Closer
23 Segundo
Notas iniciais

A semana havia sido cansativa. Sakura, além de ter feito das tripas coração para ir bem em um simulado de física – exatas não eram realmente seu forte – ainda tivera que conciliar toda sua agenda com pequenos ensaios secretos para a Jam Session com os rapazes. Ela sabia que a graça do negócio era justamente o improviso, mas tinha medo de fazer feio em sua segunda aparição pública com eles.
Acabou optando por treinar em segredo quando não havia mais ninguém em casa. Era como se voltasse aos seus primeiros dias.
— Eu andei pesquisando, sabe. Não acho que esse seja o melhor curso pra mim.
Ah, é claro... E também tinha o problema de Inoque havia prendido Sakura o máximo possível em busca de respostas sobre qual carreira deveria seguir.
Ino era uma peça rara.
— Olha, já que vou com vocês pra tal sessão sei lá o quê, vou aproveitar pra fazer uma vistoria pela rádio. Quem sabe algo por lá me desperte interesse — ela coçou o queixo. A unha curta perfeitamente lixada e pintada de vermelho sangue fazendo um agradável barulhinho.
— Jam Session, Ino. E não sei se radialista seria a profissão mais adequada para você — Sakura ria internamente.
— Ora, e por que não? Eu poderia ter um programa só meu. Com temática LBGT e muito bate papo! Nossa, até me animei — os olhos azuis miraram o céu. — Imagina as gatas com quem posso trocar umas ideias? Gaara morreria por isso.
Ino e Gaara realmente haviam se dado muito bem. Chamam-se de parceiros de caça. Viviam juntos a sair para noitadas e, quando a conquista estava difícil, um auxiliava o outro com planos e ideias mirabolantes. Chegava a ser engraçado.
— Ino, lembre-se de que está indo como convidada, viu? Pelo amor de Deus, não faça besteiras — ralhou e abriu a porta do carona do carro da amiga.
— Nossa, Testa. Desse jeito, você me ofende — ajeitou-se no banco do motorista e deu partida. — Estou até te fazendo um favor! Vamos logo arrumar uma coisa decente pra você vestir amanhã — estavam a caminho do shopping. Tinham combinado um almoço juntas.
— Não vou comprar coisa alguma. Ninguém vai me ver, sua tonta. É uma estação de rádio — repreendeu.
— Sabe que eles transmitem gravações em vídeo pelo site, não? — Sakura deu de ombros — E, bom, pelo que Gaara me disse, terão outros músicos por lá — sorriu sugestiva.
— E? — já estavam na estrada.
— E você tem todo esse negócio com música e tal. Imaginei que adoraria um músico gatinho pra te passar o varão — e Sakura teve certeza de que, se estivesse bebendo algo, engasgaria. — Quer dizer… Pra onde vai toda essa tensão sexual acumulada com o Cara-De-Bunda Uchiha?
Sakura pensou em negar, mas era Ino. Sua confidente fiel. Ela sabia do beijo, sabia das provocações, sabia do karaokê. Por Deus, ela havia visto e ouvido o que tinha acontecido no karaokê.
Não existiam motivos para negar que a tensão sexual já estava se tornando quase palpável.
Então, antes de fazer careta, corar ou sentir-se envergonhada, Sakura sorriu.
— Ora, tenho meus métodos — levantou a mão e ergueu dois dedos juntos: o médio e o indicador.
— O quê? Só dois dedos? — já podiam ver a estrutura do enorme prédio. — Comigo é de três pra cima. Além da língua, é claro — piscou para Sakura e ela riu.
— Você vive querendo me empurrar pros caras, mas bem podia me apresentar uma amiga vez ou outra… — soou sugestiva e Ino gargalhou.
— As garotas eu arranjo é pra mim! Por favor, Sakura — fez-se de ofendida e, mais uma vez, riram juntas.
Quando estacionaram, Ino saiu apressada. A pressa era tanta que, se não fosse por Sakura, o freio de mão nem teria sido puxado.
O almoço foi tranquilo até demais. Sakura sabia que Ino estava tramando algo enquanto a via estraçalhar um hambúrguer.
