Closer

11 11 - Eu não posso aceitar


Notas iniciais
Adivinha quem perdeu a noção de tempo (entre outras coisas) e está completamente envergonhada disso? Eu mesma. o/ Desculpem por isso. T_T Sem choro nem vela, vamos ao capítulo. Boa leitura e espero que se divirtam. Até as notas finais.

Otabek andava de um lado para o outro com a toalha pendurada em sua cintura a um tris de cair. Não que se importasse, pois sua companhia atual, que estava sentada na cama em que eles transaram duas vezes, já o tinha visto nu várias vezes, mas o problema é que o outono estava mais frio que o normal e... Bom, sendo sincero, já não fazia mais sentido ficar seminu para tentar seduzir Yuri, simplesmente porque depois daquele momento no banheiro as coisas pareciam ter evoluído para um outro patamar, que era mais denso, complicado e emocional, e talvez justamente por isso era tão assustador.

Não que Otabek fosse assumir que estava com medo de avançar no relacionamento deles. Ou que estava tentando seduzir Yuri ao, deliberadamente, não usar a parte de cima do moletom vermelho vinho, por exemplo. Falando em assumir, talvez ninguém entendesse a dificuldade que tinha para assumir as coisas. O que lhe custava ter assumido que tinha feito almoço para Yuri porque gostava dele? Ou até mesmo de que o que gostava em Yuri ia além de algo puramente físico?

Tentava ao máximo não pensar em um segundo passo além do viver o presente, porque tinha medo de sabotar o que tinham. Por mais incerto que estivesse, ainda era melhor que nada. Verdade fosse dita, Otabek Altin não era um bom namorado, nunca fora, e sempre soube disso. Nunca o deixaram esquecer desse fato. Yuri o inspirava a ser diferente, mas... Quem consegue remendar o que está quebrado?

Altin não notava seu cenho franzido e a energia estressada, capaz de tensionar o ambiente, que desprendia. Sem saber por qual roupa optar, escolheu a vestimenta que usara quando chegou ao apartamento de Yuri. Vestiu apenas a calça, mas sem cueca por baixo, pois estava sem uma limpa, fechando o zíper com cuidado. Questões práticas tinham que ser pensadas, no fim das contas.

"Yuri? Yuri!" Otabek chamou, sem notar que sua voz estava soando ligeiramente mais dura que o normal. "Eu preciso ir."

O russo lhe olhou como se tivesse levado um tapa na cara, parando de acariciar a gata que estava em seu colo.

"Ah..." O bailarino iniciou, incerto. "Tudo bem, mas..."

A forma com que Yuri dizia as coisas não parecia indicar que estava tudo bem, então ele trocou o cenho franzido por uma sobrancelha ligeiramente levantada, mas sua expressão se mantinha pouco amigável.

Por seu turno, o bailarino ainda estava tentando absorver que o que ele menos queria estava acontecendo. Otabek estava indo embora de um jeito que deixava as coisas indefinidas e ele ainda não sabia se era ou não a hora certa de confrontar o... Como descrever Otabek Altin?

"...você podia jantar comigo antes de ir. Quero dizer, tem pizza de ontem e a lasanha do almoço. É coisa demais para eu comer só."

O cazaque notou como Yuri tentava soar frio e despreocupado, mas a forma com que ele lhe olhava parecia magoada e cheia de expectativa. Uma pessoa normal não conseguiria ver além da frieza, é claro, mas Otabek estava aprendendo a ler o bailarino e aqueles olhos verde-azulados pareciam lhe dizer para não partir. Ou pelo menos era assim que Altin queria interpretar em seu íntimo.

"Sim, claro." Otabek respondeu de forma pouco contundente. "Depois eu vou para casa."

Quando o olhar cheio de expectativas baixou de vez, como se tivesse desistido de lutar, aquilo doeu em Otabek. Era isso que ele dizia a si mesmo quando pensava em termos como "estragar tudo" e ser um péssimo namorado, embora nem namorado fosse. Mas Yuri era diferente, era especial e mexia com ele de um jeito que ninguém antes havia conseguido, como em todos aqueles clichês baratos que ele via em filmes e lia em livros… Por isso queria dizer algo, qualquer coisa que o tirasse daquele estado. Na verdade, que tirasse os dois daquele estado e...

