Closer
15 Maldita ressaca
Notas iniciais

A casa estava toda em silêncio. Deitado no sofá, Sasuke se remexia. Estava difícil continuar confortável ali.
Abriu os olhos bem devagar, como se tivesse receio de ser cegado pela luz. Mas tudo estava escuro. Luzes apagadas e portas fechadas.
Assim que se sentou, sentiu o peso da noite anterior lhe atingir com força.
Passou a mão pelo rosto e bagunçou os cabelos. Fedia a álcool e suor. Usava apenas calças. O resto de suas roupas estava espalhado pela sala. Sapatos jogados, camisa amassada, terno e colete esquecidos em algum canto. O gosto em sua boca era terrivelmente nojento.
Levantou-se como se estivesse doente e se arrastou para a cozinha. Queria tirar aquele gosto da boca o mais rápido possível. Sua cabeça latejava.
Quando abriu a porta para a cozinha, logo se arrependeu. A luz bateu em seus olhos e ele recuou uns passos. Quando finalmente ajustou sua visão, viu a cabeleira rosa de Sakura sentada à mesa. Ela bebia alguma coisa em uma xícara enorme e lia um livro.
— Boa tarde, bela adormecida — Sakura sorriu com escárnio assim que viu a situação do colega.
Estava um verdadeiro caco. Sentou-se e deixou a cabeça desabar na mesa.
— Que horas são? — saiu abafado.
— Duas da tarde — ela bebericou de sua xícara.
Falava baixinho e com calma. Sabia que Sasuke estava sentindo uma dor de cabeça daquelas.
— Meu Deus — ele pôs a mão na cabeça. — Como deixei você me convencer a fazer aquilo? — também falava baixo. Cada palavra era como uma martelada.
— Eu? Você pediu o uísque — levantou-se, sorridente.
— Não me lembro de nada de ontem... — matutava tentando buscar algum resquício de memória em sua mente.
— Não vou mentir. Também não me lembro de muita coisa — despejou um líquido amarelado em outra xícara igualmente grande e levou para Sasuke. — Só da sua derrota — ostentava todos os seus dentes naquele sorriso debochado.
— Céus, como você pode não estar destruída? — cheirou o que tinha na xícara e sentiu o estômago embrulhar.
— Essa é a diferença entre alguém que aguenta uma noite de bebedeira e alguém que só deveria beber leite — tirou sarro do rapaz e colocou uma cartela de comprimidos em sua frente.
— Há, há... — ele empurrou a xícara.
— Beba. É chá de gengibre com mel. Vai te curar dessa fossa — ele fez que não.
— Não quero beber nada com mel por um bom tempo — ela riu.
— Imaginei — foi até a geladeira e pegou uma jarra com um líquido vermelho bastante espesso. — Suco de tomate, garotão. Se o chá não funcionar, isso com certeza vai. Se você não beber, eu vou gritar — apoiou-se na cadeira, esperando que ele desse o primeiro gole.
Sasuke enfiou dois comprimidos na goela, pegou a jarra e bebeu ali mesmo, encarando a garota.
No começo, bebeu por pirraça. Mas, depois, realmente percebeu o quanto estava sedento e como o suco estava bom.
Que deliciosa ironia um suco de tomate ser o melhor remédio para curar sua ressaca.
— Bom garoto. E vá tomar um banho, pelo amor de Deus — disse antes de deixar o cômodo e ir para seu quarto.
Ela estava se aproveitando de ter ganhado aquela aposta estúpida e Sasuke podia ver nitidamente.
— Nem acredito nisso... — bebia avidamente.
— Ah, finalmente acordou, teme — Naruto entrou na cozinha atrás de alguma coisa pra comer e viu o amigo lá, se acabando em suco de tomate.
— Naruto, o que aconteceu ontem? — foi direto.
— Não sei. Não passei a noite toda com vocês — pegou uma tigela de macarrão na geladeira e enfiou no microondas. — Mas fui eu quem trouxe vocês. Nunca achei que carregaria Sasuke Uchiha todo vomitado para dentro de casa.
— Cale a boca — ficou irritadiço. — Só vomitei porque você dirige com a cabeça enfiada no rabo.
— É mesmo? Sakura continuou com a janta na barriga a viagem toda — soltou um sorrisinho.
— Aquela garota é impossível. Bebe feito um opala. E já está em pé e toda alegrinha.
— Você e Sakura passaram a noite toda juntos. Sobre o que conversaram? — ouviu o apito e pegou seu macarrão.
