Cobaia 0013
12 Capítulo 12 - Amigo
Notas iniciais
08-06-5026 Segunda-Feira
–Você quer ir agora? -Daisuke me perguntava apreensivo.
–Sim.
–Ok. Eu vou com você. — Ele já me puxava pelo braço em direção ao elevador.
–Não! Daisuke. -ele me olhou. — Você não pode ir. Pela sua segurança.
–Minha segurança? É você que quer ir lá sozinha com Antíloco!
–É sério Daisuke.
–Não Kalena, eu vou com você!
.
.
Eu estava nervosa. Nós descíamos em direção ao subsolo, sim nós, Eu e Daisuke que foi teimoso demais e não quis ficar para trás. Os corredores dessa parte da Companhia eram brancos e as portas eram de metal.
Chegamos na sala, onde haviam 5 agentes, só do sexo feminino ao meu pedido. Olhei pela janela que havia na sala e, do outro lado estava o Goblin, acorrentado dentro de uma jaula.
–Certo Daisuke, já estou aqui, já pode voltar.
–Vou ir lá dentro com você Kalena.
–Não, não vai! É perigoso... Vou usar meus poderes e isso provavelmente vai afetar você. Por favor.
Ele bufou, frustado e olhou ao redor. Depois de um tempo pensando pegou um headphone do meio da aparelhagem da sala, conectou com o seu celular e me mostrou a tela desse enquanto aumentava o volume e depois colocava uma música. A música estava tão alta que todos da sala conseguiam ouvir.
–Pronto Dona Kalena, agora eu posso ficar pelo menos aqui observando?
–Certo. — Daisuke era teimoso demais e provavelmente aquele som alto machucaria muito os seus ouvidos. — Por favor, não tire o headphone.
–Pode deixar. — ele disse enquanto se sentava, depois colocou o headphone e fechou os olhos com força, provavelmente aquilo estava sendo horrivel. Fiquei um tempo olhando para ele pensando que poderia mudar de idéia, mas ele só abriu os olhos e ficou lá, parado.
Respirei fundo e entrei na sala.
~Kalena off~
~Daisuke on~
"Another step up
It's takin’ takin’ takin’ takin’ long
Always digging
It’s gettin’ gettin’ gettin’ get it on
Wherever you stand just start to walk
Everywhere you go goes round and round
It’s coming back to what I know"
Meus ouvidos doíam, mas eu precisava ficar ali. Quando Kalena entrou na sala pude ver Antíloco olhando para ela, que estava de costas para a janela. Eles estavam conversando e as agentes pareciam discutir sobre o que viam e ouviam. Eu queria tanto saber o que estava acontecendo, mas disse a Kalena que não tiraria o headphone. Fiquei lá, encarando a janela enquanto ouvia "Deeper Deeper" do One ok Rock.
Depois de um tempo Kalena começou a se aproximar da jaula e eu já levantava da cadeira quando uma das agentes veio e me segurou. Me voltei para a janela e o goblin, mas não conseguia entender o que acontecia ali. Kalena estava virada de costas e estava bem de frente para Antíloco, eu não conseguia ver o rosto de nenhum dos dois. De repente Kalena voltou e algumas das agentes entraram, ela chegou perto de mim e tirou o headphone.
–Podemos ir.
–Já?
–Sim, vamos sair e te explico o que aconteceu.
~Daisuke off ~
~Kalena on~
O Goblin, Antíloco, olhou em minha direção e eu sorri. Nossos olhos se encontraram e aí soube que seria mais fácil do que eu pensava.
–Olá Antíloco.
–Hum... Você é a garota que ajudou Daisuke.
–Me chamo Kalena. Sinto muito por isso, não queria te machucar.
–Você é como ele não é?
–O que você quer dizer?
–Não é humana.
Eu soltei uma risada baixa.
–Claro que sou humana. Você vê algo de diferente em mim? -disse enquanto estendia os braços e girava, para que assim, Antíloco me olhasse. Eu usava blusa de mangas compridas e calça jeans, por isso minhas escamas estavam escondidas.
–Não.
–Viu? Sou humana.
