Clown Town

7 Young & Stupid


O descontentamento é, muito provavelmente, a mais poderosa das ferramentas para criar as mais variadas coisas; revoluções, caos, desastres... não importa o quê, quando as pessoas se encontram descontentes com uma mesma coisa, é uma certeza que, invariavelmente, cedo ou tarde, as coisas vão mudar. Descontentamento resulta sempre em mudança. Boa ou ruim, mas mudança!

E jovens descontentes são impelidos por nada além de pensamentos eufóricos de seus planos mirabolantes, criados às pressas e repleto de furos e falhas, mas estão eufóricos. Então como poderiam ver as falhas tão óbvias para o observador de fora?

Jovens descontentes mudaram o curso da história do mundo mais de uma dezena de vezes, todos sabiam disso. Então, com essa perspectiva, Kyle Vandervaux pegou seu carro e levou seu grupo de amigos e amigas para cuidarem do problema.

— Jerome estava certo. O xerife é um bosta! — Eles haviam vociferado antes de partirem, e repetido algumas vezes dentro do carro. — Quão ridículo é um cara vestido de palhaço. Vamos dar uma surra nesses otários!

Então desceram aonde, no sábado, haviam estado. O espaço aberto no bosque de Fall Harbor aonde Nancy fora raptada. As árvores estavam sendo sopradas pelo vento da tarde enquanto, furiosos, os jovens adultos avançavam fingindo cautela, mas procurando por aventura, porém sem saber o que realmente enfrentariam caso encontrassem o que procuravam.

Kyle e Oliver iam na frente do grupo. Angelina e Carol vinham logo atrás e Fernando na retaguarda. Armas eles possuíam três canivetes, um taco de bilhar e um soco inglês. Talvez pudessem ter se preparado melhor, mas o discurso bonito de ação fora combinado rapidamente com a ação, e eles partiram depressa para caçar os palhaços. Tão depressa que faltou armamento apropriado. Também faltava um plano.

— O que vamos fazer se acharmos eles? — Carol perguntou. Sua voz não indicava medo, nunca indicava. É uma mulher corajosa por natureza.

— Se forem eles. — Oliver emendou, ele, mesmo com o vídeo, não acreditava ser um grupo, ao menos não um grupo muito grande. — Talvez seja um só.

— Eles. Atacaram na prefeitura. E agora na praça do bairro. — Fernando disse. — São vários!

A prefeitura ficava próxima do bosque, cortado pelo rio apenas. Mas havia outras pontes no decorrer do rio até a barragem de onde ele vinha. Kyle acreditava que os palhaços usavam dessas pontes para ir e virem da cidade ao bosque.

Optaram por atravessar a ponte suspensa de Fall Harbor por ser o caminho mais fácil. O cânion criava uma espécie de isolamento na área, se encontrassem os palhaços ali, os palhaços não teriam como fugir. Desconsideravam, porém, que se o palhaço os encontrasse, eles não teriam como fugir da mesma forma! As falhas de um plano inexistente...

Todos eles haviam visto o vídeo de Jerome e Elliott. Kyle era amigo de Elliott. Carol era ficante de Jerome. Angelina era namorada de Kyle, e Oliver e Fernando eram ficantes também. Então todos eles estavam nervosos com o ocorrido, e todos eles aceitaram ir atrás dos palhaços, e todos eles tinham algo a perder além da própria vida. Todos eles se preocupavam com outrem, o que os expunha à riscos desnecessários. Mais uma falha no inexistente plano feito às pressas por um discurso de ação.

— Aquilo é um trailer? — Carol disse animada após atravessarem a ponte. — É um fodendo trailer?

Riu. Mas os outros não. Angelina menos ainda. Ela até mesmo parou de andar.

— A polícia fechou o estacionamento de trailers. — Angelina disse, sua voz amedrontada aparentava gagueira.

— E esse é mais um bom motivo para irmos até lá ver. — Kyle disse olhando para ela. — Tá tudo bem, amor. Talvez seja um turista desavisado fazendo acampamento.

Continuaram se aproximando.

No céu o sol brilhava coberto por algumas nuvens. Pássaros cantarolavam pelos galhos das árvores, ignorantes ao que acontecia no chão. E no chão o grupo de amigos avançava, como heróis dourados, até o trailer. Exceto por Angelina.

— Eu não vou! — Ela disse fazendo com que todos parassem. — Vou voltar pro carro, Kyle.

— Cagona de merda. — Carol disse revirando os olhos. Kyle foi até a namorada.

— Não precisa vir então. — Kyle disse segurando-a pela mão. O silêncio do bosque era perturbador. Podiam ouvir apenas madeira gemendo com o vento, pássaros, grilos. Era como se a qualquer momento o palhaço fosse surgir de qualquer tronco. — Mas não vai voltar sozinha.

