Closer

14 E se eu aceitar que te amo? pt. 2


Yeva Taraz era uma amiga de longa data, talvez a mais antiga que Otabek Altin tinha e conseguira conservar de tempos obscuros. Sem mudar a expressão séria, atendeu à ligação via Skype e esperou a explosão habitual:

"NOSSA, HOMEM, FINALMENTE VOCÊ ATENDEU! QUE SAUDADES!" A moça disse, gritando e fazendo Altin se arrepender de não ter baixado o volume dos fones de ouvido.

Os olhos negros do rapaz se estreitaram levemente em sinal de grande contentamento. Era o mais próximo de um sorriso que ele dava para as pessoas.

"ALIÁS, SAUDADES NADA, NÃO É, SEU FILHO DA MÃE? QUANTO TEMPO FAZ QUE VOCÊ NÃO ME LIGA?" A cazaque falou, fazendo ligeiramente um bico.

Otabek sabia que eles não se falavam por vídeo-chamada desde que ele se mudara para a cidade atual, embora trocassem mensagens de texto regularmente. Yeva e seus longos e ondulados cabelos cor de mel, rosto oval, grandes olhos castanhos claros salpicados de verde, nariz proporcional ao rosto e afilado, lábios charmosamente pequenos e bem desenhados e compleição física naturalmente magra demais, como uma supermodelo de passarela, ainda estavam em Almaty, sua terra natal e sede de seu ateliê de moda.

"Sua franja nova é legal. Faz você parecer que tem 18 anos ao invés dos 29 que constam no seu registro de nascimento." Otabek elogiou e alfinetou ao mesmo tempo, sabendo ter intimidade para tal.

"Eu não vou cair nessa, ok?" Yeva respondeu, cruzando os braços. "Ao invés disso, vamos falar do que realmente importa: QUANDO VOCÊ IA ME AVISAR QUE MUDOU DE RAMO?"

Aquilo pegou o fotógrafo desprevenido, fazendo-o retrucar, confuso:

"Como assim?"

"Quando você ia me contar que agora faz com as pessoas o que você faz com as paisagens, os objetos, a cidade ou que quer que seja?" Yeva questionou, assertiva. "Quando você assumiu que é um artista e não um mero fotojornalista?"

"Não é bem assim..." Otabek desconversou, coçando o queixo com o polegar.

"É assim sim!" Taraz cortou, resoluta. "Você sabe que foram suas fotos que me ajudaram a ganhar o concurso mundial daquela agência de modelos internacional que depois quase me ferrou. O caso é: eu quero saber tudo sobre esse rapaz da sua última foto do Insta."

"Por que?" Altin perguntou, desconfiado.

"Vai ter que confiar em mim e na minha intuição." Yeva respondeu, soando misteriosa. "Me diga uma coisa, Altin, você acha que ele ia aceitar ser fotografado para a minha coleção?"

"Eu posso perguntar, mas ele não é exatamente um modelo." Otabek respondeu, ainda mais desconfiado.

Yeva era sua melhor amiga, mas era esperta demais para o bem do fotógrafo.

"Eu sei. Ele é dançarino. Fucei o Instagram dele e achei um vídeo dele dançando lindamente, embora já fosse óbvio pelas fotos que você tirou." A cazaque respondeu. "É conveniente pra mim, já que estou tentando emplacar como figurinista, mas eles dizem que minhas roupas são caras, espalhafatosas, não favorecem o movimento e pouco... Hum... Plástica em termos cênicos. Você sabe o quanto isso é absurdo pelo tanto que eu estudei para conseguir seguir este sonho, não é?"

Otabek assentiu, ciente de que Yeva largara as passarelas aos 25 anos para fazer universidade de moda e encontrara uma de suas paixões nos figurinos para teatro musical. E sabia o tanto de preconceito que ela passava por ser mulher e ex-supermodelo em um mercado que avaliava seu rosto bonito, mas não suas capacidades.

"Quero dizer, fala sério, a Lady Gaga conseguia dançar com as minhas roupas sem problemas." Taraz reclamou. "E é por isso que eu preciso do Yuri. Ele é perfeito. É andrógino, dança muito bem, tem expressão e se comunica lindamente com a câmera. "

Agora sim Otabek estava impressionado.

"E você viu isso pelas fotos?" O cazaque perguntou, com uma sobrancelha levantada em aparente descrença.

