Coletânea Lesbohistórica

1 Addicted to You - Isabela Albuquerque


Sobre a autora

Isabela Albuquerque é goiana do pé rachado e pode não parecer, mas tem orgulho disso. Formada em Letras, começou a escrever com 14 anos e, mesmo com hiatus intermináveis entre uma história e outra, jamais deixou de imaginar personagens e cenas em sua cabeça. Prestes a completar 25 anos, idealizou essa coletânea por causa da sua paixão incondicional por história e casais lésbicos fictícios.

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As pessoas olhavam para ela com um misto de surpresa e medo. Era engraçado. Katherine Martin nunca imaginou que as pessoas a veriam daquela forma. Ela gostava disso. Gostava da atenção, do poder que tinha naquele momento. Porque, se alguém por acaso a olhasse de um jeito esquisito, ela poderia apenas enfiar a espingarda em seu rosto e explodir sua cabeça.

Sua companheira, Elizabeth Marston, assoviou para que saíssem da lanchonete. O assalto acabara e fora bem-sucedido. As duas precisavam fugir antes que a polícia chegasse. Extasiada pelo dinheiro que elas tinham, Katherine lascou um beijo apaixonado na boca de Elizabeth ali mesmo. Agora, outra expressão estampava os rostos dos reféns: nojo.

As duas ladras se encararam e riram da reação dos presentes. Elas distribuíram acenos antes de embarcarem em seu Ford Model A vermelho e fugirem de vez de Rowena, Texas. Ainda rindo, Katherine pegou a bolsa com o dinheiro e começou a contá-lo.

— Foi bem ousado o que você fez no final — comentou Elizabeth, olhando de soslaio para a companheira enquanto alcançava a velocidade máxima do carro.

Katherine continuou sorrindo. Ela fitou Elizabeth com desejo.

— Você me deixa ousada — respondeu.

Elizabeth entrou na sua vida por acaso. Ela aparecera de terno na lanchonete que Katherine trabalhava, há cerca de dois meses. Elas tinham muito em comum, apesar das histórias diferentes que contavam. Ao saírem para beber uma noite, Elizabeth revelou que a polícia estava atrás dela por assalto à mão armada. Tinha parado no interior do Kansas para que a poeira baixasse.

Katherine ficou fascinada. Nunca vira uma mulher ladra antes. Sua cidade ainda vivia no final do século XIX e ela não se casara na idade que estava, pois insistia a mãe que não encontrara o pretendente perfeito. Ela perguntou a Elizabeth onde seria sua próxima parada e se queria companhia. A outra mulher aceitou de bom grado a oferta.

O romance veio quase que automaticamente. Katherine via Elizabeth de um jeito único, diferente das outras mulheres. Com uma estatura de dar inveja a qualquer homem, Elizabeth se impunha em toda sala que entrava. Seu cabelo escuro na altura dos ombros vinha de um corte refinado da última vez que estivera em Nova York. Seus olhos amendoados eram o maior motivo de sua empreitada nos crimes ter dado certo. Um olhar era o bastante para que todos caíssem aos seus pés.

Andar ao lado de Elizabeth era intimidante, especialmente para Katherine, nascida e criada em uma cidade pequena. Com avós irlandeses, a mulher possuía cabelos ruivos considerados "amaldiçoados" por grande parte das famílias de onde morava. Ninguém gostava muito dos Martin naquela região. Seus olhos eram pretos, tão escuros que era difícil separar a íris da pupila. Era uma cabeça menor que Katherine, mas não menos ameaçadora durante um assalto.

— Para onde iremos agora? — questionou Katherine. Elizabeth deu de ombros. — Tem uns duzentos dólares aqui — ela continuou, balançando as notas como se fossem um leque. — Dallas está perto...

Katherine pulou no colo da companheira, dando-lhe beijos pelo rosto inteiro. De nada valia o dinheiro que roubavam se não pudessem ter uma noite de descanso. No pouco e intenso tempo que estavam juntas, Katherine entendera que Elizabeth era tímida e não gostava de sair por aí. Apesar da grande distância entre ela e a alta sociedade de Nova York, Elizabeth mantinha alguns costumes que pareciam ridículos em sua atual condição.