No fim das contas, ela sabia que a amiga venceria. Saiu do shopping de barriga cheia e sacolas, também. Achou até que aquilo poderia vir com o bônus de seu pai ligando novamente pra saber se ela havia gastado o dinheiro ou se tinha sido assaltada.
Já na porta de casa, despediu-se de Ino e entrou sem cerimônias. Estava exausta. Teria a Jam Session na noite seguinte e queria repassar algumas músicas.
A rádio era uma das mais ouvidas da região e eles cantariam justamente num dos programas de maior audiência. O “Jazz After Midnight”. O que era gozado, já que começava às oito da noite. Mas o nome era justamente pelas famosas Jam Sessions que transmitiam. Sakura se lembrava de gostar bastante desse programa em especial. Ele promovia encontros de músicos amadores e muito talentosos em uma agradável improvisação que durava por volta de duas horas. Era bastante descontraído, pelo que se lembrava. Sempre que ouvia, além das músicas tocadas ao vivo, também podia se escutar a conversa e interação entre os convidados e os apresentadores.
Porém, o melhor de tudo era que, com o passar do tempo, a maioria dos músicos que se apresentavam por lá, acabavam tendo uma carreira promissora. Era comum que, numa rápida pesquisa pela internet, se encontrassem vídeos do passado de famosos em uma aparição no programa.
Sakura já podia sentir seu estômago embrulhar. Até onde iria com aquela loucura? Quanto mais se envolveria em algo que nunca deveria ter participado?
Fechou os olhos e respirou. Inalou o ar e encheu os seus pulmões até que eles reclamassem. E, durante o processo, pôde distinguir um cheiro diferente.
Era um cheiro bom. De limpeza.
Sorriu mostrando todos os seus dentes. Alguém havia tomado vergonha na cara e dado uma limpada na casa.
— Bem que estranhei a sala toda organizada — saiu de lá e foi para a cozinha.
Ninguém.
Subiu e bateu na porta do quarto de cada um. Não houve resposta. Conseguiu entrar nos quartos de Gaara e Naruto para verificar que estavam mesmo vazios. Quando tentou o de Sasuke, se viu barrada por uma porta trancada.
Não era novidade, ele sempre trancava o quarto. Era como se escondesse a cura para o câncer ali.
Sakura revirou os olhos e o chamou mais alto. Talvez o vagabundo estivesse dormindo.
Nada.
Estava sozinha.
Vibrou internamente. Poderia fazer o maior berreiro e se acabar de tocar. Ninguém a ouviria.
Correu para seu quarto e foi direto pro piano. À sua frente, uma folha com uma lista de músicas que provavelmente poderiam pedir na Jam Session.
Era assim que funcionava. Recebiam uma ou outra ligação durante a apresentação com o pedido de uma música e, com o desenrolar da noite, iam surgindo músicas entre eles mesmos. Claro, as linhas ficavam sempre disponíveis, mas era tão bom ouvir a improvisação saindo por conta própria que nem mesmo os inúmeros ouvintes ousavam interromper mais de quatro ou cinco vezes.
Além disso, o programa tinha uma pegada mais voltada pro R&B. Sabia que suas apostas seriam certeiras.
Com um rápido exercício pros dedos, deu início a The Other Woman, de Nina Simone. Subiu alguns tons e encontrou a melodia perfeita. Usava apenas a cifra da música e batia os acordes no piano, variando sua intensidade e modulando a voz. Era um ensaio, precisava encontrar a melhor entonação.
—… Her life alone… — entoou a última frase mais grave. — Não. Hm… Her life alone… — tentou mais agudo e sentiu uma diferença boa. — Ok, talvez... Her life alone — na última tentativa, segurou a penúltima vogal e, aproveitando a prolongação vocálica, fez alguns melismas*. Ficou satisfeita com o resultado.
— Duvido que alguém vá pedir essa música — a voz ecoou por todo o quarto e Sakura pulou de leve na banqueta do piano.
— Ai, que susto, Sasuke — levou a mão ao peito. — Desde quando está aqui?
— Desde que você forçou a porta do meu quarto e ficou me chamando pra ver se tinha alguém na casa — pôs a mão no bolso da bermuda que usava. — Sabe qual é a graça de uma Jam Session? A improvisação.
