Code: Hunter
2 Capítulo 2 - Novo mundo
Notas iniciais
Tudo estava pronto para recebê-la naquela noite, não lembrava a última vez que a casa ficou tão limpa e arrumada, e não poderia ser diferente, afinal, não iria querer causar má impressão. Estava tudo perfeito, depois de que nós jantássemos, finalmente iria me declarar. Mesmo tudo estando perfeito, não conseguia ficar calmo, parecia que aquele frio na barriga não passava, embora achasse que fosse normal na minha situação. Ding-Dong, quando a campainha tocou, eu já imaginava quem fosse.
— Já estou indo! Respondi com um sorriso que não queria sair do meu rosto.
Quando abri a porta, olhei para ela, estava com um cachecol vermelho que se confundia com seus cabelos ruivos, parecia mais linda do que de costume.
— Oi Sophie... err... como você está?
— Oi, eu estou bem, Yuji, e você?
— Errr... Também estou bem.
Respondi com um sorriso nervoso. Por um momento, não sabia o que dizer, essa era a primeira vez que uma garota visitava a minha casa, mas, para minha sorte, ela tomou a iniciativa.
— Nossa, está frio aqui fora, posso entrar?
— Cla... Claro, por aqui.
Estava tudo indo como o planejado, dei o melhor de mim para cozinhar algo bom, Sophie até me ajudou a picar os legumes. Enquanto fazíamos o jantar falávamos sobre todo tipo de coisas, como de costume.
Quando terminamos de comer, tinha chegado a hora, a ofereci um pouco de chá, e ela aceitou com aquele sorriso típico.
Enquanto preparava tudo, o nervosismo começou a tomar conta de mim, só conseguia pensar que aquele era o momento mais decisivo da minha vida até agora. Sophie interrompeu aquele clima e meus pensamentos com uma pergunta:
— Onde estão seus pais, Yuji, estão trabalhando?
Fiquei um pouco receoso com a pergunta dela, mas respondi mesmo assim, afinal, sendo ela, não tinha outra escolha:
— Meus pais morreram quando eu tinha sete anos, eles foram assassinados por alguns bandidos que entraram na nossa casa, desde então eu moro sozinho.
Sophie ficou paralisada com a minha resposta, parecia que ela não sabia o que dizer pela primeira vez desde que nos conhecemos, o silêncio pairou por algum tempo, mas, em seguida, as coisas voltaram ao normal, e o nervosismo veio junto.
Meu coração estava acelerado, acelerado ao ponto de parecer que iria saltar do meu peito a qualquer instante, meu corpo começou a tremer da cabeça aos pés, mas essa era a melhor chance para me confessar, não poderia deixar essa chance escapar. Tomei fôlego e comecei a dar um passo de cada vez, minhas mãos não paravam de tremer, minha garganta ficou seca, minhas mãos não me obedeciam mais, o que fazia a bandeja não parar de balançar.
Quanto mais chegava perto dela, mais sentia meu peito apertado, eu estava mergulhado em um nervosismo profundo. Quando estava indo em direção a ela, parecia que meus passos estavam em câmera lenta. Até que, por um momento, meu corpo não me obedeceu mais, e a bandeja de chá caiu sobre mim e eu caí no chão.
— Argh! Quente! Quente! Sophie levantou rapidamente e veio me ajudar a levantar.
— Yuji, você está bem? Está doendo muito? — Sim, estou bem, foi só um susto, desculpe por preocupá–la.
O rosto de preocupação logo foi embora e ela começou a rir, não entendia bem o motivo, fiquei meio incomodado, então perguntei:
— Do que você está rindo? — Desculpe, mas não pensei que você fosse desastrado assim como eu, é bom saber que não estou sozinha. Percebendo a situação, eu consenti com um sorriso. Então ela continuou.
— Vá trocar essa camiseta, deixe que eu preparo o chá.
Eu estava mesmo ensopado, por isso não esperei e tirei a camisa ali mesmo, era um pouco constrangedor, mas, como éramos bons amigos, não achei que seria um problema. Entretanto, para minha surpresa, quando tirei a camisa, Sophie me olhou e sua expressão alegre mudou para uma expressão de espanto. Ela começou a olhar fixamente para uma cicatriz que tenho no lado esquerdo de meu peito.
— O que foi, Sophie? Algum problema?
Quando a questionei, ela franziu a testa e olhou para o chão.
— Onde... Onde você conseguiu essa cicatriz?
Não entendi muito bem o motivo da pergunta, imaginei se ela tinha medo ou nojo de cicatrizes.
— Não lembro onde a consegui, mas tenho-a desde criança, por quê? Algum problema?
Ela mexeu a cabeça de um lado para o outro e começou a sussurrar:
— Seu... Seu monstro, por quê? Por que você?
O silêncio pairou por alguns instantes, não conseguia entender o motivo para ela ficar daquele jeito por causa de uma cicatriz. Lágrimas começaram a cair do rosto de Sophie, então decidi perguntar:
— Sophie, não consigo entender por que...