'Sabia que você pensa demais, Beka? Você pode simplesmente me falar o que está preso ao invés de pensar em como vai me dizer.' A voz de Yuri ecoou em sua cabeça, enquanto rememorava o que o bailarino tinha lhe dito mais cedo.

Sabia que as pessoas lhe diziam isso com frequência e essa característica era incluída no conjunto de motivos pelos quais não era um bom namorado, mas em algum momento deveria tentar fazer diferente. Nem que tudo desse errado depois.

"E você deveria vir comigo." Otabek disse, sentando ao lado de Yuri e com isso assumindo para si mesmo que ainda não estava pronto para abrir mão dele.

O russo se virou para o homem que lhe dizia aquelas palavras. Conseguia ver em seus olhos o quanto tinha lhe custado dizer aquilo. Ambos estavam envoltos em um clima de medo e expectativa, como se não soubessem onde pisar naquele campo minado, mas cada um, do seu jeito, dava um passo para se encontrarem no meio daquilo que parecia uma guerra para ambos.

"Tá falando sério?" Yuri perguntou, surpreso.

"Você quer vir comigo ou não?"

Yuri sorriu, corado de emoção por receber aquele convite. Sabia que estava criando expectativas em demasia, mas seu coração batia tão forte e seu corpo estava tão arrepiado e aquecido com aquele convite espontâneo. Queria abraçá-lo, beijá-lo, dizer-lhe tantas coisas, poder ficar em seus braços, dormir curtindo o quentinho daquele corpo e o cheiro bom daquela pele. Queria pedi-lo em namoro e chamá-lo de seu. Mas não conseguia fazer nada disso ainda, porque sentia que não podia, que não devia, que não... AARGH! Mas forçou-se a fazer algo.

Otabek curvou os lábios para cima em um ligeiro sorriso quando o sorriso de Yuri lhe aqueceu como os primeiros raios de sol primaveril em um céu aberto e sem nuvens depois do frio invernal intenso. Seguindo seus instintos, envolveu-o pela cintura e o trouxe para perto de si. De repente, ser recusado não era mais uma opção.

"Beka, eu que..." Yuri começou, com muita expectativa e alegria.

E foi justamente esse momento que Tepa, a gata himalaia de Yuri, escolheu para miar e lembrar os dois de sua existência. O bailarino sentiu sua consciência pesar. Tinha visto a caixa de necessidades fisiológicas da felina limpa, assim como ração e água trocados. Otabek tinha feito aquilo por ele, embora tivesse dado ração demais para o gosto do russo. Ele estava em falta com sua companheira, o único ser que não iria abandoná-lo mesmo que todos, inclusive Altin, fossem embora.

"Bem, a Tepa não gosta de ficar só na minha folga e eu estou em falta com ela e..."

"E ela devia vir conosco, Yura..." Otabek completou, sorrindo mais abertamente, sem saber o quão doce e amoroso estava sendo.

"Fala sério? De verdade?" Yuri respondeu, emocionado para além de sua compreensão.

Otabek não respondeu com palavras. Não conseguia. Ao invés disso, beijou o russo de leve, acariciando seus cabelos loiros, macios e cheirosos, classificando erroneamente a forma de como gostava de Yuri como vício.

"Tepa, você quer visitar o tio Beka?" O mais novo perguntou, alterando a voz para aquela que sempre usava para falar com a gata em sua intimidade, sem se incomodar de fazê-lo na frente de Altin.

E como se entendesse o que seu dono dizia, Tepa se levantou, balançando o rabo de forma charmosa e se aproximou de Altin, esfregando sua cabeça na altura do estômago do cazaque, ronronando de prazer quando também recebeu carinho do moreno.

"Jantamos aqui ou levamos pra sua casa?" Yuri perguntou, tentando ser prático antes que fosse engolido de vez pela onda de amor que sentia. "Eu ainda tenho que arrumar minha mochila e as coisas da Tepa..."

"E eu embalo a comida e levo algumas coisas pro carro logo." O moreno disse, parecendo aflito, o que causou estranhamento no russo. "Eu me sinto acolhido na sua casa e adoro estar aqui, mas realmente preciso de roupas limpas."

Aquele desespero por roupas limpas fez o bailarino rir, respondendo:

"É justo. E eu sei que as minhas roupas comuns não cabem em você por causa da sua montanha de músculos, mas se você não for ficar de merdinha, acho que talvez meus collants caibam e te ajudem a se sentir menos pior."

