Coleciona-dor de borboletas
1 Sua mãe não voltará para casa hoje
Notas iniciais
Beijos e aproveitem
Sempre obedeci fielmente a meu Imperador, Kim Jong-il. Era rico, trabalhava para o governo como secretário do primeiro-ministro, isso bastava para fornecer uma boa condição de vida a minha mulher e meu filho, Jeongguk. Isso até dois anos atrás.
Na Coreia dizemos que até mesmo as pedras ouvem, por isso é preciso ter muito cuidado. Minha mulher, Seung Na, gostava muito de contar histórias ao meu filho, principalmente sobre outros países como a Rússia. Meu pequeno adorava ouvi-la inventar as mais variadas aventuras entre as grandes máfias e chorava de rir quando sua mãe fazia alguma careta imitando os chefes mais violentos.
Nunca me perguntei, no entanto, de onde ela vinha com tantos detalhes sobre o mundo exterior. Esse foi o meu maior erro.
Seung Na mantinha contato com sua família chinesa, a qual ajudava norte coreanos a escaparem do país natal. Como vocês bem devem saber é uma prática ilegal e, se eu soubesse disso antes de toda a desgraça acontecer, não pensaria duas vezes antes de entregar minha mulher ao governo. Eu era leal a meu imperador.
Eu me lembro de seus pés descalços
Correndo pelo corredor
Lembro-me de sua risada delicada
Carros de corrida no chão da cozinha
Dinossauros de plástico
Eu te amo daqui até a lua
"Appa, brinca comigo de soldado!" jeongguk gritou ao me ver chegando em casa. Eu estava exausto e com muito frio, vinha a pé do trabalho na neve. Meu casaco estava ensopado e acabei molhando o chão todo da entrada. Meu filho vinha correndo na minha direção e não tive tempo de segurá-lo antes que ele escorregasse e caísse de bunda no chão.
"Eita campeão!" me apressei em levantá-lo pelos ombros e consolá-lo antes que começasse a chorar. "Levou um tombo, né?" perguntei fazendo graça e esperando que ele esquecesse da dor e se concentrasse em rir.
"Appa! Você me molhou todo!" reclamou depois que eu me afastei do abraço.
"Aish..." fingi indignação e retirei a peça de roupa encharcada e pendurei. "Que soldado mais fresco esse dai. Será que trocaram meu filho?E que pé descalço é esse ai?" perguntei fazendo graça. Jeongguk riu da brincadeira e levantou os braços na minha direção, indicando que eu o levantesse no colo. Fi-lo como pedido e depositei um beijo em sua bochecha, mas ele no momento estava mais interessado no brinquedo em suas mãos.
"Eu sou forte! WRAAA!" exclamou abrindo a boca e fazendo uma careta. "Hoje eu brinquei com meus amigos todos de arma e ai eu venci todo mundo! Piw piw piw! " fez gestos com a mão como se atirasse para todos os lados. "Mas ai a tia não gostou muito porque eu fiz muito barulho..." resmungou.
"Tudo bem, ela vai sentir orgulho de você quando estiver lutando como general do imperador, certo?" eu cutuquei sua barriga, levantando seu astral.
"Sim... o imperador..." Jeongguk reproduziu a fala descontente. Parecia não gostar do nosso lider quando falava daquele jeito, isso me preocupou. "Vamos logo pai, quero brincar de soldado com você!" me apressou. Eu apenas sorri.
Lembro-me de seus olhos azuis
Olhando nos meus
Como se nós tivéssemos nosso próprio clube secreto
Eu lembro de você dançando
Antes de dormir
E depois pulando em cima de mim para me acordar
"Kookie" chamei sem entender seus movimentos com os pés e as mãos no meio da luta. "Por que esstá dançando ao invés de lutar?" ele olhou para mim ainda gargalhando e se mexendo de um lado para o outro.
"Eu queria ser dançarino e cantor, ai eu ia poder ter muita gente gostando de mim!" me respondeu com naturalidade. Seong Na chegou nesse momento no quarto e ouviu o que Jeongguk disso, percebendo que eu havia ficado espantado.
"Esposa, o que anda dizendo para ele?" perguntei seriamente preocupado. Minha mulher pareceu ficar nervosa e correu para perto do menino, pedindo para que ele ficasse quieto e o instruindo a nunca mais comentar bobeiras como aquela. Eu não soube dizer o que estava contecendo.