"Não só isso, mas é, foi o que eu vi." Yeva respondeu.

Os dois se encararam, quietos, enquanto as mensagens não ditas pairavam pelo ar conforme se analisavam. O silêncio era tenso, mas não desconfortável. Coisas da intimidade, provavelmente. Mas, assim como no jogo do "quem piscar primeiro, perde", quem falasse primeiro também perderia. Não que eles tivessem muito tempo para esse tipo de infantilidade.

"Eu não vou saber o que mais você viu, não é?" Otabek falou em tom de voz neutro.

"Pelo visto, acho que não." Yeva retornou, gentil.

Sem saberem o que fazer ou dizer, ambos ficaram quietos, afundados em seus pensamentos. Yeva dividiu o cabelo em dois e puxou as mechas para frente, trançando primeiramente o lado direito de forma rápida e praticamente automática. Altin, por seu turno, fazia bico sem notar, pensando se deveria confiar na própria reação ao que Taraz falaria.

"O que você viu?" Otabek perguntou finalmente, como se estivesse conformado com sua sina.

Yeva terminou sua segunda trança sem qualquer pressa e depois desfez os dois penteados, ajeitando os cabelos para trás de novo, deixando uma mecha por cima do ombro direito.

"Uma história de amor." Ela respondeu, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

Aquela resposta fez o coração de Otabek disparar. Ele fez de tudo para manter a face imutavelmente séria, mas suas sobrancelhas arqueadas denunciaram sua surpresa.

"Estou esperando a explicação." Altin disse, ainda tentando parecer neutro. Yeva levantou uma sobrancelha e fez um biquinho e o cazaque reconheceu a pergunta, respondendo-a: "Com detalhes."

Taraz notou que Otabek parecia praticamente indecifrável com o seu rosto impassível, mas reconhecia sua curiosidade se mostrando ao franzir a área entre os olhos, próxima ao nariz. Ela tinha a atenção e a expectativa do rapaz para si, então seria o mais sincera e precisa possível, pois sentia que sua opinião como alguém de fora poderia somar a uma situação que até então ela desconhecia. Ou podia ser tudo coisa da sua cabeça e sua opinião sincera seria apenas um detalhe da conversa que estavam tendo.

"Estou partindo do pressuposto de que a escolha das fotos é exclusivamente sua, então vamos lá: na primeira foto eu vejo a amizade. Eu não sei explicar muito bem, mas Yuri parece estar dançando com tanta alegria e confiança, mas não é confiança em si mesmo, mas sim na pessoa que está com ele. O sorriso dele diz muita coisa, sabe?" Yeva falou sem pensar muito, o olhar vago mostrava que ela estava focada demais no que via em sua cabeça. "E o penteado de tranças é uma graça, assim como o iluminador que ele usou e o fazia parecer uma entidade."

"Você sabe que não é o Yuri e sim uma espécie de personagem que ele interpreta quando dança, não é?" Otabek questionou, nervoso.

"Ah, é?" Yeva perguntou, fazendo pouco caso. "Então tá, Otabek. A personagem que Yuri interpreta está olhando diretamente para a câmera com um olhar tão... Tão... É como se ele confiasse na pessoa para quem ele está olhando."

"Que é uma pessoa que só existe na cabeça dele." Altin acrescentou, nervoso.

Yeva olhou para o amigo na tela do computador, torceu os lábios em um beicinho e levantou uma sobrancelha, descrente do quadro que via. Aquele homem já estava mais empacado que uma mula, e era justamente por isso que falar o que via era uma questão de honra. Determinada, Taraz rebateu:

"Claro, Otabek, essa pessoa só existe na cabeça de Yuri. Porque não poderia nunca neste mundo ser você, né? A segunda foto... Ela tem ar de sedução. Não é só por causa da roupa, do batom, da flor, da saia e daquela fenda maravilhosa que mostra aquela perna linda, é que o Yuri..."

"O personagem." Otabek corrigiu de forma seca, mas estava corado e tímido.

Aquilo deixaria qualquer um chateado, mas Yeva sabia do sistema de defesa do amigo. E era justamente esse sistema que ela queria combater e derrubar com toda aquela fala.

"Não é a questão da aparência que o personagem tinha, mas sim o que ele expressava. Eu me senti seduzida, porque o olhar dele era lindo, a aura era... Era como se eu fosse ferro sendo atraído por um imã e... Como se explica em palavras essa atração que ele exerce nas pessoas? Ele estava te chamando, mas deixando claro que você teria que correr atrás dele..."