~*~*~*~*~*~*~*~*~*~

Há momentos na vida em que tudo parece estar fora de controle. E depois de ter jurado nunca mais entrar em uma aula de ballet por ser um pato dançante, lá estava ele, vestindo um collant em público. Não que ele tenha prometido nunca mais vestir collant, mas por que diabos vestiria um collant se não fosse para uma aula de ballet?

As únicas respostas viáveis para isso eram: a) que ele estivesse tentando conquistar um bailarino que gentilmente lhe cedeu uma peça de roupa; b) estivesse urgentemente necessitado de roupas limpas. Talvez fosse uma mistura dos dois. Verdade fosse dita Otabek Altin não tinha problemas com usar collant, mas seu... Atual interesse romântico, digamos assim, parecia muito interessado no que ele vestia. Não que isso fosse ruim, nem de longe!

Yuri agarrava a sacola de transporte de Tepa como se sua vida dependesse disso, enquanto estava depudoradamente secando as pernas musculosas de Otabek, que estavam deliciosamente desenhadas por aquele collant preto justinho que mais parecia uma segunda pele. Compondo aquele visual excêntrico, coturnos negros de cano alto e uma jaqueta de couro mal fechada que mostrava generosamente em seu decote o peito definido e atraente e a pele levemente tingida de cor de oliva. Por algum motivo desconhecido para ambos, tanto a regata fina quanto a blusa que Otabek usava quando chegou se perderam no apartamento de Yuri. Não que o russo achasse ruim. Achava, na verdade, tão bom que sua razão se foi e ele pegou o celular, tirou o barulho do obturador artificial e começou a bater fotos daquela visão do paraíso. Se nada desse certo, ao menos teria boas lembranças daquele homem lindo de morrer.

Quando Otabek se virou dentro do estacionamento do prédio do moreno para pegar as coisas no carro, a jaqueta se abriu por completo, mostrando aquele torso e a barriga definida, que se somavam às coxas torneadas e o volume entre as pernas que Yuri conhecia tão bem cobertos pela calça de malha fina. Yuri fingia que não se importava, embora estivesse corando violentamente de prazer. Parecia que o universo lhe fazia fanservice e ele abusava disso, batendo todas as fotos possíveis enquanto fingia se distrair com uma rede social qualquer. Não era excitação crua ou desejo sexual, estava realmente chocado com a beleza máscula em exposição, pois, se alguém lhe perguntasse, ele diria que Otabek Altin era justamente o tipo de homem que mais lhe atraia e gostaria de ter para si. Lambendo os lábios de um jeito que ele julgava ser discreto, continuou batendo fotos até que mirou pela câmera no rosto do cazaque, sendo pego no flagra por seus atos indecorosos.

Otabek sabia que Yuri estava lhe secando. Era o que ele fazia desde que concordou usar o bendito collant. E se antes ele o olhava com ares de um corajoso e confiante tigre prestes a dar o bote em sua presa, tê-lo pego em flagrante delito fez com o que o rapaz se transformasse em um filhote de gato tímido. Incapaz de resistir à tentação de brincar com ele, Altin simplesmente levantou uma sobrancelha, dando seu melhor sorriso de canto e olhar confiante, enquanto cruzava os braços e se aproximava.

A respiração de Yuri falhou quando Otabek, bonito como um deus e sensual como um demônio, aproximou-se dele. Sem saber o que fazer, o garoto recuou, vendo a sacola de transporte de Tepa ser tirada da sua mão e posta no banco dianteiro do carona, assim como seu celular, que ficou por cima da sacola. Tentou dizer algo, qualquer coisa, mas ao abrir a boca, sua voz falhou. Sentiu a caminhote tocar nas suas costas, enquanto Otabek lhe cercava pela frente, tocando-lhe o corpo com o seu e tomando seu queixo com o polegar e o indicador. Rendido, o russo se deixou beijar profunda e apaixonadamente, logo se recuperando e o correspondendo, enquanto a mão alva e macia buscava a nuca de cabelos negros e curtos.

Ao longe, ambos ouviam miados desesperados, que se misturavam aos suspiros, gemidos e barulhos de beijo. Quando um barulho de baque surdo e aparelho eletrônico caindo duas vezes distintamente e em seguida quicando no chão de concreto se fizeram ouvir, Otabek e Yuri se separaram, assustados. A sacola de transporte da gata tinha caído para a parte da frente onde ficavam as pernas das pessoas que sentavam no banco do passageiro, junto com o seu celular, que agora tinha um trincado gigante na tela. A gata, por sua vez, chorava e chiava, oscilando entre o medo e o ódio do seu humano descuidado.