— Você roubou um vestido que ainda não usou — observou Elizabeth, lançando um olhar convidativo ao porta-malas do Ford. — Faz mesmo um tempo desde nosso último descanso.

Katherine celebrou a pequena vitória com um beijo longo e sensual que fez Elizabeth parar o carro no meio do nada e rapidamente tirar o casaco que usava. Katherine desabotoou a parte de cima do vestido e jogou o chapéu para longe. Ela se inclinou no banco único do Ford e deixou que Elizabeth ficasse em cima dela enquanto se beijavam.

Não demorou muito para que os gemidos das duas mulheres ecoassem pelo carro. As investidas de Elizabeth no corpo de Katherine a deixavam zonza de tanto prazer. Suas mãos puxavam o cabelo da companheira com força.

Elizabeth, por outro lado, estava ocupada demais mantendo-se no controle da relação para se importar. Seus olhos estavam hipnotizados pela expressão de prazer de Katherine. Era sempre assim, mas ela nunca se acostumava com a atenção que recebia. Jamais sabia se seu rosto estava quente por causa da intimidade que compartilhavam ou da vergonha que sentia.

Antes que Katherine chegasse em seu clímax, contudo, Elizabeth parou o que fazia e vestiu sua roupa como se nada estivesse acontecendo. Ela voltou a dirigir o Ford, sem olhar para a companheira.

— Mas que porra...! — reclamou Katherine, ainda sentindo o corpo pulsar com a relação interrompida. — O que você está fazendo, Liz?

Elizabeth deu um sorrisinho malicioso.

— Temos que chegar em Dallas antes do anoitecer. Não há tempo para frivolidades no meio da estrada.

— Então seu plano é me deixar com tesão até nos hospedarmos em alguma espelunca?

— Talvez. Só de pensar no seu corpo implorando pelo meu em público...

Katherine entendeu. Era retaliação pelo beijo na lanchonete. Ela suspirou, sentindo-se derrotada. Mesmo assim, gostou da ideia. Provocar Elizabeth no meio de outras pessoas era sua atividade favorita nos meses em que estavam juntas.

— Você é uma pessoa muito má — murmurou Katherine depois de um tempo em silêncio.

Elizabeth fingiu não ouvir. Katherine a fitou com um olhar apaixonado. Em pouco tempo, as luzes de Dallas começaram a surgir no horizonte. As duas encontraram um hotel nos subúrbios da cidade, onde perguntas sobre mulheres solteiras viajando sozinhas não seriam feitas, e partiram para a noite, embriagadas com as possibilidades da cidade grande.

O bar onde decidiram ficar para beber se chamava Poor David's e seu nome fazia jus ao local. Não era mal frequentado, mas a situação não era as melhores. A recessão que englobara o país naquele julho de 1931 acabara com a maior parte das cidades. Era o que Elizabeth contava, de qualquer forma. Katherine sempre vivera uma vida simples demais para se importar com bolsas caindo e ricaços ficando pobres da noite para o dia.

Foi uma noite divertida. Elas dançaram com os bêbados e davam-lhe tapas no rosto caso suas mãos se tornassem escorregadias demais. As duas transaram escondidas no banheiro sujo do Poor David's e riram quando a dona do bar apareceu no saguão segurando a calcinha esquecida de Elizabeth, esbravejando sobre "obscenidades" em seu precioso estabelecimento.

No dia seguinte, as duas se preparavam para voltar à estrada quando Elizabeth comentou:

— Devíamos roubar um banco.

A ideia pegou Katherine de surpresa. Até o momento, elas mantiveram a discrição para assaltos em locais que não chamassem muito a atenção da polícia. Ninguém se importa com restaurantes e postos em estradas desertas. Conseguiam o dinheiro para a próxima semana e partiam para a cidade seguinte.

— O dinheiro sentado em qualquer banco pode nos deixar confortáveis por meses — continuou Elizabeth, pulando na cama para se aproximar de Katherine. Ela segurou a mão da companheira agradavelmente. — Mas temos que fazer isso direito. Não são todos os bancos hoje em dia que possuem reserva monetária.

Katherine puxou Elizabeth para que se deitassem na cama de solteiro uma última vez antes de irem embora. Era uma boa ideia. Seria bom parar por alguns meses. Não que a vida de fora da lei tenha ficado de alguma forma entediante. No entanto, Katherine começara a visualizar outro tipo de vida. Uma vida ao lado de Elizabeth. Apenas ao lado dela.