–Sei... Por que veio aqui?
–Aposto que você já sabe o porquê. — Eu sempre olhava em direção aos seus olhos.
–Querem que você me interroge, mas é. ..
–Inútil, eu sei, disse isso a eles. Mas quem disse que me escutam?
–E então? Vai ficar fazendo o que aqui garota?
–Não sei... Vou ficar um tempo aqui, só para fingir que estou te interrogando.
–Certo.
Antíloco começou a olhar para o chão e comecei a cantarolar. Depois de um tempo assim fui chegando mais perto dele enquanto ainda cantava. Parei de frente para jaula e parei de cantar, reparei no goblin, que tinha vários cortes no corpo e o chão estava manchado de sangue. Engoli em seco, mas não podia me desconcentrar. Antíloco tinha os olhos fechados agora, respirava de forma calma, com se estivesse dormindo. Nunca tinha conseguido enfeitiçar alguém assim, de forma tão profunda, talvez por ele ja estar cansado fisicamente e psicologicamente seja mais fácil. Agora eu podia acabar com a atuação.
–Olhe para mim Antíloco. — Ele levantou a cabeça e me encarou. Seu olhos agora estavam totalmente brancos. Eu me assustei. -Para quem você trabalha?
–Não sei.
–Como?
–Não sei. Só faço o que mandam.
–E como eles falam com você?
–Por mensagem de texto. O número é privado. Eles mandam o que devo fazer, eu faço e recebo dinheiro.
–Como você recebe o dinheiro.
–O dinheiro vem pelo correio, mas o endereço do remetente nunca é o mesmo.
–Não sabe quem são "eles"?
–Não. Só sei que estão ligados a invasão que ouve na Evolution Alpha Company.
Invasão? Que invasão? Era melhor falar com Daisuke.
–Droga... Antíloco?
–Sim?
–As agentes entraram aqui e você vai responder tudo que elas perguntarem, ok?
–Ok.
Sai da sala e as agentes já entraram para interrogar o goblin. Fui até Daisuke e tirei o headphone.
–Podemos ir.
–Já?
–Sim, vamos sair e te explico o que aconteceu.
Daisuke se levantou e fomos em direção ao elevador. Ficamos em silêncio e só comecei a falar quando já estávamos indo em direção aos dormitórios.
–Fico feliz por não ter tirado o headphone.
–Foi um sacrifício! Meus ouvidos ainda doem.
–Você ficou lá por que quis!
–Touché. E então? O que aconteceu lá? -Daisuke me perguntava enquanto abria a porta do seu quarto e eu o seguia.
–Bem... Eu praticamente hipnotizei Antíloco.
Daisuke parou e se voltou para mim
–Isso é sério?
– Sim.
–Wow! Agora fico mesmo feliz por não ter tirado o headphone. — Ele agora ia em direção ao frigobar. Enquanto eu me sentava em sua cama.
–Fico feliz também. Eu nunca tinha feito isso, digo, o efeito nunca foi esse. Antíloco estava realmente hipnotizado. Mas parece que ele não sabe de muita coisa.
–Ele é um goblin... E goblins não sabem de nada mesmo.
–Acho que sim. — disse pensativa olhando para o chão. Pensava nos machucados dele.
–Qual sabor?
–Sei lá. .. Me surpreenda. -Daisuke veio em minha direção e me estendeu um dos potes de sorvete.- Chocolate?
–Isso.
–Disse para me surpreender Daisuke, e chocolate é a sua cara.
–Mas chocolate é sempre bom.
Daisuke tirou as botas e se deitou, eu tirei os sapatos e cruzei as pernas enquanto me virava para ele.
–Daisuke.
–Sim? -Daisuke já estava devorando seu sorvete de chocolate.
–Antíloco disse algo sobre uma invasão na Companhia.
Daisuke arregalou os olhos e me encarou.
–O que ele disse sobre isso?
–Disse que as pessoas para quem ele trabalhava estavam ligadas com as que invadiram a Companhia.
–Preciso falar com Otousan!
Daisuke se levantou e saiu correndo do quarto.
O que havia acontecido?