Yuri tirou a gata da sacola e a abraçou, tentando acalmá-la de todo jeito, enquanto Otabek verificava o celular e testava alguns movimentos básicos sem muito sucesso. Esperou pacientemente até a gata se acalmar para dar a má notícia, mas Yuri claramente estava nervoso por causa da felina e da situação toda. Talvez a notícia ruim pudesse esperar.

"Yura, se você quiser ficar lá em cima enquanto eu tiro as coisas do carro..." O moreno tentou, mas não recebeu resposta.

O bailarino ainda estava entretido com a gata e com o desespero de ambos. Sem muito saber o que fazer, Otabek tocou levemente os cabelos do russo e lhe fez um carinho constante e suave na nuca, como sabia que seu amante gostava, enquanto encostava no carro e esperava passar.

Yuri se sentiu reconfortado pela forma que a mão de Altin suavemente achou sua nuca e pela paciência que ele demonstrava. Normalmente se perguntava se aquele homem poderia ficar preocupado ou ansioso com algo, mas não estava em seu estado normal. Estava preocupado com a gata, tentando confortá-la enquanto ele mesmo estava desesperado por vê-la assim. Sem tomar consciência dos seus atos, o russo seguiu a mão, encostando-se na lateral do corpo de Otabek.

O cazaque não conseguiu continuar o carinho, mas aceitou o toque de bom grado, envolvendo Yuri com seus braços e pousando suas mãos na altura da barriga do garoto. O loirinho estava concentrado em conversar com a gata e tentar lhe acalmar, então nada do que fizesse poderia adiantar, portanto apenas ficou ali, apreciando o bailarino, seu cheiro gostoso de flores e seu amor pela gata.

A forma com que Otabek respirava, calma e suavemente, no pé de seu ouvido começou a tranquilizar Yuri, junto com o toque suave e o calor gostoso do corpo do moreno. A paz que ele sentia começou a passar para Tepa, que parou de ficar tensa e desconfiada, até relaxar novamente nos braços de Plisetsky.

"Eu não devia ter me descuidado. É a primeira vez que ela sai de casa em dois anos que moramos juntos." O russo disse, soando um tanto cansado.

"Não parecia. Ela estava tranquila enquanto eu a carregava na caixa." Altin respondeu, distraído.

"Beka, a Tepa gosta de você. Ela parece confiar em você como não faz com nenhum outro além de mim. Ela até deixou você chegar perto do potinho de comida dela." O rapaz explicou.

Otabek não soube bem o que dizer, então apenas ficou apreciando o momento. Arriscou-se a fazer carinho na gata, que ronronou de satisfação com o ato. Com isto, ele disse com suavidade:

"Também gosto da Tepa. Ela é legal. E me lembra alguém que eu gosto bastante."

Yuri corou ao ouvir aquilo, sentindo seu corpo aquecer ao olhar para a expressão serena e carinhosa de Otabek, que estava focado na felina. Não era a primeira vez que alguém lhe dizia que sua gata era muito parecida consigo, mas dessa vez veio um adicional na frase que era muito importante: Otabek tinha dito que gostava dessa pessoa. E o russo gostaria que ele estivesse falando de si. Gostaria, também, de dizer ou fazer algo, mas as ideias lhe faltavam. Incapaz de se segurar, beijou-lhe a bochecha de forma pura e lhe sorriu quando o moreno lhe olhou, confuso.

Otabek ainda não sabia bem o que fazer depois que indiretamente tinha dito que gostava bastante de Yuri. Sabia do que sentia, mas não sabia como o russo reagiria perante esse fato. Por isso se surpreendeu quando o bailarino lhe beijou a bochecha e lhe olhava com os olhos grandes, doces e focados, cheios de expectativa pueril. Beijou-lhe a testa com ternura, rezando para que isso lhe servisse de resposta e apreciou quando o loirinho se acomodou no seu abraço novamente, prolongando aquele momento ao máximo. Quando a gata miou de frustração pelo excesso de carinho que recebia, Otabek ofereceu uma solução, o coração cheio de expectativas palpitando no peito:

"Vamos para casa?"