Antes que eu terminasse de falar, ela levantou a cabeça e olhou fixamente em meus olhos com um olhar penetrante, totalmente diferente daquele olhar carinhoso e suave que eu estava habituado, foi aí que enxerguei aquele olhar triste novamente, igual ao que tinha visto quando nos conhecemos.
Repentinamente, ela veio em minha direção, sacou uma faca estranha de seu bolso, de um material que eu nunca havia visto, e me golpeou no ombro, eu senti a faca entrando e rasgando minha pele. Eu conseguia ver lágrimas em seus olhos, mas não conseguia entender o que estava acontecendo. Sophie saiu correndo, deixando sua faca cravada em mim, minha visão começou a escurecer, a cicatriz no meu peito começou a latejar, como se algo estivesse querendo sair.
Fui para fora de casa pedir ajuda, mas não encontrava ninguém, me esgueirava entre um muro e outro, sem forças, não conseguia nem gritar por socorro, só conseguia me lamentar. Minha vida começou a passar com se fosse um filme na minha cabeça, uma vida de sofrimento e arrependimentos, até o último momento seria assim.
— Por que, Sophie? O que está acontecendo? Por que você fez isso? Eu vou morrer assim? Como um cão sarnento sozinho em uma calçada. Por que nada dá certo para mim?
Depois de caminhar alguns metros, caí no chão sem forças, estava perdendo muito sangue, minha visão estava quase toda escura, foi quando vi a silhueta de uma pessoa. Com as minhas últimas forças, eu implorei.
— Eu... Não quero... Morrer assim.
Ao acordar, estava meio tonto, minha cabeça doía muito. Olhei ao redor e vi que estava em um quarto empoeirado, cheio de livros empilhados, parecia ser uma casa antiga ou algo assim. Comecei a torcer para que tudo aquilo não passasse de um pesadelo. Então uma dúvida surgiu na minha cabeça, pensei em voz alta.
— Que lugar é esse?
Ouvi alguns passos se aproximando da porta, um homem de cabelos escuros entrou no quarto, ele aparentava ter aproximadamente 40 anos, tinha uma cara séria e fechada.
— Ah, você acordou, ótimo, eu trouxe um pouco de chá. Descanse, vai demorar um pouco para você conseguir mexer esse braço.
No momento que ele disse isso, me dei por conta que meu ombro havia sido tratado, estava todo enfaixado, não parecia ser coisa de um amador, mas, infelizmente também tive certeza de que aquilo tudo não tinha sido um sonho.
Quando lembrava de Sophie me esfaqueando, minha cicatriz começava a doer e latejar, aquilo tudo tinha sido real, ainda não conseguia acreditar.
Comecei a pensar que aquele homem talvez pudesse saber o que estava acontecendo, afinal, aparentemente ele me salvou e me trouxe para sua casa.
Fiquei um pouco desconfiado, mas perguntei mesmo assim. — Foi você que me salvou?
— Sim, você tem sorte de estar vivo, parece que o Sad Eyes que te atacou não fez jus ao seu nome, ele errou os pontos vitais, devia ser chamado de Blind Eyes. Hahahahaha.
Aquele semblante sério que vi de início foi substituído por um que mais parecia de um piadista sem graça ou um idiota, ouvindo aquelas altas gargalhadas, duas dúvidas surgiram na minha cabeça, a primeira era o que eram esses tais de Sad Eyes, e a segunda era se esse cara era mesmo um idiota.
— Sad Eyes? O que é isso?
Surpreso com a minha pergunta, ele me olhou desconfiado.
— Você também bateu a cabeça e perdeu a memória, moleque? Pelo menos você sabe que você é um Scar, não é?
— Scar?
Quanto mais ele falava, mais confusa minha cabeça ficava, estava começando a achar que além de idiota, esse cara era só algum louco falando esses nomes complicados. Mas depois dos últimos acontecimentos, acho que não posso duvidar de mais nada, afinal, a garota que eu julgava ser doce e delicada tentou me matar.
— Parece que vou ter que explicar desde o começo, acho que você perdeu a memória mesmo, isso vai ser complicado, vou tentar simplificar para você:
Bom, desde os primórdios, sempre existiram 3 espécies com inteligência superior à dos outros seres vivos, os humanos, os Scars e os Sad Eyes. E esses três estão dentro de uma cadeia alimentar, mas um pouco diferente, os humanos comem animais, frutas, vegetais, etc. Os Scars se alimentam da energia dos humanos, não conseguimos tirar energia de outros animais ou plantas. Nós temos os hábitos alimentares mais diferenciados dos seres vivos. Os Sad Eyes se alimentam como humanos, mas são nossos predadores naturais, tendo em vista que são os únicos que conseguem fabricar armas eficazes contra nós, como aquela que estava em seu ombro, eles não precisam de nós para se alimentar, mas nos caçam por instinto.
— Hã, espera, o que você está falando? Como assim esses tais de Scars se alimentam da energia dos seres humanos?