— Reserva monetária... — repetiu Katherine em seu próprio sotaque interiorano. Ela achava engraçado a diferença entre as duas. — Você parece uma verdadeira lady novaiorquina falando assim.

Elizabeth soltou um muxoxo de impaciência. Katherine riu da sua reação, apertando a companheira mais contra si. As duas ficaram na mesma posição por um tempo que pareceu absurdamente longo até que o gerente do hotel bateu na porta para avisar que seu horário terminara.

Katherine e Elizabeth se levantaram num salto. Estavam animadas. Tinham um banco para assaltar.

***

Enquanto Elizabeth conversava as possibilidades do aluguel de um quarto para três semanas, Katherine folheava o jornal local. Não era do mesmo dia, mas a vida no interior era tão maçante que pouco faria diferença. Até que um desenho muito parecido com Elizabeth no caderno de crimes chamou-lhe a atenção.

Ela engoliu em seco. Havia uma notícia no jornal sobre a dupla, sobre o assalto à lanchonete que terminara no infame beijo em frente aos reféns. Tinha entrevistas e um conto bem caricato da relação. Katherine riu, um misto de indignação e incredulidade. Ler aquelas palavras... era difícil, mesmo sabendo que essa era a reação normal para o que ela sentia por Elizabeth.

O rosto de Katherine se contorceu de raiva. Ela marchou até Elizabeth com o jornal amassado, em uma das mãos e a puxou para um conto, interrompendo seu papo animado.

— Ei, o que está fazendo? — Elizabeth começou a falar, irritada, porém se calou quando Katherine colocou o jornal em seu rosto. Ela leu o texto apontado pela companheira e suas sobrancelhas se moviam de acordo com o que lia. Ao terminar, disse: — Estamos famosas!

Katherine piscou duas vezes, sem entender.

— Isso não devia nos preocupar? — indagou, puxando o jornal de volta para si. — Se estão fazendo matérias sobre nós...

— Esses caras são uns urubus tentando lucrar em cima de histórias fantasiosas — disse Elizabeth de maneira displicente. — Não leve tão a sério. Ei, talvez você devesse escrever nossa versão dos fatos e mandar para algum jornal. Não disse que queria entrar na faculdade e se tornar poetisa?

Foi a vez de Katherine ficar levemente irritada.

— Eu era uma criança burra e inocente.

Elizabeth olhou para os lados para garantir que não havia ninguém as observando e deu um selinho rápido em Katherine.

— Você cresceu para uma mulher inteligente e definitivamente mais devassa. — Katherine riu, mas não negou os adjetivos. — Vou terminar de nos alugar o quarto. Depois, aos negócios!

Wichita tinha sido a cidade escolhida para o assalto. Não era a maior cidade do estado, nem a mais rica, mas a população parecia viver melhor naquelas bandas do que em outros lugares. O último lugar que haviam realizado atividades criminosas tinha sido em Santa Fe, duas semanas antes. Elizabeth esperava que as autoridades a procurassem no Kansas primeiramente antes de tentarem seguir seus rastros.

Elas tiveram que deixar o amado Ford vermelho para trás. Não era seguro continuar com ele agora que planejavam algo grande e ficariam muito tempo em um mesmo local. O outro carro também era um Ford, dessa vez azul, e tinha sido furtado na saída do Novo México.

A semana passou lentamente enquanto a dupla procurava um banco que seria mais vantajoso para ser assaltado. Entre atuações convincentes de viúvas em busca de heranças e noites quentes no quarto de hotel, Elizabeth e Katherine encurtaram a lista para três prováveis agências.

No segundo domingo que estavam em Wichita, Katherine resolveu levar Elizabeth para um encontro. Outra notícia saíra sobre elas no jornal, e Elizabeth a guardou da mesma forma que fizera com a primeira. A mídia ainda não sabia suas identidades e por enquanto a chamavam de "Lésbicas Perigosas", algo que Katherine achava ridículo. Elizabeth queria manter um registro do que era falado sobre o casal na imprensa.

