Coda
10 Nova vida
Notas iniciais
Os batimentos cardíacos de Milla estavam muito acelerados. Todos os anos na infância juntos ao irmão. Todos os aniversários, as férias de verão, tudo perdido. Ela se sente assim, uma alma que vaga sem direção. Todos os seus pensamentos sempre acabam com a pergunta “ Por que fez isso comigo, Tyler? Por que continua fazendo isso comigo? ”.
— Vamos Milla, precisamos continuar a viagem — ele a puxa pelo braço.
— Não haja como se nada houvesse acontecido, não posso entrar num carro com você! — A garota tira a mão que tapava sua boca — Você é doente...
Tyler olha franzindo a testa, uma expressão de raiva.
— Não me faça perder a paciência com você, não vai querer isso.
Quase ao mesmo tempo que a frase termina de ser falada, um errante aparece saindo detrás de uma árvore à frente dos dois. O jovem colegial empurra Milla deixando-a cair, pega uma faca, se aproxima do mordedor e a enfia em seu olho. Enquanto isso a garota se levanta e entra nas árvores correndo, cortando caminho para o carro. Um errante percebe o movimento na floresta, mas não está perto o suficiente para ser perigoso. Ela corre e chega na frente do posto. Tyler está correndo em sua direção, ele percebeu que ela quer fugir de novo.
Uma bomba de terror e adrenalina explode dentro da garota ao ver Tyler correndo. Ela abre a porta do carro e entra. A primeira coisa que faz é trancar as portas, depois procura a chave, que não estava na ignição. Calafrios percorrem seu corpo quando vê seu irmão batendo na janela.
— Você não vai conseguir! A chave não está ai! — Ele ri enquanto bate na janela cada vez mais forte.
Milla procura pela chave desesperadamente. Com as mãos trêmulas e sussurrando ajuda à Deus ela finalmente a encontra. O homem do lado de fora fica paralisado quando vendo o carro ser ligado, depois bate incessantemente nas janelas.
— Não! Você vai morrer! Milla, NÃO! NÃO ME DEIXA AQUI!
Ela olha nos olhos de Tyler e uma lágrima escorre de seus olhos. Ele não consegue ouvir o som, mas os lábios da garota disseram adeus. Quando o carro sai do posto, ela olha o retrovisor e vê seu irmão parado. Ela soube que nunca conseguiria esquecer essa cena, mas que teria de seguir em frente.
Milla dirigiu por duas horas, até que o combustível acabou, no meio do nada. Mais uma estrada vazia e fria, agora sozinha. Em alguns momentos ela pensava em falar alguma coisa, como se alguém fosse ouvi-la, mas se lembra que todos morreram e volta para a realidade e os pensamentos vinham à tona — Você não vai sobreviver sozinha! Precisa de mim! — A voz de Tyler ecoa em sua cabeça.
— Não! Eu não preciso mais de você! — ela se ajoelha — Você precisa de mim! Sempre precisou! — as lágrimas escorrem livremente.
Anoitece. Milla volta para dentro do carro, ela tem muita fome, mas não tem comida alguma e dorme deitada nos bancos de trás. Passa toda a noite dormindo, disfarçando a fome e tendo pesadelos que via seu irmão sendo devorado. De repente ela acorda, está de dia, provavelmente de manhã. O céu parece limpo, mas a temperatura ainda é fria. A garota sai do carro e fica de pé ao seu lado. Ela precisa saber para onde ir. O que o Jimmy, ou o Adam, ou o Tyler fariam para sobreviver agora? Em pensamentos confusos ela começa a caminhar, continuando a estrada a pé, esfregando uma mão na outra, tentando se esquentar.
Uma casa aparece aos poucos em meio a neblina. Milla enxerga uma oportunidade de não morrer de fome. Ela bate algumas vezes na porta da casa, que estava aberta e quebrada, para verificar se algum mordedor sairia, mas parece vazia, então ela entra e passa pela sala em direção a cozinha. Ela vê um corpo em decomposição no chão da sala e isso a deixa enjoada, o cheiro causa um refluxo em sua garganta. Em silêncio Milla chega a cozinha e procura comida ou qualquer coisa nos armários. Ela encontra um abridor de lata e uma garrafa de água cheia até a metade. Sua barriga dói, a fome é cada vez maior, fazia mais de um dia que ela não come nada.
Finalmente Milla abre o último armário e encontra duas latas de comida enlatada vencida e três garrafas de água, pegar aquilo parece errado, mas ela precisa. Ela se senta em uma cadeira e come toda a comida que encontrou, bebe uma garrafa d’água e coloca o resto em sua mochila. Milla volta a caminhar pela estrada aproveitando o resto de luz do dia. Flashbacks do dia anterior continuam inundando seu cérebro. Ela estava fazendo muitas orações, porém não acreditava que Deus estava te olhando naquele momento. O Sol começa a se pôr, a garota aperta o passo na tentativa de achar outra casa ou algum abrigo para passar a noite, estava cada vez mais frio e perigoso.
Com o céu já escuro, Milla chega em uma cidade. Uma placa diz que é Jeffersonville, Geórgia. Na primeira rua da cidade há um escola destruída e carros parados. Ela anda abaixada para não chamar a atenção de alguns errantes nas ruas e entra em uma farmácia. Dentro da farmácia haviam dois errantes, o barulho da porta sendo aberta atrai a atenção deles, que percebem a garota. Os dois partem ferozmente em direção a ela.
— Caralho! — Milla chuta o mais próximo, ele cai sobre uma prateleira e a derruba.
O outro errante rosna quando agarra o braço da garota, ela enfia sua faca no crânio dele, derrubando-o imediatamente. O primeiro se levanta, a garota loira tenta acertar uma facada em sua cabeça, mas erra e a faca fica presa no ombro do mordedor. Ele agarra os ombros de Milla e tenta se aproximar e mordê-la, no entanto ela consegue tirar a faca do ombro do cadáver e dessa vez a faca acerta o olho dele.
Ofegante, Milla olha pela janela. Por sorte a luta não atraiu nenhum outro errante, então ela procura o que a levou a ir em uma farmácia: Um teste de gravidez. Ela os encontra na seção de ‘Intimidade da mulher’. Milla pega dois pacotes e vai até o banheiro, ela se senta na privada e se sente desconfortável de precisar fazer esse teste. Ela sabe que Tyler não tinha cuidado algum quando a estuprava, e temia estar grávida mais do que temia a própria morte. Sentada, Milla tenta relaxar e urinar, com um pouco de tempo ela consegue, e depois de acabar, continua lá, com a cabeça baixa, pedindo à Deus para não estar esperando um filho de seu irmão. Ela levanta sua cabeça e olha para os testes boquiaberta. Foram positivos.
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