Coisas do Acaso
31 A Dor De Não Ser Ouvida !
Notas iniciais
Walkiria
Bem ali na minha frente, estava a Bia e Lipe. Mas é claro que isso não era surpresa alguma, até porque eles vieram comigo – mesmo que a ingrata da minha filha tenha me deixado a Deus dará — . Mas o que me surpreendeu foi o fato de eles estarem se beijando. Sim isso mesmo, os dois estavam se beijando. Com certeza meu rosto naquele momento estava em choque e surpreso, e fiquei ainda mais surpresa quando a Bia se afastou e simplesmente saiu correndo. Como assim? O que aconteceu para ela sair daquele jeito? Eu não sabia, mais ia descobrir e era agora. Ou pelo menos era isso que iria fazer, se ele não tivesse falado.
— Tem horas que devemos deixar os filhos resolver os próprios problemas sozinhos — falou com uma voz rouca.
Olho para meu lado e me deparo com ele. Seus olhos eram castanhos escuro, cabelos bagunçados, mas de uma forma charmosa, não era tão musculoso e muito menos um fracote, e não aparentava ter mais de 31 anos.
— E o que você saber sobre filhos ? — acabei soando meio rude, mas realmente não me importava, naquele momento a única coisa que me importava era a minha filha.
— Absolutamente nada, mas sei o que é ser filho de alguém — um pequeno sorriso saiu entre seus lábios. — E também sei, como é difícil quando os pais não deixam a gente resolver nossos problemas e como é frustrante não crescer, e sim sempre ficar apenas na aba dos pais.
— Ótimo. Mas isso é entre eu e minha filha— falo já saindo dali, mas antes de dar dois passos, a sua mão agarrou o meu pulso, fazendo que assim eu voltasse a olhar para ele.E meu Deus que olhos era aquele.
— Nem sempre ela vai ter você, e ai o que vai ser dela se não souber se cuidar sozinha? — por um minuto penso no que ele falou, e percebo que ele estava certo.
— Tudo bem, você está certo — dou um pequeno sorriso.
— Eu sempre estou — que convencido — Mas então você não parece muito feliz estando aqui, porque não está?
— Porque minha filha, acha que devo sair mais e tentar arranjar um namorado — falo a contra gosto.
— Bem se esse é o problema tenho certeza que eu posso o resolver. — COMO ASSIM?
— Desculpe-me acho que não compreendi.
— Será mesmo que não entendeu? — estava na cara que ele sabia que eu tinha entendido.
— Olha você é mais novo e realmente não estou fã de me relacionar com ninguém
— sou direta.
— Então esse é o grande problema? O fato de eu ser mais novo que voce? Ou pelo menos você achar que sou mais novo?
— Quantos anos você tem?
— 29 anos — sorri com um sorriso perfeito.
— Sou cinco anos mais velha, realmente isso não daria certo — eu sei, eu sei estava sendo careta. Mas não sei explicar, apenas não podia me relacionar com ele, ou talvez eu estivesse com medo, ou apenas sendo racional. Até porque em que raio de hipótese, conhecer um cara na balada e tentar algo daria serio? Isso simplesmente não daria certo, e a prova viva era os meus filhos. Até porque foi justo em uma balada que eles se conheceram certo?