— Em Nova York, tudo que eu queria era ser conhecida pelos meus feitos — ela comentou durante o encontro, entre goles de vinho. Katherine reservara uma mesa em um dos restaurantes mais chiques da cidade. — Agora eu sou reconhecida pelo que faço.

— Por roubar pessoas — complementou Katherine, com os lábios curvados para não sorrir.

Elizabeth rolou os olhos.

— Na verdade, por estar com você.

A frase pegou Katherine de surpresa. A intensidade do que sentia por Elizabeth nunca foi exatamente posta em palavras. Havia provocações e muita intimidade, porém nada parecia muito concreto. Sentia, às vezes, que os últimos três meses tinham sido um sonho e que a qualquer momento poderia acordar de volta à lanchonete onde trabalhava.

Talvez fora por isso que decidira por aquele encontro fora do orçamento. Para tornar sua relação real. Para que a insanidade de suas vidas sumisse nem que fosse por apenas duas horas. E isso a fez perceber que estava inevitavelmente apaixonada pela mulher na sua frente.

Antes que pudesse dizer isso em voz alta, contudo, Katherine percebeu dois homens com chapéus de cowboy entrando no restaurante. Seu coração parou por um instante.

— Texas Rangers — murmurou ela, indicando os homens para Elizabeth.

— Merda — sussurrou a outra, bebericando o resto da sua taça de vinho. — Temos que ir.

Katherine se levantou prontamente enquanto os oficiais texanos conversavam com um dos garçons. Seu vestido era de verão e as janelas estavam todas abertas, mas seu corpo começou a suar por conta do nervosismo da situação.

— Você sai pelo banheiro e eu vou "elogiar" o chefe — sugeriu Elizabeth. — Nós nos encontramos no carro em dez minutos. Se nenhuma de nós chegarmos...

A companheira não precisou terminar a frase. Katherine entendera. Não queria deixá-la para trás, no entanto o faria se fosse necessário. Ela pegou sua bolsa e rumou para o banheiro. Colocou o cesto de lixo na frente da porta e se preparou para escalar a parede e passar pela janela.

Katherine agradeceu mentalmente as vezes em que subiu nas macieiras da fazenda vizinha quando criança. A janela não era tão estreita e ela não precisou de muito esforço para atravessá-la. Em questão de minutos, já estava do lado de fora do restaurante.

O carro estava estacionado a dois quarteirões de distância, outra precaução de Elizabeth. Katherine andou tranquilamente pela calçada, lançando olhares frequentes para os lados. Elizabeth provavelmente tomaria outro caminho. Não devia passar das dez da noite, mas as ruas estavam vazias.

Ela avistou o carro ao virar a esquina e soltou um suspiro aliviado ao ver que Elizabeth a esperava. Ela apertou o passo até a companheira e agradeceu a escuridão da cidade ao beijá-la rapidamente nos lábios.

— Essa foi perto demais — disse Elizabeth quando já dirigiam de volta para o hotel. — Texas Rangers? Nós assaltamos somente duas cidades lá.

— Você queria notoriedade... — retrucou Katherine. — É uma pena que não tenha dado certo, o nosso encontro. Estava ansiosa para pagar a conta.

Elizabeth riu do comentário. Naquele momento, Katherine percebeu algo. Uma vida calma ao lado da mulher que amava jamais existiria, nem mesmo se roubassem um milhão de dólares e fugissem do país. Elas eram ladras e sempre seriam. Seu sonho não teria fim e ela não tinha certeza se isso era algo bom ou ruim.

Ao retornarem para o hotel, fecharam a conta. O casal juntou suas coisas rapidamente e entraram no carro. Decidiram que passar a noite escondidas fora da cidade seria mais seguro e assim fizeram. Elas se revezavam em vigiar as redondezas e cochilos de duas horas. Katherine não se incomodou com o desconforto do banco, e sim com a falta dos braços de Elizabeth ao redor do corpo.

Na manhã seguinte, escolheram um hotel do outro lado de Wichita. Elizabeth queria se desfazer do Ford azul de Santa Fe, mas Katherine a convenceu o contrário. A cidade tinha uma força policial considerável e um furto seria descoberto com maior facilidade. Mal-humorada, Elizabeth concordou em troca de banhos em conjunto na banheira do hotel.

