Clarita, minha amigona!
1 Capítulo Único
Clarita, minha amigona! Faz um mês que eu não te vejo hein?
Me lembro quando nos conhecemos... você gritou comigo. Você e sua mãe. Agora, em um sorriso melancólico, eu me lembro do tanto que estavam felizes. Sim! Eu me lembro da felicidade que sentiam através daqueles olhinhos que expressavam raiva momentânea. Que pena que ela morreu, Clarita, e eu demorei tanto para perceber a dor que você sentiu...
Te adotamos, depois disso nos tornamos grandes amigos, eu e você. Seus pulos em 360 graus ao me ver com comida me encantavam. Eu me certificava de deixar um pedaço para ti. Ver sua expressão de felicidade ao devorar aquela pequena parcela de alimento, me fascinava. Me fascinava mais ainda quando eu quem ia colocar o seu jantar, principalmente nos dias que tinham muitas sobras. Só de bater a colher no prato, você já vinha correndo com o barulho, e eu me perguntava como não tropeçava no caminho. E não tinha satisfação maior naquele momento do que te ver comendo tudo aquilo avassaladoramente.
E quando eu chegava da escola? Seu rabinho balançando pra lá e pra cá já denunciavam a sua empolgação em me ver, e como eu não tinha um para retribuir o gesto, o que podia fazer era te mimar minha voz aguda que me faria parecer um idiota se alguém visse. Seu pelo liso passando em minhas mãos, suas pupilas dilatadas... quanta lembrança boa!
Nossas brincadeiras aleatórias então? Não sei se você entendia qualquer coisa delas, mas eu sentia todo o seu divertimento que se misturava ao meu e transformavam minhas tardes mais agradáveis. Enquanto as outras crianças da minha idade brincavam na rua, cercadas de companhia, eu me aventurava no quintal, lutando todos os dias contra um tédio poderoso, mas você estava lá... estava lá comigo, e é por isso que eu posso dizer que não estava sozinho.
Me perdoe por aquela vez que eu te chutei... é que você estava tentando comer a galinha que tinha acabado de chegar no quintal. Me perdoe também pelas vezes que te expulsei da sala... é que se meu pai te visse em cima do sofá, ele gritaria tanto contigo, e eu não aguentava ver sua carinha de cão sem dono quando alguém gritava contigo. A mesma que você fazia no ano novo, quando começavam a estourar os fogos. Era horrível ver o seu desespero, seu medo de algo que não sabia da onde vinha.. me doía ainda mais a insensibilidade do meu quando descobria que você se refugiava dentro de casa e então te expulsava sem quase nenhuma compaixão.
Nós éramos tão próximos! Você me viu em tantos momentos de fragilidade! Me viu crescer!! Me viu triste, e veio pra perto de mim me consolar! E eu conversava contigo! Ficava do seu lado, eu saciava a sua carência que era enorme desde que sua mãe morreu... quantos carinhos... quantos abraços. Isso sem falar nas aventuras que passamos. Você não podia ver o portão aberto que corria pra rua, e eu me preocupava em vão; corria atrás de ti para te levar para casa, mas nem precisava, você sempre voltava sozinha, era esperta; quando você ficava muito tempo fora e o portão estava fechado, logo suas patinhas estavam arranhando o portão, pois sabia que eu iria correndo abri-lo para ti. As marcas estão lá até hoje...
Infelizmente, eu devia ter prestado mais atenção quando os poucos amigos que eu tinham se surpreendiam por você ainda estar firme e forte, apesar da idade. Já fazia 8 anos que te adotáramos, e você já era um tanto velhinha quando isso acontecia. Eu devia ter prestado atenção; eu não devia ter passado a ficar tanto tempo no computador, eu não devia ter ido passar as férias na casa da minha mãe sem me despedir apropriadamente, eu devia ter te dado mais carinho, mais atenção até o fim, PRINCIPALMENTE PERTO DO FIM! Eu sequer me lembro da última vez que nos vemos, pois só lembrei de ti quando minha mãe veio me dar a notícia, eu estava ocupado demais pensando só em mim mesmo, AAAH! QUE TONTO QUE EU FUI! Agora que as férias acabaram eu estou aqui, Clarita, estou na frente da cruzinha que contém o seu nome escrito. Me desculpe pela demora, me desculpe pelo vacilo... mas acima de tudo: Obrigado por ter estado lá comigo quando ninguém mais esteve.
Boa sorte reencontrando sua mãe, minha campeã!
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