~Kalena off ~
.
~Daisuke on ~
–Daisuke.
–Sim? — Disse enquanto comíamos meu sorvete. Tão bom ...
–Antíloco disse algo sobre uma invasão na Companhia.
Eu gelei. Sério! Senti todos os meus membros congelarem depois do que Kalena disse.
–O que ele disse sobre isso?
–Disse que as pessoas para quem ele trabalhava estavam ligadas com as que invadiram a Companhia.
Aquilo era possível? Otousan precisava saber daquilo!
–Preciso falar com Otousan! -Larguei meu sorvete e sai em disparada na direção da sala de Otousan. Chegando lá bati na porta repetidas vezes.
–Entre. — Pude ouvir a resposta baixa e paciente.
–Otousan!
–Daisuke? O que aconteceu?
–Kalena conseguiu fazer o Goblin falar! Ele provavelmente sabe de algo sobre a invasão na Companhia.
–Kalena ainda esta lá?
–Não, mas as agentes continuaram com o interrogatório.
–Eu vou lá. -Otousan parecia ansioso.
–Quer que eu vá com você?
–Não precisa, filho. Te contarei tudo depois. -Ele sorriu e foi em direção ao subsolo.
Voltei correndo para o meu quarto. Kalena estava encostada na cabeceira da cama agora, e comia o sorvete lentamente.
–Desculpe Kalena, eu sai correndo de novo. — Eu me referia a sábado, quando sai para falar com Luther no Cosgrove.
–Tudo bem. -Ela falava isso, enquanto cutucava o sorvete.
–Bom, quero te contar sobre a invasão.- Peguei meu o sorvete e me encostei na cabeceira também. — A culpa é toda minha, se eu não tivesse sido uma cobaia...
.
.
Já era noite e Kalena estava em seu quarto e eu no meu. Eu lhe contei sobre a invasão e sobre o bilhete que deixaram. Sobre eles estarem me procurando. Kalena tentou me convencer de que a culpa não era minha, ela foi tão gentil. Depois ficamos assistindo TV por um bom tempo, mas chamaram Kalena novamente e dessa vez fiquei no quarto.
Eu estava deitado, ainda assistindo TV quando ouvi batidas na porta.
–Pode entrar.
–Olá filho. — Otousan entrou e se sentou em minha cama.
–Oi Otousan. — Me encostei na cabeceira da cama.
–Antíloco não sabe de muita coisa. Ele só sequestrava quem precisava e ganhava dinheiro. Provavelmente os seres sequestrados deviam dinheiro para quem quer que seja que o goblin trabalhava.
–E o que isso tem a ver com a invasão?
Otousan me estendeu um papel nele havia rabiscado um desenho, na verdade era vários círculos, um dentro do outro formando um alvo.
–Antíloco desenhou isso. É o mesmo símbolo que estava desenhado no bilhete que deixaram em minha mesa no dia da invasão.
–Eu não me lembro disso. — E eu realmente não lembrava, mas do recado eu lembrava muito bem, " Ainda pegaremos a cobaia".
–Bom, já é alguma pista filho. Depois disso ele saiu do transe, chamamos Kalena, mas ela não consegui hipnotizar ele de novo. Ela disse não estar acostumada com isso, disse que não fazia com frequência.
–Faz sentido. Ela estava bem nervosa quando descemos pra o subsolo.
–Hum... -Otousan parecia juntar as informações. — Vou indo meu filho. Ainda tenho coisas pra fazer.
–Por favor, descanse um pouco Otousan.
–Vou tentar. — disse enquanto já saia do quarto.
Ele era tão teimoso quanto eu.
Peguei o meu celular e mandei uma mensagem para Kalena.
"Oi ^o^"
"Oi ^-^"
"Tudo bem?"
"Tô bem, e você? "
" Bem também... Você ajudou bastante hoje Kalena, Obrigado "
"De nada. Fico realmente feliz por ter ajudado. Você parecia bem chateado no almoço, queria ajudar você. "
Eu sorri.