Meu pequeno Jeongguk tinha apenas 4 anos quando sua mãe foi tirada de si pelo governo, não ouve despedida. Ele estava na creche, eu no trabalho. Recebi o comunicado pouco antes de terminar meu expediente. Foi quando me despediram e exigiram que eu me mudasse para o interior numa cidade chamada Sudong. Eu não entendi no momento, mas entenderia quando chegasse em casa e houvesse um bilhete do Estado na porta do apartamento. Entenderia porque meu filho ainda não havia voltado para casa.
Corri o mais rápido que pude em direção à creche de Jeongguk, encontrando-o sentado junto a professora e um militar que o interrogava. Meu filho estava apavorado e quando seu olhar cruzou com o meu todo seu medo e tristeza transbordaram em forma de lágrimas. Ele gritou por mim, mas eu não podia fazer nada. A professora o segurou pelos braços e pediu que se acalmasse e respondesse ao homem bom a sua frente. Ele o fez, porque era leal ao imperador.
Eu não deveria chorar em hipótese alguma, esperava ser questionado a qualquer momento para finalmente esclarecer que aquilo era um grande engano. Permaneci sério enquanto Jeongguk continuava a negar tudo o que o militar falava, percebi que estava se irritando. Era normal que meu pequeno ficasse bravo quando era contrariado, Seung Na dizia que isso faria dele um forte soldado.
Eu ainda posso sentir você segurando minha mão
Homenzinho
Até o último momento eu soube
Você lutou como um soldado
Lembro que eu
Me inclinei e sussurrei para você
Quando finalmente o interrogatório acabou eu caminhei na direção do militar, enquanto Jeongguk se agarrou em minhas pernas.
“Onde está minha mulher?” perguntei com a voz falha. O homem me olhou de cima a baixo com desdenho e ignorou-me. Eu sabia que não obteria respostas nem naquele instante e talvez nunca. Me restou apenas o maldito comunicado preso a minha porta de casa, o qual chamava minha mulher de traidora da pátria. Eu aceitei nossa perda, Jeongguk cedo ou tarde também aceitaria, por amor ao nosso imperador.
Chegamos a cidade de Sudong sem emprego, sem casa e sem família. Não me restava nada a não ser Jeongguk, o qual estava profundamente magoado porque perdemos sua mala de brinquedos numa das estações de trem. “Appa… eu tô com dor de cabeça.” resmungou pela quarta vez naquele dia. “Omma vai vir quando cuidar de mim?” perguntou com um bico. Eu não contara nada a ele.
Segurei-o no colo enquanto me virava para carregar duas malas pesadas e beijei-lhe a bochecha. Algumas pessoas olharam feio para nós, não era comum demonstrar afeto em público. “Que é isso?” apontei para uma borboleta morta no chão de um parque mal cuidado no intuito de distrair Jeongguk.
“Appa! Quero essa borboleta, dá pro kookie!” gritou animado.
“Só se o kookie ser um forte guerreiro e derrotar essa dor de cabeça. O que me diz?” tentei um acordo.
“Eu não posso ser um forte guerreiro e ter dor de cabeça?” perguntou franzindo o cenho.
“Duvido que o imperador queira um guerreiro com a cachola frita.” respondi. Jeongguk deu uma gargalhada deitando a cabeça para trás e o acompanhei.
“Cachola frita!” repetiu como se fosse uma grande piada. Não era uma piada.
Venha comigo, querido
Vamos voar para longe daqui
Você foi os meus melhores quatro anos
O meu pequeno guerreiro estava com um tumor do cérebro, coisa que eu só descobriria muito tempo depois. Eu ainda estava desempregado na época e a uma grande crise de fome assolou nosso país, matando centenas de crianças como Jeongguk.
Não havia tratamento para Kookie, o hospital precário local havia deixado bem claro que esse tipo de atendimento além de ser ineficiente ainda era reservado para as patentes mais altas, para os que trabalhavam a serviço dos cargos públicos de alto escalão do Imperador. Eu não tinha direito a isso, não mais.