Yuri apenas assentiu timidamente, enquanto o cazaque pegava as bolsas do bailarino, a comida e fechava o carro, guiando-o para o elevador moderno do seu prédio. O resto do material de trabalho poderia esperar, porque sua visita ilustre era prioridade.

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Otabek tomou uma ducha rápida enquanto pensava em meios de diminuir a dor da notícia ruim que tinha para dar a Yuri. Seu celular tinha quebrado em decorrência da queda. Não precisou pensar muito, porque lembrou do celular que ele tinha ganhado dos pais como presente de mudança e que ele não usava por não ter se adaptado a ele. Estava inútil, jogado na sua gaveta, mas era um bom celular, então poderia ajudar o rapaz loiro que estava em sua casa.

Saiu do banheiro e se trocou rapidamente, vestindo-se com um moletom preto confortável e foi para o escritório, caçando o eletrônico em suas gavetas e estantes até achar a caixa. Era da mesma marca do de Yuri, então talvez ele gostasse. Não era o mesmo que comprar um celular novo para Yuri, ideia que ele já tinha tido antes, mas serviria nem que fosse como quebra-galho até dar ao garoto um modelo que ele preferisse. Desde que ele ficasse feliz, tudo ficaria bem. Deixou tudo pronto e saiu do escritório para jantar.

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Yuri e Otabek ajeitavam a louça do jantar para poder colocar na lavadora de louças. O russo sinceramente não entendia para que o cazaque tinha algo do gênero quando simplesmente poderia lavar as poucas peças que deveria usar, mas relevou, tentando não pensar em como as coisas na casa de Otabek cheiravam a muito dinheiro sobrando. Verdade fosse dita, a casa toda de Altin parecia saída daquelas revistas de arquitetura, tanto no tamanho quanto nos móveis e no design. Não era problema dele como o amante gastava o dinheiro obviamente sobressalente que tinha, mas pensava em como isso influía no comportamento dele enquanto eles flertavam.

Lembrou-se da maleta de marca com maquiagem de luxo que ganhou, dos restaurantes opulentos para os quais foi levado, inclusive no encontro de negócios na primeiríssima noite em que foi abordado pelo moreno... Lembrou-se da lanchonete à beira da estrada e como ela não era exatamente simples, embora fosse menos ostentosa que os outros encontros; a noite em que ele já estava levantando para pagar a pizza que Yuri tinha pedido por ter lhe convidado para jantar.

Otabek Altin tinha um saldo bancário com vários dígitos à direita e não tinha medo de usá-lo. E era problema do cazaque usar isso consigo mesmo, mas o garoto notou finalmente como estava incomodado pelo fato do moreno usar seu dinheiro para impressioná-lo quando pessoalmente já tinha feito coisas muito mais interessantes e emocionalmente compensadoras que não custaram uma moeda sequer...

"Yura, onde está a comida da Tepa?" Otabek perguntou, tirando o rapaz dos seus devaneios. "Não estou achando. Se você quiser, posso ir no mercadinho da esquina comprar..."

"Não!" Yuri respondeu rapidamente, incomodado pelo fato de Otabek querer comprar a comida de sua gata. "Digo, não precisa, eu trouxe."

O clima ficou estranho, com Plisetsky se sentindo culpado e Otabek confuso com aquela reação. Estava apenas tentando ajudar. Tinha feito ou dito algo errado?

"Deixa pegar a comida." O russo disse, saindo da presença do moreno o mais rápido possível.

Sem saber o que fazer, Altin foi procurar por Tepa, que parecia muito entusiasmada em explorar o apartamento.

Enquanto isso, Yuri se encolheu no quarto do anfitrião, envergonhado com seus próprios atos. Não era para reagir assim. Estava sendo um idiota. Buscou a bolsa que trouxe para Tepa e a levou para área de serviço, arrumando a caixa de areia, o potinho de água e o de comida. Voltou para o quarto de Otabek e procurou seu celular, sem achá-lo. Não que estivesse precisando dele de forma emergencial, mas queria saber o que tinha sucedido dele de toda sorte. Talvez Altin soubesse.

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Otabek nunca entenderia duas coisas: 1) Como Tepa conseguiu entrar no seu escritório, que ele lembrava de ter fechado e 2) como ela conseguiu subir na estante mais alta do compartimento. Ele a achou porque ela miava de forma ensandecida, como se implorasse para alguém tirá-la de lá. Deve fazer parte do mesmo mistério de como os gatos vão parar em cima das árvores mais altas, de como eles entram nos locais sem serem percebidos e como são adoráveis e apaixonantes mesmo sendo, por vezes, ariscos.

