Clean
1 The end of chaos?
Notas iniciais
Caine era o meu mundo. Às vezes me vem a imagem dele à cabeça me presenteando quase todos os dias com as minhas flores favoritas: ''Flores para a minha flor''. Nós tivemos meses e meses de idas e voltas, isso me atrasou muito. E hoje eu não posso fazer mais nada para recuperar o tempo perdido, a não ser erguer a minha cabeça e viver da melhor maneira possível, dia após dia.
Um dia, Caine me levou para um piquenique com os amigos dele, em sua cidade natal. Não recebi a atenção que eu merecia por eu ser a namorada dele; foi um dos piores momentos para ser eu. Acho que nunca me senti tão insignificante para alguém como me senti para ele naquele momento (e em muitos outros). Eu tentava chamar sua atenção, para pequenos beijos, e ele sempre ignorava porque estava relembrando momentos incríveis com a melhor amiga dele, na época em que ambos eram solteiros e faziam loucuras juntos. Mais tarde, naquele mesmo dia, fomos só eu e ele passear. Tiramos muitas fotos, foi um dos momentos mais mágicos da minha vida. Hoje, fico refletindo sobre o que ele causava em mim: tristeza, raiva, felicidade, amor. Sentimentos diversos e aleatórios em diferença de poucas horas.
Caine me convidou para a festa de aniversário da mãe dele, em Beaufort, uma cidade litorânea com pouco mais de 12 mil habitantes. Eu nunca havia ido à esse lugar. A ruas da cidade são cobertas pelas árvores e cercadas de mansões, estilo cenário de filme americano. Ótimo lugar para se criar e destruir uma linda, porém trágica, história de amor. Quando chegamos na casa (mansão) dos pais dele, onde aconteceria a festa, ele me mostrou o quarto em que nós ficaríamos durante o fim de semana, e logo depois, se retirou. Ele não me disse aonde iria, mas eu não questionei muito porque provavelmente iria atrás de um presente para a mãe dele. Ele passou o fim da tarde fora de casa, e eu apenas tive de assentir.
Já no fim da tarde, comecei a me arrumar para a festa. Coloquei um vestido curto e rodado, branco; saltos de cor bege; passei um batom vermelho e deixei meus cabelos soltos, como de costume. Eu queria estar apresentável para os diversos convidados. Mas, linda, para Caine. Só ele importava ali.
Anoiteceu e estava chovendo, Caine chegou um pouco depois de começar a festa. Eu o vi entrando, já arrumado, com poucos respingos da chuva em suas roupas e cabelo. Ele cumprimentou alguns conhecidos, e logo depois que notou a minha presença, se aproximou e me deu um abraço e um beijo na bochecha. O cheiro do perfume no pescoço dele era feminino.
— Por onde você andou? — questionei quando saí de seus braços — Eu fiquei esperando por você.
— Desculpa, não vai mais acontecer, tá bom?
— Caine, você não respondeu a minha pergunta: Por onde andou? — eu estava muito brava, e eu notei o desespero no olhar dele, querendo evitar qualquer pergunta minha.
— É... Eu... — ele gaguejou — Eu estava na casa da minha tia, aqui perto. Desculpa não avisar, mas minhas roupas estavam lá, então achei melhor ficar por lá.
— Por que simplesmente não me avisou? E por que suas roupas estavam na sua tia, tendo a casa dos seus pais aqui? — falei alto demais. Pude sentir vários olhares ao redor de mim.
— Por que tá fazendo tantas perguntas? Eu já estou aqui! — ele ficou muito bravo, se afastou de mim e subiu as escadas da casa.
Eu fui atrás dele. Eu estava com uma expressão muito triste, acho que foi notável porque senti uma mão apertar meu ombro: Era a prima do Caine, amiga próxima minha. Para falar a verdade, ela quem me apresentou a ele.
— Oi, sumida! Vem para a cidade pela primeira vez e nem fala comigo? — ela disse isso logo depois de me virar bruscamente para ela. Acho que ela não queria ser grossa. Estava bêbada.
— Oi! Caitlyn. Tudo bem com você?
— Melhor agora com a minha amigona aqui na minha cidade! — e deu um gole no copo que segurava.
Eu queria correr dali e ir atrás do Caine, mas eu não queria ser grossa com a Caitlyn. Eu realmente sentia saudades dela, mas a situação ali era triste. Eu rapidamente disse a ela que conversaríamos no dia seguinte, e dei um abraço apertado nela.