As próximas duas semanas foram tranquilas para o casal. Nenhum policial apareceu nos lugares que frequentavam e elas finalmente decidiram a agência bancária que deveriam assaltar. Ficava na parte leste da cidade e fazia parte da companhia Wells Fargo, que tinha sobrevivido ao pior período da recessão com poucos prejuízos. Se havia um banco com dinheiro suficiente para uma eventual fuga, era aquele.

Katherine comprou um diário e começou a escrever poemas sobre os dias que passava com Elizabeth. Eram bobos e ela não permitia que a companheira os lesse, embora Elizabeth soubesse ser bem convincente com seus argumentos. A experiência era interessante, mesmo que não tivesse contato com livros de poetas há tempos.

— Agora, de fato, precisamos de outro carro — disse Elizabeth na noite antes do assalto enquanto revisavam os planos. — Wichita não tem muitos Ford...

— Por que você é tão obcecada por Ford? — questionou Katherine, parando de escrever em seu diário e indo trocar de roupa. Sua companheira permaneceria com o vestido vermelho que usara para jantar no restaurante do hotel.

— Eu conheci Henry Ford uma vez — comentou a mulher, distraída com a planta do banco, traçando caminhos para uma fuga inesperada. — Ele foi em um jantar que meu pai ofereceu para grandes empresários. Disse para mim que eu deveria aprender a dirigir em um de seus carros. Eu aprendi, escondido do meu pai, é claro.

— É claro — repetiu Katherine, fascinada com a história. Ela adorava quando Elizabeth contava sobre sua família rica de Nova York. Conseguia ver perfeitamente a garota que amava vestida em gala, conversando com homens de fraque e tentando impressionar suas filhas. A imagem era incrível, e ela guardou mentalmente a descrição para usar em algum poema mais tarde.

Às vezes, Katherine se perguntava o que fizera Elizabeth fugir daquele mundo glamuroso. A companheira era sempre evasiva quando esse era o assunto. Era basicamente a única coisa que não compartilhavam.

— Ele também disse que deveria estar sempre um passo à frente dos outros.

Katherine sentou-se ao lado de Elizabeth na cama e pegou a prancheta com as estratégias para o assalto. Estava tudo muito detalhado, como todas as outras coisas feitas por Elizabeth. Olhou de soslaio para ela, tentando se recordar da vida que tinha antes de se apaixonar. Parecia impossível que, no começo daquele ano, Katherine ganhava uma merreca por mês em uma lanchonete no estilo das que ajudava a roubar agora.

— Liz, eu amo você — falou Katherine de supetão, cansada de manter aquelas palavras dentro de si.

Elizabeth parou por um instante e virou-se para a companheira. Ela sorriu bobamente, se inclinando para beijar Katherine.

— Kat, eu amo você também — Elizabeth respondeu com o olhar sonhador. — As noites de Nova York nunca me prepararam para o que eu sinto por você.

— Se alguma coisa acontecer amanhã, algo que não tenhamos planejado, saiba que eu te amo. — Katherine não conseguia mais se conter. Com o rosto de Elizabeth tão perto do seu, era impossível não a amar insanamente. — Eu queria falar isso no nosso primeiro encontro.

— Nada vai acontecer amanhã além de ficarmos ricas.

Elizabeth puxou Katherine para cima dos importantes papéis de assalto. O dia seguinte ainda estava distante e a noite era sempre longa demais para as duas. Conquanto estivessem juntas, nada poderia dar errado.

Katherine não dormiu muito bem, mesmo abraçada à Elizabeth. Em seus sonhos, ouvia tiros e uma gritaria absurda. Em um momento, encontrou sangue em suas mãos e, ao olhar para os lados, viu a companheira caída desacordada. Suas mãos tremiam ao tocar no corpo da amada. Um filete de vermelho escorria por seu queixo. O grito ensurdecedor que dera no sonho a fez acordar antes do nascer do sol e permanecer assim até que Elizabeth se levantasse também.

O assalto aconteceria às dez da manhã, horário que haveria menos clientes na agência. Três dias antes, um carro forte da Wells Fargo transferira grandes sacolas para o local. Era o momento certo para atacar.