Após um ano sem encontrar emprego meu dinheiro todo se esgotou, Jeongguk não ia a escolhinha há tempos. Mesmo que fosse não faria diferença, quase nenhuma criança sabia da existência de qualquer ensino por ali. Não que houvessem muitas crianças. Vivíamos na mesma praça em frente a estação de trem, a qual encontramos a maldita borboleta. Nossas poucas coisas estavam aos pés da estátua do Imperador anterior, que ostentava grandiosidade. Era primavera, mas não havia nenhuma flor e a saúde de Jeongukk ia de mal a pior.
Tudo que eu conseguia de comida dava a ele, mesmo assim não era nem perto do suficiente. Nossas roupas estavam completamente sujas e rasgadas, o cabelo longo e os pés cheios de ferida. Meu corpo não passava de um saco de ossos, meu pequeno também.
Eu lembro quando na volta para casa
A esperança cega
Se tornou em choros e gritos de por que
Flores se amontoam da pior maneira
Ninguém sabe o que dizer
Sobre um lindo menino que faleceu
“Appa, toma.” Jeongukk me estendeu uma borboleta branca. Eu olhei sem entender para ele, meu raciocínio não era mais o mesmo e tudo parecia se mover em câmera lenta. “Eu sei que você está com fome.” disse forçando um sorriso. Era difícil vê-lo em pé, devido a exaustão.
“Não comemos borboletas, Kookie. Elas não são feitas para serem comidas, não são como as vacas.” respondi com a voz rouca. Eu poupava minha voz ao máximo por conta da fraqueza, mas queria proporcionar ao meu filho algum diálogo. Há dias não pronunciávamos uma só palavra, apenas balbuciávamos algo incoerente.
“Então para que servem as borboletas?” seu sorriso murchou e seu rosto se retorceu em tristeza. Eu sabia que em situações normais ele choraria, odiava ser contrariado, mas não havia da onde tirar lágrimas.
“Elas são bonitas, fazem as pessoas felizes. Tem gente que colecionada borboletas, Kookie. Eles...” minha voz falhou miseravelmente nesse momento, dando tempo do garotinho se aproximar e sentar ao meu lado, se recostando em mim. Eu queria abraçá-lo, mas eu braço não obedeceu meu comando. “ Eles capturam e matam as borboletas.” completei fechando os olhos.
“oh...” Jeon concordou sem muito entusiasmo. “Borboletas são como nossas mães então. Eu suspeitava.” respondeu.
Nós dois apagamos e eu só acordei novamente quando a noite fria caiu, penetrando minha carne como facas de gelo. Ao meu lado jazia Jeongguk na mesma posição, mas sua respiração não produzia fumaça de ar como a minha. O frio não parecia incomodá-lo, nada mais poderia.
Eu pensava que não tinha mais forças para fazer qualquer coisa, talvez o pouco de adrenalina unida ao medo no momento tivessem me impulsionado. Segurei o corpo de meu filhinho no colo, estava gélido. Não respirava, não sorria, não era nada. A maldita borboleta ainda descansava em sua mão e agora eu cobria meu filho de lágrimas, simulando o véu fúnebre.
Olhei para cima e encarei o rosto de cobre da estátua de meu imperador, ao qual eu era leal.
E se eu realmente pensei que algum milagre poderia nos ajudar?
E se o milagre foi ter tido pelo menos um momento com você?
Venha comigo, querido
Vamos voar para longe daqui
Mas o meu imperador era um colecionador de borboletas. Despreocupado com quaisquer outros assuntos, como a dor de um pai ao perder um filho.
Naquele dia não foi só meu filho a morrer, foram muitos mais. Obviamente, Kim Jong-il não estava ciente disso, ele teria feito alguma coisa se soubesse das barbaridades que consomem seu povo.
Você foi meus melhores quatro anos
Eu me lembro de seus pés descalços
Correndo pelo corredor
Eu te amo daqui até a lua
Notas finais
enfim, então como eu sou uma pessoa que odeia fazer os outros ficarem trsites eu resolvi reduzir ao máximo possível a fanfic, pra ficar algo bem breve, além disso eu tentei passar pelos eventos o mais superficialmente possível para ngm acabar sofrendo, certo? Então é uma leitura leve, rápida e sem mto frufru
mesmo assim achei legalzinha então.... podem começar kkkk
beijos de chocolate
Fale com o autor