— Isso é o que você acha — sorri — Mas não significa que é o que eu acho — fala se aproximando, seus lábios estavam entre abertos, e eram vermelhos e muito convidativo. Mas porque mesmo estava pensando nisso? Ah deve ser porque estava querendo o beijar, penso antes que pudesse dar travar aquele pensamento. Eu estava querendo o beijar, depois de anos vivendo a sombra de um amor mal esquecido, eu estava ali sentido...Desejo por outro homem, mas porque justo esse homem tinha que ser mais novo? Será que isso era tão importante assim? Tentava acreditar que não, mas de certa forma eu sabia que era. Porque nada vinha facil para mim? Será que eu não tinha chance de amar alguém novamente? Eu não sabia as respostas, mas o que eu sabia naquele momento, era que não poderia ficar ali, pois talvez me arrependeria do que acontecesse se não fosse, mas de qualquer forma, me arrependeria também, pois ali naquela boate estaria deixando a chance dada, a minha ultima chance de ser feliz. E era isso que o meu subconsciente dizia enquanto eu me afastava dele, me dizia que eu estava jogando fora a chance dada, estava desistindo da minha felicidade, e mesmo eu sabendo disso eu não parei, continuei andando para fora daquela multidão sem olhar uma única vez para trás. Meu coração , meu pobre coração batia freneticamente, e quando dei por mim, já estava do lado de fora. Olhei para os lados, mas nem sinal da Beatriz ou do Lipe, e mais uma vez , eu me vi só, o céu estava incrivelmente escuro ( o que mais eu esperava, já que era noite), as estrelas eram mínimas, mas as poucas que apareciam parecia fazer uma grande diferente naquele céu tão negro. E foi só ali, no meio de tantas pessoas que iam e vinham, que eu percebi duas coisas. A primeira , era que mesmo eu estando cercada por tantas pessoas, eu sempre estava só, por mais que escutasse metade do mundo, nem um parava para me escutar, até porque, que graça teria em escutar a mim? O que de bom teria em mim? Nada era a única resposta que conseguia achar para entender. E a segunda coisa que percebi naquela mesma noite, era que... Eu tinha acabado de deixar minha felicidade escapar, mas por qual motivo fiz aquilo? Por medo ? Mais medo de que? De sermos descriminados pela sociedade? Eu sabia que aquela não era a resposta, e sabia que a resposta era bem clara. Eu tinha medo de ser feliz novamente.
Bia
Passei menos de três minutos ali abraçada com o Lipe, e nesse tempo descobri uma coisa. Apenas ele seria capaz de fazer esse sofrimento em que eu me encontrava acabar, apenas ele seria aquele que me daria a luz para toda essa dor. Eu sabia disso ao olhar nos seus olhos e ver o carinho ali, eu sabia disso antes mesmo de ter me dado conta de tudo, apenas não queria acreditar naquilo.
Talvez porque eu queria viver no meu mundo aonde tudo era perfeito, e que tudo era apenas um doce engano. Mas eu sabia que não podia, eu tinha uma vida, vida essa que eu tinha que viver, mesmo cada pensamento meu fosse o contrário.
— Acha melhor irmos para casa? — olho e vejo o rosto do Lipe tão perto do meu, mas ao mesmo tempo distante, distancia que percebi que ele estava colocando de propósito.
— Sim, é melhor irmos — vejo ele se afastar, tentando chamar um táxi para nós, logo que o táxi para, vou para perto dele, que prontamente me ajudou a entrar no táxi.
Em seguida me lembro de ter escorado a cabeça no peito dele, e sentir seus braços circundar minha cintura. Minutos depois, que poderia ter durado horas ou apenas segundos , e mesmo assim não saberia dizer, sinto-me sendo suspensa por ela , e por algum motivo , mesmo estando sonolenta e praticamente dormindo, lembro-me de semanas atrás, quando chegava na casa do meu e ele tentava me acordar, do nosso primeiro quase beijo e da forma como nos tratávamos. Sou levadas pela aquelas lembranças para o mundo dos sonhos, ainda entre a sonolência e o pouco de consciência que me restava, sinto sendo depositada na cama, meus sapatos foram tirados e eu sabia que a qualquer momento ele iria sair, mas a pergunta era, eu queria que ele saísse? Provavelmente não, já que antes que pudesse ter consciência do que dizia, eu já tinha falado.
— Fique — apenas uma palavra dita, mas com uma intensidade jamais vista. Penso que ele tinha preferido não ficar, mas minutos depois sinto o colchão se afundar levemente, e seus braços seguram minha cintura. E foi ali nos braços dele que adormeci.
Katy
— Que tal irmos para minha casa? — pergunto de forma sexy para o Oliver.
— Claro baby — seguro a mão que ele me estendeu, e andamos até parte debaixo da boate. Olho em volta vendo se achava a Bia, mas não tinha nenhum sinal dela ali, provavelmente saiu com aquele deus grego de caipira. Sou guiada pelo Oli para fora da boate, logo que chegamos lá fora, andamos uma quadra para enfim chegarmos no carro dele.
Logo ele abre a porta para mim, assim entro e espero ele rodear o carro, para podermos enfim ir para minha casa.