Elas se despediram do gerente do hotel e agradeceram a hospitalidade. Katherine estava nervosa. Nunca levara tanto tempo para planejar algo antes. O sonho que tivera não acalmara seus ânimos. Elizabeth sabia que algo não estava certo, mas parecia entender que não queria compartilhar o que sentia.

Sentada no banco do Ford Deluxe, com a agência do outro lado da rua, Katherine decidiu enterrar o que sentia. Não era hora para sentimentalismos. Ela ajustou os dois revólveres em seu casaco e virou-se para Elizabeth, que preparava as sacolas vazias e a espingarda.

— Eu amo você — Katherine disse, beijando-a sem se importar se com a rua movimentada. — Vamos?

— Vamos. — Elizabeth respondeu, encabulada. Ela sorriu e piscou para Katherine. — Eu amo você também.

Katherine saiu do carro e atravessou a rua, sentido o peso das pistolas em seu abdômen. Elizabeth entraria cinco minutos depois. Ela entrou no banco e a eletricidade que corria em suas veias antes de qualquer assalto começou de novo. Mal conseguia conter o sorriso. Fazia tempo que não colocava uma arma em sua mão... Katherine quase esquecera daquela sensação inebriante de poder.

Havia dez pessoas na agência, clientes e funcionários. Nenhum guarda estava à vista. Ninguém prestou muita atenção nela nos quinze segundos que se seguiram. Katherine colocou as mãos no casaco e puxou os dois revólveres para cima.

— Senhoras e senhores, isso é um assalto! — ela anunciou firmemente.

As pessoas levaram alguns segundos para reagir ao que foi dito, embora um cliente tenha levado a mão na cintura imediatamente. Katherine apontou o revólver para ele e se aproximou, pedindo sua arma.

— Não vamos nos precipitar, tudo bem? Por favor, deixem seus pertences onde estão e se movam até o canto esquerdo da sala. Nada vai acontecer se vocês fizerem o que eu mandar.

Ela não deixou que o gerente, um homem careca na faixa dos 40 anos, se juntasse aos reféns. Katherine o pegou pela lapela do terno aparentemente novo do homem e o manteve contra um dos revólveres.

Enquanto os reféns se moviam na direção mandada, Elizabeth chutou a porta do banco com pompa. Katherine a encarou extasiada, observando a beleza da mulher que amava. Tinha certeza que as outras pessoas faziam o mesmo. Com a espingarda na mão, um sorriso amigável e o vestido florido combinando com seu cabelo escuro solto, Elizabeth mais parecia uma justiceira do que a sua companhia para aquele assalto.

Aparentemente, Katherine não fora a única a pensar assim. Uma senhora, já sentada, gritou:

— Nos salve!

Katherine e Elizabeth se entreolharam e riram. A vontade de beijá-la na frente de todas aquelas pessoas era grande, mas Katherine se conteve. Empurrou o gerente para Elizabeth, que pediu para que ele a guiasse até o cofre. Katherine ficou encarregada de vigiar os reféns. Elizabeth soltava exclamações animadas à medida que colocava o dinheiro nas bolsas vazias que trouxera.

O gerente aterrorizado voltou cinco minutos mais tarde carregando duas sacolas aparentemente pesadas. Elizabeth vinha atrás com uma sacola na mão e a espingarda apontada para as costas do refém na outra.

— Agradecemos muito pelo seu serviço — Katherine agradeceu ao gerente, empurrando-o para que ficasse junto aos outros. Ela guardou as armas no coldre e pegou as sacolas trazidas pelo homem.

— Vamos — chamou Elizabeth, se encaminhando para a saída.

Contudo, havia alguém entre a porta e o casal.

Era um garoto, talvez mais novo que as duas. Usava um uniforme com aparência militar, mas não era da polícia local. Imaginou que fosse algum guarda recém-contratado da agência. Ele tinha sua arma apontada diretamente para o peito de Katherine.

— Ponham suas sacolas no chão — disse o garoto. Não havia nenhuma hesitação em seu tom de voz, embora Katherine visse suas mãos tremendo.

— Você não vai atirar em nós — falou Katherine, tentando tirar proveito da situação. O guarda era claramente inexperiente e poderiam usar isso. — Abaixe essa arma e nos deixe sair. Ninguém vai se machucar assim.