'...mas você não correu!' Yeva completou mentalmente.

Otabek pareceu entender o recado não dado verbalmente ao piscar devagar e engolir em seco.

"Em termos dessa história que está sendo contada, parece que o personagem..." Yeva prosseguiu, sendo bem irônica ao se referir a Yuri do jeito que Otabek estabeleceu "...está apaixonado pelo seu amigo e quer conquistá-lo usando todo o seu charme e poder de sedução para isso, mas não é capaz de fazer mais que isso. Eu não sei se é medo de ser recusado ou orgulho, mas ele parece realmente esperar por uma atitude."

Altin estava começando a ter trabalho para esconder seu desconforto.

"Então chegamos na terceira foto e parece que o cara tomou uma atitude, porque temos claramente um beijo e o começo de um relacionamento mais profundo..." Yeva discorreu tranquilamente, até ser interrompida pelo amigo:

"Como diabos você consegue ver isso?" O moreno perguntou, soando quase desesperado.

Tão desesperado quanto alguém discreto como Otabek Altin poderia estar. Por dentro, a fortaleza estava completamente desmoronada, mas por fora ainda resistia bravamente, pois não podia ceder. Aguentaria o máximo possível, pois já fazia muito esforço para se manter sob controle perto de Yuri, mas sua melhor amiga estava forçando seus limites.

"Os lábios estão ligeiramente pronunciados, seus olhos verdes estão cheio de expectativas e a pose me lembra um abraço. Dentro da história que está sendo contada, parece que tivemos o primeiro beijo depois do primeiro encontro." Taraz contava de forma relaxada.

Yeva nunca assumiria que toda sua teoria era baseada em três pilares: 1) o que ela via de Yuri nas fotos; 2) O que ela conhecia de Otabek e os anos de amizade que eles tinham; 3) Todas as teorias e insinuações que ela de certa forma fazia para ver o que Altin lhe revelaria em suas respostas, algo que os mais velhos chamariam de jogar verde para colher maduro. Até porque, se o amigo soubesse disso, provavelmente não falaria nada e ela ficaria a ver navios. Prosseguiu, então, sua narrativa, como se nada estivesse em jogo e ela fosse a senhora da situação:

"O que nos leva para a quarta foto: a sedução desse ensaio é mais carnal e direta, porque essa foto, na verdade, grita sexo, não importa o quanto eu tente trazer outras interpretações."

"O que te faz pensar isso?" Altin questionou, já começando a soar impaciente para saber de onde tinha saído tanta habilidade para ler as coisas.

"Uma série de fatores. A roupa de Yuri, a luz que remete a um cabaré dos anos 20, a cadeira que me remete a lap dance, o rosto dele... Mas o que mais me chama atenção é a forma com que ele toca o estrado da cadeira. Se esse toque fosse no corpo de alguém, certamente esse alguém teria no mínimo um arrepio gostoso..."

"Por favor, pare." Otabek pediu, tentando lidar com a lembrança do toque de Yuri em seu corpo. "Se possível, mantenha o foco, certo?"

"Hum... Certo, então acabei." Taraz anunciou, a voz já demonstrando certo cansaço da teimosia alheia.

"Ainda faltam duas fotos." Altin praticamente apelou, curioso.

"São duas fotos lindas. É simplesmente encantador como Yuri se integra de forma complementar às cores do outono e seus olhos verdes brilham enquanto olham para a câmera. E essa em que Yuri está cozinhando... Essa luz do fundo contrastando com o que parece ser sua cozinha ridiculamente cheia de mármore e móveis pretos e o próprio Yuri como parte desse contraste dando um belo sorriso enquanto recheia a massa..."

"O que você vê nelas, Yeva?" Otabek cortou, já visivelmente agitado.

"Você cada vez mais apaixonado por Yuri." A cazaque respondeu com a voz cortante, sendo dura, direta e certeira.

Altin teve a decência de ficar ligeiramente boquiaberto e corado, mas não negou a informação. Ao invés disso, encolheu-se na cadeira como se estivesse ferido e cobriu o rosto com a mão aberta, esfregando a pele e tentando recobrar os sentidos.

