Code: Hunter

1 Capítulo 1 - A menina dos olhos negros


Notas iniciais
Venho trazer o primieiro capítulo do meu livro, ele serve basicamente como um prólogo para a história, que será cheia de reviravoltas, e claro, um romancezinho básico, espero que gostem.

Não... Não, pare, por favor... pare....

Não esqueci essas palavras nem por um momento, ainda sinto aquele frio na espinha, naquela noite de inverno, é como se eu estivesse passando por isso neste momento. Naquela noite, trancado naquele armário, tentava gritar por socorro, mas meu corpo não respondia, da minha boca não saía uma única palavra. Por mais que eu tentasse, o medo me corroí­a de tal forma que as palavras simplesmente não saí­am. Essa lembrança está tão viva em minha cabeça que, por vezes, sinto que posso tocá-la, como se fosse um objeto qualquer. Consigo até sentir aquele cheiro de sangue que entra nas minhas narinas como se fosse um perfume forte. Sim, um perfume que traz a morte.

— Yuji, Yuji, acorde, o que você está fazendo?

— Hã, o quê?

Quando me dei por conta, já tinha adormecido na sala de aula mais uma vez, olhei ao redor e vi minha professora ao meu lado. Sempre com aquele ar de ser superior, isso, por algum motivo, me irrita muito.

— Desculpe, professora Kotomine, eu peguei no sono, não dormi bem à noite.

— Yuji, é a quarta vez esta semana que você dorme na minha aula, não vou mais admitir isso, vá falar com o diretor agora!

— Tsc.

Calmamente peguei minhas coisas, levantei de minha cadeira e saí da sala. Toda a turma me seguiu com os olhos até eu sair pela porta, conseguia ouvir algumas pessoas sussurrando para as outras:

— Por que ele não vai embora?

— Nossa, como ele é idiota.

— A bela adormecida despertou? Hahahaha.

Sinceramente, não me importo mais, cansei de me preocupar com isso, eu devia parecer um idiota mesmo, um idiota patético, é isso que eu sou, não conseguia fazer nada, só ficava torcendo pelas coisas darem certo como uma criança mimada.

Perguntava-me se o sermão seria breve. Não é como se ele nunca tivesse me dado um sermão antes, afinal estava sempre causando problemas, mas, por mais estranho que isso pareça, ele é o mais próximo de uma figura paterna para mim.

Quando dobrei o corredor para ir à sala do diretor... plaf... plaf... plaf esbarrei em uma menina, nunca a tinha visto na escola, isso me despertou uma certa curiosidade.

— Ah, desculpe, eu estava distraído.

Enquanto ela se abaixava para pegar seus livros que haviam caí­do, me respondeu:

— Não, eu que sou muito desajeitada, eu devo pedir desculpas.

Quando ouvi aquela voz doce, olhei para ela, tinha cabelos longos e ruivos, a sua beleza e aura eram dignas de um anjo, não conseguia parar de olhar, com certeza haveria quem falasse que é uma boneca, tecida com as mais talentosas e delicadas mãos.

Ao se levantar, olhei em seus olhos, mas, para minha surpresa, seus olhos não eram alegres como sua beleza, eram olhos negros como a noite, olhos tristes, como os de alguém que já viu o inferno, olhos iguais aos meus.

— Oi, meu nome é Sophie, prazer em conhecê-lo.

— Oi, sou o Yuji, prazer em conhecê-la também, você é nova na escola? Nunca te vi aqui.

— Sim, cheguei ao Japão há pouco tempo, não estou acostumada com o fuso horário daqui, por isso estou atrasada, você poderia me dizer onde fica a sala 3C?

— Claro, é a minha sala, é no final do corredor, à direita.

Ela agradeceu com um sorriso no rosto e olhos diferentes daqueles que eu tinha visto antes, parecia que aquela impressão que eu tive era coisa da minha imaginação, mas mesmo assim, alguma coisa me dizia que ela tinha algo de "diferente", não por sua beleza, mas algum segredo. Talvez eu só quisesse que alguém tivesse um olhar igual ao meu, mas isso seria muito egoí­smo da minha parte, mesmo que eu achasse que era apenas imaginação minha, fiquei pensando o que poderia ser esse "diferente". Pensei nisso o dia todo, estava tão focado que nem lembrava o que o diretor falou para mim, fui para casa e então resolvi falar com ela no outro dia, talvez finalmente encontrara alguém igual a mim.

Os dias foram se passando, eu e Sophie ficávamos cada vez mais próximos, eu fui esquecendo o real motivo para me aproximar dela, aliás, isso não importava mais, ela era popular, inteligente e bonita, ao contrário de mim que era burro, feio e não preciso nem falar de minha popularidade, mesmo assim ela me aceitou. Nós sempre estávamos juntos na escola, e até í­amos juntos para casa.

Isso começou a causar inveja em algumas pessoas, sempre ouvia elas dizer:

— Por que ela fala com esse cara?

— Sei lá, ela deve ter pena dele.

Isso não me incomodava nem um pouco, pelo contrário, finalmente estava feliz por ter uma amiga, não importava o que dissessem de mim, quando eu estava com ela, não pensava em mais nada.

Sempre conversávamos sobre diversos assuntos, desde mangás até culinária, isso pelo menos, posso dizer que é uma qualidade que tenho, como moro sozinho há muito tempo, adquiri aptidão culinária.

Alguma coisa estava acontecendo comigo, algo que nunca tinha acontecido antes, depois de algum tempo, sempre que me aproximava de Sophie, meu coração começava a disparar. Aí percebi que estava apaixonado, sim, apaixonado por aquela garota de olhos negros, não me incomodaria em ficar para sempre com ela.

Sophie e eu í­amos a todo canto juntos. Ela adorava uma loja de CDs e mangás que ficava perto de minha casa, sempre í­amos lá depois da aula para conversar e ver produtos novos. Quando estava com ela, o tempo parecia voar, já tinha ouvido algumas pessoas comentarem que o único modo de um homem se apaixonar verdadeiramente por uma mulher era se tornando seu melhor amigo. Mas nunca pensei que o que chamam de paixão seria algo tão forte assim.

Só o fato de pensar em ver ela nos braços de outro homem me fazia sentir náuseas. Então pensei que o único modo de evitar isso era me declarando para ela. Mas eu não sabia nem por onde começar, nunca tinha me declarado para alguém, e, talvez, ela só quisesse a minha amizade. Mesmo correndo esses riscos, me decidi, e dei o primeiro passo.

Quando estávamos juntos na loja, tomei coragem e a convidei para jantar em minha casa. O fato de ela aceitar sem hesitação e com um sorriso no rosto me deixou bastante confiante, talvez ela sentisse o mesmo por mim.

Tudo estava perfeito, perfeito até demais para ser verdade, isso mesmo, eu não nasci para ser feliz, tudo o que me espera, é a solidão e a tristeza, e isso ficou claro naquela noite, uma noite fria como a de sete anos atrás, esse era o palco perfeito para tudo cair por terra. Me arrependo profundamente de tê-la convidado para jantar na minha casa, naquela noite, eu descobri a verdade, não mereço felicidade, tudo que seja parecido com isso é uma farsa.