Para mim, tudo aquilo que aquele homem falava era loucura, ele só podia ser um louco que fugiu de algum sanatório. Com a sorte que tenho tido na minha vida inteira, ser salvo por um louco não seria estranho. Mas continuei ouvindo o que ele tinha a dizer. Afinal, eu não tinha nada a perder.
— Bom, vou tentar simplificar, você deve saber que, para os seres humanos poderem produzir energia, eles comem outros seres vivos, certo? Nós, Scars, não conseguimos fazer isso, o único jeito de termos energia é “roubando” a energia que os seres humanos produzem comendo outros seres vivos. Mas muitos de nossa espécie fazem isso desordenadamente e acabam matando suas presas, nós os chamamos de glutões.
Mesmo que toda essa história fosse uma invenção de um louco, fiquei um pouco curioso, então perguntei:
— Mas por que eles têm esses nomes estranhos? — Você olhou nos olhos da pessoa que fez isso com você?
— Sim, mas o que isso tem a ver?
— Como eles pareciam?
— Err... Eles pareciam de alguém muito triste, alguém que já havia sofrido muito.
Quando falei isso, lembrei do dia que conheci Sophie na escola, não era a primeira vez que tinha visto aqueles olhos.
— Exato! Nós, Scars, somos os únicos que conseguimos identificar eles. Sempre que um Scar olha nos olhos de um Sad Eyes, eles têm essa impressão, por isso eles são chamados assim. Há também outra particularidade neles, todos têm olhos de cor negra, assim como os seus, por exemplo.
Foi então que comecei a pensar que o que aquele velho louco dizia começava a fazer um pouco de sentido, mesmo assim, poderia ser só alguma coincidência, mas eu estava começando a ficar curioso sobre essa história, mesmo desconfiado, perguntei:
— Mas e como os Sad Eyes conseguem identificar esses tais Scars?
— Antes de lhe responder isso, me deixe fazer-lhe uma pergunta. A pessoa que te atacou por acaso viu essa cicatriz no seu peito?
Quando ele falou isso, as coisas pareciam começar a se encaixar na minha cabeça, embora aquilo parecesse loucura, fazia sentido.
— Sim, na verdade ela só me atacou quando a viu.
— Não poderia ser diferente. Esse é o único modo de um Sad Eyes reconhecer um Scar, pela sua cicatriz, eles conseguem diferenciar as nossas de cicatrizes normais. E é por isso que temos esse nome, quando completamos dez anos, uma cicatriz aparece em algum lugar de nosso corpo aleatoriamente, seria como nossa puberdade, a partir daí conseguimos nos alimentar sozinhos.
Toda aquela história começou a martelar minha cabeça, eu sei que nunca comi a energia de uma pessoa ou algo parecido, sempre me alimentei como um ser humano normal, também tenho certeza que não perdi a memória, seria estranho se eu perdesse depois do que aconteceu. Mas o que esse velho estava falando talvez fizesse um pouco de sentido, isso me assustou um pouco, talvez eu também estivesse ficando louco.
Mas mesmo que o mundo que eu conheço seja uma mentira, isso não importa, eu não tinha mais uma razão para viver. A única pessoa que eu amava neste mundo tentou me matar, a única esperança que eu tinha de ser feliz foi embora, eu realmente não tinha mais motivos para viver.
Vendo minha expressão de melancolia, ele me questionou:
— Por que está com essa cara, garoto? Você quase morreu, tem sorte de estar vivo, deveria estar feliz.
— Eu não tenho mais por que viver, eu perdi tudo, minhas últimas esperanças também viraram cinzas.
No momento que falei isso, o semblante dele mudou, ficou com uma expressão séria como a de quando ele entrou no quarto.
— Se isso é verdade, então por que, quando o encontrei, você disse que não queria morrer?
As palavras dele me surpreenderam, pensei por alguns momentos o motivo para eu ter dito aquilo, eu já não tinha mais esperanças em nada, e mesmo assim, falei que não queria morrer naquele momento.
Foi quando uma lembrança enfraquecida veio a minha mente, era uma lembrança de muito tempo atrás que tinha ficado esquecida dentro das minhas memórias. Uma promessa que tinha feito há muito tempo, uma promessa que eu não estava cumprindo durante anos.
Era a minha luz no fim do túnel, depois de muito tempo, eu tinha uma razão para viver. Eu levantei minha cabeça e olhei para a lua através do vidro da janela do quarto, eu me sentia vivo depois de muito tempo.
— Senhor, obrigado por me fazer ver que ainda tenho esperanças neste mundo. Desculpe minha falta de modos, meu nome é Yuji, obrigado por me salvar.
— Prazer em conhecê-lo, Yuji, meu nome é Hiro. E, a propósito, você quer ver a minha cicatriz? Ela fica no meu bumbum.
Enquanto ele dizia isso, já tirava seu cinto da calça, eu relutei, fazendo gestos com as mãos.
— Não, seu louco... Que nojo, pare com isso.
Nesse momento, tive duas certezas, a primeira é que nunca tinha me sentido tão vivo desde aquela noite de inverno, e a segunda é que aquele cara realmente era um completo idiota.
Fale com o autor