Eu fui atrás de Caine. Eu abri algumas portas (casa de gente rica tem muitas portas), e não encontrava ele em nenhum daqueles quartos, daquelas salas. A última porta do corredor, estava bem ali na minha frente, eu abri ela cuidadosamente e olhei entre a brecha da mesma. Vi Caine na sacada da sala de jogos do pai dele; ele estava com os braços apoiados na barra de proteção. Eu me aproximei dele, e fiquei ao lado dele olhando para onde ele olhava. Eu pude ver a cidade toda dali. A lua nunca foi tão bonita.
— Desculpa. — ele disse, sem olhar para mim.
Eu não respondi nada por uns quinze segundos; foi um silêncio muito constrangedor, mas na minha cabeça havia uma confusão.
— Olha — me virei para ele, e ele para mim — Você não é obrigado a me falar sempre por onde anda. Não quero que isso vire um relacionamento abusivo.
Eu sabia que já tinha virado um relacionamento abusivo. Mas fui fraca demais para sair dele. O deixei tomar conta do meu corpo e da minha alma. E eu realmente, me arrependo de ter deixado isso acontecer.
— Não é por causa disso. Eu fiz algo.
— O que aconteceu? Sabe que pode me contar qualquer coisa, querido.- devo ter soado em um tom preocupado e desesperado.
— Eu não saí, e passei a tarde fora, porque estava na casa da minha tia. Não finja que não sabe, você não pode mentir para si mesma sobre nós dois, pra sempre.
— O que?!? Onde estava?!? — eu estava brava, triste, confusa, curiosa. Tudo ao mesmo tempo, de novo. Olha o que ele causou em mim.
— Aqui nessa cidade... — ele falou pouco a pouco, e isso me estressou porque sou uma pessoa muito estressada e sem paciência — ...Tem uma garota. Zahida.
— E daí? A que ponto quer chegar? — a minha cara de deboche foi muito óbvia.
— Eu passei a tarde na casa dela. Não finja que não sentiu o cheiro do perfume...
O meu mundo desabou. De repente as luzes da cidade se apagaram; o brilho da lua se perdeu e o meu coração se corrompeu.
— Você... Caine, como pôde?!?
— Ela já era minha amiga a muito tempo antes de você e eu nos conhecermos! Eu fui na casa dela porque ela me mandou uma mensagem, hoje. Ela disse para eu não falar pra você para onde eu iria. — ele estava muito calmo para alguém que fez uma coisa dessas, acho que ele estava assim porque sabia que eu não faria nada — Quando vi, ela se aproximou de mim e me beijou! Eu sou homem! Não posso fingir que não senti nada ao ver ela do jeito que ela estava! — e começou a gritar.
— Primeiro, abaixe esse tom de voz porque nem meu pai fala assim comigo. — eu falei enquanto me aproximava dele, e ele se afastava — Segundo, não use seus argumentos machistas de ''sou homem, não aguentei a tentação'' e essa merda toda. Nada justifica uma traição! NADA! — e me afastei dele, fui até a porta que levava para fora daquela sala.
Ele não falou mais nada. Eu achei que seria mais do que isso. Eu estava com tanta raiva, acho que consegui disfarçar a minha terrível dor por dentro.
— Vai ser só isso? Mesmo? — falei enquanto abria a maçaneta da porta.
— Se quiser ficar, fica. Eu não vou cometer o mesmo erro duas vezes. Mas isso não vai se apagar. E se na primeira chance, for esfregar isso na minha cara, eu quem acabarei.
Essa foi a coisa mais nojenta que já ouvi. Ele era feito de hipocrisia. Eu saí e bati a porta. Fui até o quarto dele onde estava minhas coisas, ainda bem que não desfiz as malas, me poupei disso. Eu queria esperar até o outro dia pra sair dali, mas não queria ficar no mesmo lugar que ele, na casa dos pais dele; tamanho desrespeito.