— O caminho tá limpo. Eu vou ficar no carro. — Angelina disse, então beijou seu namorado. Ela sorriu, adorava-o. Kyle era ousado e corajoso, forte, mas sensível. Equilíbrio entre o romântico e o safado. Ela queria ser corajosa como ele, mas não conseguia, então preferiu voltar.

— Cuidado. — Kyle disse por fim, e deixou-a ir. Nunca forçaria ela a fazer nada.

— Olha, tá aberta! — Carol disse, apontando para a porta do trailer. — EI? Alguém aí dentro?

Nada.

— Vamos entrar. — Oliver disse.

— Fica de olho na Angelina. — Kyle disse passando por Fernando. — Ela vai voltar quando ver que a gente não vai ir atrás dela.

Com isso Kyle, Oliver e Carol foram para dentro do trailer enquanto Fernando ficou do lado de fora, olhando Angelina se distanciar rumo a ponte que tinham atravessado.

Angelina olhou para trás duas vezes enquanto andava, e as duas vezes viu Fernando lá, ele acenou e a chamou de volta, rindo, mas ela se negou a voltar. Sabia que eles esperavam que ela retornasse, mas insistiria em forçar eles a deixarem aquela caçada estúpida de lado. Se não posso convencer vocês na conversa... pensou pegando o celular e discando para a delegacia.

Não iria denunciar os amigos, eles sequer haviam feito algo errado. Mas ter um policial entre eles ajudaria muito a manter todos seguros. Que mal ligar para a polícia faria?

Então um galho se partiu.

Não no alto, mas no chão. O som era característico e fácil de compreender. Era o som de alguém andando.

— Delegacia de Birchville, boa tarde. Qual sua emergência? — A mulher perguntou na linha.

Angelina, porém, se encontrava estática olhando ao redor.

Já tinha perdido os amigos de vista e agora ouvia passos, alguém andava atrás dos arbustos, tinha certeza. Fosse quem fosse, contornava os arbustos em direção à ponte que ela pretendia atravessar.

— Eu não vou voltar, Fernando. Não adianta tentar me assustar! — Ela disse, tentando fingir uma voz casual e sem medo. Colocou o celular no bolso.

Então, das moitas, uma risada baixinha, mas aguda, rompeu e penetrou em Angelina como agulhas de trinta centímetros feitas de gelo. Ela fechou os olhos em um segundo, e no outro já agia. Se virou e retornou correndo para o caminho do trailer aonde estava seus amigos, e foi então que, ao lançar um olhar para trás, viu sair das moitas o palhaço que tinha uma expressão séria e carrancuda, pouco amigável, e sua risada era monstruosa e nada alegre, porém estridente de certa forma. Gutural.

— SOCORRO! — Berrou até virar por um amontoado de árvores videiras e ver o trailer... em chamas. Ainda dava para ouvir gritos vindo lá de dentro, gritos de Kyle, Carol e Oliver.

Na frente do trailer um segundo palhaço, este careca, segurava uma mochila preta, na outra mão um revolver. No chão, ao lado, estava o corpo de Fernando com a cabeça partida e o taco de bilhar fincado em suas costas como uma estaca na neve.

Angelina tropeçou nos próprios pés ao ver a cena. E girou nos calcanhares para correr para o lado. Não conhecia o caminho e se perderia no bosque, mas antes perdida e viva que nas mãos daquelas criaturas maquiadas.

Um palhaço vinha por trás, e o outro apontava a arma contra ela.

E então o tiro rompeu alto ecoando pelos troncos e sendo seguido pelo berro. Ela caiu no chão, folhas se mesclaram aos seus cabelos quando rolou de encontro à um tronco, que abraçou em busca de proteção enquanto sentia latejar a perna aonde a bala havia se alojado e sangue pulsava.

— Por favor, não... não faz isso, eu juro, eu faço...

Outro tiro.

E Angelina nunca mais falará nada.

— O que aconteceu? — Um deles, o sério, perguntou.

— Eles acharam o trailer. — O careca respondeu como se fosse simples assim. — Íamos queimar de qualquer jeito no final. E você?

— O rapaz ajudou a menina a escapar. Juntou a vizinhança toda, tive que fugir. Levaram eles para a delegacia. — O sério disse.

O Careca então passou a sacola de armas para o Sério.

— Termina logo com isso! Ela não quer atrasos. — O sério pegou a sacola de armas de seu parceiro e os dois deixaram o local, um para cada canto, enquanto o trailer rompia em chamas e fumaça, atraindo, assim, a atenção de todos em Birchville.

Logo todos estariam olhando para Fall Harbor. E então os palhaços já não estariam mais ali.

Notas finais
Esse capítulo é maior que os outros... mas com tudo que aconteceu, achei justo o tamanho :) Espero que tenham gostado :)