— Não sei. Não me lembro de nada — aquele suco realmente estava ajudando.
— Você não disse nada sobre nós sabermos do segredinho dela, não é?
— É claro que não. E, também, mesmo se tivesse dito, ela não se lembraria. Não é só minha memória que está toda em branco — bebeu o último gole da jarra. — Onde está Gaara? — Naruto deu de ombros.
— Não voltou desde ontem — não se preocupariam com ele. Gaara sabia se cuidar.
Sasuke levantou da cadeira e foi direto para o banheiro. Realmente não poderia fugir um bom banho.
Em seu quarto, Sakura admirava seu celular há alguns minutos. Tinha pegado o aparelho para conversar com Ino e, depois de um longo papo, viu a foto que tinha tirado com os rapazes.
Estavam ridículos. Ela tinha um sorriso extremamente exagerado e desajeitado, Sasuke havia saído com uma careta horrível e olhos parcialmente fechados e Naruto era só um borrão loiro meio desesperado. O riso vinha automaticamente só de olhar para a foto.
Finalmente sentia que estava tendo uma relação decente com os garotos. Em especial, Sasuke. Até que enfim ele conversava com ela.
Embora ainda estivesse dolorida e refletindo bastante sobre sua decisão imprudente de entornar o caneco na noite anterior, não estava arrependida. Tinha valido muito a pena. Queria até tocar alguma coisa. No entanto, mesmo disfarçando muito bem perto de Sasuke, sua cabeça também latejava de dor.
— Música... Nós falamos algo sobre música ontem? — ela pensou alto. — Ah, pelo amor... É lógico que não — agarrou seu travesseiro.
Queria mais era aproveitar aquela tarde silenciosa e fresca para tirar o atraso de seu sono.
— ὡѼὠ —
Sakura acordou depois de uma hora e meia graças ao seu telefone que berrava incessantemente.
Apertou os olhos olhando para o visor do aparelho e logo se acendeu.
— Oi, papai — saltou da cama. — O que houve?
— Olá, Sakura. Como vão as coisas? — perguntou por cordialidade e ela percebeu.
— Sakura? Não sou mais sua princesinha? — fez charme, tentando ganhar um agrado do pai.
— Liguei pra saber se, por acaso, perdeu sua carteira de novo, princesinha — chamou-a pelo apelido entre um riso e aquilo fez Sakura sorrir de orelha a orelha. — Sei como é distraída com essas coisas.
— Ora, papai! Perdi a carteira uma vez!
— E essa vez já foi o suficiente, não? — riu divertido, a fazendo amar cada segundo daquela ligação.
— Por que está me perguntando isso, pai? Estou vendo minha carteira daqui — protestou bem humorada.
— Porque seu cartão foi usado em uma loja do outro lado da cidade. Compraram horrores — Sakura corou.
— Puxa, papai. Desculpe-me. Fui eu. Fui convidada a ir a um casamento e não tinha roupa. Gastei demais? — ela ouviu a risada do homem do outro lado.
— Ah, Sakura! É claro que não. É só que você raramente gasta com isso. Nem pensei na possibilidade de ter sido você — ela riu.
— Mas pensou que eu tivesse perdido a carteira, né? — ele deu mais uma boa risada.
— Ok, filha. Preciso ir. Tchau, minha princesinha — ele desligou antes mesmo de ouvir uma despedida.
E, mesmo assim, Sakura estava radiante.
Saiu toda serelepe do quarto e desceu para a sala com um largo sorriso enfeitando o rosto bonito.
Mas seu belo riso foi gradativamente diminuindo ao ver aquela cena.
Sasuke estava sentado no sofá e, em cima dele, uma belíssima garota loira afogava as mãos no mar negro que era o cabelo do Uchiha. As mãos dele apertavam as nádegas da menina desconhecida e ela se esfregava nele o máximo que aquela posição permitia. A pequena saia vermelha que ela usava já estava toda embolada em sua cintura e as alças de sua regata branca também já caíam para os lados. Beijavam-se sensualmente e não pareciam querer parar.
Assim que pousou os olhos no casal, pensou ser Gaara com alguma acompanhante. Mas o negrume intenso daqueles fios era inconfundível.
Sentiu um rubor sem igual tomar conta de suas bochechas. Quando ameaçou voltar para trás, Sasuke abriu os olhos e encontrou Sakura pasmada.
Ela achou que, no mínimo, ele se separaria da garota. Só que não foi isso o que aconteceu.
