Coda
5 Céu
Notas iniciais
Mallory acordou com os olhos inchados, ela chorou a noite toda, Jimmy ficou do lado dela o tempo todo, é incrível como duas pessoas que se conhecem há tão pouco tempo se sentirem como eles se sentiam. Era como se sempre tivessem sido próximos, Jimmy tem a garota como uma base depois da morte das últimas pessoas que conhecia.
— Eu vou procurar comida, você deve estar com muita fome — Jimmy fala enquanto se levanta.
— Sim, eu estou. Obrigada — Mallory se sente inútil, ela está com febre e seus lábios estão secos e rachados.
Jimmy anda até Nora
— Bom dia.
— Nem um pouco bom — Nora olha para as pessoas tristes.
— É difícil, mas a gente tem que seguir em frente — O homem coloca a mão direita no ombro de Nora.
— O que aconteceu, aconteceu, ou vivemos com isso ou não vivemos...
— É a realidade... Nora, você tem um pouco de comida para mim e para Mallory? Estamos famintos.
— Todos estão infelizmente. Tudo o que eu tinha ficou no prédio.
— Ok, vou procurar comida, mesmo assim obrigado — ele dá as costas.
— Tenha cuidado, não queremos mais ninguém morto. E por favor, tenta achar comida para as crianças, elas precisam.
— Vou tentar.
Jimmy volta onde Mallory está sentada, ela parece muito mal, depois de quatro anos no apocalipse, ele já sabe como a infecção funciona e ele não quer ver esse final mais uma vez.
— Eles não têm comida, tudo ficou no prédio, eu vou sair pra procurar mais, você quer vir comigo?
— Eu não posso apodrecer aqui, vamos — Ela sorri para Jimmy.
Mallory se levanta e os dois caminham até a porta que dá nas escadas do estacionamento.
— Como está se sentindo? — Jimmy pergunta enquanto abre a porta.
— Nada bem, isso é uma droga. Não acredito que vou morrer depois de chegar até aqui, depois de ter sobrevivido todos esses anos durante o apocalipse.
— É uma droga — ele quer dizer que ela não vai morrer, mas ele sabe que seria mentira.
— Eu até pensava que eu era algum tipo de escolhida.
— Você acredita nisso? — ele ri.
— Eu acreditava — A garota também ri, mas logo em seguida ela tosse.
Ao chegarem ao andar térreo Jimmy abre a porta, então ele sai olhando em volta, se certificando que o lugar está livre de mortos vivos.
— Pode vir, está seguro.
— Não precisa de tudo isso, eu ainda posso me defender — Mallory diz sorrindo.
— É o mínimo que eu posso fazer — Jimmy sorri de volta.
— Tudo bem, você tem alguma ideia de onde ir?
— Tem um McDonald’s aqui do lado.
— Você não acha que já foi saqueado?
— Sempre sobra alguma coisa.
— Então vamos.
Eles saem do estacionamento. Andando atrás de carros abandonados e desviando de alguns errantes desatentos eles conseguem chegar até a esquina, de onde conseguem ver o restaurante de fast food. Eles param, a imagem que veem é assustadora e ao mesmo tempo espetacular, é como em algum filme de ação, um carro havia estourado a parede do restaurante e entrado até a metade dentro de lá.
— Nossa! Imagina o que aconteceu nesse lugar! — Mallory fala olhando para o carro.
Os dois continuam caminhando silenciosamente até entrarem no McDonald’s. Um mordedor se alimentava de um corpo fresco, suas mãos seguravam o intestino do cadáver aberto.
— Está com a faca? — Jimmy sussurra para a garota.
— Sim, eu pego ele — ela se aproxima do morto vivo que está de ajoelhado de costas.
Mallory enfia a faca na parte traseira do crânio da criatura, mas uma pontada de dor em suas costelas fez com que ela perdesse a força no momento do ataque fazendo com que a faca não entre na cabeça do errante.
— DROGA! — ela grita com o coração acelerado — Eu preciso de ajuda!
Jimmy se vira e vê a garota tentando empurrar o errante para trás. Ele saca sua pistola e atira na cabeça do monstro. Sangue e líquido cefalorraquidiano são espirrados em Mallory, ela olha ofegante pra o atirador e então vomita.
— Obrigado por me salvar mais uma vez — a garota limpa sua boca com as costas da mão.
Jimmy fica espantado ao prestar atenção na aparência da garota. A linda loira de olhos azuis está parecendo um dos mortos vivos, sua pele está sem cor, seus olhos estão fundos e ela está muito magra.
Ele nem tem tempo de agradecer quando escuta os grunhidos de mais mordedores se aproximando, atraídos pelo barulho do tiro.
— Vamos! — Jimmy apoia a garota fraca em seu ombro.
— Jimmy...
— A gente tem que sair daqui!
— Eu não posso mais... Eu não consigo mais...
— Não! Não agora!
Ele pega Mallory nos braços e corre até um prédio com as portas abertas.
— Mallory! Mallory! Fica comigo! — Ele fala trancando as portas e colocando a garota no chão.
— Jim, obrigado por tudo.
Ele fecha os olhos e olha para o chão.
— Eu não queria morrer, mas eu prefiro isso a sentir toda a dor que eu estou sentindo — Mallory tosse no final da frase.
— Você precisa me libertar do sofrimento, eu vou morrer de qualquer maneira — lágrimas pendem de seus olhos cor de céu.
Jimmy enfia a faca na parte esquerda da cabeça de Mallory. Seu coração está acelerado, lembranças da morte de Ana inundam seu cérebro, de repente todo o sofrimento que ele negou o domina de uma forma que ele não consegue fazer nada. Ele não consegue respirar, não consegue se mexer, não consegue aceitar e a única coisa que ele conseguiu fazer foi chorar e gritar.
A duas ruas daquele prédio, Nora e o resto do grupo estavam no estacionamento.
— Você sabe onde eles foram? — Adam pergunta para Nora enquanto coloca algumas latas de ervilhas e milho em cima de um carro.
— Não, sinceramente eu nem sei se eles estão bem, eu estou muito preocupada, você ouviu aquele tiro? — Nora para de olhar o mapa da cidade e responde o homem velho.
— Sobre o tiro eu acho que nós não devemos nos preocupar, afinal, só um tiro não quer dizer muita coisa.
— Talvez você tenha razão.
A mulher volta a prestar atenção no mapa até que a porta que leva as escadas se abre.
— Meu Deus! Eu estava preocupada! Onde a Mallory está?
Jimmy olha para o céu e se lembra da cor dos olhos da garota morta.
— Ela está morta.
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