Enquanto Otabek pensava em meios de tirar Tepa de lá, Yuri apareceu para dizer que o jantar da felina estava servido e viu a cena: Altin falando fofinho e macio com a gata, tentando tirá-la de cima da estante. Observou também o escritório: tudo sóbrio, e aquilo que não era preto, era de metal, madeira ou de couro, por vezes reunindo algumas das características juntas e contrastando elegantemente com as paredes brancas. No caso da madeira, não faltavam estantes de tamanhos variados, havendo inclusive quatro destas em cor preta formando uma sequência que parecia uma escadinha. Talvez fosse por aí que Tepa tivesse chegado no móvel que parecia ter mais de dois metros de altura.

"Você sabe que ela simplesmente não vai pular daí pro seu colo como se fosse a Super-Gata, não é?" Yuri perguntou da porta, com um sorrisinho irônico e divertido.

"E o que você sugere? Que subamos em algum lugar para resgatá-la?" Altin respondeu, na mesma temperatura de Yuri.

"Precisamente." O bailarino concordou com um divertido ar de sabe-tudo, aproximando-se do local.

Otabek pareceu refletir. Yuri foi pego de surpresa quando o fotógrafo o agarrou pelas pernas e o levantou como se fosse nada.

"Puta que o pariu, Beka, me bota no chão!" O mais novo reclamou, batendo de levinho, mas com insistência, na cabeça do moreno.

Otabek o botou no chão, mas manteve o abraço, ficando provocantemente próximo do loirinho, que estava vermelho de raiva.

"Mas você não é o grande bailarino Yuri Plisetsky que é carregado por aí a torto e a direito? Pensei que saberia lidar melhor com isso." Altin provocou, acariciando o queixo do menor e olhando para seus lábios finos, cheios e rosados.

Yuri sabia que seria beijado e deixou que isso acontecesse, apesar dos disparates que o moreno lhe falava. Envolveu-o com seus braços e o manteve perto.

"As pessoas que me carregam costumam me avisar. Estou ciente de quando e como isso vai acontecer, Altin." O loiro retrucou depois do beijo.

"Yuri Plisetsky, eu vou te carregar. Sempre que me der vontade, do jeito que for possível." Otabek brincou, sendo beijado por um Yuri que estava divertido com o clima e a declaração.

"E vai me levar pra sua cama carregado?" O russo retrucou, sendo sedutor, apesar da brincadeira.

"É o que você quer, Yura?" Otabek perguntou ao pé do ouvido do visitante, beijando de leve o seu pescoço.

Yuri soltou um gemido leve e grave, aprovando o carinho e a ideia.

Foi quando uma sucessão de miados desesperados e altos se fizeram ouvir. Os dois olharam para a gata que agora estava arrepiada, com um ares de medo e de julgamento. Yuri podia claramente ouvir sua gata reclamar que eles estavam no meio do resgate dela e não do namorico deles e que seus humanos claramente deveriam lhe dar atenção.

"Acho que você vai ter que me carregar de outra forma, Beka." Yuri disse a Otabek com um sorriso doce que ele só dava quando o assunto era sua gata.

Altin sorriu de volta, se sentindo bobo por ter ciúmes do sorriso que ele dava para a gata. Mas era muito querer esse sorriso sincero, doce e brilhante para si? Ele se posicionou atrás de Yuri, abraçando as pernas do rapaz e disse:

"Quando você quiser."

Yuri fez uma contagem regressiva de 3 e autorizou a carregada. Otabek sentou o bailarino no seu ombro e esperou, constatando que ele se fazia mais leve quando sabia que ia ser carregado.

"Tepa, venha aqui." Yuri disse com a vozinha doce que só usava para sua gata.

Altin tirou o celular do bolso e com a câmera frontal começou a registrar o momento com a única mão disponível que tinha. Não podia dizer que estava satisfeito com suas fotos, mas a cara do russo falando com sua gata era algo amável demais para não ser eternizado.

Enquanto isso, Yuri começou a perder firmeza no carregamento e reclamou, batendo de novo com leveza insistente na cabeça de Otabek:

"Beka, me segure com as duas mãos!"

