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Ele entrou na sala mas não sabia o que o esperava. Deparou-se com um ambiente escuro e húmido, praticamente vazio. Estaria vazio caso não fosse habitado por uma frágil cadeira de madeira e o seu proprietário.
Pé ante pé.
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Eu sei que ele está aqui, tal como sei onde tudo o resto está.
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Devagarinho, passo a passo, ele aproxima-se. Não o suficiente para eu lhe poder tocar, se bem que não possuo as forças necessárias para protagonizar qualquer movimento. Está a um metro e poucos centímetros da minha cadeira, se não me engano.
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Não me engano.
Ele observa-me cuidadosamente. Estuda-me da forma mais meticulosa que consegue tendo em conta a distância que nos separa. Explora o meu corpo nu, a minha pele exposta, ferida há muito. Explora a minha face, procura uns olhos por baixo das minhas ligaduras. Ele pode não conseguir perceber, pode não conseguir ver com clareza, mas não estão lá. Simplesmente, não estão lá.
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Língua contra o céu da boca, língua contra o céu da boca.
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Ele retira algo do bolso.
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Um ramo de árvore que apanhou do chão, provavelmente lá fora.
sniff sniff
Sim. Dos jardins em frente à entrada principal. Está levemente molhado. Deve ter chovido ontem ou hoje de manhã. Já deve ser noite.
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Ele veste uma gabardina. Choveu há pouco? Ainda está a chover?
sniff sniff
Acho que sim, ele cheira a molhado.
O ramo é investido vagarosamente contra o meu ombro. Quer ver se reajo? Não vou reagir ao toque, não sou capaz disso, sou demasiado velho e impotente.
Não reajo.
Ele nada diz.
Ouço passos. Entram mais dois homens. Aproximam-se de mim, aproximam-se demasiado.
Eu não reajo.
Pegam-me, os dois recém-chegados. Um para cada braço. Facilmente erguem o meu corpo magro. Facilmente me deslocarão para onde bem quiserem.
O negro adquire tons mais claros. Fui libertado da minha cela, a minha masmorra, o meu salão de tortura pessoal.
sniff sniff
Ah! O doce cheiro do ar livre, respirado por milhares e milhares de seres habitando um único globo rotativo! O ar, o chão, a terra, as pessoas e as pessoas! Sublime!
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Ah! Tamanha profundidade! Tamanha liberdade! Esplêndido! Magnífico!
Ainda me movem. Passamos pela arcada que representa a entrada principal do edifício. É "arcada" que se diz? Não sei. Há muito que deixei de parte a linguagem dos vivos para compreender a visão dos mortos. Descemos uns poucos degraus.
sniff sniff
Sinto o calcário e o granito. Sinto o húmus da terra e a poluição na troposfera. Sinto-a vindo dos carros e outros veículos em andamento. Não há muitos nesta região, pelo que me lembro, mas hoje parece ser um dia particularmente movimentado. Um domingo, possivelmente.
Paramos um pouco. O primeiro dos homens, o primeiro a visitar-me, afasta-se. Dirige-se a alguma viatura.
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Uma carrinha. A sua, provavelmente.
Há tanto tempo que não me deixavam sentir isto. Os arrepios de frio na pele, o arrebitar dos pêlos. A sensação, há tanto tempo que não sentia. Não sentia nada. Há tanto que queria sentir. Desejava-o imenso, ambicionava-o do fundo do meu magoado coração. Eu agradeceria tanto se me lembrasse do dialeto deles. Juro, juro! Mas atrofiou-se-me a língua pela falta de uso. Não a consigo controlar suficientemente bem para produzir esses sons mais sofisticados. Foi-se-me a voz dos Homens. Foram-se-me todas as faculdades que fariam de mim algo humano. Não passo da criatura que eles têm de cuidar. A criatura a quem oferecem finalmente esta grande demonstração de misericórdia.
Eu sabia que o Homem é alguém bom. De coração puro e doce, revela seu verdadeiro potencial para a bondade quando ouve o clamor dos pobres e necessitados. Abençoados filhos de Deus! Magnífica criação de Nosso Senhor! Obrigado, meu Deus, por teres criado estes belos seres à Tua semelhança. São capazes do mal, é certo, mas no fundo são tão inocentes quanto os cisnes e os gansos, os peixes do rio e os do mar. Eles são bons, meu Deus! Eles são bons.
Ouço o homem da gabardina voltar. Diz qualquer coisa que não compreendo, esqueci-me do significado de tais palavras. Parece-me uma ordem. Os outros dois respondem e movimentam-me uma vez mais. De novo em movimento, em novas andanças.
Afastamo-nos muito da posição inicial. Passámos por um pequeno charco de água onde mergulhavam alguns girinos, cheios da vida nova que lhes fora atribuída. É fascinante a diversidade de seres que povoam o nosso planeta. De entre eles, só o Homem é capaz dos atos mais extremos: tanto os piores como os melhores, como o que estão a ver agora. Querem mostrar-me o mundo uma vez mais. Permitiram-me a possibilidade de sentir outra vez. Despertaram em mim um sentimento que já havia esquecido: o amor. O amor pela humanidade. A crença, a fé pura, na caridade e na piedade para com os fracos e oprimidos. Ainda existe. Agora tenho a certeza. Ainda existe! Está aqui a prova!
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Tanta profundidade! Tanta profundidade!
sniff sniff
Este cheiro! Este cheiro a coragem e bravura, às lágrimas derramadas pelos anjos que povoam os céus! É o oceano! É o meu querido mar!
Mar. Espero que não me tenhas retirado da memória. Sou aquele que em ti navegou durante dias a fio só para poder colher algum alimento para meus filhos e netos. Aquele que, com as redes, te libertou do peso de milhões de pequenos peixes. Esse mesmo! Ah! Meu abençoado mar! Como te relembro! Como te amo! Há muito que a minha descendência me esqueceu. São humanos, esquecem-se das coisas. É compreensível esquecerem-se de um velho tão fútil e insignificante quanto eu. Mas tu, mar, tu que permaneces vivo desde o início dos tempos, nunca me esqueceste. Obrigado. Obrigado.
Na costa, sinto os meus dedos dos pés roçando nas águas frescas. Estarei vivo novamente? Devolveram-me a vida estes bem-aventurados homens! E nem sequer os conheço. Nem sequer os vi ou dei um abraço, nem sequer lhes beijei a face e soltei um "muito obrigado". Obrigado por me darem novamente razões para sorrir. Muito obrigado.
Mas, julgando-me morto e sem sentidos, visto que não comunico, não falo nem me mexo, empurram-me contra a lama.
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Por cima de mim, um tubo. Um tubo de elevado diâmetro que tem como serviço descarregar os resíduos libertados por uma fábrica localizada aqui perto.
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Os homens afastam-se.
Para onde vão? Porque me deixam?
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Falam algo através de um objeto de considerável tecnologia, um telemóvel ou algo semelhante, suponho. E, no mesmo instante em que tudo se cala, em que tudo deixa de se mover, algo escorre através do tubo: um considerável aglomerado espesso de resíduos orgânicos. Caem sobre o meu corpo idoso e fragilizado, completamente imóvel, incapaz de se mexer, novamente incapaz de sentir. Toneladas e toneladas esmagam-me o peito.
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Profundidade, volta! Não me deixes!
Os sentidos que me restam esgueiram-se por entre os dedos, fogem de mim como loucos. Deixam-me só, sendo soterrado, afogado sem segundas opções. Um erro cometido por outros.
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Sentirei até ao fim! Sentirei até ao fim...
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