Claraboia
1 Prólogo
Notas iniciais
Prólogo
Seu corpo ainda não havia saído do torpor. Seus braços estavam parados ao lado do corpo, segurando com força desnecessária o microfone. Mal percebia. Estava paralisado diante de uma colmeia humana e não sabia o que falar.
O único som coerente que ouvia era o bater de seu coração. Frenético, exitado, quase saudável de novo. O ribombar soava em seus ouvidos enquanto via um mar de pessoas se movimentando sem parar, gritando, clamando mais. Era reconfortante. Se houvesse alguma palavra para definir aquela sensação, ela seria mais significativa que 'felicidade'. Vivera até aquele momento.
Tinha consciência do mundo a sua volta. Pouca, talvez. Mas sabia que havia uma animação atrás de si. Todos, tão felizes quanto ele. Não, não mais. Definitivamente, ele era o mais feliz ali. Só ainda não conseguia se virar para olhar.
Sentiu um peso em seu ombro e um corpo junto ao seu numa espécie de meio abraço.
-Gerard, foi demais!
A voz de Frank. O cheiro de Frank. Atravessando a densa névoa que era sua paralisia. Com a chegada dele, foi-se parte do torpor. Mas alguma coisa dentro de si sabia que, mesmo que não quisesse, viraria para olhar os olhos para se ver perdido novamente em sua eterna dúvida: castanhos ou dourados?
Um sorriso formou-se em seu rosto.
-Que bom. — foram as únicas palavras que vieram na mente.
Perdeu a força que o mantinha de pé. Só não chocou-se contra o chão porque Frank o segurou. Viu Bela bater com força ao lado dele. Riu.
“Olha sua guitarra.”
Ficou surpreso ao perceber que seus lábios não se mexiam. As palavras nunca foram pronunciadas. Procurou os olhos de Frank para falar por eles. Os encontrou, atônitos, arregalados. Viu uma pontada de medo, até visível demais.
“Calma.”
-RAY, VEM AQUI!
Um certo calor começou a inundá-lo. Morno, e extremamente aconchegante, como um manto de seda. Queria dizer isso para Frank, mas quando abriu a boca, suas cordas vocais não o obedeceram.
Os sons diminuíram. Sua volta se encheu de sombras e percebeu todos da banda fazendo um círculo envolta de si em questão de segundos. Todos com olhos preocupados, alertas.
O rosto de Mike, pingando de suor, postou-se na sua frente. Ele estava falando algo que parecia urgente, mas não conseguia ouvir. Tentou acompanhar seus lábios, mas o calor era relaxante demais. Tudo o que fez foi sorrir.
Ray também estava falando alguma coisa para alguém da entrada do palco. Bob estava estático.
Seu coração ainda ribombava, forte, sem parar.
-Gerard, não dorme!
Outro som. Conseguia ouvir seu coração e a voz de Frank. O resto era silêncio.
Virou o rosto e encontrou os olhos ali, marejados. Castanhos ou dourados?
Devia estar no colo de Frank pela posição com o qual via seu rosto. Bela ainda estava lá, esquecida ao lado do dono.
A mão calejada do baixista estava em seu rosto. Com algum esforço, que nem sabia que tinha, levou a própria mão à de Frank. Sentiu o mesmo calor que sentia agora nos dedos fortes. Tão tranquilo e convidativo.
“Eu estou bem. Não chore.”
Fez o que pôde para sorrir. E piscou. Depois, tudo ficou muito claro.
Seu coração silenciou-se e Frank gritou.
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