O guarda permaneceu na mesma posição. Katherine olhou para Elizabeth, que tinha a espingarda apontada para o garoto. Era a primeira vez que as duas enfrentavam algo assim. Ela não tinha nenhuma chance caso ele resolvesse atirar.

— Você não quer atirar em mim — insistiu Katherine para o garoto. A eletricidade que sentia quinze minutos atrás não existia mais. Ela só queria que o guarda abaixasse a arma e desistisse.

Duas coisas aconteceram ao mesmo tempo. Katherine pensou ter visto a arma do garoto abaixar um nada... Porém, isso não importava, pois um estrondo se fez ouvir e o guarda logo estava caído no chão, com um buraco na sua barriga.

Levou um tempo para compreender que Elizabeth atirara no garoto. Antes que pudesse fazer isso, ela foi empurrada para fora da agência Wells Fargo, a única em Wichita.

Cidade que, depois daquele assalto, jamais poderiam entrar novamente.

***

Nevava em Lemmon.

Liz olhava para fora da janela da casa abandonada que era agora sua casa, esperando por algo que não ia acontecer. A noite encobria parte dos medos que assombrava sua mente. Criada em Nova York, estava acostumada com o frio que enfrentava no momento. Kat dormia em um colchão remendado, e sua respiração baixinha fazia o coração de Liz quebrar em vários pedaços.

Meses tinham passado desde o assalto em Wichita. A culpa consumiu Liz por semanas enquanto viajavam para o norte na esperança de despistar a polícia. Por um tempo, nada fez sentido. Elas tinham dinheiro o bastante para se esconder confortavelmente em qualquer cidade do país. Não precisavam de mais nada. Liz tinha Kat e vice-versa.

Ainda assim, não via felicidade nisso. Não conseguia gostar do que o futuro as reservava. Tinha medo. Texas Rangers assombravam seus sonhos e ela sempre acordava suando, imaginando sons de tiros atravessando qualquer espelunca que estava hospedada.

Depois de um tempo, Liz começou a cozinhar na sua mente a ideia de se entregar. Kat riria da sua cara se contasse o que pensava, mas não parecia ser tão ruim. Não tinham roubado nem matado ninguém por dois meses. Com a herança que tinha, podia ter um advogado decente que certamente conseguiria um acordo e os anos de prisão não seriam tantos.

Fazia quase um ano que conhecera Kat e sua vida mudara completamente. Ela amava a garçonete e amara todos os momentos que passara juntas. Contudo, não podia mais lidar com o que passava na sua cabeça ao lado de Kat. Ela não era compreendida em suas dores e sofrimentos pela companheira, e não culpava Kat por nada que acontecera. Matara alguém para protegê-la e, mesmo com traumas, faria o mesmo novamente se fosse lhe pedido.

Nevava em Lemmon.

De todas as noites que planejara sair na surdina sem dizer adeus à pessoa que amava, essa era a que escolhera para realizar o seu plano. A cidadezinha na fronteira entre as duas Dakota tinha duas ruas, e o escritório do xerife ficava logo atrás da placa de boas-vindas.

Ele era um homem respeitado, que conversara tranquilamente com Liz quando ela bebera demais da conta numa noite no saloon. Não parecia que a entregaria para os federais da noite para o dia. Tinha que confiar nisso. Queria um pouco de paz consigo mesma.

— Você não pode ir — murmurou Kat antes que Liz pudesse abrir a porta do casebre. Envolta pelos cobertores ralos cheios de mofo que encontraram no lugar abandonado, a antiga garçonete parecia menor do que já era.

Liz mordeu o lábio e evitou se virar para encarar Kat.

— Preciso fazer isso — disse, resoluta. — Você não sabe...

De repente, Kat estava em pé e segurava Liz pelos ombros. Liz desviou o olhar da expressão preocupada da companheira e fitou o chão de madeira podre.

Eu não sei?! O que diabos você pensa que eu não sei, Elizabeth?! — Kat questionou, pegando o queixo de Liz em uma das mãos e forçando-a a fitá-la. Seus olhos se encheram de lágrimas. — As noites que você não dorme? O silêncio que consome todos os nossos momentos nos últimos meses? As vezes que você sai em busca de algo que eu sei que não posso mais lhe dar? O fedor de bebida da manhã seguinte às suas saídas? Você realmente pensa que eu não sei?!