Com o desequilíbrio evidente, o russo começou a mexer com as mãos, tentando achar um ponto de apoio e isso espantou a gata, que desceu para o armário menor no susto. Como um prédio demolindo, Yuri caiu no chão e levou Otabek junto, ficando em seus braços e por cima do corpo dele. O moreno começou a rir, divertido.

"Você se machucou, Beka?" O loiro perguntou, preocupado.

"Só o ego." O moreno respondeu, divertido. "Mas vou achar outros meios de te carregar e registrar as coisas ao mesmo tempo."

"Beka!" Yuri brigou, mas estava aliviado que o moreno estivesse bem.

Nesse momento, a gata caiu do lado deles e chiou, miou e esperneou, claramente brigando com eles por ter sido esquecida e depois saiu desfilando charmosamente pela porta, balançando o rabo de forma sinuosa.

Os dois se olharam e riram da situação. Yuri saiu de cima de Otabek, deitando ao seu lado. Quando pararam, o russo disse:

"Posso ver as fotos?"

Altin passou o celular na galeria e deixou que o menino tivesse acesso ao que queria. Yuri sorriu ao se ver daquela forma doce e amorosa, deixando claro que amava sua gata acima de tudo e faria qualquer coisa por ela. Sentiu o coração disparar e o corpo tremer de emoção, enquanto as bochechas ficavam rubras de vergonha e prazer. A forma com que seu Beka via o mundo era certamente um dos motivos pelos quais Yuri se apaixonara por aquele homem. Sem pedir licença, enviou as fotos para si mesmo.

"Beka, você viu meu celular?" Yuri perguntou, inocente e curioso.

Otabek se sentou em um pulo, sentindo-se culpado pelo assunto que veio à tona.

"Sobre seu celular, eu tenho duas notícias: uma boa e uma ruim." O moreno falou, com a voz grave e solene, enquanto levantava e buscava a primeira gaveta da sua escrivaninha.

"A ruim primeiro." Yuri respondeu em um fio de voz, incerto do que esperar, enquanto sentava no chão.

"Seu celular quebrou com a queda." Otabek anunciou, entregando a carcaça eletrônica para o bailarino. "Desculpe por isso."

Yuri testou o aparelho, sem entender. Realmente estava quebrado, mas, parando para pensar, o celular já tinha pego quedas piores, então essa quedinha de nada não justificava. Esse era seu celular desde que o mundo era mundo e ele tinha se mudado para aquela cidade. Mais antigo até do que Tepa. Mas o pior dos fatos era que ele não tinha dinheiro para comprar outro.

"E a boa notícia?" O loirinho perguntou, aturdido.

Quando a caixa com o celular de ponta surgiu no seu campo de visão pelas mãos de Otabek, o coração de Yuri parou e o menino se perdeu do mundo. Quando Otabek Altin tinha saído para lhe comprar um celular novo e tão ridiculamente caro e luxuoso? Por que ele fazia isso? Como? Por quê? Para quê? Por que diabos Otabek Altin estava tentando lhe comprar? Yuri se acalmou e pensou que talvez fosse só uma gentileza. Mas era uma gentileza cara, igual as que ele tanto ouviu falar pelo seu avô. Se ele aceitasse, não seria tão diferente daquele homem que ele odiava sem ter conhecido, seria? Aquilo não era certo, nada daquilo era certo...

"Eu não posso aceitar isso!" Foi tudo o que Yuri conseguiu dizer, sua pior cara de filhote perdido e indignado.

Essas foram as palavras que tiraram o chão de Otabek.

Notas finais
Iiiiiiiih, parece que a casa caiu, né? Dessa vez nem tenho muita coisa pra dizer, nada me ocorre de tão importante assim, mas vamos lá: Amém @Ameko. Saúdem esse ser maravilhoso que revisou este capítulo e melhorou muita coisa. [E, se fosse vocês, leria 20 Anos de Inverno e O Prisioneiro, ambas no Spirit (e eu não lembro se ela posta aqui no Nyah! T_T). Eu adoro, não vou negar.] Amém vocês que me leem e me dão um belo suporte e feedback. Enfim, gratidão por tudo gente. No mais, vamos ao de sempre: caixa de comentários está aberta pra choradeira, feedback, gritaria, comentários aleatórios, palavrões e o que mais seu coraçãozinho mandar. Eu vou responder tudo, palavra de honra. ♥ E é isso. Gratidão por tudo. Até a próxima. :*