— Certo, certo, mas não quero ser a culpada por estragar essa chance pra vocês — irritada, ela se pôs a arrumar algumas partituras que estavam espalhadas por cima do piano.
— É mais fácil o Naruto fazer isso, sabe — ela riu e escorregou para o cantinho da banqueta, batendo com a mão ao seu lado para que Sasuke se sentasse ali.
Sakura observou de canto de olho o rapaz se ajeitar e correr os olhos pelas teclas de marfim.
— Já tocou? — perguntou distraidamente e ele negou. — Quer aprender?
Sasuke fez careta. Piano não era bem sua praia. O som era lindo. Verdade. E parecia ser ainda mais bonito quando era Sakura quem o tocava, acompanhando com sua voz, outro fato. Mas todas aquelas teclas… Brancas, negras…
— O piano é um instrumento de corda. Pense nele como uma guitarra, só que clássica — parou uns segundos. — E maior, claro.
— Você é praticamente um conservatório musical completo. É fácil comparar os instrumentos. Sou apenas um humilde guitarrista.
— Ao menos sabe onde fica o dó? — ele assentiu e olhou para o teclado do instrumento, localizando a nota pedida e a tocando. — Olha, vamos aquecer a garganta — ela tocou na mão de Sasuke, o incentivando a bater novamente o dó.
E ele o fez. Porém, qual não foi sua surpresa ao ouvir a voz de Sakura acompanhando a nota no mesmo tom? Ele soltou a tecla no mesmo instante e ela sorriu.
— Não, Sasuke. Agora você precisa tocar toda a oitava — sentiu que o pé de Sakura se movia e pressionava um dos pedais do piano. — Quatro tempos em cada nota, vai — ele a olhou e se viu novamente preso nos olhos verdes brilhantes — Sasuke, vai!
— Certo — resmungou e pôs-se a tocar como Sakura havia pedido.
Era simples. Ele apenas tocaria o dó ré mi fá sol lá si com um intervalo de quatro tempos entre as notas. Ele sabia contar o intervalo. Ora, era um músico!
Os dedos, mesmo não treinados, moviam-se automaticamente pelas notas que se seguiam, uma ao lado da outra. Mas não era aquilo que o fascinava. Era a voz de Sakura entoando um canto doce conforme o som que saía do piano.
Maldição, aquela mulher era descendente de algum tipo de feiticeira. Não era possível que estivesse tão encantado assim!
Quando terminou, ela estava de cenho franzido.
Opa, teria ele feito algo errado?
— Era pra aquecer comigo, cuzão — ele riu e viu a música que ela tocava impressa numa folha cifrada.
Seu rosto tornou-se um belo ponto de interrogação.
— Ora, está tocando piano com cifras? — ele desacreditou. Pelo que sabia, piano se tocava com partituras.
— Vou te contar um segredo— pegou a mão dele novamente, posicionando seus dedos de forma que tocassem um acorde de C. — Quando preciso tocar e cantar ao mesmo tempo, recorro às cifras. São mais fáceis e o som fica lindo — o ajudou a deslizar os dedos até que tocasse um acorde de G. — Viu? E, caso queira dar uma incrementada, é só arpejar — ela imitou o acorde uma oitava abaixo, porém, arranjado.
— Então é uma trapaceira — Sakura riu.
— Todos temos nossos macetes, Sasuke — bateu seu ombro contra o dele e imaginou que ele iria embora.
Mas não foi.
— E não toca nada por partituras, sua farsante? — Sakura fez-se de ofendida.
— Ainda continua me subestimando? Não basta as surras que já te dei? — ela virou o corpo para pegar uma pasta negra perdida entre seus livros de estudo e perdeu Sasuke sorrindo abertamente para suas costas. — Tem algum pedido? Algo mais clássico? — ela passava as inúmeras partituras para que Sasuke visse, mas ele não estava prestando muita atenção nas notinhas marcadas nas folhas pautadas.
Sasuke não era lá o melhor conhecedor de música clássica ou qualquer uma que fosse única e exclusivamente instrumental. Contudo, lembrava-se com perfeição de uma música que era muito tocada em seu violão quando mais novo. Uma música apaziguadora e relaxante.
Uma música que lhe fora ensinada pelo irmão.