"É tão óbvio assim?" O rapaz perguntou, confuso. E quando Yeva confirmou com a cabeça, ele simplesmente disse baixinho, sentido: "Merda!"

O silêncio que se seguiu foi pesado, mas necessário para o moreno. Taraz sabia que ele não gostava de sentir exposto para ninguém, nem mesmo para ela que o conhecia há tanto tempo.

"Fico feliz por você, apesar de tudo. Achei que, depois de tudo que aconteceu, você jamais se interessaria por alguém de novo." Ela acrescentou com gentileza.

"A meta era essa." Altin respondeu, aflito. "Essas duas fotos que você citou por último são antes da primeira foto que você diz que viu amizade. Eu não... Quer dizer, claro que ele é bonito, atraente e interessante, mas eu não estava exatamente apaixonado pelo Yuri ainda, pelo menos não como eu me sinto agora. Eu estava interessado, é claro, mas eu tentei manter o profissionalismo por questões éticas, porque a arte dele, Yeva..."

A estilista conseguia entender o que Otabek queria dizer. Sabia que era diferente se apaixonar pela arte, pelo artista e por uma pessoa e que Otabek foi se encantando com cada uma dessas facetas até que se viu amando Yuri como um todo.

"Você sabe que esse tipo de coisa é inevitável, não é? Desejar alguém, se apaixonar, amar..." Taraz disse, de forma carinhosa, pois ela sabia que o que falava era pesado demais para alguém como Otabek, que achava que tinha o controle de tudo.

"Yeva, eu tinha um contrato profissional com Yuri e metas. Me apaixonar estava fora de cogitação, porque ele é meu modelo..." Otabek dizia, tentando convencer a si mesmo.

"Era." A mulher consertou, cortando o mais novo. "Você está me dizendo que não fez nada? Quero dizer, a diferença das fotos de Yuri no Instagram dele e das que eu vi agora é brutal. Pra mim é óbvio que ele se comunica com você e sua câmera é uma extensão sua que eterniza essas coisas."

"O que você quer dizer com isso?" O moreno perguntou, confuso.

"Tem segredos que ele só conta pra você. Há um lado de Yuri que ele só mostra pra você. Ele brilha no seu Instagram pessoal, tira fotos bonitas, dança bem..." Taraz falou, o punho cerrado demonstrando convicção nos argumentos. "Mas parece que para você ele mostra o que há de melhor e mais escondido em si. É quase como se... Não que ele seja uma pessoa diferente perto de você, mas ele age como se só você e suas lentes merecessem saber o que ele sente de verdade, por trás de toda a pose de gatinho marrento. Se você me disser que não fez nada para ficar com ele, eu vou aí na sua casa cometer um crime de ódio!"

Otabek contou a história toda para Yeva em sua versão mais resumida possível. Falou de quando Yuri chorou em seus braços em Ágape, de quando o russo o seduziu em Eros, das vezes que comeram juntos, das conversas que tiveram, de quando dançaram juntos e Yuri o beijou em Serenade for Two.

"OOH! Gosto dele! Ele não está nem aí para essa ética que você usa como fuga da realidade. Ele te quer e vai atrás disso. É mais prático." A mulher respondeu, dando um sorriso enorme e batendo palminhas.

"Guarde suas reações para o que vem agora: no ensaio da cadeira, ele fez um strip tease para mim." Altin falou, vermelho de vergonha.

"AI, MEU DEUS, EU VENERO ESSE RAPAZ!" A mulher gritou, cerrando os punhos e vibrando. "Diga que vocês avançaram nisso!"

"Sim, mas não depois que ele quase acabou comigo." Otabek explicou, aliviado por poder dividir isso com alguém.

Seguiu resumindo a história, falando da carona, fazendo Yeva rir quando expôs que teve que inventar a desculpa do banheiro para ficar, da pizza que comeram, dos segredos que trocaram...

"Foi quando você o beijou e o levou para a cama." Taraz disse, determinada a saber mais.

"Sim, mas é tudo o que você vai saber a esse respeito."

"Você é mau. Ao menos me diga, Otabek, o que mudou para você ceder assim?"

Altin coçou o rosto e respondeu simplesmente:

"Ele não é mais meu modelo, mas ainda é minha fonte de inspiração. Eu me apaixonei por Yuri, Yeva. Primeiro por sua arte, depois pelo artista e finalmente pela pessoa que ele é. Eu o quero por perto e se ele me quiser, eu vou ficando até ele cansar de mim."