Peguei minha mala de mão. Não troquei meu vestido branco, só tirei os saltos e coloquei um tênis branco. E então abri a porta para sair do quarto, quando, dei de cara com Caine. Ele segurava uma taça de vinho pela metade. Quando esbarramos, ele derrubou (não propositalmente, eu espero) o vinho no meu vestido. Eu olhei pra ele com cara de surpresa, minha boca se abriu em um perfeito O. Eu não disse nada, aquilo só me deixou com mais raiva dele. Mas eu confesso que queria que ele viesse atrás de mim, mas ele não veio. Quando desci as escadas e me aproximei da porta de saída, eu olhei pela última vez para trás e ele estava lá em cima, me olhando enquanto dava um gole na sua bebida, já quase no final porque a metade caiu sobre mim. Eu dei uma rápida olhada no salão de festas, procurava por Caitlyn, não a vi. Me virei, bati a porta e saí daquele lugar.
Fiquei alguns segundos parada nos degraus da porta. Eu comecei a chorar; eu estava andando e chorando, com uma mala na mão, com o vestido manchado de vinho. Tem algo mais triste que isso?
Na minha mala eu tinha bastante dinheiro, para caso de emergência (eu planejo muito as coisas. E quando elas não acontecem do jeito que planejei, eu me magoo muito). Peguei um táxi e pedi para ele me deixar em algum lugar onde venda carros baratos (nos Estados Unidos tem muito disso. Os carros são antigos, do tipo que aparecem nos clipes da Lana del Rey. Mas funcionam, e eu só queria sair dali). Ele me deixou quase fora da cidade, já que era pequena e só dava pra entrar e sair dali, de carro. Eu vi que o taxista me encarava com olhos tristes, como se sentisse pena de mim. E eu odeio me sentir vulnerável.
Então eu comprei um Chevrolet Corvette (carro histórico) por pouco menos de 600 dólares. Ele estava quase destruído, mas andava, isso importava. Eu não estava com a minha carteira de motorista ali; torcia para que não fosse parada. Por mais 30 dólares, comprei um rádio para o carro. Então eu liguei ele na estação em que Caine e eu sempre escutávamos juntos. Estava tocando Bleeding Love da Leona Lewis. Eu chorava enquanto dirigia. No caminho, parei em uma loja de conveniência para encher o tanque do carro e comprar algo para eu comer.
Eu dirigi até a cidade ao lado para comprar uma passagem de volta para casa. Eu pude sentir diversos olhares sob mim, e imaginava o que eles pensavam.
Eu esperei meu voo chegar durante seis longas horas, eu já havia dormido na poltrona do aeroporto. Eu estava completamente suja e desolada, eu só queria ir para casa. Quando entrei no avião eu guardei minha malinha, me sentei e fiquei olhando pela janela. Eu comecei a chorar de novo, eu não sabia como parar de chorar. O que mais doeu foi o fato de ele nem se importar se eu ia ou não, e de alguma forma, tentou fazer com que eu me sentisse a culpada.
Então peguei um táxi até minha casa (sobre o Chevrolet que comprei, eu o abandonei no estacionamento do aeroporto; bom dinheiro jogado fora por algumas horas de músicas românticas que só me faziam lembrar dele e chorar por ele). Eu tomei o melhor banho da minha vida; eu vesti as minhas roupas aconchegantes e assei meus biscoitos favoritos no mundo todo.
Eu não falei mais com ele, eu não o vi mais. Meus amigos evitavam falar sobre ele (temos amigos em comum). Não fiquei com outras pessoas nesse meio tempo, eu só quis dar atenção a mim mesma; mas confesso que foi muito difícil não pensar nele a qualquer momento. Tudo me levava à ele. De repente as músicas de amores que não deram certo, começaram a fazer sentido, pela primeira vez.
Dez meses depois, eu me sinto livre. Eu sempre soube que ele não era o cara certo para mim, eu acho que só o agarrei e segurei por medo de ficar sozinha. Mas, não preciso ter medo de ficar sozinha. A única companhia que eu queria, era dos meus amigos e a minha própria.
Um dia, fiz uma ''fogueira do desapego'' com minhas amigas. Queimamos as coisas que nos deixavam tristes. E lá foram os ursos de pelúcia da Anne e as cartas de amor da Judith. Quando chegou minha vez, queimei as polaroids que tirei com Caine, as cartas que recebi dele, as últimas pétalas das flores que ele me deu, que desabrocharam... Eu me senti feita. Ali, naquele momento, eu me senti finalmente limpa.
Só as vezes eu penso nele. Eu sinto saudades dos passeios, dos nossos melhores momentos juntos. Não é porque estou limpa que eu não vá sentir saudades.
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