Cobaias - A Luta Pelo Amanhã
15 Capítulo 14
EM ALGUM LOCAL DO CENTRO-OESTE BRASILEIRO
Andamos tanto e só paramos para comer uma vez, Eric parece querer chegar o mais rápido possível, talvez porque já estamos tão perto... É tão intrigante o modo como ele fica focado e profissional quando estamos em viagem, parece nunca relaxar, sempre pensando em possíveis ameaças e coisas do tipo.
Observo Raquel derrubar uma das mochilas, que carregava, é quando percebo que ela era a que mais levava bagagem, afinal, depois da última parada ela ficou responsável pela mochila de suprimentos gerais. Penso em ajuda-la, mas noto que Victor já tomou a atitude, um pequeno sorriso me vem ao rosto e prossigo andando. Victor não demorou em assumir a responsabilidade por duas das mochilas de Raquel, a deixando apenas com uma menor, a vi sorrir parecendo agradecida e ele dispensar com um gesto indiferente.
Jess revira os olhos para a cena e Bruno passa sem dá importância, noto o modo como Adri segura Bruno por um braço e parece sussurrar algo engraçado em seu ouvido, fazendo o garoto rir e olhar para Jess, que mostra a língua quando percebe. Me volto para a frente novamente, ainda andando, e Ian e Eric conversam sério sobre algo que parece ser os adquiridos da missão, até que Ian parece olhar para mim, enquanto sugere algo a Eric, que o empurra pelo ombro brincando.
É parando para observa-los assim que percebo o quanto cada um deles parece se conhecer, o quão próximos são uns dos outros, como são amigos, nunca tive isso antes e muito menos Victor, embora ele já pareça ter se ajustado com Raquel... Sorri com meus pensamentos e não notei que se aproximaram de mim
— Obtendo dados por observação para passar para os seus superiores? — Ouço ao meu lado e me assusto
— Eric! — Digo surpresa e então percebo sua fala, reviro os olhos — Sim, inclusive faço questão de adicionar nesses dados o quanto o líder desse grupo é desconfiado e insistente
Ele cerra os olhos para mim e volta a ficar sério
— Você ainda não me respondeu, há quanto tempo vem sendo treinada?
Suspiro
— Eu não vou te responder. Não vou, porquê a Raquel confiou em mim sem precisar disso, se você não confia, então paciência
— Você sabe que quanto mais esconder, menor será a possibilidade de que eu confie em você
Senti a aproximação de alguém, assim como Eric, que logo se afastou um pouco de mim
— Do que estão falando? — Adri indagou desconfiada
— Nada, Adriana, nada que você precise ser informada — Eric foi simples e seu tom tinha uma autoridade incrível, logo ele voltou ao lado de Ian na liderança do grupo
Com isso, Adri se afastou irritada, me lançando um olhar raivoso. Me aproximei de Raquel que riu da situação
— Relaxa, Sara. Ela só tá com ciúmes do irmão e fica irritada quando ele a trata assim, mesmo ela sendo a mais velha — Raquel explicou
Concordei em silêncio
BASE (40) DA CORÉIA DO SUL
Nós fomos jogados em nossas celas, eu estou muito machucada, mas minha maior preocupação é Lucca. Diferente de mim, eles foram extremamente brutos, realmente espancaram Lucca, afinal, eram os guardas... Meu corpo está cheia de cortes, queimaduras, alguns hematomas roxos, enfim, tudo feito pelos cientistas assistentes, claro que não era minha primeira vez nesse teste e que também tenho boa parte da dor anestesiada por meu próprio corpo, mas ainda assim não é toda a dor e sinto que a pior área é no lado de minha cintura. Me preocupo com Lucca, pois sei que daqui há poucos dias vou estar completamente recuperada, já ele... Vejo como ele mal consegue se mexer sem gritar de dor e meu coração se aperta. São em momentos como esses que eu mais quero que esse vidro suma e eu possa chegar até ele, cuidar dele.
— Você tá bem? — Ele questiona rouco e vejo que está lutando para falar em meio a tanta dor
— Sim, mas você não devia ter feito isso Lucca! Você devia ter obedecido eles. Olha como você está! — Eu o repreendia e me esforçava para não demonstrar dor, porquê sinto que seria muita falta de noção reclamar de dor, quando eu quem sou a culpada dele está assim e sabendo que ele está pior que eu
— Não... — Ele respirou fundo, mas o vi fraquejar na respiração e segurar a dor, antes de continuar — Eu não machucaria você nem que o castigo pela desobediência fosse minha morte
Meu coração acelerou e me repreendi internamente por ousar bancar a apaixonada numa situação dessa
— Me machuca mais te ver assim — Admiti e senti uma lágrima escorrer por meu rosto
Fiquei queira por um tempo, apenas escutando sua respiração errática e tentando não delatar meu choro. Ele estava deitado na cama sem conseguir se mexer direito, mas acho que estranhou o meu repentino silêncio
— Linda?
Eu pensei se respondia, o medo de minha voz denunciar meu estado... Mas isto pareceu agonia-lo mais e o vi se mexer na cama suportando a dor para tentar me ver, entrei em alerta
— Não, pare! Você vai se machucar mais! — Como eu já sabia minha voz deve ter tirado qualquer dúvida que ele tivesse de que eu estava chorando
Ainda assim ele se virou para mim e eu não conseguia me controlar, chorando mais ao ver seu rosto machucado. Se quando ele volta machucado por um de seus testes já fico preocupada, imagina quando eu sou a responsável por sua dor?!
— O que foi, Maya? Você está com muita dor? — Ele é tão inocente quanto o nível em que ele me afeta, quanto o nível que eu me importo com ele
Enxuguei minhas lágrimas e abaixei a cabeça
— Não, mas quero que você fique bem... — Sei que corei, mas tentei disfarçar o nervoso colocando uma mecha de cabelo atrás de minha orelha — tente dormir Lucca
É claro que o Lucca passou por um cuidado médico antes de ser jogado em sua cela, afinal, eles não querem perder um experimento que deu tão certo.
Lucca tentou ficar o máximo possível confortável e ao mesmo tempo ter uma boa visão da minha cela, me deitei e ainda assim ficamos em silêncio, apenas nos encarando tranquilamente. Me sinto tão bem por ter o Lucca, acredito que se não fosse por ele, eu já havia desistido, me rendido a ser uma mera cobaia, sem nenhum direito como humana, porém sempre que me sinto fraca, que me sinto um nada, ele me mostra o quanto nós ainda temos esse lado humano e que esse mesmo lado nos permite sentir, e que quem sente mesmo nos momentos mais difíceis é capaz de sentir alegria pela coisa mais boba que seja. Para o Lucca eu posso ser sua melhor amiga, todavia para mim Lucca é minha força.
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