"E se ele cansar?" Yeva questionou, a sobrancelha levantada. "E se ele não cansar?"

"Se ele cansar, eu vou embora. Se ele não cansar, eu ficarei por perto até que ele canse de mim, porque é o que as pessoas fazem." Altin respondeu, levantando os ombros.

"Eu não cansei de você." Yeva argumentou, franzindo o cenho.

"Ainda." Beka retrucou.

"Como você o conheceu?" Taraz perguntou, desviando do assunto por não querer estragar o momento. Ela amava seu melhor amigo de todo o coração, mas ainda não sabia lidar com esse lado tão ferido dele.

Otabek, por seu turno, ficou calado. Yeva ouviu que ele mexia no computador e quando notou, sua tela mudou, agora exibindo um vídeo, enquanto seu amigo estava no cantinho pequeno.

"Essa foi a primeira vez que eu o vi." Otabek disse e deu o play. "Os olhos dele me chamaram a atenção antes mesmo de vê-lo dançar, foi assim que eu decidi gravar."

Yeva ajustou a tela para que tanto o vídeo quanto Otabek ficassem do mesmo tamanho, assim ela poderia observar os dois igualmente. Ela queria ver Yuri dançando, mas também queria poder assistir às reações de Altin ao vídeo. O amigo definitivamente tinha razão sobre os olhos do rapaz, eram cativantes.

Mas foi quando ele começou a dançar que Taraz ficou embasbacada, porque o menino era simplesmente genial e sua dança era hipnótica. Allegro Apassionato, a música que tocava, era complexa e intrincada, assim como a coreografia do russo que a moça sequer cogitava botar em palavras. Mas era impressionante como ele fazia tudo parecer que era fácil e seu olhar determinado não destoava da delicadeza que era a coreografia de ballet clássico executada pelo loiro.

O figurino era um collant preto de corpo inteiro com algumas manchas e plumas vermelhas que até tentavam fazer o menino parecer que pegava fogo nas piruetas, mas Yeva sabia que podia fazer melhor. Baixou discretamente o vídeo para mais tarde fazer algo em cima disso. Se aquele menino tinha que pegar fogo, ela faria o figurino perfeito para isso.

Yeva sorriu ao ver o amigo rindo discreto e abobado, corado de satisfação e o olhar completamente apaixonado. Ela não via isso havia tanto tempo que quase não lembrava mais de como era ver Otabek feliz. Ela não conhecia Yuri, mas já gostava dele, porque só uma pessoa muito especial seria capaz de fazer isso com Otabek Altin, e qualquer um que conseguisse isso teria sua eterna gratidão. E definitivamente o rapaz dançava lindamente, ela concluiu enquanto o vídeo rolava.

Otabek assistia à dança com atenção, apoiando a cabeça na mão e o seu braço estava apoiado na mesa. Lembrava bem como o seu coração disparara já nos primeiros passos da coreografia e os arrepios corriam insanos pelo seu corpo, não só no dia que viu o vídeo, mas também agora, assistindo-o de novo. Yuri era divino como uma fada. Não, ele era divino como um Deus! E único aos olhos de Altin.

A música alcançou um estado de leveza, o olhar de Yuri se acalmou e seus passos se tornaram ainda mais leves, os saltos pareciam desafiar a gravidade de tão suaves e o sorriso que ele exibia fez eco no sorriso que Otabek nem sabia que tinha em seu rosto naquele exato momento. Yuri quando dançava parecia estar pleno e Otabek se sentia privilegiado por poder ver algo tão sublime e brilhante, mesmo que fosse por vídeo.

"Beka, você devia vir dormir comigo." Altin ouviu alguém falar e pensou estar delirando. "Já chega de trabalhar quando eu estou te esperando e sentindo sua falta."

Achava que estava delirando. Não podia estar assistindo a Yuri dançar e o desejando ali e de repente ele aparecer, poderia? Estava louco, pois ouvia a voz dele e sentia seu cheiro pelo ar e... Otabek nem viu de onde veio o tiro, só sentiu que baixavam seu fone, pendurando-o no pescoço, tiravam seus óculos, sentavam no seu colo, abraçavam-no e o beijavam com delicadeza apaixonada e voraz. Era contraditório, mas também era gostoso. Altin envolveu Yuri com seus braços, correspondendo ao beijo sem reservas, porque em momentos como esse quando se sentia amado, querido e desejado por Plisetsky, nada mais existia no mundo, nem mesmo sua melhor amiga assistindo a todo show de camarote do outro lado da tela.