Vejo ele se sentar, tão lindo e sexy e as lembranças de como a gente começou a ficar próximo invadiram minha mente.
Na verdade todo o nosso lance começou por causa da Bia. Sim, graças a minha amiga, maluquinha das ideias ( não tanto quanto eu, é claro) eu e o Oli ficamos próximo.
Três noites depois da Bia ter ficado com ele e depois ter ido embora, ele ligou para mim. O motivo? Queria saber porque a Bia não o atendia, é claro que eu menti dizendo que lá não tinha acesso a celular ( mesmo que depois vim a descobrir que realmente lá não tinha torre para celulares 3G). E então, naquela mesma ligação acabei puxando assunto e acabamos falando por cerca de meia hora. Coisa que não estava no previsto, mas acabou se tornando bom. Mas depois que a ligação acabou eu sabia que não voltaríamos a nos falar, ou pelo menos era isso que achava. Mas por obra do destino ou do acaso ( será que os dois não são a mesma coisa? ) voltamos a nos falar, e também foi graças a Bia. Em uma das pouquíssimas vezes que consegui conversar com a Bia, ela indicou para eu fazer algum curso, já que estávamos em férias e eu sem ela não tinha nada para fazer, assim resolvi fazer um curso e qual a minha surpresa ao chegar nele e encontrar justo o Oliver.
— Katy? — lembro-me de assustar-me por ver ele ai, mas logo em seguida um sorriso se abriu no meu rosto.
— O que você está fazendo aqui? — pergunto enquanto o abraçava.
—Bem eu vou começar o curso de espanhol, e você? —sorri olhando para mim.
— Também vou fazer esse — mentira, na verdade eu iria fazer o de inglês, mas na hora eu simplesmente agi por impulso e falei aquilo.
Mas deu no que deu, depois mudei minha matricula, e comecei a fazer curso de espanhol, e depois de duas semanas começamos a nos envolver, no começo pensei que seria apenas mais um dos milhares de relacionamentos que tive, mas algo lá no meu interior me dizia que não era apenas isso.
— Pequena? — viro me para ele, e o vejo me olhar intensamente, aquele olhar de desejo, tão bom e excitante.
— Sim? —indago de forma questionadora.
— Er já chegamos na sua casa — sorri, e meu paizinho do céu que sorriso era aquele, tão quente. — Posso entrar? — pergunta meio encabulado.
—Claro que el amor, porque la noche es sólo un niño¹ —respondo em espanhol. Em seguida saio do carro, sem ne olhar para trás, pois sabia que ele estaria lá. E assim como a noite era apenas um ninõ, eu era apenas uma criança fazendo coisas de adulto, só que havia uma diferença. Eu fazia melhor.
Walkiria
Cheguei em casa meia hora depois de ter saído da Boate. O que eu fiz para demorar tanto assim? Apenas andei, andei sem rumo e nem direção, andei para ver se algo mudava em mim. Mas sabe o que aconteceu? Nada mudou,e eu continuava só, sozinha nesse mundo, sem ninguém para me dar uma única mão. Eu sei posso estar parecendo dramática, mas não era isso. Todos a minha volta tinha problemas, mas porque era os problemas deles que eram vistos? Porque tudo parecia girar ao redor de todos menos de mim? Devo já estar ficando louca de tanto fazer perguntas a mim mesmo, e mais louca ainda por nunca achara as respostas para elas.
Ando pela casa em busca de algum sinal da Bia, até que paro em frente a porta do quarto dela. Abro lentamente a porta e me deparo com ela e o Lipe deitados...Juntos. A cena era fofa de se ver, e por mais que eu torcesse para que ela ficasse com o Simon, eu sabia que independentemente da escolha da minha filha, eu ficaria feliz de qualquer jeito. Pois era a felicidade dela que me importava no final das contas, e não importava quem fosse, apenas que ela fosse feliz assim, feliz sem ter as marcas do passado a assombrando, assim como foi as lembranças do pai dela.
Vejo a porta lentamente, e sigo em direção ao meu quarto, pois dali algumas hora teria um dia cheio de trabalho pela frente.
¹Claro amor, até porque a noite é só uma criança
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