Closer
1 Mais perto...
Notas iniciais
Tem só um capítulo mesmo porque é só uma história com começo, meio e fim. Mas é uma história que eu gostei de escrever. Espero que você goste de ler também.
Sugiro ler ouvindo a música (Closer) e, se você não entende muito bem inglês, dar uma conferida na tradução também. Vou deixar o link aqui.
https://www.letras.mus.br/the-chainsmokers/closer/traducao.html
É só isso mesmo, boa leitura! :)
Tive certeza quando vi aqueles cabelos.
O banco alto do bar de hotel era igual a todos os bancos que eu já vira, mas era diferente, aquele tinha você. E por céus, certeza que era você. O drink em cima da mesa era o mesmo que te mostrei em Kentucky, um perfeito, ou talvez bem fajuto, Manhatann Bourbon. Você nunca serviu para beber, mas ficava encantadora quando saía pelas ruas do Texas com uma garrafa de Tequila na mão, cantado qualquer coisa. Deveríamos ter sido banidas de lá.
Quando o dourado dos seus cabelos lisos refletiu a luz azul do karaokê, eu tive certeza, nenhum outro penteado brilhava daquele jeito.
Você levantou a mão fazendo sinal ao barman. A bebida não estava boa, eu sabia disso.
O nariz era seu. Lembro dele cheirando o buquê de Magnólias, em Lusiana. Queria que o passeio de barco pelo Mississipi não tivesse terminado tão cedo, assim o perfume, talvez, durasse mais tempo na sua memória.
Eu devia ter adivinhado quando vi aquele carro do lado de fora. Podia ser um Rover qualquer, de qualquer pessoa, mas era o seu, era o nosso carro.
Foi uma surpresa para as duas quando você girou naquele banco e me viu. Os olhos azuis como o céu do Arizona se arregalaram, se arrepiaram. Eu me arrepiei.
Pensei que fossemos nos ignorar, como podíamos (devíamos) ter feito na Flórida. Mas aquela maldita Cinderela precisava perder o sapato bem na nossa frente. Lembra do sapato? Aquele de cristal? Te jurei um sapato de vidro. Cristal é muito caro.
Mexeu os dedos, tocando as unhas apressadamente em qualquer coisa de metal. O som te acalmava, mas sempre me deu nos nervos.
Nos encaramos por alguns segundos. O suficiente para querermos não nos encarar nunca mais. Puxe-me para mais perto.
Quatro anos atrás. Você está radiante como o dia em que te conheci.
Virou-se para o outro lado, para a garota bêbada que cantava (tentava) uma música daquelas que eu nunca gostei. Eu era a sua garota, não ela. Por que você não me olhava? Me olha. Eu tô aqui. Puxe-me para mais perto.
Prendeu os cabelos naquele coque que só você sabe fazer. Lembro do dia em que, sentadas no capô do seu Rover vermelho, fiquei horas tentando aprender aquele movimento, aquela prendida perfeita de fios capilares, sob as estrelas. Nunca aprendi. E o sol nasceu naquele dia. E nos beijamos naquele dia. Eu e você. Nos beijamos muitas vezes.
Já tinha escutado tanta besteira, mas beijar outra menina era normal. Eu esperava mais, esperava um êxtase que não veio, um desejo que não veio, um calor que não veio. Mas você também esperava. E também não sentiu. Então, quando pulamos para dentro do carro, apenas colocamos o som no máximo e decidimos o nosso próximo destino.
Te vi levantar e caminhar até o microfone vazio. O que estava pensando? Você nunca soube cantar. Odiava sua voz. Todo mundo odiava. Era péssima. Eu menti tantas vezes dizendo que era bonita. Ah, meu amor, eu menti tantas vezes...
Eu bebia demais. Quatro anos se passaram e eu ainda bebo demais. Sua bêbada, nesse bar de hotel barato. Mais perto. Por favor, mais perto.
Nós nunca vamos envelhecer.
Você continua linda. É linda. Nem pode pagar essa bebida, e esse salto alto, e o seguro do seu carro. O que está fazendo aí? O que está fazendo sem mim? Por que fui te deixar? Eu estava louca...
***
Quatro anos. Nenhuma ligação.
Você dizia para mim toda noite que nunca envelheceríamos, seríamos jovens para sempre. Eu continuo linda. Mas você já sabe disso.
Escolhi a música. Eu não queria cantar, mas ia assim mesmo. Só para te irritar, só porque sabia que, no fundo, você detestava a minha voz. Mas amava aquela música, como me amava também.
Blink-182 lembra? Eu lembro. Seus cabelos ruivos ao vento, seus óculos escuros e nós duas gritando, cantando junto com o rádio do carro no último volume. Foi em Tucson que nos conhecemos.
Do outro lado do bar, você girava o copo de Whisky na mão. Quem coloca água tônica no Whisky?
"Quem coloca água tônica no Whisky?" "Quem não é do Tennessee." "Eu não sou do Tennessee. " "Eu sou." E rimos. Éramos ridículas.
Sua tatuagem parecia desgastada se comparada à noite em que foi feita. Boulder, me seguiu até Boulder, você era maluca.
Eu morava com uma garota, uma garota que não era você, só uma colega de quarto qualquer, com um colchão. Deitamos e fizemos as maiores loucuras do mundo. Minha mania de agarrar o canto do lençol. A maldita cama sempre terminava desforrada. Roubei o colchão naquela noite e você fez uma tatuagem. Eu mordi ela, e sabia que ia doer. Puxe-me para mais perto. Nós nunca vamos envelhecer. Foi em Boulder que nos apaixonamos.
Eu estava indo tão bem até te conhecer, até conhecer os seus amigos. Foi um prazer, mas nunca quero vê-los novamente.
Suas unhas pretas estavam descascando, sempre descascando, você detestava fazê-las, mas tentava do mesmo jeito.
Sei que isso parte seu coração, me ver de novo. Quatro anos e nunca me ligou. Quatro anos, e eu continuava linda naquele bar de hotel. Eu queria estar velha, mas nós nunca vamos envelhecer.
Seu carro caindo aos pedaços. Você foi embora para a cidade com ele. Meu Deus, eu não consigo parar.
Larguei o microfone ali. Nem terminei a música, e andei na sua direção. Você podia ter derrubado o copo de Whisky no chão quando eu te beijei outra vez (mais perto). Nunca foi de fazer essas coisas.
Saímos correndo como na noite em que fizemos em Washington. Gritando e pulando pelas ruas, por mais que fosse madrugada. Mas não gritávamos naquela hora.
Puxe-me para mais perto no banco de trás do meu Rover. Eu nem posso pagá-lo mesmo. O colchão ainda está lá, o que eu roubei em Boulder. Nós fugimos em Boulder. Sua roupa sumiu, como você há quatro anos. Mas a tatuagem ainda estava lá. O sapato de vidro. Cristal é muito caro.
A manhã nascia ao longe. E eu não conseguia parar. Você não conseguia parar. Nós nunca vamos envelhecer.
Não sei até hoje quantos foram os beijos do lado de fora do bar de hotel, mas toda vez que tomo meu Manhatann me lembro deles.
Por que te deixei? Eu deveria estar louca...
Notas finais
Se não gostou, deixa um comentário também dizendo o por que. u.u
Foi um prazer compartilhar minha história com você, apesar de eu não te conhecer. Beijão! Até algum dia.
Fale com o autor