Aquilo era impressionante para Yeva. Otabek costumava ser tão discreto com os namorados que, mesmo estando com qualquer um deles, raramente os beijava na frente dos outros e quando fazia dificilmente era com o mesmo ardor que exibia com o bailarino naquele exato instante. Não era como se os ex de Otabek não tivessem tentando, mas toda vez que o faziam eram rechaçados ou timidamente correspondidos. No caso de Yuri, era como se Yeva nem estivesse ali. O russo demandava, o cazaque dava não apenas sem questionar, mas ia além, entregando-se por inteiro. Era, definitivamente, uma visão muito bonita e afetivamente reconfortante ver Altin claramente amando de novo e de uma forma diferente de antes.

"Você já fez o suficiente por hoje, Beka. Muito mais do que eu poderia imaginar." Yuri sussurrou, manhoso e charmoso, deixando que seu nariz tocasse o de Altin, enquanto eles se encaravam com doçura.

A cazaque enrolava uma mecha de cabelo no dedo indicador, distraída. A forma com que os dois se olhavam era linda e amorosa, com Yuri acariciando o rosto de Otabek com o polegar e o cazaque colocando o cabelo loiro do russo atrás da orelha e deixando a mão correr até o fim da mecha, que batia na altura do peito do russo.

"Vem deitar comigo. Sua cama é mais macia e gostosa com você nela." Plisetsky disse, sedutor.

A cantada de Yuri fez Yeva ficar boquiaberta, mas o sorriso aberto que Otabek deu antes do beijo que eles compartilharam fez a cazaque ficar sem ação. Ela sabia que o russo estava sendo um santo remédio para o amigo que sabidamente tinha medo de se envolver com as pessoas, mas aquilo superava expectativas. Quando o russo passou a beijar o pescoço do amigo, bem perto do fone de ouvido, ela enrubesceu e notou que Altin realmente não lembrava mais que ela estava ali.

"Oi, com licença." Yuri ouviu uma voz feminina com um ligeiro toque eletrônico. "Eu ainda estou aqui, Beka."

Aquilo arrepiou o russo. De onde vinha essa voz que falava com o seu Otabek com tanta intimidade? O cazaque parecia ter despertado de um transe e lembrou que Yeva estava ali, ficando vermelho com a perspectiva. O rapaz mexeu no computador e ajustou a tela, botando a amiga em evidência. Yuri não gostou daquilo. A forma com a mulher olhava para Altin o incomodou, porque ela parecia ter muita intimidade com ele, especialmente porque ela o chamava de Beka. E ela era bonita e charmosa demais, apesar de ser muito magra para o gosto dele. Ela era uma ameaça tão grande que Plisetsky nem teve tempo de sentir vergonha.

Yeva achou divertido ver Yuri olhá-la como um gato que encarava um inimigo e estava prestes a atacá-lo. Ao mesmo tempo, estava abraçando Otabek de forma protetora, como se estivesse marcando território. Ela levantou as sobrancelhas quando concluiu, divertida, que o bailarino a via como uma ameaça.

"Yeva? Desculpe." Otabek disse, parecendo realmente lamentar isso enquanto botava a ligação nos autofalantes.

"Beka, quem é ela?" Yuri perguntou, ligeiramente ansioso.

O loiro estava com ciúmes, mas nunca admitiria isso. Não tinha esse direito, porque Otabek não lhe pertencia, mas também não conseguia controlar porque aquele sentimento não era racional. Odiava estar se sentindo assim, especialmente por causa do gosto metálico na boca e o aperto no estômago, mas argumentava consigo mesmo que estava apaixonado e não tinha nada errado em querer Altin para si. E aquela contradição toda o matava.

"Segura a onda aí, gatinho, seu urso está a salvo." Yeva disse, soando confiante e 'sabedora demais das coisas' na opinião de Yuri. "Ele é meu melhor amigo gay."

Os ombros que Yuri nem percebeu estarem tensos relaxaram consideravelmente. Se Otabek era gay, mulheres não seriam problema, por mais que fossem estonteantes e belíssimas como Yeva. O que ele pensava era óbvio, mas estava tão nervoso que não considerava isso. O que achava era que se Otabek não gostava de mulheres, a concorrência era menor e isso era importante, porque contra os homens Plisetsky sabia que se garantia.