De olhos abertos e fitando Sakura, ele desceu os beijos pela curva do pescoço feminino da moça em seu colo e, ao passar pelo ombro nu, depositou ali uma leve mordida, arranhando a pele da garota que gemeu.
Os lindos olhos negros encarando Sakura a cada movimento sensual feito. Não parou de olhá-la nem por um segundo.
— Parece que temos plateia — ele disse calmo, se afastando um pouco de sua companhia.
— Ah, meu Deus — a garota pegou uma jaqueta esquecida no braço do sofá e tentou se cobrir.
— D-desculpem-me, eu... — ainda sentia-se estranha com o olhar do rapaz. Tentava desviar os olhos, mas era difícil não ficar encantada com o brilho escuro no rosto de Sasuke.
— Imagine! Meu Deus, sou eu quem peço desculpas! Nossa… — a menina tombou para o lado, ajeitando a saia e passando a mão pelos cabelos.
— Pretende ficar aí? — Sasuke perguntou, ainda olhando para Sakura com fome.
Aquilo a fazia se eriçar dos pés à cabeça. Era como se quisesse provar do toque erótico dele da mesma forma que a moça de cabelos claros provava. Apertou as próprias pernas.
— Não, eu... Eu só ia comer alguma coisa. É. Comer alguma coisa. Vocês querem... Comer alguma coisa? — sorriu exagerada, repetindo as próprias palavras. Não sabia como agir numa situação daquelas.
Sasuke levou a boca até o ouvido da garota e sussurrou propositalmente alto o suficiente para que Sakura ouvisse.
Ele queria que ela escutasse e ficasse tão ruborizada quanto a senhorita antes em seu colo.
— Eu quero comer sua... — ele não pôde terminar.
— Eu sinto muito, meu Deus! — a menina loira se levantou.
— Ah, não, por favor! — ela andou um passo em direção a eles e parou, recuando. — Eu não quis atrapalhar, eu... — Sasuke finalmente se levantou.
— Vamos encontrar um lugar com mais privacidade. Posso te esperar no carro? — abaixou-se e, com malícia, mordiscou a mandíbula dela.
A visão presa em Sakura.
— Eu sinto muito pelo que viu. Ele não me disse que tinha alguém na casa... — a garota, corada e dividida entre a vergonha e a malícia do momento, disse enquanto vestia depressa a jaqueta.
— Imagine, eu... — parou. Não tinha nada para dizer.
— Desculpe mesmo — e ela saiu apressada, seguindo Sasuke.
Sakura, que ainda estava perto das escadas, segurou-se no corrimão. Suas pernas estavam fracas. Sasuke sabia bem como afetá-la só com olhares. Seu rosto ainda estava ruborizado. Seu coração batia rápido no peito.
Achou que, de todos os meninos, Sasuke seria o que ficaria mais puto caso ela atrapalhasse uma sessão de malhos. Mas os beijos no pescoço, o toque na coxa, a mordida no queixo... Fez tudo enquanto a encarava com o olhar pingando de luxúria. O que ele queria, afinal?
— Ele não tinha uma namorada? — tentou se desviar daqueles pensamentos, mas, logo percebeu, seria em vão.
Ninguém mais restava na casa. Naruto havia saído e Gaara ainda não tinha voltado. Ela estava totalmente sozinha.
Deu uma volta pela cozinha. Suspirou.
— Regrets collect... Like old friends... — começou cantarolando tímida enquanto abria os armários.
Logo a casa toda se preenchia com a voz de Sakura.
Aquele encontro com Sasuke não estragaria seu dia. Nada estragaria o dia da princesinha.
— ὡѼὠ —
Já era à noitinha quando Gaara e Naruto chegaram. Não sabia o motivo de terem chegado juntos e não perguntaria.
Naruto sentiu o cheiro gostoso vindo da cozinha e foi feito um louco ver o que Sakura tinha preparado, encontrando um reluzente bolo de chocolate.
Seu estômago roncou forte quando viu a calda marrom escorrendo pelas bordas.
— Ah, Sakura! Já disse que te amo? — ele cortava um pedaço generoso do doce.
— Sabia que gostaria, Naruto. — sorriu — Quer um pedaço, Gaara?
O telefone dele tocou e ele atendeu depressa, fazendo um sinal positivo para Sakura.
— Naruto, corta um pedaço lá pra mim — não deu tempo para que protestasse. — Alô?
— Folgado... — e voltou para a cozinha no intuito de atender o pedido do amigo.
