentindo-me inteira amolecida. — Mas eu não quero desistir ainda de viver esse sentimento.
A mulher que eu amava estava ali, diante de mim. Nada no mundo me faria recuar diante daquela felicidade tão forte quanto secreta que se apresentava entre nossos corações.
No silêncio pontuado por nossas respirações trêmulas, a voz de Eiko chegou como um trovão nos meus ouvidos esperançados:
— Eu também não quero desistir, Kaoru.
Em pleno outono úmido e frio eu floresci como abundante primavera. Tornei-me verão por inteiro, tendo Eiko como o Sol que aquecia o mundo inteiro, ou pelo menos até onde eu era capaz de enxergar. Era tudo o que precisava naquele momento.
—LKMazaki
Maio 2019
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