Coisa de Casa
1 Capítulo 1
— Temis, já arrumou a cama? — perguntou a mulher com as mãos na cintura. Tinha uma postura elegante, um corpo magro como não havia tido em anos, porém com enormes seios e um culote avantajado. A menina com quem falava estava no auge de seus seis anos, enrolada em uma manta azul marinho que arrastava no chão com a baixa estatura, um vestido de lã e uma meia-calça grossa eram apenas acessórios perto da herança de família.
Ela não respondeu. Havia embolado os lençóis de forma mais ou menos arrumada sobre a cama.
— Como se você arrumasse — respondeu a avó aparecendo no batente do quarto azul bebê. No alto de seus 54 anos, era uma mulher formosa com cabelos longos e loiros, não se negava a envelhecer, mas também acreditava que não precisava incentivá-la a chegar cedo. — Eu fiz chocolate quente. Deixa a menina correr um pouco lá fora para se esquentar. Você está sendo super protetora.
Amélia não era super protetora e isso era independente do que a mãe dizia, só temia que Artemis cresce sem regras e desorganizada, mas logo cedeu aos pedidos da mãe e desceu para a cozinha.
Chovia lá fora, uma garoa fina, porém o céu estava tão escuro que parecia noite. Artemis brincava naquele breu úmido, a bota brilhando sob a luz das calçadas, os cabelos revoltos escapando pelo capuz da capa de chuva.
Aqueles momentos a faziam lembrar de quando era criança e sua mãe brigava com ela pelos mesmos hábitos. Era bom estar em casa em um dia de inverno. Lembrava do medo quando descobrira a gravidez, sozinha em um país estranho sem qualquer contato com o homem que deveria ser seu melhor amigo e pai da criança.
Na mesma hora ela ligou para a mãe pedindo colo.
— Você precisa parar de fugir! — falou a mãe, acariciando os cachos castanhos, assim como ela fazia com Artémis. — Essa criança precisa de um lar, uma família com rostos conhecidos e não de um mês em cada país com pessoas estranhas à servindo.
Naquele mesmo ano ela havia voltado, não se arrependia disso, mas não continuava viajando sempre com a pequena, principalmente na época de festas quando o ar quente a sufocava com sua melancolia.
Ela foi arrancada de supetão de seus devaneios quando ouviu a mãe gritar para a rua se a neta já havia ligado para o avô. O segundo marido de sua mãe já era parte da família quando ela voltou para casa, ainda dormia ali e Amélia até havia gostado dele quando voltou, era melhor que os outros sem dúvida e Artémis parecia confortável em chamá-lo de ‘avô’.
Hoje era o aniversário dele e não havia escolhido nada muito pomposo, apenas um dia com a família, o que significava que logo Edwin e sua trupe estariam por ali. Bem, não era exatamente uma trupe, a mais nova de suas filhas possuía 3 anos e a mais velha regulava de idade com Artémis.
— Mamãe! — gritou a menina, sujando o piso claro da cozinha com lama da rua. A avó não veria problema, mas Amélia estava tentando ensinar a menina a manter tudo arrumado, mesmo assim deixou para lá dessa vez.
— Que foi, meu pinto molhado? — perguntou, tentando controlar o friz nos cachos negros.
— Você vai fazer bolinho de chuva mole? — perguntou com cara safada. Ela sabia que a mãe não resistia aqueles olhos azuis arregalados de pedinte e por isso se aproveitava.
— Faço! — respondeu — Mas só se a senhorita limpar o chão que sujou, sair da chuva, tomar um banho quente e trocar de roupa.
A menina sorriu de canto e baixou os olhos: “olhos de cigana obliqua e dissimulada!”, “olhos de Capitu!”.
Havia encontrado a mãe de Noah, uma vez por acaso e acabou apresentando a menina, não era justo que a avó não pudesse ter ciência da neta, porém pediu para que apenas ela se aproximasse. A mulher aceitou.
— Ela tem os olhos dele, mas o olhar é todo seu — respondeu a mulher sorrindo ao acariciar os cabelos grossos e negros da neta que dormira em seu colo — Ela é linda! — aquela mulher tinha o sonho de ser avó e Amélia não poderia tirar aquela satisfação dela, mas preferiria não ter nenhum contato com seu antigo amor.
Amélia observou quando a menina revirou os olhos e foi pulando buscar um pano para limpar a sujeira, para logo depois subir as escadas aos pulinhos. Por algum motivo, Temis parecia mais feliz naquele dia, talvez fosse a expectativa de ver as primas e acabar com a solidão de todos os dias, ou apenas só gostava dos dias de chuva, assim como a mãe.
Amélia gostava da casa cheia.
O marido de sua mãe, assim como seu pai, odiava o frio e por isso acendeu a lareira com alguns tocos de madeira, agora toda a casa tinha um cheiro almiscarado da madeira pegando fogo.
Edwin havia sentado em uma poltrona e Helena havia se ajeitado graciosamente em seu colo, com os cabelos parecendo chamas à luz da lareira. Sua mãe estava com a cabeça apoiada nos ombros do marido que acariciava os cabelos loiros, era uma cena bonita de família.
A paz no lar ideal.
Mas apesar de tudo isso encher o seu coração, ela ainda se sentia um pouco melancólica. Noah estava em algum lugar quente agora, sem a menor ciência de que sua filha brincava na chuva. Ele sim seria super protetor.
Helena havia avisado sobre isso quando as duas ficaram sozinhas, ela já conhecia a história e havia decidido não deixar isso afetar a sua vida novamente, mas era partidária de contar ao primo sobre a criança, mas Amélia se mantinha fiel a sua decisão.
— Luiza — chamou o homem, segurando uma das meninas quando ela passou em alta velocidade por ele — Pega mais um bolinho de chuva pro vô — a menina não falou nada, apenas assentiu e em pouco minutos ela voltava com a travessa inteira.
— Assim o vovô vai ter um ataque — respondeu a ruiva, repreendendo a filha e o sogro postiço — O senhor precisa tomar mais cuidado com a fritura.
Amélia ouvia tudo, mas parecia uma discussão distante, como uma gravação com problema de audio, aliás estava daquele jeito o dia inteiro. Artemis provavelmente foi a única que notou a mudança, pois se aproximou e se sentou com a capa molhada no colo da mãe, não disse nada, apenas deitou a cabeça nos ombros da mulher e ficou enrolando uma mecha nos dedos finos.
De onde estava Amélia podia ver a tatuagem da filha, próxima a nuca e de relance a ponta da Rosa-dos-Ventos que ficava em seu próprio punho. Não a escondia em casa, Ártemis gostava de olhar para ela, desenhar ela e encarar as cores. Ainda era forte como da primeira vez que apareceu, mas mesmo assim já não pensava tanto nele, apenas quando via a pequena seta ou quando as noites ficavam frias demais para dormir sem o aperto dos braços de Noah.
Naquela noite, Amélia jurou que não pensaria em Noah, mas Ártemis pegou no sono ela se levantou e foi até a escrivaninha, pegou um pedaço de papel em branco e começou a escrever com uma letra caprichada.
“Noah,
Você deveria ver nossa pequena, está cada dia, mais linda.
Sentimos a sua falta.
Com amor,
Amélia”
Ela não releu a carta, apenas a dobrou e jogou no fundo da gaveta junto com as outras. Ela sempre precisava escrever o que queria, mas isso não significava enviar. Para todos os efeitos, ela ainda tinha raiva dele e isso nunca passaria.
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