Gaara estava numa ligação importante. Combinava uma apresentação para o fim de semana.
Então a porta abriu de repente, revelando um Sasuke carrancudo do outro lado, também pendurado ao telefone.
— Já disse que não — ele resmungava e a voz do outro lado gritava algo. — Isso não me interessa!
— Um minuto, sim? — Gaara tirou o celular do rosto. — Você é mesmo um pé no saco, hein, Sasuke? — e subiu as escadas, retomando a conversa.
— Gaara, aqui o seu... — virou-se para Sakura assim que entrou na sala e não viu o dono do pedaço de bolo.
Sakura apenas apontou para o andar de cima e Naruto bufou.
— É brincadeira, viu... — sussurrou antes de subir de encontro com Gaara.
Sasuke ainda praguejava ao telefone.
— Não te devo satisfações sobre isso, Karin — disse impaciente, ouvindo os argumentos dela. — Porra, não grite! — ela protestou ainda mais alto e ele suspirou. — Achei que tivéssemos deixado isso bem claro, Karin — tentou ser paciente, mas só ouviu mais gritos e desligou o celular com raiva, o jogando em algum canto.
Sakura mirou Sasuke e demorou a tirar a vista dele. Estava largado no sofá, com o controle da TV na mão e os olhos impacientes olhando para a tela enquanto zapeava pelos canais. Parecia nervoso.
Tranquilamente, ela se aproximou e sentou-se ao seu lado.
— Sasuke... — disse vacilante.
— Nem adianta. Acabei de pegar o controle — nem mesmo a olhou.
— Não, não é isso — riu. — Queria me desculpar por mais cedo. Não sabia que tinha companhia.
— Aquilo não foi nada, imagine — ele parecia ter encontrado algo de seu agrado na televisão. — Não é como se eu também não tivesse aproveitado a situação pra te aporrinhar — soltou um risinho maldoso ao se lembrar do rosto vermelho de Sakura e da respiração ofegante.
Sakura rolou os olhos. Sabia que era mais uma gracinha de Sasuke.
— Bom… Karin não aceitou o término muito bem?
— O quê? — Sasuke finalmente a olhou.
— Vocês estavam brigando pelo telefone e teve aquela garota loira. Imaginei que... — foi interrompida.
— Imaginou errado. Nunca sequer tivemos algo para que pudéssemos terminar — Sakura ficou chocada.
— Vocês não são namorados? — não esperou a resposta. — Ela sabe disso? — perguntou e Sasuke riu pelo nariz, como se fosse óbvio.
— É claro que sabe — ouviu-a suspirar.
— Sasuke, ela gosta muito de você. Você sabe, não é? — ele não voltou a olhá-la. — Eu sei que não tenho nada a ver com seus relacionamentos, mas...
— Não. Não tem.
— Mas... — insistiu, abrindo um sorriso amistoso. — Ela merece, sim uma satisfação sua. O que ela não merece é ser tratada assim. Ninguém merece — levantou-se. — Tem bolo de chocolate.
— Não gosto de doces. — ela sentiu como se ele nem ao menos tivesse a escutado.
— Eu sei — Sakura andou até as escadas e logo não era mais possível vê-la.
Sasuke suspirou e jogou o controle com a mesma raiva que antes havia usado para jogar o celular.
Saiu da sala e foi para a cozinha em busca de algo para comer. Qualquer coisa que não fosse uma porcaria de um bolo.
— Garota irritante! Acha que pode... — abriu a geladeira e, junto, abriu sua boca.
Em uma vasilha branca tampada, um pequeno bilhete com a caligrafia bonita de Sakura chamou sua atenção.
“Bon Appétit, Sasuke!”
Ele abriu a tigela e viu as bonitas rodelas vermelhas e suculentas. Tragou o cheiro gostoso e constatou o leve toque de canela.
Ela sabia que ele não gostava de doces e tinha preparado aquilo especialmente para ele.
Quando percebeu que sorria, se repreendeu. Estava nervoso por causa dela há somente alguns segundos!
Como se uma salada de tomates fosse fazê-lo esquecer da colega enxerida.
Pegou um garfo e voltou para a sala. Sentou-se no sofá e ficou admirando os tomates preparados com tanto cuidado.
— Inferno! — alcançou o celular e fez uma ligação. — Alô? Karin, está mais calma? Precisamos conversar.
Sakura estava mexendo demais com sua cabeça.
E o pior é que ele estava deixando.
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