"Meu nome é Yeva Taraz. Prazer em conhecê-lo finalmente, Yuri Plisetsky." A moça se apresentou e Otabek estranhou como ela soava formal e adulta demais, como se os 29 anos que ela tinha estivessem pesando finalmente.

"Ela é ex-supermodelo, estilista e aspirante a figurinista." Otabek explicou.

"E lésbica." Ela acrescentou, divertida.

Yuri olhou para a moça da tela e depois para Otabek de forma investigativa.

"Eu me sinto um personagem de uma fanfic muito ruim pra adolescentes." O mais novo de todos disse. "Não existem héteros! Parece que todo mundo é gay.

"Ou lésbica." Yeva adicionou, ligeiramente divertida. "Mas você parece achar essa coincidência muito ruim."

"EU?" Plisetsky retrucou em um tom divertido. Não era algo com o qual tinha oportunidade de brincar com frequência. "Jamais. Eu, bem viado que sou, adoro oprimir héteros sempre que possível."

Aquela declaração deixou o clima aparentemente desconfortável, mas durou pouco tempo, porque Yeva soltou uma risada longa, sonora e espontânea, gostando do tipo de humor que o menino tinha. Depois que o ciúmes já tinham passado, Yuri conseguiu avaliar Yeva com imparcialidade e decidiu que gostava dela. Seus instintos não diziam que ela era ruim, então ele relaxou.

"Eu realmente gosto dele, Otabek." A moça disse. "Ele adiciona um tanto mais de sal e açúcar na sua vida."

"E Beka adiciona pimenta e outros temperos na minha vida." Yuri disse, dando um beijo no rosto de Altin.

O subconsciente de Yeva entendeu o que Yuri quis dizer sobre a vida sexual deles, mas ela realmente se importava mais com o quão óbvio era o fato de que Yuri estava apaixonado por Otabek e agia como se fosse namorado dele sem qualquer medo.

"Yura, isso não é coisa que diga pra sua futura chefa." O fotógrafo respondeu, tímido e corado.

"O quê?" O bailarino perguntou.

Taraz sorriu com delicadeza, dizendo:

"Eu sou figurinista e gostaria que você fizesse alguns ensaios dançando para mim com os figurinos inspirados nos musicais da Broadway, West End e também alguns europeus... Fotos e vídeos."

"Tá de sacanagem, né?" Yuri respondeu, chocado. "Quem vai fotografar?"

"Sua pimenta, se ele topar. Ele não parecia muito certo de que você diria sim pra mim." A estilista retrucou, divertida.

"Porra, Beka, você acha que eu ia ficar de merdinha e dizer não pra possibilidade de trabalhar com você de novo? Vá à merda, porra!" Yuri disse, surpreendendo a ex-modelo pela sua capacidade de conectar palavrões em uma frase só.

"Às vezes dá vontade de bater nele, né? Faça isso por mim." Taraz pediu, divertida. "Mas você dança lindamente. Estávamos assistindo você dançar e é tão lindo que..."

Enquanto Yeva falava pelos cotovelos, Yuri mexeu no computador de Otabek e reiniciou o vídeo que eles assistiam.

"Otabek Altin, o que diabos significa esta porra de vídeo?" Plisetsky perguntou, calando Taraz e causando um frio de ansiedade na barriga do fotógrafo. "Nós precisamos conversar, Altin."

Sentindo o perigo iminente, Yeva disse, sutilmente na defensiva:

"Otabek, me passe o contato do Yuri para eu acertar as questões de contrato com ele. Eu tive uma súbita inspiração para um vestido que me encomendaram e..."

"Certo. Vou mandar pra você..." Altin cortou, sabendo que estava com problemas pela forma com o que o russo falava.

Com despedidas amenas e nervosas, os três se cumprimentaram e encerraram a ligação. Yuri levantou e cercou Otabek na cadeira, prendendo-o lá e olhando bem nos olhos negros do cazaque, interrogando:

"Agora você vai me explicar que porra de vídeo é essa, Otabek Altin."

Otabek não falava palavrões de forma corriqueira, mas não signficava que ele não pensava em alguns. E dessa vez ele pensou em um bem feio pra diagnosticar seu estado:

"Agora fodeu!"