— Conhece Chopin? — disse em tom de desafio e Sakura jogou a cabeça para trás, forçando um riso debochadíssimo.
Que tipo de pianista não conhecia Chopin?
— Noturno nº 2? — ele assentiu. — Não diga mais nada, querido. Essa eu sei de cor — ela estalou os dedos, respirou fundo e pousou as mãos no piano.
As primeiras notas foram suficientes para arrebatarem Sasuke. Não teve como não ser metralhado com as memórias. Mesmo que o dedilhado do violão do irmão fosse diferente dos arpejos e arranjos de Sakura ao piano, era evidente que era a mesma música. Provavelmente, tocada no mesmo tom.
Seus olhos acompanhavam os movimentos dos dedos ágeis dela. Era tão habilidosa que era quase impossível não se sentir impressionado. As mãos mal pareciam tocar as teclas. Era como se apenas flutuassem por cima do teclado e arrancassem a música com toda graça e leveza.
Ah, se ela ao menos soubesse o quanto aquela música estava carregada de significados para Sasuke…
Quando ela finalizou aquela verdadeira obra de arte, abaixou a cabeça por alguns instantes e logo se voltou para Sasuke. Estava sério e apenas a encarava de volta. Os olhos profundos analisando cada traço seu. Ela imaginou que deveria quebrar o silêncio já que, com toda certeza, nenhuma palavra sairia dele.
— Sabe o que é mais curioso? Chopin tem 21 noturnos, mas o 2º é o m-
Sakura não pôde terminar a fala. Sua boca estava ocupada demais sendo beijada.
A mão direita de Sasuke foi depressa para sua nuca e a segurou com firmeza, temendo que ela fugisse. Foi rápido em encostar seus lábios. Porém, embora apressado, foi estranhamente gentil. No primeiro beijo que havia recebido dele, Sakura notou a fome, a sede. Havia sido animalesco, quase desesperado.
Mas o segundo estava sendo diferente. Calmo, delicado e mais proveitoso. Pôde abusar do sabor do beijo. Sentia um gosto leve de café e o cheiro de loção pós-barba. Não era apertada nos braços de Sasuke. Era simplesmente tocada. Os narizes se esbarravam devagar. Tudo era tão paciente que não houve a necessidade de se separarem em busca de ar. Entre um beijo e outro, eles arfavam e resfolegavam o oxigênio que lhes era necessário.
Sasuke, particularmente, preferiu o segundo beijo. Claro, o primeiro sempre seria mais emocionante e vivaz. Lembrar-se daquele momento impulsivo na sala o deixava até meio perdido. Mas, na segunda vez, ele conseguiu sentir a maciez dos lábios de Sakura com mais profundidade. Não havia o gosto metálico de seu sangue e, embora tivesse ânsia e vontade, sabia que não precisava beijá-la como se fosse a última vez em toda sua vida.
Até porque não seria.
Terminando o beijo aos poucos, Sakura afastou-se e abriu os olhos vagarosamente, com medo de que qualquer movimento brusco fizesse o momento ficar ainda mais tenso. Qualquer suspiro, respiração mal controlada, toque mal visto. Não podia arriscar!
Contudo, não foi ela quem quebrou o clima que se instauraram no quarto.
— Você comeu batata frita — e, de repente, toda a tensão se dissolveu diante de seus olhos com apenas uma frase de Sasuke.
Sakura não resistiu. Caiu na risada. Só podia ser brincadeira.
— Vai se ferrar, Sasuke! — resmungou falsamente brava. As bochechas coradas como dois tomatinhos fizeram o rapaz erguer um dos cantos da boca.
— Só um empurrãozinho pra te distrair desses ensaios desnecessários — ela piscou e franziu o cenho com a explicação ridícula dada para aquilo.
Ele se levantou sem dizer nada e marchou até a porta, encostando-se à soleira e ficando de costas para Sakura. A garota apenas o seguiu com os olhos. Ainda sentia uma pontada de embaraço pelo beijo.
— Tenho certeza que a apresentação na rádio não será decepcionante, Sakura — sua voz soou com tanta tranquilidade que Sakura achou aquele arrepio gostoso que subia pela sua espinha só mais uma bobagem sua.
E Sasuke sumiu pelo corredor, ainda sorrindo e lambendo os lábios.
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