Liz tentou curvar os ombros, mas o aperto de Kat era muito forte. Sempre tinha sido. E ela nunca soube lidar muito bem com isso. Era bom ficar perto dela, afinal Kat representava a versão mais insana de Liz, que ela jamais deixaria sair. Que apenas Kat sabia que existia. Como tudo em sua relação, era único.

— Eu... — começou Liz, se desvencilhando gentilmente do aperto de Kat. Ela se afastou um pouco, dessa vez fitando a companheira diretamente. — Pensei que minhas dores eram só minhas. Você não precisa passar por isso. Não foi você que apertou o gatilho.

Houve um silêncio que não condizia com a relação das duas. Kat coçou o braço e olhou para o chão. No escuro do casebre, era difícil perceber, mas Liz teve certeza que a cor subiu em seu rosto e suas bochechas estavam vermelhas. Kat escondia algo dela. Era constrangedor.

— Meu pai era um caminhoneiro que às vezes passava pela minha cidade e ficava de novo com a minha mãe sempre que estava por lá — Kat começou sua história. Entre tantos segredos compartilhados no último ano, era uma surpresa para Liz que só percebesse agora que jamais ouvira falar sobre os pais de Kat. — Ele era violento. Ela não queria nada com ele mais, mas o medo a fazia deixá-lo entrar em casa. Ele batia nela quando chegava bêbado. Dizia que ela era a "mulher que mais merecia apanhar das que conhecia".

"Eu ouvia tudo do meu quarto. Ele nunca me deu um presente, um oi, um olhar carinhoso. Gostava de bater na minha mãe e só. Quando tinha 11 anos, eu o esperei voltar de suas bebedeiras e bati na sua cabeça com um taco de beisebol que tinha em casa. Caiu duro no chão. Minha mãe chorou de alívio no meu ombro e depois me bateu por tê-lo matado. Mas eu não me importei. Ela disse para os médicos que ele tinha caído e batido com a cabeça e me protegeu."

Kat se aproximou de novo e segurou as mãos de Liz entre as suas. Ela as beijou apaixonadamente. Lá fora, a neve continuava.

— Meu pai não era inocente como o guarda de Wichita — disse Kat por fim, convidando Liz a sentar no banquinho de madeira podre que estava por ali. — Talvez o guarda não fosse tão inocente quanto você pensa. Mas já puxei o gatilho e eu carrego essa culpa comigo, mesmo sabendo que minha mãe morreria se meu pai continuasse a visitá-la. Ela não vai embora. Continua te torturando até você aprender a deixá-la em seu lugar.

Liz ponderou em cima das palavras ditas por Kat. Ela nunca tinha lido uma página do diário da companheira, mas imaginou que as palavras nele tinham tanto poder quanto as que acabara de ouvir. Kat tinha o poder de hipnotizar as pessoas, e era por isso que sempre liderava os assaltos.

— Você não sente que deveria pagar por isso, pelo menos um pouco? — Liz indagou um pouco depois.

— Não — respondeu Kat sem hesitar.

— Eu nunca vou saber como era a vida do guarda de Wichita se não revelar o que fiz — comentou Liz. — Preciso desse ponto final. Ou então, vai me consumir de tal forma que a única saída seria a minha...

— Não termine essa frase.

A palavra ficou subentendida no silêncio sepulcral que se seguiu. As mãos de Kat tremiam por cima das de Liz, e a mulher duvidou que fosse o frio. Kat tinha medo de vê-la partir. Ela também tinha medo. Ao conhecer Kat, foi como se sua vida finalmente fizesse um pouco de sentido. Como se as ideias insanas que sua cabeça criava achassem forma.

Talvez agora Liz devesse descobrir como moldar suas ideias estranhas sem Kat orbitando ao seu redor o tempo inteiro.

— Podemos decidir amanhã — falou Kat, ainda segurando as mãos de Liz. — A neve não deixaria você avançar um centímetro hoje.

Liz se deixou levar pelo tom manhoso da companheira e deitou ao seu lado no colchão velho pela última vez. Kat tinha razão. Por uma última noite, ela podia aproveitar a companhia da mulher que amava antes de fazer o que sabia que era o certo.