"Você realmente ajudou, de verdade. Acho que te devo uma"
"Como? Claro que não! Esqueceu que você já me salvou? Eu é que sempre vou te dever uma"
"Não me deve não"
"Devo sim e ponto final. Eu tenho razão "
"WOW! Que medo. Por favor não me hipnotize"
"Não duvide de mim, Yamamoto "
Eu queria muito saber mais sobre a Kalena, mas ela era tão reservada. Bom, acho que não custava tentar.
"Kalena, geralmente conversamos tanto sobre mim, mas quase não falamos sobre você..."
"Não conversamos sobre mim por que não tem o que conversar"
Droga eu não devia ter mandado aquilo, bati o celular na testa algumas vezes antes de começar a mandar um pedido de desculpas, mas antes que eu terminasse recebi outra mensagem.
"Desculpe Daisuke. É que... Eu realmente não sei o que te dizer já que não sei nem o que eu sou."
"Já pensou na possibilidade de você ter sido uma cobaia?"
Depois que mandei essa mensagem se passaram alguns minutos, até cogitei a idéia de ir até o quarto dela.
"Nunca havia pensado nisso. Você acha mesmo que isso é possível Daisuke?"
"Sim, e Robert já acha isso a algum tempo. Você não se lembra da sua infância, eles podem ter apagado sua memória ou algo assim."
"Estou indo ai"
"Ok, não precisa bater"
Depois de um tempo Kalena abriu a porta devagar. Eu havia desligado a TV e o quarto estava bem escuro, mas era parcialmente iluminado pela luz ligada do banheiro.
–Daisuke?
–Oi.- Eu estava deitado encarando o teto com a cabeça apoiada nos braços flexionados.
Kalena fechou a porta e veio em direção a cama, onde se sentou. Dei espaço para ela e dei algumas batidas do meu lado indicando que ela podia se deitar.
Estava frio então ela rapidamente deitou ao meu lado e também ficou encarando o teto, de repente ela fungou e eu me surpreendi.
–Kalena? -Perguntei enquanto me virava para ela, que continuava virada para o teto. — Você está bem?
Ela balançou a cabeça de forma negativa e fechou os olhos com força. Ela estava chorando.
Passei meus braços em volta dela e a puxei em minha direção, ela começou a chorar de forma mais audível e até soluçava, aquilo cortou meu coração. A apertei com mais força e ela virou em minha direção, encostou a cabeça no meu ombro e colocou as mãos em meu peito. Era tão ruim e tão bom ao mesmo tempo, abracar e confortar ela , mas estar ali com ela chorando... Ficamos assim até ela se acalmar.
Quando ela já não chorava mais me levantei e fui até a cozinha, peguei um copo d'agua e levei para ela que tomou rapidamente. Me sentei ao seu lado e fiquei esperando Kalena falar alguma coisa.
–Eu estou tão triste, Daisuke. Eu não tenho mais uma família e... Eu sinto um tanta falta das minhas irmãs. Eu as amo tanto.
Eu ouvia em silêncio.
– Eu sempre morei com elas, desde que me lembro, elas sempre cuidavam de mim. As sereias geralmente vivem no mar, mas eu não posso transformar minhas pernas em caudas e... Como eu fui idiota.
Ela disse enquanto colocava as mãos delicadas nos olhos. Passei meus braços pelos seus ombros e acariciava seus braço tentando confortá -la.
–Eu não posso me transformar! É claro que não sou uma sereia! Acho que eu tentava não pensar muito nisso... Bom ... No dia em que você me resgatou minhas irmãs me contaram que eu não era uma sereia e ai minha vida ficou bem bagunçada. Por elas terem contado isso entendi porque eu tinha que viver nas florestas, porque elas fugiam de perguntas sobre minha infância e porque as outras sereias faziam pouco caso de mim.
Depois de um tempo em silencio Kalena voltou a chorar e me abraçou, eu passei meus braços em volta dela.
–Obrigada por estar aqui. Por ter me salvado. Por ser meu amigo. Muito obrigada. Muito obrigada Daisuke.
Amigo.
Sorri, triste. E a apertei mais forte enquanto fechava os olhos.
–Não precisa agradecer, Kalena.
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